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Travessias da aula em campo na geografia escolar: a necessidade convertida para além da fábula

PID: S1517-97022009000100013 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2009
Autores: Oliveira Assis
O ensino de geografia cultiva um vínculo de identidade com o mundo exterior: a aula em campo. Os desafios para investigação escolar das instituições, localidades e relações são enormes. Esse exercício didático é o alvo do presente texto, cujo objetivo é mostrar a preocupação e o avanço, de alguns estudiosos, na construção de uma 'teoria' das aulas de campo, aqui denominadas aulas em campo. A proposta corresponde à apresentação e discussão de certas abordagens específicas para esse tipo de aula. No entanto, esse cultivo não se realiza de forma contínua nem está no centro do planejamento da geografia escolar. Ele aparece como uma exceção contra a qual os autores aqui citados reagem, caracterizam limites e potencialidades e direcionam soluções. Para tanto, propõem seu resgate nas diversas formas de atividades externas ao espaço escolar: excursões, visitas, estudos do meio, turismo. A força pedagógica da aula em campo encontra-se, todavia, na capacidade da interação professor-aluno em apreender com o lugar-mundo e planejar-se no improviso, o que, na conclusão do artigo, aparece como defesa de uma postura estratégica da gestão do retorno à sala de aula. Chamada de autobiografia coletiva da aula anterior, o texto propõe ampliar a relevância das discussões sobre a experiência do campo para potencializar os conteúdos e métodos de aprendizagem, lembrando que a aula em campo é, tal qual inspiração artística, um vetor insubstituível de compreensão do espaço em nível escolar.

Vulnerabilidade ao stress, estratégias de coping e autoeficácia em professores portugueses

PID: S1517-97022009000200009 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2009
Autores: Pocinho Capelo
Neste trabalho, apresentamos uma investigação realizada com professores, no qual se procura determinar a vulnerabilidade ao stress; identificar as principais fontes de stress; estabelecer as principais estratégias de coping; analisar se as estratégias deste condicionam a presença de stress laboral; e reconhecer se a autoeficácia percebida é preditora desse tipo de stress. Trata-se duma investigação por questionário, do tipo correlacional, e a amostra é constituída por 54 professores do Ensino Básico público português. As respostas ao Questionário sociodemográfico e profissional; ao Questionário de Vulnerabilidade ao Stress - 23QVS (Serra, 2000); ao Questionário de Stress nos Professores - QSP (Gomes et al., 2006; Gomes, 2007); ao Coping Job Scale - CJS de Latack (adaptação de Jesus & Pereira, 1994); e à Escala de Avaliação de Autoeficácia Geral (Ribeiro, 1995) revelam que 20,4% dos docentes são vulneráveis ao stress; os comportamentos inadequados/indisciplina dos alunos são as principais fontes de stress; as estratégias de controlo são as mais utilizadas pelos participantes para enfrentar o stress, seguidas das de escape e das de gestão de sintomas. Os professores não vulneráveis ao stress utilizam principalmente estratégias de controlo e apresentam níveis mais elevados de eficácia perante a adversidade, bem como de iniciativa e persistência em relação aos professores vulneráveis ao stress.

A imanência como “lugar” do ensino de filosofia

PID: S1517-97022008000100009 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2008
Autores: Gelamo
A intenção do presente artigo é pensar a problemática do ensino de filosofia a partir da obra de Deleuze e Guattari. Esses autores criaram uma série de conceitos, em seu fazer filosófico, para entender o que seria fazer filosofia, ou seja, para entender a atividade filosófica que se distanciasse de uma reflexão sobre alguma coisa e se fundasse em um ato de criação filosófica. Segundo os autores, existem quatro conceitos que corroboram para entender esse fazer filosófico, quais sejam: conceito, plano de imanência, personagem conceitual e problema. Tem-se como hipótese que tais conceitos podem contribuir para se pensar o ensino de filosofia na contemporaneidade de modo diferenciado do qual vem sendo tratado. Foi dada especial atenção a um desses conceitos: plano de imanência, engendrado na última obra conjunta desses autores, O que é a filosofia? (1997). Buscou-se, na obra desses autores, a caracterização de imanência e, consecutivamente, de plano de imanência para entender como se pode pensar o ensino de filosofia de forma diferenciada e de modo tal a distanciá-lo de uma adequação conceitual a um transcendente ou a um transcendental, a qual, no entender dos autores trabalhados, levaria o conceito de ensino a um dogmatismo conceitual. A proposta deste artigo é buscar uma saída para o problema, pensando o ensino de filosofia a partir da imanência mesma na qual este se produz.

A pedagogia científica de Bachelard: uma reflexão a favor da qualidade da prática e da pesquisa docente

PID: S1517-97022008000200010 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2008
Autores: Fonseca
O presente artigo foi desenvolvido tendo como eixo analítico a obra de Gaston Bachelard na construção do “novo espírito científico”, tendo como referência suas contribuições epistemológicas traduzidas na pedagogia científica e análise do esgotamento do positivismo como referencial da pesquisa em Ciências Sociais. Apresenta a epistemologia histórica de Bachelard - considera que todo conhecimento é polêmico e que, nesse sentido, as construções passadas devem ceder lugar às novas construções. Propõe a noção de rupturas para indicar uma forma mais científica de produzir ciências, a noção de processo dialético na produção de conhecimento científico e a concepção de conhecimento como progresso contínuo de retificação. Busca relacionar a pedagogia científica à prática pedagógica e apresenta as possibilidades de transformação no campo da formação docente e da pesquisa, a partir de uma visão peculiar de epistemologia e de uma prática científica crítica e reflexiva. Uma pedagogia científica que deve ter como preocupação desenvolver ações formativas e estar inserida numa dupla perspectiva - a educação entendida como prática social e histórica. Tais reflexões encaminham para a articulação teoria-prática e para a compreensão da pesquisa como uma atividade criativa. Desse processo, deve resultar a compreensão do fazer científico, da prática interdisciplinar, da articulação teoria-prática e do aprendizado integrado pesquisa/ensino.

Articulação entre primário e secundário na era Vargas: crítica do papel do estado

PID: S1517-97022008000300003 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2008
Autores: Minhoto
O objetivo do texto é o de caracterizar o peso seletivo do exame de admissão ao ginásio, entre os anos de 1931 e 1945, tendo em vista a política educacional do governo de Getúlio Vargas voltada ao Ensino Secundário. Para tanto, verificou-se o padrão de recrutamento estabelecido pelo exame e as relações existentes entre a regulamentação jurídica e o comportamento dos estabelecimentos de ensino frente às normas. O levantamento de informações foi feito em arquivos de cinco instituições de ensino, localizadas na cidade de São Paulo, em funcionamento à época, e que permanecem abertas até hoje. Para a análise do percurso escolar dos alunos entre os Ensinos Primário e Secundário, foi utilizado o conceito de segmentação elaborado por Fritz Ringer em obra que descreve e compara as diferentes configurações de sistemas educacionais da Europa e dos Estados Unidos. Para o autor, o sistema educacional segmentado é aquele que oferece caminhos paralelos de estudos, separados por barreiras institucionais, pelo currículo e por diferenças de origem social dos estudantes. Os resultados obtidos indicam que o exame legitimou um padrão específico de recrutamento de alunos e camuflou a existência de barreiras institucionais no ensino elementar. Ademais, as estratégias desenvolvidas pelas instituições privadas para contornar sistematicamente a regulamentação jurídica do exame permitiram entrever limites ao papel repressivo e interventor do Estado da época.

Como incluir? O debate sobre o preconceito e o estigma na atualidade

PID: S1517-97022008000200003 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2008
Autores: Schilling Miyashiro
O objetivo deste artigo é provocar um debate que amplie os termos habituais da discussão sobre a Educação Inclusiva. Essa discussão tem como um dos seus eixos a questão do preconceito que cerca aquele considerado “diferente”. Propõe-se, no presente artigo, que, além do preconceito, há de se considerar as formas atuais do estigma. O ponto de partida é dado pela análise já clássica de Goffman, atualizada pelas propostas de Zygmunt Bauman. Um grupo “invisível” - pois cercado pelo segredo - que freqüenta as salas escolares, é aquele formado por crianças e jovens que vivem - ou viveram - o encarceramento de um dos progenitores. No Brasil, o “estigma”, associado aos filhos de presidiários, tem origem no século XIX, por meio da penetração de teorias criminais, originárias em grande parte da Europa, das políticas eugenista e higienista. O discurso educacional se apropriou dessas concepções e, ao longo de décadas, despendeu esforços no sentido de tentar recuperar indivíduos já “viciados geneticamente” ou influenciados pelo meio familiar e social. Esse foi o grupo estudado para compreender como operam com o estigma que os cerca e que se concretiza na maneira como suas imagens são fixadas e amalgamadas às figuras criminosas de seus pais. Como resultado, vêm-se vidas marcadas pela ambivalência: emergem as figuras dos “indefiníveis”, dos “estranhos”. Como lidar com esse grupo em uma proposta inclusiva? Quais são as possibilidades e os limites da ação educativa em uma sociedade na qual o estigma parece se reatualizar? Essas são algumas reflexões que este artigo pretende introduzir.

Como se posicionam os professores perante a existência e utilização de jardins zoológicos e parques afins? Resultados de uma investigação

PID: S1517-97022008000200008 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2008
Autores: Almeida
O presente estudo insere-se numa investigação mais ampla que pretendeu verificar a incidência de concepções ambientalistas de teor antropocêntrico, biocêntrico e ecocêntrico em docentes dos diferentes ciclos de escolaridade não superior e que se envolvem em projectos de Educação Ambiental (EA). Para tal, foram entrevistados 60 docentes sobre vários assuntos relacionados com a temática ambiental, entre os quais o dos jardins zoológicos e parques afins. No tratamento dos dados, os docentes entrevistados foram divididos em dois grupos em função da proveniência de ciclos com e sem monodocência (o 1º grupo foi constituído por 15 educadores de infância e 15 professores do 1º Ciclo; o 2º grupo, por 15 professores do 2º Ciclo e 15 do 3º Ciclo e Secundário). Essa divisão foi considerada especialmente pertinente para o tema em análise uma vez que os jardins zoológicos e parques afins tradicionalmente pretendem captar um público mais jovem. Assim, nos professores do 1º grupo, poderia eventualmente acentuar-se mais uma conflitualidade entre o seu interesse didáctico e eventuais valores trabalhados em EA. No entanto, não se verificaram diferenças estatisticamente significativas entre os grupos em termos da incidência das diferentes perspectivas ambientalistas, tendo-se a maioria dos docentes posicionado de um ponto de vista biocêntrico, embora com uma maior frequência para o 1º grupo. Perante a surpresa manifestada pelo teor da entrevista, tivemos a percepção de que os professores raramente abordam temas polémicos com os seus alunos no âmbito dos projectos de EA.

Corpo e psique: da dissociação à unificação: algumas implicações na prática pedagógica

PID: S1517-97022008000100011 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2008
Autores: Pereira
Este trabalho tem por objetivo analisar a unicidade corpo/psique e os bloqueios de expressão pessoal, provenientes da dissociação dessas dimensões, que dificultam as atividades profissionais e a própria vida. A formação do professor exige mais que a aquisição de conteúdos e técnicas de ensino. Transformações mais profundas na prática pedagógica implicam uma mudança de atitude dos educadores, uma nova postura diante da vida e da educação, não apenas uma mudança cognitiva com a aquisição de conhecimentos, mas também mudanças emocional, corporal e espiritual, uma aprendizagem da integração das várias dimensões do ser humano. É necessário saber como superar ou minimizar bloqueios que a vida exigiu como proteção como nos mostram os estudos de Wilhelm Reich e alguns de seus continuadores - Alexander Lowen, Stanley Keleman e David Boadella -, que dão fundamentação teórica a esta pesquisa. É preciso saber como criar possibilidades de transformar padrões que são adquiridos pela formação acadêmica e que acabam por se cristalizar como evidenciam estudos pedagógicos aqui considerados. Uma das formas viáveis para tal são as atividades expressivas, dentre elas as atividades lúdicas e de arte-educação. As relações se constituem no ambiente social, o processo de crescimento se dá no contato com o outro, na percepção das diferenças, na aceitação da multiplicidade de pensamentos, na avaliação de seu próprio fazer. As teorias aqui consideradas são significativas para os estudos na área da Educação na medida em que apontam possibilidades de um novo olhar para a prática de sala de aula e as relações que nela se estabelecem.

Cultura tecnológica e redes sociotécnicas: um estudo sobre o portal da rede municipal de ensino de São Paulo

PID: S1517-97022008000100005 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2008
Autores: Medeiros Ventura
A realização deste estudo deu-se a partir da hipótese de que as instituições educacionais ou redes de ensino podem utilizar a internet para estabelecer uma nova forma de contato administrativo e pedagógico dentro das suas comunidades escolares. O referencial teórico parte de elementos como mudanças sociais, culturais e tecnológicas para, em seguida, situar em tal contexto o educador e sua apropriação da cultura tecnológica. Ao final, aborda a constituição de redes sociotécnicas no meio educacional, tendo a internet como elemento facilitador. Para isso, trata também de temas como as redes sociais e os portais educacionais. Em campo, buscou-se investigar o processo de constituição de uma rede sociotécnica em uma rede municipal de ensino. Por meio de observações, levantamentos, questionários e entrevistas, realizou-se um estudo de caso, no qual foi possível acompanhar a criação, implantação e utilização de um portal na internet, caracterizado como um novo espaço de comunicação, de interação e de troca de informações entre a comunidade escolar. A investigação concentrou-se na figura do educador e sua percepção acerca desse espaço. Acreditando que a relação entre o homem e a tecnologia envolve um processo de apropriação da cultura tecnológica, que influencia diretamente a sua atuação na sociedade em rede, pôde-se concluir que portais educacionais podem ser utilizados por instituições de ensino, de forma produtiva e colaborativa, entre todos os atores da comunidade educacional, desde que em tal processo se leve em consideração, dentre outros aspectos, a cultura tecnológica dessa comunidade.

Direito à educação no Brasil e dívida educacional: e se o povo cobrasse?

PID: S1517-97022008000200005 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2008
Autores: Ferraro
Inicia-se tratando do direito à Educação no quadro dos direitos fundamentais da pessoa humana e do conceito de dívida educacional que decorre da não-realização do direito público subjetivo de cada cidadão e cidadã à Educação Fundamental completa, conforme estabelecido na Constituição de 1988. Utilizando como parâmetro a informação censitária sobre o número de anos de estudo concluídos com aprovação levantados no Censo 2000, estima-se que, nesse ano, o Estado brasileiro devia, aos 119,6 milhões de pessoas de 15 anos ou mais, a astronômica cifra de 325,5 milhões de anos de estudo não realizados na idade própria - uma média de quase três anos por pessoa. São projetados também os investimentos necessários em termos de professores e salas de aula/turno-ano para o resgate da dívida. Mostra-se ainda que a dívida estimada com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2005 (316,4 milhões de anos de estudo devidos) representa uma diminuição muito pequena em relação ao Censo 2000. Por fim, aborda-se a questão dos atores ou agentes da efetividade do direito à Educação e dos instrumentos de exigibilidade que a legislação põe à disposição desses mesmos agentes. Conclui-se afirmando que está posto aí, para a sociedade em geral e para educadores e educadoras em particular, o grande desafio de despertar nas pessoas humildes a consciência de que elas efetivamente têm direito à Educação e de que dispõem de meios para cobrar do Estado esse direito.

Educação e liberdade em Hannah Arendt

PID: S1517-97022008000300004 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2008
Autores: Almeida
O presente artigo investiga, numa perspectiva filosófica, a relação entre os conceitos de educação e liberdade nos escritos de Hannah Arendt. Sustenta-se que, embora a autora não aponte para isso, existe em seu pensamento uma relação essencial entre esses conceitos. A interface principal é a natalidade, o fato de seres novos nascerem para um mundo já constituído. Dessa condição existencial decorre, por um lado, a potencial liberdade do ser humano, a capacidade de iniciar algo inesperado e, por outro, a necessidade de acolher os novos num espaço comum que é mais velho do que eles. A tarefa da educação é contribuir para que os "recém-chegados" se apropriem desse mundo que lhes é legado, possibilitando assim que futuramente assumam a responsabilidade por ele. Isso, no entanto, implica na necessidade de arrumar esse lugar, que está "fora dos eixos". A ação educativa nesse sentido, porém, pode ser apenas indireta: sendo que todo ser humano nasce como alguém singular, diferente de qualquer outro, cada um é uma novidade para o mundo e, por isso, é, a princípio, capaz de transformá-lo, começando algo novo. A liberdade, portanto, depende da singularidade de cada pessoa. A educação - que não muda o mundo numa ação direta - pode propiciar às crianças e aos jovens a possibilidade de desenvolver sua singularidade, contribuindo assim para que futuramente possam de fato realizar o dom da liberdade, renovando o mundo que herdaram.

Entre a lógica da formação e a lógica das práticas: a mediação dos saberes pedagógicos

PID: S1517-97022008000100008 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2008
Autores: Franco
O trabalho procura colocar em destaque as diferentes concepções que sustentam a lógica que preside as práticas docentes e aquela que organiza os processos formativos, para então considerar que os saberes pedagógicos, vistos como saberes estruturantes do conhecimento profissional, podem ser o elo necessário para produzir os diálogos entre essas duas instâncias que coexistem na prática social de formação de docentes, embora, muitas vezes, de forma desconectada. A seguir, propõe-se a analisar as possibilidades da prática como elemento constitutivo e fecundador da formação docente. Coloca em destaque diferentes concepções de prática, realçando que há uma prática que forma, informa e transforma, simultaneamente, o sujeito e suas circunstâncias, e há uma prática que oprime, distorce e congela, especialmente o sujeito que nela se exercita e, nesse caso, este perde o acesso às suas circunstâncias. Realça estudos e pesquisas que demonstram que a prática é sempre mais abrangente do que aquilo que se supõe à primeira vista e sempre menos inteligível do que seria necessário considerar. Propõe a superação do sentido tecnicista que acompanha a representação dos estágios supervisionados para uma dimensão de práticas de formação que se organizem em novas unidades de sentido, que sirvam para configurar e sustentar a nova identidade profissional do professor para atuar na escola pública contemporânea.

Entre o canto e a caneta: oralidade, escrita e conhecimento entre os Guarani Mbya

PID: S1517-97022008000200006 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2008
Autores: Testa
O tema das relações entre oralidade e escrita é apresentado em grande parte dos estudos e programas dedicados à questão da educação escolar indígena, mas raramente é tomado como problema central para a compreensão dos processos de ensino-aprendizagem nos contextos em que a escola se faz presente. Por outro lado, autores que se dedicam a essa questão enfatizam quase exclusivamente a escrita em detrimento da oralidade. Nesse sentido, associada à necessidade de uma discussão teórica de maior fôlego, percebe-se a falta de análises que se dediquem à compreensão do papel e dos significados da escrita e da oralidade entre diferentes povos indígenas. No intuito de contribuir para o aprofundamento e a ampliação desse debate, o presente artigo procura discutir a temática, pautando-se numa abordagem que permite caminhar entre a leitura de textos especializados e relatos que registram interpretações de pessoas Guarani Mbya. Os relatos colhidos e textualizados durante sete anos de pesquisa e convivência com os Mbya em diferentes aldeias das regiões sul e sudeste permitem repensar a oralidade e a escrita como aspectos importantes num conjunto mais amplo de processos de produção, aquisição e transmissão de conhecimento. Desse ponto de vista, a educação é concebida num sentido amplo que não se reduz à escolarização.

Esboço do programa científico de uma sociologia psicológica

PID: S1517-97022008000200011 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2008
Autores: Lahire
O autor esboça neste artigo o programa científico de uma sociologia psicológica. Realizar uma análise sociológica na escala do indivíduo socializado é, entre outros, estudar muito precisamente a constituição das disposições sociais, as formas de interiorização e de exteriorização dos hábitos, os efeitos mentais e identitários da incorporação de disposições heterogêneas e, às vezes, contraditórias... Essa sociologia psicológica, que responde a uma dupla necessidade (histórica e científica), não é contrária aos métodos estatísticos e generalizantes, mas pretende somente dotar a sociologia de ferramentas (conceituais e metodológicas) adequadas à apreensão das marcas mais singulares do social.

Estudos sobre pedagogia da alternância no Brasil: revisão de literatura e perspectivas para a pesquisa

PID: S1517-97022008000200002 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2008
Autores: Teixeira Bernartt Trindade
A Pedagogia da Alternância consiste numa metodologia de organização do ensino escolar que conjuga diferentes experiências formativas distribuídas ao longo de tempos e espaços distintos, tendo como finalidade uma formação profissional. Esse método começou a tomar forma em 1935 a partir das insatisfações de um pequeno grupo de agricultores franceses com o sistema educacional de seu país, o qual não atendia, a seu ver, as especificidades da Educação para o meio rural. A experiência brasileira com a Pedagogia da Alternância começou em 1969 no estado do Espírito Santo, onde foram construídas as três primeiras Escolas Famílias Agrícolas. Não obstante, decorridos 40 anos de sua implantação no país, essa proposta pedagógica ainda é discutida com pouca ênfase em nosso meio acadêmico. Em projeto de pesquisa que vimos desenvolvendo, realizamos um levantamento das dissertações de mestrado e teses de doutorado brasileiras sobre Pedagogia da Alternância defendidas entre 1969 e 2006. O objetivo deste artigo é mapear e discutir essa produção, visando estabelecer um primeiro esboço do "estado da arte" nesse campo de investigação. A revisão inclui 46 trabalhos, sendo 7 teses e 39 dissertações. Neste texto, apresentamos as temáticas de estudo mais recorrentes, a distribuição regional dessa produção e o que consideramos como consensos e limites nesses trabalhos.

Exercício docente na escola: relações sociais, hierarquias e espaço escolar

PID: S1517-97022008000300010 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2008
Autores: Penna
Este artigo apresenta análises formuladas sobre as condições objetivas de trabalho dos professores, relacionadas ao espaço escolar, às dificuldades por eles enfrentadas no trato com os alunos, à existência ou não de autonomia na condução das tarefas em seu cotidiano e ao estabelecimento de hierarquias nas relações estabelecidas na escola. Trata-se de parcela de resultados obtidos quando da realização de pesquisa para elaboração de tese de doutorado. Os dados foram coletados em 2005, por meio de entrevistas semi-estruturadas com dez professoras do ciclo I do Ensino Fundamental em duas escolas públicas estaduais paulistas, além de direção, coordenação, pais e alunos. A análise das condições de trabalho dos professores evidenciou que socialmente essa função não possui prestígio. No entanto, mesmo sendo função desvalorizada socialmente e em face às difíceis condições objetivas a que estão submetidos como, por exemplo, a falta de autonomia para a condução de seu trabalho, para os professores exercer docência significa valor, não só em razão de ganhos econômicos advindos com o salário recebido, mas especialmente em decorrência do capital simbólico que capitalizam nas relações de distinção estabelecidas na escola. Além disso, exercer a docência significou elevação concreta do capital cultural dos professores, ao se levar em consideração suas famílias de origem.

Geografia e cartografia escolar: o que sabem e como ensinam professoras das séries iniciais do ensino fundamental?

PID: S1517-97022008000300005 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2008
Autores: Oliveira
Este texto resulta de parte de uma investigação sobre saberes e práticas de professoras das séries iniciais com o uso de atlas municipal escolar. Buscamos com esta investigação nos aproximar de uma análise das práticas docentes de duas professoras de 4ª série do Ensino Fundamental da rede estadual no município de Limeira no interior paulista. Neste artigo, procuramos identificar processos que estruturam e caracterizam as atuações dessas professoras com o uso das páginas temáticas e mapas escolares do atlas municipal, enfocando principalmente não mais as formas de construção de conhecimentos com o atlas, mas sim qual a base de conhecimentos, e quais são os saberes que estruturaram as situações de ensino promovidas por elas com o uso desse material didático em sala de aula. Utilizando fundamentos metodológicos de uma abordagem qualitativa da pesquisa educacional, podemos concluir que os saberes das professoras acerca de conhecimentos cartográficos têm sua origem na experiência cotidiana do trabalho docente; envolvem saberes advindos principalmente do contato e da experiência com outras professoras; das imagens e memórias de quando eram alunas; e do uso de livros didáticos. Verificamos com os sujeitos desta investigação que o atlas gera no contexto escolar processos de ensino e aprendizagem motivadores no sentido de tratar de problemáticas locais vivenciadas tanto pelas professoras como pelos alunos.

Iniciativa privada na educação pública: a Fiat e o Programa Moto Perpétuo

PID: S1517-97022008000100004 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2008
Autores: Gonçalves Junior
O artigo apresenta os principais resultados de um estudo de caso sobre o Programa Moto Perpétuo da Fiat Automóveis S. A. que, durante cinco anos (1997-2001), voltou-se à doação de kits de materiais paradidáticos para milhares de escolas de diferentes regiões do Brasil. Apesar do amplo alcance do Programa, base na qual seus promotores se apoiaram para afirmar tratar-se da maior parceria da iniciativa privada com o governo federal dentro do Acorda Brasil! Está na hora da Escola do MEC, não havia, até o momento, nenhum estudo que demonstrasse os efeitos práticos dessa ação, seja na melhoria da Educação, seja nas implicações de um redimensionamento das esferas pública e privada, assunto que acalora muitos debates. Mediante informações obtidas com a realização de entrevistas e pelo levantamento e exame de diversos documentos, pôde-se verificar que as correntes expectativas da eficiência de gestão e transferência de recursos em quantidade e qualidade suficientes não se concretizaram. Não obstante, os números sobre o Programa, comparativamente altos diante de outras iniciativas desse tipo, foram componentes do êxito na construção de uma imagem positiva em diversos setores da opinião pública. Apesar de não se poder afirmar que a iniciativa tenha resultado num avanço privado redefinidor do caráter público dos sistemas estadual e municipal de ensino atingidos, há indícios de que a implementação do Moto Perpétuo esteve condicionada pelas relações público (governo federal) - privado (Fiat), representando um inédito capítulo centrado na "Educação", frente a um panorama no qual sobressaem historicamente acordos de ajuda mútua de caráter político-econômico.

Mulheres, homens e matemática: uma leitura a partir dos dados do Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional

PID: S1517-97022008000300007 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2008
Autores: Souza Fonseca
Este artigo tem como propósito discutir as diferenças apresentadas por mulheres e homens em práticas matemáticas cotidianas, demandadas pelos apelos ou pelas oportunidades de uma sociedade pautada na dinâmica e nos critérios da cultura escrita. Tomaremos para análise os resultados divulgados na quarta edição da pesquisa Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (INAF), realizada em 2004, que avaliou as condições e a eficiência da população jovem e adulta brasileira na mobilização de habilidades matemáticas na execução de tarefas do cotidiano, e na qual os resultados apresentados pela população masculina foram considerados sensivelmente superiores aos resultados apresentados pela população feminina. Apoiando-nos numa reflexão referenciada numa perspectiva foucaultiana, buscamos compreender esses resultados como articulados a um campo discursivo, marcado pela racionalidade matemática de matriz cartesiana. Analisando, nessa perspectiva, os mecanismos que contribuem para um pior desempenho das mulheres em relação aos homens em avaliações dessa natureza - voltadas para as possibilidades de dar respostas consideradas adequadas na execução de tarefas cotidianas consideradas relevantes -, nossa preocupação se volta para a identificação de mais uma instância de produção de desigualdades entre as mulheres e os homens, representada pela maior valorização (na vida social e nas avaliações) de certos modos de conceber e reagir diante das demandas do cotidiano. Como educadoras, interessanos desvendar a produção das desigualdades, de maneira a desconstruir discursos que a favorecem e instaurar outras perspectivas de análise e de ação pedagógica.

O efeito das escolas no aprendizado dos alunos: um estudo com dados longitudinais no ensino fundamental

PID: S1517-97022008000300008 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2008
Autores: Alves Soares
Nas pesquisas sobre o efeito das escolas, reconhece-se uma clara distinção entre desempenho escolar e aprendizado. A primeira noção se refere ao nível de desempenho em alguma etapa da escolarização, e a segunda, à aquisição de conhecimentos durante a trajetória escolar. Há um consenso na literatura que, para se estudar o sucesso de escolas específicas, é preciso analisar a segunda noção com dados longitudinais. O objetivo deste estudo é medir o efeito das sete escolas públicas de Belo Horizonte semelhantes quanto à localização e ao perfil socioeconômico. O estudo se baseou em dados longitudinais coletados em dois anos e com início na 5ª série. Os alunos foram submetidos a testes cognitivos em três ocasiões. Eles também responderam a um questionário contextual para levantar informações sobre suas características demográficas, socioeconômicas e outros dados. O efeito das escolas no aprendizado foi analisado com modelos multiníveis de regressão para dados longitudinais, nos quais as escolas foram incluídas com variáveis indicadoras. Os resultados mostraram que os alunos com nível inicial mais baixo, em média, progrediram mais que os alunos com nível inicial mais alto, embora as diferenças de nível persistam no final do estudo. Os atributos socioeconômicos dos alunos têm muito impacto na explicação de diferenças no nível inicial, mas apenas algumas têm impacto no aprendizado dos alunos, dependendo da disciplina e da série. Este estudo tem contribuições metodológicas importantes para a investigação do efeito das escolas em perspectiva longitudinal.
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