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Pelas vias de uma didática da obra de arte

PID: S1517-97022007000300007 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2007
Autores: Pougy
Trata-se de um artigo teórico, de cunho filosófico-educacional, visando analisar o dispositivo saber-poder da didática e propor a base epistemológica para a construção de uma Didática da Obra de Arte. A partir da perspectiva pós-estruturalista, com destaque para a produção de Michel Foucault, faz-se uma arqueologia dos discursos didáticos da Bíblia, da Didactica magna de Comenius, do O Emilio ou da Educação de Rousseau e do Democracia e Educação de Dewey, e percebe-se que esses discursos compartilham, a despeito de suas especificidades e seus diferentes objetos, o mesmo paradigma geral segundo o qual se estruturam os saberes científicos da comunicação. Também a partir da perspectiva pós-estruturalista, enfocando as idéias de Gilles Deleuze e Felix Guattari, propõe-se a base epistemológica para a construção de novas formas de pensar a didática ou a relação educação-comunicação. Assim como Deleuze e Guattari afirmaram que existe uma pedagogia que é do Conceito, pode-se propor a existência de uma Didática que é da Obra de Arte. Essa didática, que entende a relação didática como agenciamento e a comunicação como redundância e observação, pode ajudar-nos a compreender os momentos em que o processo de ensino e de aprendizado se processa entre o mundo do ruído e da construção de sentido, o mundo da criação.

Professor: protagonista e obstáculo da reforma

PID: S1517-97022007000300010 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2007
Autores: Evangelista Shiroma
O artigo discute a formação docente no contexto da reforma do Estado no Brasil, articulada às recomendações dos organismos internacionais para a Educação no início do século XXI. Para tanto, utiliza-se do conceito de Agenda Globalmente Estruturada para a Educação (AGEE), proposto por Roger Dale. Esse conceito permite pensar sobre tais reformas, apreendendo-as na dinâmica estabelecida entre países centrais e países periféricos no interior da divisão internacional do trabalho. A análise incide sobre três grandes projetos para a Educação na América Latina e Caribe: o Proyecto Regional de Educación para América Latina y el Caribe - PREALC -, patrocinado pela UNESCO; o Plan de Cooperación, resultante das Cumbre Iberoamericana de Educación, patrocinadas pela OEI; e os Proyectos hemisféricos en educación, patrocinados pela OEA. Privilegia-se, neste artigo, o modo pelo qual essas organizações procuram construir o professor como protagonista e, ao mesmo tempo, como obstáculo à reforma educacional, desqualificando-o teórica e politicamente. Procura-se evidenciar que, no corpus documental dos organismos indicados, dois conceitos são fundamentais para a compreensão da reforma da formação: profissionalização e gerencialismo. A centralidade atribuída a ambos tem em vista ampliar o controle sobre a categoria do magistério e sua potencial capacidade de opor-se às reformas e ao Estado. Corrobora-se a tese de que a reforma educacional tem pouco a ver com questões propriamente educativas e muito mais com a busca de uma nova governabilidade da Educação pública.

Qualidade de ensino e gênero nas políticas educacionais contemporâneas na América Latina

PID: S1517-97022007000100002 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2007
Autores: Stromquist
Este artigo examina o conceito de qualidade de ensino no contexto das principais políticas globais e regionais propostas por agências financiadoras internacionais - como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento -, por acordos internacionais - como, por exemplo, as políticas previstas pelo Educação para todos e os Objetivos de desenvolvimento do milênio - e também pela sociedade civil global - como o Fórum Social Mundial e o Fórum Mundial de Educação. A análise do conteúdo dos discursos desses grupos distintos e influentes revela que a qualidade é definida e avaliada exclusivamente em termos cognitivos e reduzida a duas habilidades básicas: matemática e leitura. A qualidade, portanto, está dissociada de processos de transformação social, aos quais a educação deveria prestar uma contribuição essencial. Políticas globais de grande vulto, como o Educação para todos e os Objetivos de desenvolvimento do milênio, não consideram a importância da introdução da conscientização de gênero na concepção de uma educação de qualidade. Seus objetivos contemplam o gênero somente no que se refere ao acesso igualitário de meninas e meninos à escola. A autora argumenta que a não-inclusão do gênero no currículo e a não-formação de professores para reconhecer as questões de gênero nas práticas cotidianas da escola e da sala de aula contribuem para a persistência de valores e práticas que reafirmam distinções arbitrárias e assimétricas entre homens e mulheres. Numa perspectiva feminista, a autora enfatiza que é necessário que a qualidade ultrapasse a questão do acesso e inclua o tratamento igualitário de meninas e meninos na sala de aula, bem como um conteúdo curricular que despolarize o conhecimento das identidades de gênero que afetam o cotidiano das pessoas, tais como educação sexual, violência doméstica e cidadania. Além disso, é necessária a inclusão de práticas escolares que desenvolvam personalidades positivas e seguras, tanto nas meninas como nos meninos.

Retos y tensiones de la formación docente en el actual proceso de transformaciones

PID: S1517-97022007000200003 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2007
Autores: Ofelia Chaile
El artículo expone los resultados de un estudio teórico sobre el tema Formación Docente (FD) en relación con el juego de lo social. Se efectúa un análisis general de las condiciones estructurales que, a nivel de globalización, inciden en la configuración política regional-local. Luego, asumiendo el enfoque de la regulación, se interpreta cómo las decisiones de la política educacional promocionan o estabilizan las funciones, perfil y actuación que el docente desempeña. La reflexión sobre el tema es objeto de estudio en proyectos de investigación que se llevan a cabo en Salta, Argentina. La metodología de abordaje incluye un rastreo histórico evolutivo desde los '60-'70 a la actualidad, argumentando y comparando fuentes conceptuales e interpretativas que - en la región - fundamentan la función asignada al maestro y al profesor. Se complementa el análisis epocal considerando factores sociales, históricos, culturales que lentamente se asumen en el cambio del perfil profesional docente. Esta suerte de inmutabilidad formativa docente resultaría coherente con la política de regulación que impone el gobierno. Sin embargo, la potencia del movimiento social que origina la globalización en los últimos tiempos, conduce a cambios profundos en la preparación de los docentes, bajo la modalidad de reformas y transformaciones. Pese al interés del gobierno por modificar la formación docente, continúa efectuándose un manejo político coactivo e interesado, que repercute en los órdenes de la gestión y la práctica institucional de la formación. Finalmente se postulan principios a considerar para asumir el reto de las transformaciones en la formación docente local.

Saberes docentes e formação inicial de professores: implicações e desafios para as propostas de formação

PID: S1517-97022007000200007 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2007
Autores: Almeida Biajone
Trata-se de um estudo que teve por objetivo discutir as implicações e repercussões das pesquisas acerca do knowlwdge base para a formação inicial de professores. Esse campo de pesquisa surge em âmbito internacional na década de 1980 e vem apresentando expressiva profusão e multiplicação dos estudos na área. A importância desses estudos é atribuída, em grande parte, ao seu potencial no desenvolvimento de ações formativas que vão além de uma abordagem acadêmica, envolvendo as dimensões pessoal, profissional e organizacional da profissão docente. Foram analisadas obras de autores de referência na área como Tardif, Gauthier e Shulman. A análise das produções deu-se a partir de dois enfoques: primeiro, buscou-se apreender como definem saberes docentes numa perspectiva conceitual e tipológica e, depois, identificou-se indícios de alternativas de natureza teórica e prática para a formação inicial de professores. O estudo revela que a elaboração de um repertório de conhecimentos para o ensino, tendo como referência os saberes profissionais dos professores tais como estes os mobilizam e utilizam em diversos contextos do trabalho cotidiano, permite a introdução de dispositivos de formação que visem habituar os futuros educadores à prática profissional. Destaca-se a necessidade de garantir que as formações cultural, científica, pedagógica e disciplinar estejam vinculadas à formação prática, consolidando, assim, uma Teoria do Ensino.

Uma concepção pragmática de ensino e aprendizagem

PID: S1517-97022007000300005 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2007
Autores: Gottschalk
Com a virada lingüística no final do século XIX, surgiram novas epistemologias que passaram a considerar o papel fundamental da linguagem e de sua práxis na constituição dos sentidos da nossa experiência. Em particular, o filósofo Wittgenstein passa a falar em jogos de linguagem para enfatizar as atividades envolvidas com a linguagem, vistas como instrumentos lingüísticos por excelência. Não obstante, o pragmatismo na Educação continuou reservando à linguagem apenas a função de descrever a experiência ou de ser sua representante. Nesse sentido, o texto propõe uma reflexão sobre o ensino e a aprendizagem no contexto escolar que tenha como referência uma epistemologia de inspiração wittgensteiniana, a pragmática filosófica, com o intuito de se repensar as atuais práticas pedagógicas, as quais têm oscilado entre uma concepção essencialista da Educação (todos constroem um mesmo conhecimento) e, no outro extremo, a possibilidade de um relativismo total. Entre o transcen-dental e o empírico, a pragmática filosófica nos dá instrumentos para ver a atividade do ensino como a apresentação de uma determinada visão de mundo, fundamentada em regras de natureza convencional, e que, portanto, não são passíveis de ser descobertas pelo aluno, mas ao mesmo tempo são as condições de sentido para que o aluno, uma vez persuadido pelo professor, possa organizar de uma outra maneira a sua experiência orientada por essas regras.

Vãs querelas e verdadeiros objetivos do ensino da literatura na França

PID: S1517-97022007000200002 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2007
Autores: Verrier
Discutem-se aqui as questões envolvidas na polêmica que agitou a França em 2000, quando professores, alunos, governo e sociedade em geral se juntaram em dois campos adversários sobre o ensino de literatura: ensino novo x cursus clássico. Neste ensaio, procura-se situar a questão de uma perspectiva histórica e identificar desafios que sejam fundamentais para a literatura e o ensino, tentando ver em que medida ambos os campos adversários contribuem para uma discussão que é hoje premente em todo o mundo ocidental. A propalada crise do ensino de francês é discutida a partir da argumentação de que a crise está como sempre esteve e como ainda estará, uma vez que as mentalidades não evoluem no mesmo ritmo que as reformas institucionais, as leis, os programas, as instruções oficiais que pretendem regê-las. Para argumentar em prol dessa posição, investigam-se na história do ensino francês os momentos de crise, suas razões e suas soluções. Enfocando sempre a literatura, discutem-se por fim as mudanças do ensino nos anos 1970 do século findo, as quais deram origem às alterações propostas pelos novos documentos oficiais, alvo da polêmica que ainda hoje reverbera fortemente entre a intelectualidade. O texto termina propondo uma tomada de consciência das tensões existentes, visando a um entendimento e não ao apego a posições extremadas, as quais não são capazes de trazer solução para o problema.

A busca do sentido da formação humana: tarefa da filosofia da educação

PID: S1517-97022006000300013 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2006
Autores: Severino
O trabalho desenvolve uma reflexão sobre a educação entendida como processo de formação humana, buscando ver quais os sentidos que essa formação recebeu ao longo de nossa tradição filosófica e na contemporaneidade, uma vez que ocorreram mudanças nas concepções que os homens fizeram do ideal de sua humanização. Sob tal perspectiva, recoloca em discussão as relações entre as diversas dimensões da educabilidade humana, destacando as dimensões ética e política que, até o atual momento, prevaleceram como fundamentos da compreensão da própria natureza da educação e concluindo que hoje a formação humana, visada pela educação, compreende-se como formação cultural. Essa idéia dá à educação uma finalidade intrínseca de cunho mais antropológico do que ético ou político. Essa reflexão sobre a natureza da educação implica igualmente explicitar o lugar e o papel da Filosofia da Educação, como esforço hermenêutico de desvelamento da prática educacional, tal como ela precisa se desenrolar nas mudadas condições histórico-culturais da atualidade. A discussão permite, assim, não apenas interpelar momentos significativos da expressão histórica da Filosofia da Educação na cultura ocidental, mas também debater conteúdos teóricos fundamentais do debate filosófico sobre o sentido da educação, debate que se impõe com renovada força para os educadores no enfrentamento dos desafios que estão sendo colocados pelas novas condições da pós-modernidade, responsável por um profundo questionamento das referências filosóficas da tradição cultural do ocidente.

A construção da solidariedade na escola: as virtudes, a razão e a afetividade

PID: S1517-97022006000100004 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2006
Autores: Tognetta Assis
Discutindo sobre como as pessoas podem construir a solidariedade, baseando-se em pressupostos psicológicos que garantem que tal virtude é construída por cada um na interação com o meio, esta pesquisa aponta um caminho para a formação de sujeitos mais autônomos e solidários: a cooperação como estratégia de conceber a construção das virtudes. Para tal, foram investigados, em comparação, os julgamentos de crianças de ambos os sexos, na faixa etária de 6 a 7 anos, provenientes de dois tipos de ambientes: A - baseado em relações autoritárias; e B - em relações de cooperação. Utilizou-se da aplicação das provas de diagnóstico do comportamento operatório de Jean Piaget, no intuito de verificar um paralelo entre as estruturas cognitivas e morais dos sujeitos, como também da observação das relações interpessoais e da discussão de dilemas morais, divididos em dois blocos, que atenderam a dois requisitos desta investigação: constatar o julgamento da solidariedade entre pares e na presença da autoridade. Os resultados demonstram a existência de uma evolução na disposição dos sujeitos para serem solidários, ligada a uma perspectiva de vivenciarem experiências significativas de reciprocidade e respeito mútuo, características de um ambiente cooperativo. Tais resultados nos permitem conceber uma “Pedagogia das virtudes”, que considere o desenvolvimento das estruturas cognitivas e dos aspectos afetivos para a construção de personalidades morais.

A contradição entre universalidade da cultura humana e o esvaziamento das relações sociais: por uma educação que supere a falsa escolha entre etnocentrismo ou relativismo cultural

PID: S1517-97022006000300012 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2006
Autores: Duarte
A tese do fim das metanarrativas defendida pelo pós-modernismo implica a negação da universalidade da cultura. Não se trata apenas do fato de que a cultura humana ainda não tenha alcançado um estágio de verdadeira universalidade nem mesmo se trata do fato de que a classe dominante tenha até hoje submetido a cultura humana a seus interesses particulares de classe e, para tanto, tenha sufocado e destruído muito da riqueza contida nas culturas locais. Para o pós-modernismo, o problema não reside na visão burguesa de cultura humana, mas sim na própria idéia de que possa haver uma cultura universal. Os pós-modernos afirmam que qualquer projeto educacional pautado na idéia da existência ou da possibilidade de uma cultura universal é um projeto conservador, autoritário e etnocêntrico. O texto defende a tese de que a concepção marxiana acerca do processo histórico de constituição da riqueza humana universal contém os elementos teóricos necessários para a superação da falsa opção, postulada pelas diversas correntes do pós-modernismo, entre o etnocentrismo e o relativismo cultural. Em Marx, a universalização da cultura humana ocorre, na sociedade capitalista, por meio da universalização do valor de troca das mercadorias como mediação fundamental das relações sociais. Trata-se, portanto, de um processo dialético no qual ocorrem ao mesmo tempo a humanização e a alienação do gênero humano e dos indivíduos. O texto conclui com a apresentação dos desafios que, a partir dessa concepção marxiana sobre a riqueza universal, devem ser enfrentados no processo de construção de uma pedagogia marxista.

A educação brasileira no período pombalino: uma análise histórica das reformas pombalinas do ensino

PID: S1517-97022006000300003 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2006
Autores: Maciel Shigunov Neto
Os autores, por meio de um recorte histórico, apresentam um estudo de caráter bibliográfico, a partir do qual analisam o ensino brasileiro, ao focalizar especialmente a proposta de reforma educacional realizada por Marquês de Pombal. Nessa análise, apontam para as conseqüências da proposta pombalina para a educação brasileira e portuguesa, em cujo contexto social estavam presentes idéias absolutistas, de um lado, e idéias iluministas inspiradoras de Pombal, de outro lado. Os estudos estão centrados na fase governativa de Pombal, isto é, como ministro da Fazenda do rei D. José I e, como tal, buscou empreender reformas em todas as áreas da sociedade portuguesa, inclusive atingindo o Brasil como colônia, visando dar-lhe uma unidade. A análise crítica converge para a afirmação de que a reforma pombalina foi desastrosa para a educação brasileira e, em certa medida, também para o sistema educacional português. Tal afirmação está fundamentada na seguinte questão - destruição de uma organização educacional já consolidada e com resultados seculares dos padres da Companhia de Jesus, ainda que contestáveis do ponto de vista social, histórico, científico, sem que ocorresse a implementação de uma nova proposta educacional que conseguisse dar conta das necessidades sociais. Portanto, a crítica que se pode formular, nesse sentido, e que vale para o momento atual de nossa sociedade, está relacionada às freqüentes descontinuidades das políticas educacionais. No entanto, torna-se necessário enfatizar que a substituição da metodologia eclesiástica dos jesuítas pelo pensamento pedagógico da escola pública e laica marca o surgimento, na sociedade, do espírito moderno.

A noção de relação com o saber: convergências e debates teóricos

PID: S1517-97022006000300014 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2006
Autores: Rochex
Nos últimos 20 anos, a noção de relação com o saber difundiu-se e foi usada amplamente, tanto na esfera da pesquisa em educação quanto nas da formação de docentes e de profissionais do sistema educacional ou do debate social relativo à escola. O êxito teórico e institucional, e até mesmo mediático, do sintagma relação com o saber indica, creio eu, convergências reais que, no entanto, não devem minimizar as questões e os debates teóricos e sociais por ele suscitados. Refletindo sobre os debates suscitados pelo uso, em perspectivas e quadros teóricos distintos, por diferentes pesquisadores e coletivos de pesquisa, de noções semelhantes (de relação com o saber, mas também de experiência escolar, por exemplo), o objetivo deste artigo é tentar esclarecer os desafios teóricos, empíricos e sociais desses debates e neles haurir novos recursos para pensar e agir.

Apolo-Prometeu e Dioniso: dois perfis mitológicos do "homem das 24 horas" de Gaston Bachelard

PID: S1517-97022006000100007 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2006
Autores: Freitas
Gaston Bachelard (1884-1962), um filósofo como ele se auto-denomina de “dupla natureza”, pensador de campos do conhecimento tão díspares como a epistemologia da ciência e a metafísica da imaginação poética, reclama uma leitura da dualidade e da complexidade da sua vida e obra. Desse modo, o objetivo deste artigo é investigar a relação dialógica entre a epistemologia da ciência e a metafísica da imaginação poética, dois delineamentos opostos, concorrentes e complementares da filosofia de Bachelard, freqüentemente expressos pelos epítetos “diurno” e “noturno”. Para estudarmos a relação entre essas duas vertentes do pensamento de Bachelard, partimos da análise da ambivalência dos seguintes pares de conceitos: obstáculo epistemológico & imaginação material e psicanálise do conhecimento & método fenomenológico, que estruturam, teoricamente no primeiro par e, metodologicamente no segundo, sua epistemologia da ciência e sua metafísica da imaginação poética. Os dados obtidos permitem concluir que a sutura entre a epistemologia científica e a metafísica poética de Bachelard está representada em seu conceito de “homem das 24 horas”. Esse homem complexo, andrógino, leitor e pensador das idéias científicas e da gênese poética, parece ser uma imagem conciliadora das antinomias expressas nas faces diurna e noturna da filosofia bachelardiana. Ampliando a análise imagética do “homem das 24 horas”, por meio de uma hermenêutica mitanalítica, encontramos as duas faces da filosofia de Bachelard configuradas, respectivamente, pelos mitos de Apolo-Prometeu e Dioniso.

Ciências da educação em questão

PID: S1517-97022006000300008 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2006
Autores: Mazzotti
As Ciências da Educação encontram-se em uma 'dispersão epistemológica' (Tardy, 1989), o que não é sua exclusividade, pois isso também ocorre com as Ciências do Homem, uma vez que ambas estão atadas ao programa de cientificidade que retira as pessoas do lugar de produção do conhecimento, tanto no paradigma moderno quanto no pós-moderno. Propõe-se, aqui, uma teoria humanista do conhecimento, na qual as três espécies de silogismo - entimema, dialético e demonstrativo - são consideradas complementares no processo de instituição dos conhecimentos, com base em critérios próprios das metodologias ou regras do fazer ou algoritmos reconhecidos pelos grupos sociais que as sustentam. Tais regras do fazer ou algoritmos não constituem uma lógica natural, uma vez que qualquer lógica é um cálculo. Os algoritmos para a produção de conhecimentos encontram-se na relação inseparável entre o orador (ethos), o auditório (pathos) e o discurso (lógos), na qual são validados os argumentos. Donde, uma teoria humanista do conhecimento permite a sublimação da referida 'dispersão epistemológica', isso porque deixa explícita as situações nas quais um conhecimento é validado. Assim sendo, as metodologias são garantias razoáveis, não determinantes dos conhecimentos confiáveis, pois seus fiadores são os grupos sociais que os admitem e sustentam.

Da polêmica sobre a pós-modernidade aos ‘desafios’ lyotardianos à filosofia da educação

PID: S1517-97022006000300010 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2006
Autores: Pagni
As relações entre pós-modernidade e educação tem sido objeto de inúmeras pesquisas, bem como de certa polêmica no âmbito da Filosofia da Educação, a começar pela própria conceituação da pós-modernidade até chegar às posições filosóficas engendradas por ela. Em quase todas essas pesquisas e polêmicas, A condição pós-moderna, de Jean François Lyotard, se configura como uma referência importante, porém raramente as obras subseqüentes a essa são mencionadas, deixando uma parte de seu legado filosófico de fora de tais discussões e, particularmente, de suas eventuais contribuições para a educação. Tendo em vista esse limiar dos estudos sobre o assunto, o presente artigo procura desenvolver uma interpretação acerca do pensamento lyotardiano, privilegiando a análise das obras subseqüentes ao seu livro mais polêmico, com o objetivo de situar o seu projeto filosófico para além de um marco da pós-modernidade e de discutir as suas contribuições à Filosofia da Educação na atualidade. Mediante tal interpretação, recupera-se um projeto filosófico que lança alguns ‘desafios’ à Filosofia da Educação referentes ao deslocamento de sua problemática epistemológica para a estética, nutrida por um pensamento capaz de elucidar a face complexa e obscura da educação, a sua sombra inumana, e o diferendo constitutivo do ensino, inapreensíveis pela linguagem e pela comunicação. Assim, esperamos que tal projeto possa ser compreendido não por aquilo que traz de polêmico à Filosofia da Educação, mas pelo que a desafia no tempo presente, como uma reescrita da modernidade.

Educação, justiça e direitos humanos

PID: S1517-97022006000100006 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2006
Autores: Estêvão
Neste artigo, o autor reflecte sobre a questão da justiça e dos direitos humanos, tendo presente as exigências da democracia deliberativa, na linha de Habermas e, sobretudo, as propostas de uma democracia comunicativa. Assim e num primeiro momento, o autor problematiza as relações entre democracia, justiça e direitos humanos, dando um particular realce quer às tendências individualistas e mercantilizadas de ver a democracia e os direitos quer às concepções deliberativa e comunicativa da democracia e suas implicações em termos de justiça e direitos humanos. A partir daqui, a reflexão inflecte para o campo da educação, como um outro lugar da justiça, debatendo a questão da justiça escolar e a concepção da escola como organização dialógica e comunicativa, realçando, em linguagem habermasiana, as funcionalidades sistémica e comunicativa que a perpassam. O autor completa esse enquadramento destacando, dentro da ideia de que a escola é um lugar de vários mundos e de justiças, as múltiplas racionalidades mobilizadas pelos actores escolares, a quem compete fazer opções, conscientes de que, quando a racionalidade comunicativa-emancipatória domina sobre outros tipos de racionalidade, a justiça e os direitos se abrem e se universalizam. Finalmente, essa discussão é retomada no último ponto do artigo, mas agora enquadrada nos desafios da globalização entendida em vários sentidos, terminando com a referência, dentro de uma concepção de globalização contra-hegemónica, a uma “democracia cosmopolítica”, favorecedora de uma cordialidade solidária e cosmocidadã, apoiada nos direitos humanos.

Experiências da desigualdade: os sentidos da escolarização elaborados por jovens pobres

PID: S1517-97022006000100003 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2006
Autores: Leão
Neste artigo, pretendo discutir os sentidos atribuídos à experiência de escolarização por jovens pobres da periferia de Belo Horizonte atendidos em um programa federal de inclusão social - o Programa Serviço Civil Voluntário (1996-2002) do Ministério da Justiça e do Ministério do Trabalho e Emprego. Os dados e depoimentos relatados foram coletados por meio da observação participante e da realização de entrevistas com jovens, pais/mães e profissionais (gestores, instrutores e coordenadores). Em uma de suas fases, debrucei-me sobre as experiências escolares dos sujeitos pesquisados, procurando captar os sentidos elaborados, valores e expectativas quanto à sua escolarização. Esses jovens cresceram sob o impacto da ampliação das desigualdades sociais e econômicas das últimas décadas no Brasil. Ao mesmo tempo em que usufruíram a expansão da escolarização para as novas gerações, experimentaram o acesso à educação de forma desigual. Ao olhar para os sujeitos da pesquisa, constatei que a maioria deles viveu uma trajetória escolar atribulada. Embora tenham maior escolaridade em relação aos seus pais, eles viveram uma trajetória incerta, coberta de dificuldades, feita de idas e vindas na escola. Ao mesmo tempo, embora vivenciem situações de exclusão social e econômica, os sentidos por eles atribuídos à escolarização são múltiplos. A educação permanece como um valor para esses jovens, apesar de manifestarem uma relação tensa e ambígua com relação à instituição escolar. Demandam uma escola de qualidade, com regras e procedimentos claros, mas também que sejam respeitados e reconhecidos como sujeitos de direito.

Formação continuada de professores e fracasso escolar: problematizando o argumento da incompetência

PID: S1517-97022006000300004 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2006
Autores: Souza
Este artigo aborda o tema da formação docente, especialmente a formação continuada e sua relação com a baixa qualidade dos sistemas públicos de ensino; e apresenta análises de pesquisa sobre os principais programas educacionais implementados pelo governo do estado de São Paulo entre os anos 1982 e 1994. Além da análise documental, foi desenvolvida uma pesquisa empírica que incluiu um estudo de caso de um dos projetos de formação continuada idealizados à época da implementação da Escola Padrão (1991-1994). As análises da literatura educacional e dos programas educacionais indicam que a formação continuada de professores foi encarada como elemento estratégico para forjar a competência do professor. O texto segue registrando a presença de um discurso que tem sustentado a crescente importância atribuída à formação continuada de professores, projetos e ações que visam à melhoria da qualidade dos sistemas de ensino. Trata-se do argumento da incompetência que é então descrito e problematizado. São apresentadas as várias versões que tal argumento assume, de acordo com o contexto no qual comparece, bem como as diferentes apropriações feitas pelos vários atores envolvidos nas políticas de formação continuada, desde os idealizadores dos programas até os professores participantes. Advoga-se que o argumento da incompetência tem fundamentado concepções e práticas reducionistas e homogeneizantes da formação continuada. Reitera-se a importância de se considerar, nas políticas de formação continuada, a heterogeneidade que caracteriza o corpo docente e as escolas e de se desenvolverem políticas educacionais mais abrangentes que visem melhorar de fato a qualidade dos serviços educacionais e não apenas a competência de seus professores.

Modernidade/pós-modernidade: tensões e repercussões na produção de conhecimento em educação

PID: S1517-97022006000300009 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2006
Autores: Gallo
Discutem-se nesse artigo as repercussões que o debate em torno de uma superação da modernidade e a suposta instauração de uma pós-modernidade traz para a Educação como campo de conhecimento, mais especialmente para a pesquisa nesse campo. Discute-se criticamente a tese de que viveríamos na pós-modernidade, dando ênfase a essa afirmação no âmbito do pensamento social, principalmente por compreender-se que essa expressão não tem a força e a intensidade de um conceito filosófico, acabando vazia de sentido. Ressalta-se que um de seus primeiros usos no campo da filosofia, por Lyotard, deu-se como um adjetivo e não como um substantivo, o que faz significativa diferença. Para além do debate sobre o fim ou não da modernidade, opta-se pela noção de hipermodernidade, proposta por Lipovetsky, como forma de caracterização do mundo contemporâneo, buscando compreender suas implicações. Por outro lado, o autor reconhece as importantes contribuições da tese que afirma a pós-modernidade, principalmente em seus aspectos epistemológicos e políticos, na medida em que desloca o foco de análise. Caracteriza o presente debate como a tensão entre duas imagens do pensamento que não são absolutamente novas, mas que ganham especial destaque na contemporaneidade, defendendo que devemos tomar essa tensão naquilo que ela apresenta de possibilidade criativa, sem paralisar o pensamento.

Narrativas sobre a privação de liberdade e o desenvolvimento do self adolescente

PID: S1517-97022006000100005 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2006
Autores: Oliveira Vieira
Apresenta-se uma revisão do percurso teórico dos conceitos de self e identidade em psicologia, situando a perspectiva teórico-metodológica sócio-histórico-cultural, com ênfase na versão narrativista-dialógica. Essa última é tomada como contribuição à interpretação de processos de desenvolvimento do self do adolescente no contexto específico da privação de liberdade, a que são submetidos adolescentes autores de infração. A perspectiva narrativista-dialógica concebe o self como uma unidade complexa, o sistema integrado da cultura e dos afetos pessoais construído por meio da interação social ocorrida em contextos socioinstitucionais concretos, tendo como principal meio de organização a linguagem humana. As situações desorganizadoras do senso de si, como é o caso dos eventos associados à delinqüência, ativam dispositivos subjetivos de reorganização do self, promovendo desenvolvimento. São apresentadas análises qualitativas de seqüências narrativas produzidas por adolescentes em privação de liberdade, em interação com o pesquisador em situação estruturada. O objetivo é estender a compreensão da formação da identidade narrativa de adolescentes a contextos específicos como os que envolvem violência e privação de liberdade. A análise das narrativas produzidas ao longo da seqüência de interação verbal selecionada, numa perspectiva microgenética, revela a dinâmica dos processos de elaboração pelos participantes de novas significações acerca de si, do contexto e dos processos sociais associados à medida de internação, apontando linhas de desenvolvimento do self.
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