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A reinvenção da escola a partir de uma experiência instituinte em hospital

PID: S1517-97022004000200005 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2004
Autores: Fontes
O objetivo deste trabalho é refletir sobre a importância do método narrativo e da escuta pedagógica para a construção de discursos alternativos à fala hegemônica na educação, mediante uma atuação docente que investigue sua própria prática. Com base na escuta das falas de crianças hospitalizadas e em leituras de Walter Benjamin, este texto se propõe a subverter o pensamento que tem dominado o cenário educacional no Brasil. Embora esse pensamento hegemônico nos obrigue a acreditar que não existem alternativas, as propostas de reformas são plurais e desmentem a ideologia veiculada pela mídia. Essas reformas nascem na base da sociedade civil e estão articuladas com setores populares, cujos protagonistas são os educadores. As experiências instituintes em escolas públicas e fora delas procuram responder às mudanças de nosso tempo. A sociedade da informação mediática e do bombardeio visual abre mão da reflexão e da análise minuciosa da produção cultural e educacional que a invade, reproduzindo como se fossem dogmas os jargões que a mídia produz. Qual o lugar dos indivíduos excluídos na sociedade do espetáculo? Na sociedade de promessas de lucros fáceis, fama rápida e conhecimentos sem aprendizado? Em meio à complexa cultura informacional de discursos desconectados, o que parece ser comum, para a maior parte das crianças hospitalizadas no Brasil, é que elas são marcadas pelo ciclo da miséria, da exclusão e pela ausência de quem, as permitindo falar, escute suas vozes. Conclui- se que escutar a narrativa dos excluídos consequentemente tem implicações na ampliação de experiências educativas que possam contar uma outra história: a de um mundo mais humanizado.

Aprender a ler entre cartilhas: civilidade, civilização e civismo pelas lentes do livro didático

PID: S1517-97022004000300009 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2004
Autores: Boto
Este ensaio tem por objetivo identificar o lugar social ocupado pela cartilha de primeira leitura nos usos e costumes da história da moderna escolarização primária. O propósito do estudo é o de averiguar o entrecruzamento entre o livro didático e as práticas da escola primária, mediante a clivagem analítica do campo da História da Educação. Prescrição, constrição, controle e confronto, o manual didático de ensino das primeiras letras propõe-se a destacar o contexto do letramento como alternativa para a oralidade do mundo infantil. Com tal pressuposto, o trabalho aqui desenvolvido debruça-se sobre a produção didática de um intelectual português de meados do século XIX, Francisco Júlio Caldas Aulete, abordando especificamente a Cartilha nacional de sua autoria. Esse livro de ensinar a ler e a escrever propunha um ensino, a um só tempo, simultâneo, calcado no aprendizado paralelo da leitura e da escrita; e explicitamente contrário à prática da soletração - o que aproximava o modo de ensino prescrito por Caldas Aulete da marcha do que posteriormente se caracterizaria como método analítico de alfabetização. Finalmente, pode-se compreender que o estudo da Cartilha nacional - a despeito de seu caráter tópico - remete a aspectos sócio-históricos de singular relevância, posto que havia ali um rascunho nítido de um projeto de país: civilidade, civismo e civilização eram os dísticos que norteavam a proposta do ensino no rito inicial da escola primária.

Autores e editores de compêndios e livros de leitura (1810-1910)

PID: S1517-97022004000300008 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2004
Autores: Bittencourt
Este artigo apresenta reflexões sobre o problema da autoria do livro didático. O papel do autor do livro didático tem sido um tema polêmico por sua ambigüidade em relação a seus direitos e suas responsabilidades. O livro didático oferece retornos financeiros consideráveis para editores e autores, e esta condição implica envolvimentos mais complexos e tensos. O artigo procura, nessa perspectiva, traçar o perfil dos primeiros autores de livros didáticos brasileiros, no período de 1810 a 1910, com o objetivo de caracterizar o processo de intervenções de diferentes sujeitos nessa produção. As características da produção do livro didático como texto submetido aos programas curriculares, dependente das autorizações do poder educacional e das formas de comercialização e circulação, são indicadas para mostrar quem foram os autores que aceitaram essas imposições. Apresenta as imposições para a confecção dos livros diante das mudanças do público ao qual é destinado. Inicialmente produzido para professores, o livro didático vai se tornando livro do aluno. Nesse processo os referenciais pedagógicos e o público escolar passaram a exigir cuidados com a linguagem e exige-se a constituição de novos “gêneros didáticos” para o nível elementar. O perfil do autor do livro didático transforma-se, assim como sua autonomia, acentuando as relações entre editor e autor.

Autoscopia: um procedimento de pesquisa e de formação

PID: S1517-97022004000300003 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2004
Autores: Sadalla Larocca
Este artigo trata de um procedimento de coleta de dados denominado autoscopia. A autoscopia vale-se do recurso de videogravação de uma prática, visando a análise e auto-avaliação por um ou mais protagonistas dessa prática. Por meio da videogravação objetiva-se apreender as ações do ator (ou atores), o cenário e a trama que compõem uma situação. O material videogravado é submetido a sessões de análise a posteriori da ação os quais se destinam a apreensão do processo reflexivo do ator (ou atores), através de suas verbalizações durante a análise das cenas videogravadas. O artigo apresenta uma fundamentação teórica do procedimento de autoscopia, aborda vantagens e limites de sua utilização, bem como os cuidados a serem considerados e, finalmente, descreve as experiências das autoras em duas pesquisas em que o procedimento foi utilizado. A partir de duas experiências, apontam-se diferenças e semelhanças entre os trabalhos, especialmente relacionados aos participantes, objeto e à distribuição no tempo das videogravações. As autoras tecem considerações sobre o potencial formativo-reflexivo do procedimento, tanto em situações de pesquisa como de aprendizagem e formação de diferentes profissionais, considerando ser este um excelente instrumento de formação. No entanto, é vital que se tenha em mente a necessidade de reconhecer e devolver ao professor, enquanto partícipe autoscópico, a condição de sujeito de sua própria profissão, promovendo, portanto, além da avaliação de si, também a autonomia do seu pensar e fazer.

Ciclos de vida: algumas questões sobre a psicologia do adulto

PID: S1517-97022004000200002 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2004
Autores: Oliveira
Neste artigo pretende-se sistematizar algumas reflexões sobre a possibilidade de formulação de uma psicologia do adulto, a partir da definição do desenvolvimento psicológico como transformação que ocorre ao longo de toda a vida e da postulação da idade adulta como uma etapa culturalmente organizada de passagem do sujeito pela existência tipicamente humana. Com base na afirmação da importância das atividades e práticas culturais na constituição do psiquismo, especialmente por meio da realização de tarefas e da utilização de instrumentos e signos como mediadores da atividade psicológica, buscam-se caminhos para a historicização da psicologia do adulto. Para isto propõe-se uma compreensão aprofundada da organização de diferentes práticas culturais, da construção compartilhada de sentidos e significados, da internalização de modos de fazer, de pensar e de produzir a cultura em cada um dos seus âmbitos concretos, cuja finalidade é superar a prática mais comum na psicologia, isto é, a apresentação daquilo que é contextualizado historicamente como sendo universal. Com a intenção de aprofundar a compreensão de um grupo específico de adultos, inclui-se neste artigo a discussão de dados empíricos obtidos na fase preliminar de uma pesquisa sobre trabalhadores urbanos que freqüentam um curso supletivo com o objetivo de elevação da escolaridade associada à preparação para o trabalho. Implicações para a educação de jovens e adultos, subentendidas ao longo de todo o texto, são brevemente explicitadas no final.

Comprender y hacerse comprender: como reforzar la legitimidad interna y externa de los estudios cualitativos

PID: S1517-97022004000200008 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2004
Autores: van Zanten
El objetivo de este texto es de tomar en cuenta los aportes de un cierto número de publicaciones recientes de carácter metodológico, principalmente francesas, y nuestras propias reflexiones acerca de las condiciones de producción y de recepción de las interpretaciones cualitativas para proponer diferentes maneras de aumentar la legitimidad interna y externa de los estudios cualitativos, particularmente en la sociología de la educación. En la primera parte analizamos como mejorar la validez de las interpretaciones a través de la observación de un cierto número de reglas en la selección del campo de estudio y en la realización de entrevistas y observaciones. En la segunda parte nos interesamos a la manera de mejorar el trabajo de interpretación a través de la toma de distancia, el refuerzo de la coherencia interna y la aplicación de diversas estrategias de generalización.

Democratização do ensino: vicissitudes da idéia no ensino paulista

PID: S1517-97022004000200012 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2004
Autores: Azanha
Partindo do reconhecimento de que o termo “democracia” pode prestaras a todo tipo de propaganda ideológica, há muita dificuldade em esclarecer a noção derivada de ensino democrático. Para contornar esse obstáculo, o A. distingue entre a propaganda e a ação democratizadora, atendo-se ao exame da segunda. Neste sentido analisa alguns esforços de democratização do ensino no Estado de São Paulo, através dos seguintes episódios: Reforma Sampaio Dória (1920); expansão da matrícula no ensino ginasial (1967-1969) e tentativa de renovação pedagógica proposta pelos Ginásios Vocacionais. Nessa análise procura também distinguir entre a idéia de democratização do ensino como prática de liberdade e como expansão de oportunidades a todos, procurando mostrar como no primeiro sentido pode haver uma degradação, em termos pedagógicos, da idéia de democracia política.

Dois manuais de história para professores: histórias de sua produção

PID: S1517-97022004000300010 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2004
Autores: Munakata
A Campanha do Livro Didático e Manuais de Ensino (Caldeme), instituída por Anísio Teixeira quando este assumiu o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (Inep), em 1952, buscou produzir livros didáticos e manuais para professores, entre outros materiais didáticos. Os manuais de História do Brasil e História Geral, para professores, foram encomendados a, respectivamente, Americo Jacobina Lacombe e Carlos Delgado de Carvalho, em 1953. Este artigo acompanha a produção desses manuais, apresentando, na medida do possível, os sujeitos nela envolvidos. Os conflitos e debates são expressos em um momento particular da história educacional e se articulam ao processo de mudanças também da produção historiográfica, podendo-se identificar as relações entre as diferentes esferas de produção didática. A escolha de professores universitários para a composição de obras didáticas situa as clivagens entre produções acadêmicas e as de caráter pedagógico. Nessa perspectiva situam-se as diferenças de projetos universitários perante o problema de formação de professores. Espera-se com isso elucidar aspectos de uma política pública educacional, de âmbito federal, até agora pouco investigada. Além disso, ao acompanhar as discussões suscitadas durante a elaboração desses manuais, procura examinar as concepções sobre história e ensino de história que então se confrontaram, assim como as aproximações e separações entre a produção acadêmica e a escolar.

Formação de professores e educação em direitos humanos e cidadania: dos conceitos às ações

PID: S1517-97022004000300004 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2004
Autores: Carvalho Sesti Andrade Santos Tibério
Este artigo relata a experiência do Projeto Direitos Humanos nas Escolas na elaboração e realização de um curso de formação de professores voltado para a difusão dos ideais e valores dos direitos humanos, da democracia e da cidadania como eixos norteadores de toda e qualquer prática escolar e não apenas de discursos pedagógicos. Cabe destacar que se trata de um desafio de grande envergadura dada as características históricas tanto da escola brasileira quanto da nossa sociedade em sentido amplo. Considerando tal desafio, apresenta de forma sintética os princípios, atividades e reflexões resultantes das experiências mais significativas dos três primeiros anos de trabalho desse projeto com escolas da rede estadual e municipal nos municípios de Osasco e São Paulo. Entre outras coisas, este artigo expõe as diferentes formas que o referido curso assumiu dada a dificuldade da criação de um formato de atividades capazes de tornar as práticas do cotidiano escolar um objeto de reflexão para os envolvidos diretamente com a ação educativa, assim como para as instituições escolares como um todo, e aponta importantes características que essa proposta de formação continuada de professores gerou na busca da elucidação dos desafios que a atual escola brasileira deve enfrentar na realização de sua função pública.

Injustiça na escola: representações sociais de alunos do ensino fundamental e médio

PID: S1517-97022004000200004 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2004
Autores: Carbone Menin
Neste artigo apresenta-se o relato sobre duas pesquisas que buscaram investigar como os alunos do ensino fundamental e médio de escolas públicas e particulares do município de Presidente Prudente representam situações de injustiça na escola, bem como seus agentes e os tipos de ações que cometem. Dois conjuntos de dados foram analisados: 1) respostas obtidas por meio de questões abertas incluídas num questionário aplicado em 480 alunos em 1999, em alunos da 8a série do ensino fundamental e 1a série do ensino médio, nas quais foram selecionadas, para análise, as respostas que tivessem a escola como local de injustiça; 2) respostas de alunos da 5a. série do ensino fundamental em questões sobre injustiça na escola aplicadas em 2003. Para análise teórica, foram utilizadas as abordagens da Psicologia do Desenvolvimento Moral de Piaget e Kohlberg e da Representação Social, criada por Moscovici. Comparando as duas pesquisas, a de 1999 e a de 2003, conclui-se que em nenhuma das séries a escola aparece como uma “comunidade justa” e que prevalecem os casos de injustiça retributiva e legal. Como principais agentes de injustiças aparecem, primeiramente, o professor perante seus alunos e, em segundo lugar, os alunos entre eles mesmos. Os alunos de escola particular apontaram mais o professor como agente de injustiças que os de escola pública. Entre esses as injustiças entre alunos foi mais citada. Os alunos de escola pública se posicionaram contra regras escolares que se opõem às necessidades pessoais com mais veemência que os de escola particular.

Livros didáticos em dimensões materiais e simbólicas

PID: S1517-97022004000300011 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2004
Autores: Fernandes
O texto apresenta o relato de uma pesquisa em andamento sobre a memória de usuários de livros didáticos. As reflexões estão baseadas no trabalho de história oral, de coleta e análise de entrevistas com alunos e professores, que interagiram com esses materiais no espaço escolar, entre os anos de 1940 e 1970, e que são procedentes de diferentes localidades brasileiras. A proposta tem sido investigar as reminiscências do livro didático; quais têm sido aquelas que sinalizam suas interferências na formação social e cultural das pessoas e no seu imaginário; os papéis sociais, educacionais e culturais que o livro didático alcança na formação de gerações ou em localidades; e os valores atribuídos a esses objetos, que orientam, por exemplo, atitudes em prol de sua guarda ou preservação. A pesquisa faz parte de um projeto maior, “Educação e memória: organização de acervo de livro didático”, coordenado pela professora Circe Bittencourt, na Faculdade de Educação da USP, do qual fazem parte pesquisadores que trabalham com diferentes problemáticas, variadas áreas de conhecimento e que utilizam fontes distintas. E, nesse sentido, o trabalho procura contribuir também para a identificação de dados que colaboram para ampliar o número de informações gerais que instiguem ou complementem outras pesquisas possíveis relativas a esse objeto de estudo.

Metodologia qualitativa de pesquisa

PID: S1517-97022004000200007 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2004
Autores: Martins
Este artigo apresenta reflexões sobre o que significa fazer ciência no âmbito dos métodos e técnicas qualitativos da sociologia. Tem como pressupostos uma compreensão de metodologia como o conhecimento crítico dos caminhos do processo científico, que indaga e questiona acerca de seus limites e possibilidades; e o reconhecimento de que todo conhecimento sociológico tem, como fundamento, um compromisso com valores. A pesquisa qualitativa é definida como aquela que privilegia a análise de microprocessos, através do estudo das ações sociais individuais e grupais, realizando um exame intensivo dos dados, e caracterizada pela heterodoxia no momento da análise. Enfatiza-se a necessidade do exercício da intuição e da imaginação pelo sociólogo, num tipo de trabalho artesanal, visto não só como condição para o aprofundamento da análise, mas também - o que é muito importante - para a liberdade do intelectual. Discutem-se as principais críticas feitas à pesquisa qualitativa, em especial as acusações de falta de representatividade e de possibilidades de generalização; de subjetividade, decorrente da proximidade entre pesquisador e pesquisados; e o caráter descritivo e narrativo de seus resultados. Neste contexto, reflete-se sobre os problemas éticos envolvidos nesse tipo de pesquisa, e retoma-se brevemente a história que culminou com o predomínio do enfoque quantitativo, especialmente na sociologia norte-americana do pós-guerra. Em conclusão, o texto propõe que hoje o mais importante é produzir um conhecimento que, além de útil, seja explicitamente orientado por um projeto ético visando a solidariedade, a harmonia e a criatividade.

A internet na escola fundamental: sondagem de modos de uso por professores

PID: S1517-97022003000200008 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2003
Autores: Santos
Esta investigação objetiva o esclarecimento de modalidades de uso da internet em situações de ensino fundamental, em escolas das redes pública e particular do Distrito Federal. Trata-se de uma pesquisa que empregou leitura qualitativa de dados quantitativos em que, por meio de questionários, entrevistas e observações diretas, abordamos a atuação de vinte professores para explicitar de que forma os conteúdos disponibilizados por meio da internet estão sendo apreendidos e trabalhados em sala de aula, o tipo de navegação nos hipertextos eletrônicos que tem sido proposto aos alunos e uma tipologia de modalidades de uso da internet na educação. Os dados indicam que há quatro modalidades de navegação (aleatória e linear; orientada e problematizada; por meio de pedagogia de projetos e por meio de abordagens de construção de hipertextos). Indicam também que os professores são capazes de avançar em uma utilização mais interessante da internet como meio de ensino e de aprendizagem e que a escola, com seu ritmo e ritos, constitui uma amarra importante. Sem dúvida, há um clamor geral pela mudança. Se os alunos sentem-se pouco à vontade com a forma e o hermetismo com que as relações educativas vêm sendo conduzidas, o que é traduzido na prática por um desinteresse sistemático pela escola, o mesmo parece acontecer com os professores, sobretudo quando eles são cobrados por gestores, pais, alunos e teóricos da educação para assumirem posturas docentes para as quais eles não foram preparados.

A questão da periodização do desenvolvimento psicológico em Wallon e em Vigotski: alguns aspectos de duas teorias

PID: S1517-97022003000200003 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2003
Autores: Teixeira
Este artigo apresenta alguns aspectos de duas teorias de desenvolvimento psicológico elaboradas sob a ótica do materialismo dialético: a de Henri Wallon e a de Lev Vigotski. O trabalho argumenta que o fato de esses autores terem desenvolvido suas pesquisas apoiados na mesma matriz filosófica propicia importantes aproximações entre eles. Entre os aspectos comuns, o artigo destaca: a recusa em enquadrar o desenvolvimento psicológico em esquemas rígidos, orientados segundo uma lógica linear; a concepção de que o psiquismo humano foi e continua sendo produzido historicamente pelos próprios homens no interior das relações que estabelecem entre si e com a natureza; a defesa feita por essas duas teorias quanto ao caráter constitutivo, portanto positivo, dos conflitos e alternâncias entre períodos críticos e estáveis que caracterizam o desenvolvimento psicológico; e, principalmente, o fato de ambos os autores ressaltarem que uma compreensão adequada do desenvolvimento exige uma análise desse processo em sua essência interna, isto é, uma análise dos condicionantes dos sintomas externos do desenvolvimento psicológico. Especificamente sobre a teoria walloniana, o artigo realça a idéia de que o desenvolvimento é marcado pelas alternâncias entre cognição e afeto e entre razão e emoção; em relação à concepção vigotskiana, o texto enfatiza que o estudo do desenvolvimento psicológico deve partir da análise da atividade da criança tal como ela se apresenta nas condições concretas de sua vida.

A televisão como ferramenta pedagógica na formação de professores

PID: S1517-97022003000200007 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2003
Autores: Belloni
O texto parte da análise da experiência dos primeiros anos de implementação do Programa TV Escola em Santa Catarina para propor uma reflexão sobre o uso educativo e pedagógico das tecnologias de informação e comunicação (TIC). A integração dos meios de comunicação mais contemporâneos aos processos educacionais é tarefa urgente e necessária pois essas técnicas já estão presentes em todas as esferas da vida social. Já não se discute mais se a integração deve ser feita ou não, desde que a disseminação da informática pôs a escola perante o desafio de uma nova linguagem presente na sociedade, não só no mundo do trabalho, mas também no lazer e na cultura, e ausente da escola. No entanto, a prática pedagógica inovadora utilizando as TIC esbarra num obstáculo importante: a formação de professores, que ainda ignora em grande parte esses temas. A TV Escola surge como uma política efetiva com o objetivo de melhorar e atualizar essa formação. Busca-se, neste trabalho, compreender e explicar as formas de utilização das mensagens da TV Escola e as razões da persistência de usos inadequados do meio como ferramenta pedagógica, tanto para auto-formação de professores - à distância - quanto na utilização de mensagens televisuais como material didático em sua prática docente. O estudo mostra que a integração do meio televisual no espaço escolar, em sua dupla dimensão de ferramenta pedagógica e objeto de estudo, ainda encontra dificuldades, embora a televisão seja o meio de comunicação mais freqüentado por professores e estudantes.

Administração e participação: reflexões para a educação

PID: S1517-97022003000200014 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2003
Autores: Motta
Este artigo trata dos conceitos de participação conflitual, participação funcional, participação administrativa, co-gestão e autogestão, discutindo a noção e o papel da educação participativa na construção de uma nova sociedade.

Como trabalhar com "raça" em sociologia

PID: S1517-97022003000100008 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2003
Autores: Guimarães
Numa exposição didática, de caráter teórico-metodológico, o autor explica o modo como utiliza em suas pesquisas a categoria "raça", em conexão com outras categorias como "cor", "etnia", "região", "classe", "nação", "povo", "estado", etc. A partir do pressuposto de que os conceitos, teóricos ou não, só podem ser aplicados e entendidos no seu contexto discursivo, o autor estabelece a distinção entre conceitos "analíticos" e "nativos", ou seja, entre categorias retiradas de um corpus teórico e categorias que compõem o próprio universo discursivo dos sujeitos que estão sendo analisados, mas que devem ser utilizados pelo sociólogo. Na parte central do texto, o autor esboça uma história dos significados da categoria "raça" no Brasil e das diversas explicações do caráter das relações entre brancos e negros avançadas pela Sociologia: desde o trabalho pioneiro de Donald Pierson, nos anos 1940, passando pelos estudos da Unesco, nos anos 1950, os trabalhos da chamada "escola paulista", nos anos 1960, e a retomada da teoria da "democracia racial" nos anos mais recentes, em estreito diálogo com os movimentos negros. O autor termina por fazer uma pequena discussão sobre os diversos estímulos, ou perguntas, dados em pesquisas tipo survey, para definição e mensuração da variável cor ou raça.

Desigualdades raciais no sistema brasileiro de educação básica

PID: S1517-97022003000100011 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2003
Autores: Soares Alves
O Saeb - Sistema de Avaliação da Educação Básica - vem acompanhando o desempenho acadêmico dos alunos de educação básica brasileira desde 1990. Seus dados permitem conhecer os sistemas de ensino em sua capacidade de produção de eficácia e de equidade educacional em relação aos diferentes estratos sociais. Este artigo analisa as desigualdades do desempenho escolar entre alunos discriminados por raça, com ênfase no impacto de algumas políticas e práticas escolares na produção de equidade entre esses grupos. Este estudo utilizou, como técnica privilegiada de análise, os modelos de regressão que permitem manter na análise os dois níveis hierárquicos presentes nos dados, isto é, alunos e escolas. Os resultados mostram que (1) há um grande hiato entre alunos brancos e negros e, em menor grau, entre alunos brancos e pardos em relação ao desempenho escolar; e (2) os fatores produtores de eficácia do ensino não têm uma distribuição equânime, pois eles favorecem principalmente o desempenho escolar dos estratos socialmente mais privilegiados, ou seja, alunos brancos, contribuindo, na maioria das situações analisadas, para acirrar e não reduzir a diferença basal entre os grupos raciais. Concluímos este trabalho ponderando que a alteração desse quadro dependerá da implementação de políticas públicas e escolares para produzir um equilíbrio mais justo entre a eficácia e a equidade na educação.*

Educação a distância na internet: abordagens e contribuições dos ambientes digitais de aprendizagem

PID: S1517-97022003000200010 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2003
Autores: Almeida
Os avanços e a disseminação do uso das tecnologias de informação e comunicação (TIC) descortinam novas perspectivas para a educação a distância com suporte em ambientes digitais de aprendizagem acessados via internet. Considerando-se que a distância geográfica e o uso de múltiplas mídias são características inerentes à educação a distância, mas não suficientes para definirem a concepção educacional, discute-se a educação a distância (EaD) não como uma solução paliativa para atender alunos situados distantes geograficamente das instituições educacionais nem apenas como a simples transposição de conteúdos e métodos de ensino presencial para outros meios e com suporte em distintas tecnologias. Os programas de EaD podem ter o nível de diálogo priorizado ou não segundo a concepção epistemológica, tecnologias de suporte e respectiva abordagem pedagógica. Este artigo pretende discutir as abordagens usuais da educação a distância, destacando o uso das TIC para o desenvolvimento de um processo educacional interativo que propicia a produção de conhecimento individual e grupal em processos colaborativos favorecidos pelo uso de ambientes digitais e interativos de aprendizagem, os quais permitem romper com as distâncias espaço-temporais e viabilizam a recursividade, múltiplas interferências, conexões e trajetórias, não se restringindo à disseminação de informações e tarefas inteiramente definidas a priori.

Educação, identidade negra e formação de professores/as: um olhar sobre o corpo negro e o cabelo crespo

PID: S1517-97022003000100012 | Periódico: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Ano: 2003
Autores: Gomes
Este artigo discute as particularidades e possíveis relações entre educação, cultura, identidade negra e formação de professores/as, tendo como enfoques principais a corporeidade e a estética. Para tal, apresenta a necessidade de articulação entre os processos educativos escolares e não-escolares e a inserção de novas temáticas e discussões no campo da formação de professores/as. Dando continuidade às reflexões realizadas pela autora na sua tese de doutorado, discutem-se as representações e as concepções sobre o corpo negro e o cabelo crespo, construídas dentro e fora do ambiente escolar, a partir de lembranças e depoimentos de homens e mulheres negras entrevistados durante a realização de uma pesquisa etnográfica em salões étnicos de Belo Horizonte. Para essas pessoas, a experiência com o corpo negro e o cabelo crespo não se reduz ao espaço da família, das amizades, da militância ou dos relacionamentos amorosos. A escola aparece em vários depoimentos como um importante espaço no qual também se desenvolve o tenso processo de construção da identidade negra. Lamentavelmente, nem sempre ela é lembrada como uma instituição em que o negro e seu padrão estético são vistos de maneira positiva. O entendimento desse contexto revela que o corpo, como suporte de construção da identidade negra, ainda não tem sido uma temática privilegiada pelo campo educacional, principalmente pelos estudos sobre formação de professores e diversidade étnico-cultural. E que esse campo, também , ao considerar tal diversidade, deverá se abrir para dialogar com outros espaços em que os negros constroem suas identidades. Muitas vezes, locais considerados pouco convencionais pelo campo da educação, como por exemplo, os salões étnicos.
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