Resumo O artigo apresenta um estudo sobre os saberes para ensinar matemática no ensino primário sistematizados em manuais pedagógicos que circularam em diferentes estados do Brasil nas décadas de 1960 e 1970. Particularmente, toma-se como foco o ensino de números e operações pelo método Cuisenaire. Nesse período se disseminaram propostas inovadoras relacionadas ao Movimento da Matemática Moderna. O texto orienta-se em torno do questionamento sobre a sistematização de saberes para ensinar matemática na perspectiva da Matemática Moderna, que se apresentava como referência para professores e normalistas, materializada em manuais pedagógicos. Esses saberes sistematizados, que dizem respeito à matemática para ensinar, um amálgama de conteúdo e métodos, uma criação voltada ao ensino primário, se constituem elementos de “profissionalidade” para professores primários. Assim, a “profissionalidade” é marcada pelo exercício de teorização pedagógica e didática que conduz a uma formalização da própria prática.
Resumo Na atualidade, as políticas públicas educacionais têm amplamente divulgado a importância da participação das famílias na escola e tal relação tem sido cada vez mais estudada por pesquisadores interessados nos processos de escolarização de crianças. Nessa perspectiva, este trabalho buscou analisar uma experiência do Programa de Residência Pedagógica em Educação Infantil realizado em Universidade Pública Federal, articulando as características específicas dessa organização de estágio curricular obrigatório às percepções dos residentes acerca das relações estabelecidas entre as famílias e as escolas no âmbito da escolarização da primeira infância. Os dados recolhidos foram organizados em categorias de análises que permitiram conhecer e analisar os modos pelos quais as instituições engendram suas relações no cotidiano escolar, especialmente as estabelecidas nas festas escolares, nos momentos de reuniões pedagógicas e na comunicação escrita entre as duas instituições.
Resumo O artigo apresenta uma investigação sobre uma experiência de inovação de ensino de matemática registrada em um caderno de uma aluna que frequentou o segundo ano do curso primário do Instituto de Educação General Flores da Cunha, na cidade de Porto Alegre, no ano de 1968. Trata-se de uma abordagem da multiplicação inspirada no conceito de produto cartesiano de conjuntos e orientada para o que é denominado, atualmente, pensamento combinatório. A instituição, dedicada à formação de professores primários, ofereceu um Curso de Didática da Matemática Moderna na Escola Primária desde 1966. Por meio do cruzamento de fontes diversas, a pesquisa identifica as conexões entre a experiência registrada no caderno, os estudos promovidos no Curso e as publicações de autores engajados no movimento da Matemática Moderna. Também são tecidas considerações sobre o currículo praticado naquela escola, sobre o poder criativo da cultura escolar e sobre as ressonâncias da Matemática Moderna nas produções correntes sobre o ensino de Matemática para os anos iniciais da escolarização.
Resumo O Plano Nacional de Educação (PNE) (BRASIL, 2014) determinou aos entes federados a aprovação de legislação disciplinando a gestão democrática da educação pública associada a critérios técnicos de mérito e desempenho e à consulta à comunidade escolar. Este trabalho aborda os requisitos atribuídos ao mérito presentes na legislação de três municípios do estado do Rio de Janeiro: Rio de Janeiro, Duque de Caxias e Valença. Há consenso que os candidatos à direção da escola deverão ser servidores efetivos, ter experiência docente e não ter pendências administrativas ou judiciais. No entanto, não há consenso sobre a formação do candidato. Avaliamos que as formas como cada ente federado ressignifica e hibridiza a categoria mérito se apresenta através de distintas maneiras, tendo em vista a autonomia dos entes federados, o momento político vivido em cada município/estado, as infidelidades normativas e a forma elástica como se apropriam da norma que orienta a ação, no caso, o PNE.
Resumo Este artigo aborda como tem acontecido o uso das tecnologias da informação e comunicação (TIC) na educação superior a distância em estudo no período de 2012 a 2016. A metodologia aplicada foi a revisão sistemática com coleta de dados via Portal da CAPES em diferentes bases de dados. Posteriormente, os resultados foram tratados com auxílio do software StArt3 e analisados, sintetizados e organizados por adjacências de ideias. Da análise conclui-se que a integração das TIC na educação superior a distância está acontecendo de forma e ritmo diferente nas instituições. Os estudos reforçam a necessidade da melhoria do desempenho acadêmico com o uso das TIC, aponta para o desenvolvimento das competências integrais dos professores, estudantes e equipe acadêmico-administrativas, bem como, a necessidade de novos estudos voltados às complexidades da aplicação das TIC na educação superior a distância.
Resumo O artigo tem como objetivo apresentar os principais conceitos da obra de Martin Buber, autor da filosofia do diálogo, e suas implicações para o campo da Educação. Fortemente influenciado pelo hassidismo, Buber foi um defensor da Educação para a comunidade para se chegar à paz. O texto situa o autor na história e reflete sobre a possível filiação de sua teoria a determinados campos do conhecimento, além de abordar os conceitos centrais de sua teoria encontro dialógico, presença, relação, reciprocidade e responsabilidade, educação para a comunidade –, que contribuem para pensar a Educação nos tempos atuais, marcada pela desumanização das relações.
Resumo Neste artigo evidenciamos indícios de orientação espacial de crianças de cinco anos, matriculadas em uma escola municipal de educação infantil. Consideramos o que elas dizem a respeito do trajeto escola/casa/escola. Tal estudo faz parte de uma pesquisa qualitativa de doutorado em educação sobre senso espacial infantil no campo da geometria. Este texto se constituiu a partir da escuta de crianças em catorze entrevistas realizadas, das quais selecionamos questões sobre noções espaciais de perto/longe. Em Clements (2004), Lorenzato (2006), Mendes e Delgado (2008) encontramos suporte teórico para tratar da orientação espacial. Corsaro (2011) e Sarmento (2007) nos auxiliaram nos estudos sobre infância. Verificamos que as crianças possuem conhecimentos sobre orientação espacial e relacionam noções espaciais de perto/longe aos seus próprios pontos de referência. Concluímos que é importante considerar os usos e significados que as crianças atribuem às noções espaciais, mas também vale considerar o papel significativo da escola em pensar e problematizar junto com as crianças essa orientação espacial no ambiente escolar, no bairro e na cidade onde vivem e se locomovem.
Resumo Este texto buscou confirmar se a obra Fundamentos de defectología (VYGOTSKI, 1997) constitui os materiais oficiais da SECADI/MEC/Brasil a partir da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Realizou-se pesquisa nos materiais didáticos oficiais, não sendo observada esta obra. Nova busca constatou que a obra foi utilizada como referência na pós-graduação (três dissertações e uma tese), nos Grupos de Trabalho n. 15 – Educação Especial – e n. 20 – Psicologia da Educação – da ANPEd (uma pesquisa, três textos de discussão e aprofundamento) e em livros e periódicos (dois capítulos de livro, nove artigos publicados em periódicos) total de dezenove trabalhos. Dois destes referenciam a obra na formação de professores para atuação em Educação Especial ou atendimento educacional especializado, sugerindo ser esta, ainda, pouco disseminada na formação docente continuada.
Resumo Neste artigo, os princípios gerais da educação especial são discutidos a partir da perspectiva Vygotskyana. Em primeiro lugar, sugere-se que, para a compreensão da educação especial em particular e da psique e seu desenvolvimento em geral, a epistemologia estrutural-sistêmica deve ser aplicada. Para entender a educação especial, a psique e seu desenvolvimento devem ser entendidos em diferentes níveis de análise. Neste artigo, a primeira vida é definida com o intuito de definir a psique como uma forma especial de vida. A psique, no nível seguinte e mais específico da análise, é diferenciada em partes complementares, do indivíduo e de seu ambiente. O ambiente é definido em seguida, e distinguido teoricamente em quatro tipos. Nesta base teórica, a pedagogia e a educação especial são definidas. A educação especial deve basear-se na compreensão completa do aprendiz em diferentes níveis de análise: de acordo com estágios gerais de desenvolvimento, de acordo com o desenvolvimento durante o estágio, e no nível da estrutura do conhecimento. Destacam-se dois alvos principais da educação especial e três estratégias básicas de reabilitação neuropsicológica e educação especial.
Resumo Este texto aborda as crianças e seus espaços cotidianos, mais especificamente o espaço de suas vidas nas cidades. Dialogando com autores que abordam a interface criança, infâncias e espaços urbanos, busca trazer contribuições da Geografia da Infância para o tema, reconhecendo o espaço como indissociável da vida e refutando a lógica que tem colocado as trajetórias humanas na Terra como caminhos lineares e em sequência temporal cronologicamente concebida. A concepção de espaço geográfico como expressão construída na vida e de onde a vida se origina, abarca o universo infantil e o coloca dentro desse processo dialético. Assim, falar em Geografia da Infância, ler a infância, tendo como viés de entrada esse encontro que o espaço geográfico perrmite, é, para além de um significativo encontro geracional, assumir as crianças com suas potenciais presenças e como sujeitos explícitos de enunciações no espaço e no tempo, inseridas nas dimensões política, simbólica e material das sociedades.
Resumo O artigo apresenta reflexões decorrentes de uma pesquisa, tipo estudo de caso, que focalizam a formação continuada em serviço dos docentes universitários que atuam numa universidade comunitária. Fundamenta-se na concepção da constituição da professoralidade como um processo contínuo ao longo da trajetória de vida pessoal-profissional do docente. Defende que a formação continuada deve ser gestada, considerando-se o contexto, os saberes, as demandas formativas e o protagonismo daqueles a quem se destina. Indica a abertura de espaços, tempos e mecanismos que viabilizem aos docentes externalizar suas necessidades e expectativas, e compartilhar conhecimentos e práticas pedagógicas. Aponta para os processos de autoformação e heteroformação como possibilidades para a consolidação de comunidades colaborativas de aprendizagem.
Resumo Este artigo discute, a partir da teoria do agir comunicativo de Jürgen Habermas, o papel da formação escolar diante das tarefas de apropriação e de reconstrução do saber cultural, de desenvolvimento dos laços de solidariedade e de estabilização de uma identidade pessoal. Argumenta-se que os processos de aprendizagem possuem papel fundamental na manutenção e na reprodução dos componentes estruturais do mundo da vida - cultura, sociedade e personalidade. Por conseguinte, cabe à instituição escolar avaliar e orientar os processos de ensino e de aprendizagem na perspectiva da compreensão da estrutura simbólica do conhecimento, da necessária reconstrução dos saberes culturais e da formação à responsabilidade e à solidariedade, bem como auxiliar na formação de identidades pessoais mais descentradas e mais condizentes com os desafios do mundo atual.
Resumo A sociedade hipermoderna é uma sociedade excitada que demanda da escola a personalização do ensino e a customização e espetacularização da experiência escolar. Este texto tem como objetivo levantar interseções e questionamentos acerca do caráter hiperconsumista da expansão capitalista, das características peculiares da sociedade hipermoderna e do lugar da escola e da educação diante desses novos paradigmas. Para tal, aproximou-se a perspectiva psicanalítica das teorias filosóficas de pensadores como Zygmunt Bauman e Gilles Lipovetsky a fim de lançar luz aos impactos importantes à fragilização do laço social oriundos da nova ordem socioeconômica. Nesse sentido, é possível pensar que, para além do peso das novas demandas econômicas, culturais e tecnológicas, cabe à escola ocupar uma posição de ação estruturante e edificadora e colocar-se como instância social que guarda o interesse da formação do sujeito ético, reflexivo, crítico e sensível às urgências de um país, cujos altos índices de desigualdade asseguram um monopólio de privilégios.
Resumo Enquanto fenômeno que ocorre no fluxo constante da cultura, a educação incorpora e ao mesmo tempo transforma aspectos essenciais de uma dimensão sociocultural mais ampla, não podendo restringir-se a abordagens que ignorem o caráter contextual da experiência humana. Nessa perspectiva, a hermenêutica traz contribuições importantes para a pesquisa educacional, pois permite a inserção ontológica do pesquisador no contexto analisado, orientando-o a partir de uma conduta pautada na racionalidade própria do fenômeno que se estabelece como objeto da pesquisa. No presente ensaio, procurou-se problematizar os desafios enfrentados pela pesquisa em educação, buscando evidenciar os aportes oferecidos pela hermenêutica como diálogo vivo, centrado na dinâmica da pergunta como núcleo fundante da experiência humana. Intentou-se ainda reiterar a importância do diálogo crítico com a tradição, enquanto estudo dos clássicos, na sua condição de instância imprescindível de um processo intelectual que permita às pesquisas educacionais transcenderem o dogmatismo inerente ao horizonte das pré-compreensões.
Resumo O presente artigo resulta de um estudo teórico e visa discutir a inclusão das crianças com deficiência na educação infantil, ressaltando as práticas e os desafios deste processo em construção. Para tanto, apresenta considerações gerais sobre o conceito de infância, sinalizando que a deficiência é uma experiência que institui singularidades no modo como a criança vivencia sua infância. Comenta a constituição do campo da educação infantil, apresentando sua ascensão de um campo “clandestino” de atuação, ligado ao assistencialismo à etapa da Educação Básica, organizado por meio de referenciais que lhe concede importância e atribuições próprias dentro da política educacional. Por fim, contextualiza a educação especial na perspectiva da educação inclusiva, apontando os desafios relacionados à inclusão das crianças com deficiência no âmbito da creche e pré-escola.
Resumo Neste texto, apresentam-se reflexões acerca da constituição do sujeito professor, tomando como caminho teórico a Matriz Biológico-Cultural da Existência Humana. Parte-se do pressuposto de que essa matriz contém conceitos que permitem compreender as diversas dimensões do viver e do conviver humano. Articulando conceitos desse arcabouço, experiências como pesquisadora implicada e vozes de outros atores que investigam o tema, expressa-se a concepção de inteireza do ser, no sentido de um estado de consciência que permite olhar para si com legitimidade e presença a fim de estar com o outro, em convivência e transformação mútua. Nesse caminho reflexivo, propõem-se alguns princípios que podem desencadear processos internos que permitam a emergência desse estado de inteireza, inspirando-se no conceito do conversar liberador. Argumenta-se, para concluir, que, ao atuar desde um estado de presença e em acoplamento com seus alunos, em espaços de convivência, o professor está educando para a paz, numa dimensão que inclui a espiritualidade.
Resumo O presente artigo tem por finalidade propor uma problematização acerca da dimensão moral abordada pela literatura infantil na educação escolar, entrecruzada com a formação do leitor, enquanto sujeito no ato pedagógico. Interroga-se aqui a intensificação da moral nas práticas educativas em que a literatura infantil perde sua potência ética-estética para alinhar-se com uma proposição de doutrina moral. Por meio de uma pesquisa teórico-bibliográfica, de cunho filosófico, a argumentação é estruturada pela perspectiva de Walter Benjamin – pela referência ao conceito de experiência – e Michel Foucault – no que tange à compreensão de moral como contraponto à ética e à conjugação com a noção de tecnologias do eu, bem como a apropriação de Jorge Larrosa do mesmo conceito.
Resumo Este artigo visa a analisar o contexto em que emergem as políticas educacionais, sobretudo aquelas voltadas à formação de professores. Defende-se a tese de que as reformas educacionais dos últimos anos, asseveradas recentemente, fazem parte das transformações do papel do Estado, em que se situa a Nova Gestão Pública (NGP) e o atual modelo de globalização neoliberal. Com vistas à modernização da gestão pública, superando a administração burocrática, considerada ineficiente, a NGP implica, entre outros fatores, introduzir na máquina pública princípios e práticas do setor privado (gerencialismo). Ao mesmo tempo em que propõe as parcerias com outros setores/entes para a execução de ações antes exclusivas do Estado (governança). O argumento é que o Estado, entendido como monolítico e centralizado, também não atende aos desafios da sociedade. Esse cenário se torna adequado à nova privatização na/da educação (princípios privados no setor público) em todos os níveis e etapas da educação.
Resumo Muitos programas de ampliação da jornada escolar no ensino fundamental têm sido desenvolvidos, no Brasil, no formato conhecido como turno e contraturno. Nesse cenário, diversas polêmicas surgiram a respeito dos deveres de casa. Tais polêmicas expressam desafios mais amplos relativos à implementação dos programas e à própria realização desses deveres na tradição escolar. Assim, as questões relativas ao dever de casa “denunciam” desafios inerentes ao modo como a escola de tempo integral tem sido implementada; e a implantação dos programas de tempo integral acaba por “denunciar” desafios relativos ao dever de casa, que antecedem as políticas de ampliação da jornada. O objetivo do artigo é analisar essas “denúncias cruzadas”, utilizando dados recolhidos em atividades de extensão universitária e de pesquisa desenvolvidas na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Resumo Analisa-se neste artigo o programa de cotas étnico-raciais nas universidades federais brasileiras como um dispositivo de in/exclusão, a partir das teorizações de Michel Foucault sobre a governamentalidade neoliberal e sobre os dispositivos de segurança. A proposta é problematizar o sistema de reserva de vagas nas universidades brasileiras, considerando o imperativo da inclusão como estratégia neoliberal de gestão da liberdade e de controle social. Na contemporaneidade, a gestão dos desejos da população, de sua capacidade de optar livremente e de requerer a sua participação nos jogos do mercado é considerada, neste caso, efeito dos dispositivos de segurança, o que aponta para a maneira como a governamentalidade neoliberal atua nos processos de subjetivação. É nesse sentido que a inclusão se torna a tônica dos preceitos sociais atuais e se traduz no discurso de que todos devem estar incluídos e podem lançar mão das possibilidades ofertadas pelo Estado. No entanto, a inclusão não garante a participação igualitária de todos e, por isso, não é necessariamente o oposto da exclusão, mas compõe a dinâmica da inclusão exclusiva.