A partir dos Estudos Culturais em Educação e dos Estudos de Michel Foucault, pretende-se analisar os discursos das Diretrizes Curriculares Nacionais de Educação Infantil, de forma a evidenciar como estas instituem saberes que disciplinam, regulam e produzem sujeitos. Metodologicamente, é desenvolvida a análise do discurso, entendendo que as diretrizes prescrevem ações que objetivam o governamento docente. As análises são realizadas através de três unidades: condições de emergência das diretrizes; concepção de currículo; princípios, objetivos e eixos das propostas pedagógicas. Através das análises, conclui-se que as diretrizes reativam discursos redentores, reforçando a missão salvacionista atribuída historicamente às instituições de atendimento à infância.
O desenvolvimento e a estruturação psíquica na primeira infância envolvem significativas mudanças biopsicossociais. No campo da prevenção e da intervenção precoce com crianças que apresentam falhas nesse processo, encontra-se o diálogo com a educação inclusiva. Esta pesquisa analisou a qualidade da experiência de inclusão escolar de oito crianças nos aspectos instrumentais e estruturais através do protocolo AP3, com análises individuais dos resultados de cada criança e análise qualitativa das turmas observadas. O alto índice de riscos para a constituição subjetiva apontou para uma necessidade de considerar as dificuldades psíquicas e um trabalho psicoterápico além daquele focado nas áreas instrumentais.
O artigo propõe uma análise crítica da evolução das palavras e expressões utilizadas no campo da educação para as crianças com necessidades especiais: deficiência, especial, necessidades educativas especiais, integração, inclusão. Faz referências tanto às organizações internacionais como às especificidades francesas e, por fim, problematiza as ambiguidades, contradições e desafios da educação inclusiva. As palavras fazem as coisas, estruturam realidades sociais e até mesmo criam instituições. Portanto, é indispensável que os profissionais da Educação, mas também os da Saúde, estejam atentos para descobrir em suas próprias práticas os obstáculos que ainda subsistem à participação de todos nos espaços de vida compartilhados.
Partindo da concepção de linguagem que embasa o pensamento de Freud e Lacan, o artigo aborda o sujeito da educação especial e a artesania implicada no fazer pedagógico. São articuladores de suas proposições: o a posteriori como temporalidade psíquica; o brincar como paradigma da criação; a torsão que conjuga as separações entre o eu e o outro e entre a realidade e a linguagem; a profanação dos dispositivos educacionais como tarefa política emergente. O trabalho com os operadores citados permite valorar o que aqui se propõe como "gambiarra pedagógica", a saber, a tentativa de fazer passar, por caminhos não instituídos, o patrimônio cultural acumulado ao longo das gerações.
A escrita aqui construída se faz como fragmento de um caleidoscópio de ideias e inquietações advindas da teoria psicanalítica que interroga a educação e seus processos no contexto brasileiro atual. Trata-se de reflexões sobre o papel, lugar, atuação do(a) professor(a) em meio às urgências da contemporaneidade e sobre as causas e os efeitos disso - tal como o mal-estar docente -, pensando no alinhavo dentro e fora das paredes das escolas que tão necessariamente têm se rodeado de questões que compõem outra partitura conceitual e também de ofício, que é atravessada pela diversidade, pela inclusão e pelas práticas educativas. Nessa costura, pode-se pensar que a linha que tece a maior parte desses processos, se não ele todo, é a formação docente, que, não de forma diferente, tem em seus retalhos partes distintas de uma construção que é também social, histórica e política, detectadas através de conversações e discursos de um somatório de sujeitos mergulhados em subjetividade e diferenças.
O presente artigo visa ao encaminhamento de questões relativas aos discursos acerca da inclusão digital e está estruturado em quatro seções. A primeira delas compreende um conjunto de reflexões acerca do título e das palavras-chave, no contexto da temática específica. A segunda é dedicada à análise de discurso na condição de alternativa teórico-metodológica para a aproximação do objeto inclusão digital. A terceira discute o par inclusão/exclusão, questionando o pressuposto de que o primeiro elemento venha a superar o que tem sido posto como divisor digital nos vários sentidos assumidos pela expressão. Finalmente, a quarta seção sistematiza a análise da inclusão como escolha lexical em múltiplas combinações.
O presente artigo integra o quadro teórico realizado para uma pesquisa em desenvolvimento sobre políticas de inclusão digital e seus desdobramentos na educação formal. Portanto, no tocante ao método, o artigo apresenta-se como pesquisa bibliográfica. O texto busca evidenciar consistências e fragilidades, no âmbito da inclusão digital, mediante discussão centrada em dois campos conceituais: cibercultura e constituição dos sujeitos sociais; inclusão digital e empoderamento. Na argumentação, o artigo defende a ampliação do conceito de inclusão digital, que transcende a fluência tecnológica e o acesso aos recursos tecnológicos e à conexão em rede. A visão ampliada do conceito de inclusão digital ora proposta pertence ao campo mais amplo da inclusão social. Por essa razão, articula-se ao conceito freireano de empoderamento dos grupos sociais, para que estes se percebam como leitores críticos de si e de suas circunstâncias, e possam nelas intervir, com mais consciência e consistência
O objetivo deste artigo é discutir as contribuições teóricas para o debate sobre as categorias educação e pobreza. Isso é realizado a partir da ênfase colocada na teoria da justiça como equidade, formulada por John Rawls, e a teoria do reconhecimento, essa última sistematizada por Charles Taylor e, em particular, desenvolvida pelo filósofo alemão Axel Honneth. A ideia central do texto é apresentar as principais contribuições dessas duas importantes perspectivas de análise, os seus possíveis embates, convergências e limites para a discussão sobre escolarização de pessoas pobres.
Este artigo busca discutir a apropriação pedagógica de tecnologias digitais nas escolas das Ilhas Egadi, no sul da Itália, visitadas em 2012, durante o período de estágio sanduíche no exterior (Capes/PDSE). Nessas escolas, tendo em vista o contexto em que estão inseridos, alunos e professores se utilizam de tecnologias digitais para construir um processo de reconhecimento coletivo de demandas e de busca por soluções que articulem saberes locais e globais. Ao analisar essa conjuntura, compreende-se que romper com o isolamento é muito mais complexo do que colocar equipamentos digitais nas salas de aula. É preciso exercer o resgate da cultura local, tecer laços de pertença ao território, valorizar suas práticas e memórias, conectar a escola ao mundo e ancorá-la ao próprio território.
Com vistas a uma análise crítica das proposições de uma pedagogia dita empreendedora, o presente artigo tenciona trazer à baila o papel da racionalidade pedagógica moderna na constituição de determinadas formas de governo de si e dos outros, segundo as quais o indivíduo converte-se em capital de si mesmo, e sua própria vida, em ocasião de investimentos formativos ininterruptos. Elegendo Michel Foucault como interlocutor teórico principal, o estudo investiga algumas modulações do poder pastoral e da governamentalidade operadas em textoschave de Pestalozzi, Froebel, Herbart e, em especial, em Os anos de aprendizado, de Wilhelm Meister, romance de formação de Goethe. As reflexões assinalam o fato de que a modernidade pedagógica, em confluência aos preceitos do pietismo, forja um nexo indissociável entre querer, obedecer e empreender, convertendo-se em matriz de certos modos de veridicção/subjetivação correntes.
Relato de pesquisa que inicia com discussão conceitual de indicadores educacionais, sua aplicabilidade, limites e com a caracterização e exemplificação de indicadores sintéticos. Analisa a escola como espaço de utilização de indicadores educacionais a partir do caso de uma escola pública estadual que organizou, sistematizou e analisou informações, traçando um perfil de aprovação e reprovação de alunos das séries finais do ensino fundamental. Argumenta-se que os docentes em sua ação pedagógica produzem dados que, quando trabalhados constituem-se em indicadores relevantes para proporcionar à comunidade escolar uma nova visão a respeito de seu próprio trabalho e sobre a própria escola, dados que favorecem a proposição de estratégias para a melhoria da educação. Discutem-se as repercussões pedagógicas e os caminhos para avançar a democratização da escola pública, para dar sentido e fazer falar os indicadores apurados.
Neste artigo discutimos o conceito de identidade profissional à luz da literatura internacional sobre esta temática e apresentamos alguns resultados de um estudo em curso que visa compreender o modo como os alunos veem o currículo da formação inicial, com especial destaque para o lugar da prática na configuração da sua identidade profissional, bem como as suas motivações, crenças e perspetivas futuras sobre a profissão docente e sobre ser professor. O texto termina com uma reflexão sobre o desenvolvimento da identidade profissional na formação inicial de professores, nomeadamente a partir da compreensão e questionamento de crenças, valores e imagens pessoais sobre o ensino e sobre o que significa tornar-se (e ser) professor, bem como sobre o próprio processo de formação e de (re)construção de saberes, através da reflexão e da indagação em articulação com a prática.
O artigo apresenta resultados parciais de uma investigação acerca dos fundamentos dos estudos e pesquisas desenvolvidos no Brasil sobre inclusão digital na área de Educação e apresenta os fundamentos da proposição de uma agenda dessa produção acadêmica. Traz como objetivos discutir os fundamentos teórico conceituais e metodológicos, determinar o termo agenda da inclusão digital empregado neste estudo e abordar alguns dos indicadores (clusters) levantados na pesquisa macro da qual o artigo é uma das partes complementares. O método utilizado é o infométrico, aplicado no Banco de Teses e Dissertações da Capes. A análise dos dados é realizada a partir do teste sociométrico. Como resultado, o artigo indica aspectos teóricos, metodológicos e conceituais a serem analisados no desenvolvimento da pesquisa.
Este artigo apresenta o deslocamento do olhar sobre crianças e infância. Propõe-se a refletir sobre esses lugares com as imagens produzidas por elas, com elas e com o que elas apresentam. As imagens, capturadas por crianças da pré-escola, no contexto da pesquisa intitulada "As crianças e suas experiências matemáticas: em busca do que atravessa o espelho", compõem a metodologia, que se chamou de pesquisa como experiência. Refletir por meio das imagens produzidas por elas pode ser disparador para pensar a criança, a infância, e o que a partir dela toca, afeta, mobiliza o educador nesse movimento de travessias do universo infantil. Além disso, as imagens ajudam a pensar na possibilidade de uma formação docente que seja infantil, uma formação de professores da infância.
O artigo explora as mudanças que ocorrem nas instituições e com as pessoas envolvidas no processo educacional, com o afluxo maciço de tecnologias digitais a partir da implementação de uma política pública de inclusão digital, o Programa Conectar Igualdade. A abertura para os dispositivos digitais coloca, para o sistema escolar, o desafio de enfrentar a hiperconexão das práticas escolares que escapam da vigilância e transcendem os muros da instituição e as mudanças necessárias no paradigma da vida escolar. Neste trabalho olha-se para os discursos narrativos dos estudantes, das adaptações e estratégias em relação ao uso das tecnologias digitais na escola e em suas vidas diárias e na construção do imaginário sobre o mundo digital. Também são investigadas, junto aos professores, as novas práticas de ensino, a percepção do conceito de inclusão digital, seus desafios e preocupações. A pesquisa é realizada na cidade de Buenos Aires.
Neste artigo, buscou-se indicar alguns movimentos históricos e sociais que foram relevantes para a constituição da educação especializada e que possibilitaram o delineamento de um campo de intervenção em relação à infância distinguida como anormal, tanto no que diz respeito ao surgimento dos incipientes sistemas de ensino quanto à formalização de espaços destinados à abordagem clínica voltada para esse grupo. Nesse contexto, procurouse evidenciar a emergência da figura do especialista, que passa a intervir de modo decisivo nos espaços institucionais a partir de saberes, por vezes tomados como verdade, sobre esses sujeitos. A noção de discurso como forma de estabelecimento do laço social permite formalizar o modo como esses saberes produzem um lugar institucional e social para as pessoas consideradas diferentes, e discutir o quanto o percurso da educação especializada é marcado por uma alternância de significantes-mestres que tendem a cristalizar verdades sobre um sujeito que não é, em sua totalidade, passível de definição.
Este artigo busca sintetizar aspectos desenvolvidos na tese Lições de dança no baile da pós-modernidade - corpos (des)governados na mídia, expondo delineamentos pedagógicos no cenário midiático contemporâneo. A perspectiva dos Estudos Culturais em seu cruzamento com a Educação inspirou as opções teorico-metodológicas que pemitiram avançar na articulação do conceito de midiatização e de como este possibilita a operação de estratégias de construção de sujeitos e de seu governamento. Para tal entendimento foi fundamental a contribuição dos conceitos de poder e dispositivo trazidos por Michael Foucault e Gilles Deleuze. O estudo debruçou-se sobre um corpus composto por filmes, videoclipes, sites da internet, revistas, jornais, brinquedos eletrônicos, programas de televisão, entre outros. A análise permitiu perceber dez lições que se esboçam de maneira recorrente na mídia, operando na configuração de sujeitos dançantes, em políticas de gestão da vida, tanto promovendo o gerenciamento de singularidades, como a potencialização de novos modos de ser e estar no mundo contemporâneo.
O artigo trata das concepções de infâncias das estudantes de Pedagogia de uma instituição privada de ensino superior da região metropolitana de Porto Alegre. Problematizou-se na pesquisa outros modos de compreender as infâncias na formação de professores. Investigaram-se os deslocamentos e as resistências que atravessaram seus discursos sobre as infâncias, utilizando como metodologia de pesquisa uma bricolagem que faz uso de estratégia de leituras, vídeos, imagens, memórias pessoais, diário das estudantes e análise de suas discursividades para obtenção dos dados. O referencial teórico parte dos estudos de Bujes (2005), Dornelles (2010), Larrosa (2001), Marques (2013), dentre outros. Concluiu-se que os deslocamentos nas concepções de infância das alunas pesquisadas, não se deram de modo uniforme e linear, mas, diferentemente, mostraram avanços e retrocessos em seus modos de conceituar e entender as infâncias que compõem o cotidiano de seu trabalho. Entendeu-se a partir da investigação que é urgente investir "forças" no sentido de interromper o discurso moderno sobre infância no curso de Pedagogia e instigar as estudantes a produzirem "outros" modos de olhar, de pensar e lidar com as múltiplas infâncias que estão por aí
A política da educação inclusiva aparece como empenho reparador de desigualdades em uma sociedade que persegue o aperfeiçoamento das instituições democráticas. A distância entre as leis criadas para garantir essa política e a efetiva implementação delas na realidade cotidiana sugere o termo miséria ética. Neste artigo, ao contrário da tese mais comum que explora a má gerência de fatores administrativos na implementação da política inclusiva, levanta-se a hipótese de que na essência essa crise ética se deve ao predomínio da ideologia individualista neoliberal que sustenta a política inclusiva. Com base na psicanálise, explora-se o campo da palavra como fundamento para uma inclusão mais baseada no participar (inclusão política) do que no fazer parte (inclusão social).
Diante da amplitude dos fenômenos de exclusão, o presente artigo utiliza como tema os fundamentos para a vida compartilhada. A partir dos princípios e exigências de uma sociedade inclusiva, pretende estabelecer uma outra visão do patrimônio humano e social, do qual frequentemente permanecem privados os mais frágeis. O argumento explicita o alcance das discriminações permanentemente reproduzidas, revelando as violações de direitos que sofrem, dentre outros desfavorecidos ou marginalizados, aqueles marcados pela deficiência - expressão das fragilidades. Ser inclusivo não é fazer inclusão, para corrigir a posteriori os danos das iniquidades, das categorizações e dos ostracismos. É redefinir e dar novamente sentido à vida social na comunidade, admitindo que cada um de é legatário do que a sociedade tem de mais precioso.