O texto intenta investigar a categoria do “todo” no campo da educação como um conceito a ser compreendido em Nietzsche. Esse todo, no caso da educação, implica enfrentar o otimismo pedagógico que está ligado a uma supervalorização da proteção, do cuidado, do psicologismo e de processos compensatórios. Qualquer que seja a metanarrativa pedagógica, fica presente um pensamento dicotômico que sobrevive definindo opostos e estabelecendo procedimentos para abrigar uma verdade compreendida como a mais adequada. Trata-se de uma racionalidade comprometida com a redenção e o idealismo. Nega a dimensão estético-trágica do conhecimento e dos processos formativos quando absolutiza uma perspectiva e um itinerário de aprendizagem. O artigo, por meio de um teórico polêmico, visa a problematizar esta abordagem trazendo elementos para pensar a formação considerando outras variáveis tais como o rigor, a excelência, a aridez dos processos, a peleja.
O texto reflete sobre as implicações da Modernidade para a educação e, consequentemente, para a escola. É no contexto da Modernidade que se atribui à escola, enquanto instituição social, a importante tarefa da socialização das crianças e jovens mediante a construção/reconstrução dos conhecimentos que integram o legado cultural da humanidade. A avaliação nasce com a escola e adquire à luz das tarefas desta a sua legitimidade. Tanto a escola como a avaliação tem papéis vinculados à construção de um mundo humano comum. Com base numa diferenciação entre currículo e pedagogia o texto propõe duas dimensões da avaliação: uma referente à verificação do grau de aprendizagem, que compete às instâncias vinculadas à ordem política, e outra referente ao acompanhamento do processo de aprendizagem, que compete ao educador e à escola. Essas duas dimensões, mesmo que analiticamente separáveis, operam em perspectiva de interdependência e complementaridade.
Este artigo traz considerações a respeito dos aspectos envolvidos na gestão de cursos de graduação a distância. Apresenta um estudo bibliográfico que mostra características e fatores envolvidos na gestão de cursos a distância em universidades brasileiras e o fenômeno da evasão, neste contexto. As formas de acesso e permanência dos alunos em cursos desta modalidade têm-se mostrado um grande desafio para os pesquisadores e gestores das Instituições de Ensino Superior (IES). O artigo discute dimensões importantes a considerar na gestão dos cursos, quando se busca enfrentar a evasão universitária em cursos on-line, um dos fenômenos que mais atinge, preocupa e desafia essa modalidade de ensino. Conclui pela relevância da comunicação afetiva entre estudantes, professores e tutores.
La educación para la paz y para los derechos humanos en búsqueda de la verdad y la justicia es hoy una obligación ética, una necesidad social y un imperativo incuestionable en el campo de la docencia latinoamericana. Para ello es necesario articular sólidos puentes de trabajo y cooperación con la sociedad civil y con las organizaciones no gubernamentales. Es necesario revisar conceptos tradicionales, evaluar prácticas pedagógicas y elaborar proyectos desde cada uno de nuestros espacios de vida y de trabajo - partiendo de la convicción que los esfuerzos para producir transformaciones no son antagónicos sino complementarios. Este artículo intenta demostrar que la Educación para la Paz implica, en realidad, un renovado compromiso con los principios pedagógicos democráticos y un imperativo ético de asumirlos concretamente.
O objetivo deste artigo é discutir a afetividade nos processos de ensino-aprendizagem, baseando-se na perspectiva walloniana. Apresenta parte dos resultados de uma pesquisa realizada em uma escola privada, de uma cidade do interior de São Paulo. Situações de sala de aula foram videogravadas e utilizou-se o procedimento da autoscopia, que consiste em possibilitar aos alunos a observação do material filmado e gravar, em áudio, os seus comentários sobre as experiências vividas. Os resultados apontam de que forma os acontecimentos da sala de aula, de maneira especial as ações dos professores nas situações de ensino, afetam a aprendizagem dos alunos e a sua relação com os objetos de conhecimento. Os dados demonstraram que as formas de representação da afetividade transformam-se, ao longo do desenvolvimento humano, manifestando-se e nutrindo-se por vias mais refinadas e complexas, conforme sugere a teoria de desenvolvimento de Henri Wallon.
Este trabalho apresenta resultados de uma pesquisa que teve como foco concepções docentes acerca das relações entre educação e direitos humanos, na qual procurou-se identificar as possíveis relações existentes entre o tema da educação em direitos humanos e o ensino de história, na direção de estabelecer alianças entre esses dois campos. A visualização desses possíveis contatos surge da análise do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos, em suas proposições para a Educação Básica, e de concepções docentes para o ensino de história que parecem conduzi-lo a um lugar privilegiado para a realização dessas alianças.
Este artigo propõe-se a analisar as ideias de Hans-Georg Gadamer e suas contribuições para o estudo da formação docente. A perspectiva hermenêutica na compreensão da docência mostra-se relevante, pois permite a construção de horizontes interpretativos acerca de si mesmo e do outro, bem como o esclarecimento necessário sobre a produção de sentidos acerca do ser professor e do ato de educar. No campo educativo, entende-se que a formação docente pode ser pensada como uma relação hermenêutica, logo, uma relação de produção de sentidos e, desta forma, a formação de professores, como prática que compreende e interpreta, desvenda e produz sentido, estaria contribuindo para a ampliação do horizonte compreensivo acerca das relações que se estabelecem na relação pedagógica.
No presente trabalho analisamos um conjunto de textos de Walter Benjamin, escritos, em sua maioria, em meados dos anos de 1930, buscando mostrar como o tema da técnica, em sua relação como o do corpo e com a educação dos sentidos, constitui chave de leitura importante para a compreensão da análise que o filósofo berlinense empreende da modernidade. Nesses textos transparecem as tentativas de entender as ambíguas transformações que preparam a alvorada do século XX, tendo como palco privilegiado as grandes metrópoles, com seus desafios e ritmos cada vez mais acelerados. A análise que Benjamin empreende dos processos de tecnificação dos gestos e dos sentidos, produzidos pelo ritmo da produção industrial, pelo avanço da tecnologia e pela complexificação urbana das grandes cidades, está diretamente relacionada com o impacto que tais processos têm sobre a estruturação de uma nova forma social de percepção e sensibilidade, vale dizer, sobre a produção de uma subjetividade.
Este artigo analisa os diferentes sentidos que perpassam a discussão acerca da apropriação da temática dos direitos humanos no campo da educação, questionando a elaboração de políticas curriculares para a educação em direitos humanos. Problematiza a polissemia da educação em direitos humanos e a pretensa universalidade que marca direitos como humanos; a partir daí, argumenta que essa se dá como articulação da diferença e como enunciação cultural. Com balizamento nesse sentido, defende que a configuração pedagógica dos direitos humanos se dê a partir dessa negociação/articulação.
O artigo discute as transformações operadas nas formas de constituição do sujeito da prática política. Analisa as diferentes problematizações colocadas pelo welfarismo no campo dos saberes da economia e pelo comportamentalismo no campo do saber político, concernentes ao novo tipo de sujeito exigido pelo funcionamento do programa de reconstrução europeia do pós-guerra. A partir de uma abordagem foucaultiana, propõe compreender as transformações dos saberes políticos por meio das diferentes maneiras pelas quais os indivíduos tornaram-se sujeitos de uma prática política. Para isso, retoma as proposições apresentadas por John Dewey destinadas a renovar o liberalismo e a inventar um “novo liberalismo”. Semelhante ao que Keynes pretendeu em economia, o propósito de Dewey em política foi o de torná-la um conjunto de variáveis manipulável. Foi o que tornou possível a elaboração e o desenvolvimento do conceito de “sistema político” de David Easton. A partir disso, a educação começa a ser percebida como variável fortemente relacionada à democracia.
O autor parte de uma contextualização do actual estado da democracia política em muitos países ditos avançados e da astenia a que se assiste nessas democracias em termos de vivência dos direitos. A partir daqui, o autor investe na apresentação e análise de algumas concepções de democracia, com relevo para a deliberativa e a comunicativa e, também, para a democracia enquanto direitos humanos. Tendo como pano de fundo este enquadramento, o último ponto deste artigo debruça-se sobre a democracia escolar e linhas estruturantes de uma educação para os direitos humanos.
O presente artigo tem por objetivo problematizar dialeticamente o tema da diferença de acordo com os conceitos da teoria crítica. Em um primeiro momento, o tema da diferença será pensado em sua recepção negativa referida à produção de estereótipos e preconceitos de natureza étnica, racial e de gênero. Em um segundo momento, o tema será tratado em sua recepção positiva, muito comum entre movimentos sociais de esquerda e meios acadêmicos. Em um terceiro momento, ambos os tipos de recepção da diferença serão problematizados a partir do pensamento de Theodor Adorno, em sua Dialética negativa, como possível via de mediação entre a particularidade empírica e a universalidade conceitual.
O presente texto procura examinar os modos contemporâneos de constituição da docência no Ensino Médio. O eixo da investigação esteve centrado em examinar como determinadas economias de poder que operam nesse processo, enfatizadas pela centralidade dos saberes tecnocientíficos e pelas dinâmicas políticas do capitalismo cognitivo, constituem determinadas estratégias de governamento das condutas dos docentes contemporâneos no Ensino Médio. A revista Carta na Escola, em suas publicações desenvolvidas entre os anos de 2005 e 2010, foi a materialidade empírica escolhida para este estudo. Do ponto de vista teórico, operamos com o conceito foucaultiano de governamentalidade, tomando-o como possibilidade de interrogar as economias de poder, que regulam determinadas práticas. A constituição da docência descrita neste texto parte da perspectiva de que, desde a disposição de um conjunto de saberes pedagógicos e a mobilização de um conjunto de estratégias, a inovação é posicionada como uma atitude pedagógica permanente. Para tanto, entendemos que três estratégias são mobilizadas na constituição dessa docência inovadora: a) o privilégio da atualidade; b) o desafio da inventividade; c) a atitude da determinação voluntariosa.
Desde a Modernidade, o risco vem sendo um componente de crescente importância na organização social. O objetivo deste artigo é mostrar que a Educação Básica no Brasil vem sendo convocada a participar na produção de sujeitos voltados para a gestão individual de riscos, de acordo com a racionalidade atual. Para isso, o artigo mostra que o modo de gerir o risco por meio de mecanismos coletivos, coordenados pelo Estado, que surge no século XIX e avança até finais do século XX, vem sendo gradativamente substituído por um entendimento de que cada um deva tornar-se responsável por lidar com seus riscos de modo individual. A partir dessas teorizações, e tomando como material empírico artigos acadêmicos publicados no Brasil, o artigo mostra que hoje vêm sendo propostas diversas novas temáticas para os currículos que têm em comum o fato de estarem, na maioria das vezes, ligadas de algum modo à noção de risco. As análises desenvolvidas desdobram-se em três eixos - saúde, renda e coletividade - e permitem compreender a existência de uma confluência de fatores para configurar as escolas em produtoras de sujeitos prudentes, conhecedores dos vários riscos a que estão expostos e capazes de agirem para minimizá-los.
O discurso atual sobre Direitos Humanos está marcado pela ambivalência. Proclamados e negados constituem um referente considerado fundamental para a construção democrática. Cresce a convicção de que se eles não forem internalizados nas mentalidades individuais e coletivas não construiremos uma cultura dos Direitos Humanos na nossa sociedade. E, neste horizonte, os processos educacionais são fundamentais. O presente trabalho se situa na contexto da pesquisa “Educação em Direitos Humanos na América Latina e no Brasil: gênese histórica e realidade atual”. O nosso foco principal é nos diferentes significados da expressão educação em Direitos Humanos e nos desafios que apresenta para a formação de educadores. Defende a tese de que nesta perspectiva é imprescindível desenvolver processos que permitam articular diferentes dimensões, assim como utilizar estratégias pedagógicas participativas e de construção coletiva que favoreçam educar em Direitos Humanos.
A educação em direitos humanos (EDH) vem avançando nas últimas décadas, em vários países, seguindo as diretrizes internacionais para a área. No Brasil, a partir do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH, 2003) um conjunto de ações no ensino formal foi sendo desenvolvido. Em 2010 a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do MEC e a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República apoiaram as Secretarias Estaduais de Educação no desenvolvimento de Planos de Ação de Educação em Direitos Humanos. A análise dessa realidade e o acompanhamento das ações propostas são fundamentais para a ampliação e/ou reorientação desse trabalho, de forma a contribuir para que a EDH se institucionalize enquanto política pública. Este artigo discute os avanços e as limitações da EDH no Brasil, a partir de seu contexto, de seu processo de desenvolvimento, com base na literatura da área, análise documental do PNEDH e dos Planos de Ação.
En el artículo se analiza la constitución de algunos saberes, nociones, conceptos y prácticas en el campo del saber pedagógico y como producto de la preocupación por el gobierno de sí y de los otros. Tal situación es presentada como evidencia para explicar que el gobierno encontró en las prácticas pedagógicas (enseñanza, instrucción, educación, formación, aprendizaje) su principal - y quizás - su más eficiente forma de despliegue. Son señalados dos momentos: 1) la emergencia, entre los siglos XVI y XVII, de la Didáctica como saber y con ella de nociones como instrucción y enseñanza, que expresan una forma de pensar el gobierno de los individuos y las poblaciones como parte del despliegue de un conjunto de dispositivos de gobierno de énfasis disciplinario; 2) la emergencia, entre los siglos XVIII y XIX, de la noción “educación” en los discursos pedagógicos vinculada al desplazamiento de énfasis de los dispositivos de disciplinarios hacia los dispositivos de gobierno liberales. Así, los análisis realizados por Foucault usando la noción gubernamentalidad y, que sirven como herramienta metodológica en este estudio, remiten claramente un conjunto de prácticas y saberes pedagógicos de los cuales él no se ocupó y que el presente análisis intenta describir.
Este artigo tem como objetivo discutir e problematizar a aprendizagem dos jovens na sociedade do entretenimento, bem como analisar os possíveis desafios para a formação docente em uma sociedade mediada por tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIC). A centralidade do lazer e do entretenimento na vida contemporânea reconfigura as estratégias de ensino e aprendizagem escolares. Entretanto, a escola, por ser lugar de tradição e de aprendizagem sistematizada, encontra dificuldades para enfrentar este problema, já que existem obstáculos para a formação superior inicial de professores, em uma perspectiva de incorporação de diferentes linguagens midiáticas neste processo. Por fim, o texto procura explorar caminhos possíveis para estas práticas formativas, sob o risco de sua ausência aumentar a fragilidade da escola frente às transformações oriundas das TDIC.
O artigo apresenta a noção de corporeidade, relacionando-a as dimensões da agência, da diferença sexual e do adoecimento. O autor parte da antropologia fenomenológica para realizar o que denomina de uma fenomenologia cultural do Self. Contrasta uma noção de corpo enquanto objeto material à corporeidade como carne compartilhada, mutuamente implicada e nunca completamente anônima que ressignifica o corpo como fonte da existência e local da experiência no mundo. O artigo constrói um esquema das relações corpo-mundo e suas implicações para o conceito de corporeidade. Para isto articula a noção de agência desde Merleau-Ponty, Bourdieu e Foucault; a diferença sexual desde as teorias feministas em Luce Irigaray, Julia Kristeva e Maxine Sheets- Johnstone. Na seção final completa o esquema com uma discussão sobre três doenças - membro fantasma, fadiga crônica e doença ambiental - como ilustração de diferentes dinâmicas da corporeidade.
Ancorado nos pressupostos da história cultural, o presente texto versa sobre um tipo de impresso protestante: o catecismo. Com vistas a analisar a materialidade e evidenciar os valores difundidos nos impressos, elegemos como objeto de análise os catecismos, a saber: Breve catechismo (1892), O breve catecismo (1927) e Cartilha com estampas (s.d.). O aporte teórico está pautado em Robert Darnton (1990), Roger Chartier (1998) e Carlo Ginzburg (1979), os quais discorrem acerca da circulação de impressos, das práticas de leitura e do conceito de circularidade cultural. Os catecismos protestantes foram utilizados como instrumentos pedagógicos pelos presbiterianos norte-americanos no Brasil dos oitocentos e funcionaram como um instrumento prescritivo de inculcação de hábitos e valores que deveriam ser externados através de atitudes e comportamentos, demonstrando o caráter cristão.