Este estudo descreve uma pesquisa qualitativa realizada em uma escola da rede pública de ensino de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, tendo como foco os discursos de crianças sobre as bonecas princesas da Disney. O objetivo é compreender como esse grupo de crianças abordou a identidade de gênero e as diferenças culturais representadas por essas personagens. As princesas apresentam um modelo de identidade e comportamento de gênero a ser seguido pelas crianças em filmes, jogos, livros e bonecas. Quando as crianças brincaram com essas bonecas, confirmaram, desafiaram e transformaram a pedagogia de gênero ensinada por essas personagens, que assumiram papéis de liderança nas brincadeiras entre pares na sala de aula. A oportunidade de brincar e refletir sobre esses brinquedos permitiu novas possibilidades de pensar modos distintos de subjetivação.
Este artigo é uma síntese do resultado da pesquisa de mestrado realizada no período de 2010 a 2012 na Faculdade de Educação da Universidade de Brasília - FE/UnB. Essa investigação buscou construir um possível itinerário formativo dialogando com duas modalidades de ensino, a Educação de Jovens e Adultos, a Educação Profissional, e a Transiarte. A metodologia adotada foi a pesquisa-ação, baseada em Barbier (2007) e Thiollent (2007). A partir das significações e indicações dos sujeitos-estudantes da Educação de Jovens e Adultos, que vivenciaram o Projeto Proeja Transiarte - UnB, construiu-se, em primeira aproximação, uma proposta de itinerário formativo, tendo como curso inicial, o Proeja Formação Inicial e Continuada em Arte Digital Básico.
A comunidade surda vem sendo frequentemente entendida como um espaço de segurança no qual a diferença surda pode ser vivida com confiabilidade e acolhimento. O objetivo deste artigo é compreender como a comunidade surda se organiza e chega a ser narrada como tal. Partiu-se de estudos de vertente pós-estruturalista para analisar a materialidade produzida para esta pesquisa. Foram realizadas entrevistas com professores e alunos surdos, integrantes de escolas específicas para surdos e participantes ativos dos movimentos comunitários. Com a análise da materialidade, discutiu-se que pertencer a uma comunidade implica vincular-se a um código de convívio que se forja a partir de uma intencionalidade comum. No caso da comunidade surda, a referência que pauta a sua organização é o que se convencionou chamar de artefatos culturais do povo surdo. Entretanto, a relação de pertencimento à comunidade pode ser delimitada pelo quanto cada sujeito pode/deseja mover-se pela sua lei. Vê-se, assim, que o agrupamento comunitário agrega muitos elementos além do simples sentimento de ser surdo, justificado unicamente pelo compartilhamento da mesma cultura.
Este artigo discute como a dimensão relacional está presente entre professores formadores dos cursos de licenciatura e seus estudantes, bem como a influência no processo de ensino e aprendizagem para a constituição da profissionalidade docente dos futuros professores. Para coleta de dados utilizou-se a entrevista semiestruturada, com 40 egressos de oito licenciaturas de uma universidade do Sul do país. Os autores que fundamentaram teoricamente a pesquisa foram os seguintes: Almeida e Biajone (2007), Roldão (2007), Placco (2002) e Imbernon (2004). Os dados indicaram que o aspecto relacional é influenciador da constituição profissional docente, mas que não se pode desvincular das questões didático-pedagógicas. Os egressos também revelaram que recorrem às práticas e modelos de ensino do professor formador para realização do seu trabalho docente.
Este estudo investiga fragmentos de memórias sobre as práticas pedagógicas da professora Maria Gersy Höher Thiesen, primeira professora do pioneiro jardim da infância "GetúlioVargas", implantado em 1942, na região de Lomba Grande, espaço rural de Novo Hamburgo/RS. A pesquisa, de natureza qualitativa, utiliza a metodologia da História Oral, valendo-se de entrevistas semi-estruturadas sob o referencial teórico da História Cultural. A análise enfatiza as práticas de escolarização, focalizando como foram seus primeiros tempos de professora e a dimensão das memórias das práticas pedagógicas desenvolvidas no jardim de infância. Destaca-se no conjunto de análise que mesmo à margem da cidade, em Novo Hamburgo/RS, na década de 1940, em Lomba Grande havia um jardim de infância e que as práticas estabelecidas por esta professora não se diferenciavam muito das metodologias usuais deste período. Constatou-se ainda a influência que a corrente pedagógica desta época impregnada pelo nacionalismo e o sentido vocacional como característica de sua prática docente.
Neste texto, trata-se da nova condição dos professores dos anos iniciais da educação básica no que se refere à aplicação da Lei no. 11.769/2008, que trata da obrigatoriedade do ensino de música. Para amparar a discussão, é feita uma revisão das grandes transformações ocorridas no mundo, em especial a do século XIX e aquela que vivemos, desde o século XX até os dias atuais. Essas mudanças seguem padrões das chamadas Modernidade e Pós-modernidade e afetam profundamente a maneira de conceber a educação e, especificamente, a educação musical. Dessa discussão, emerge nova postura diante da música, destacando-se seu papel no mundo de hoje, que se afasta da concepção exclusiva dessa arte como lazer e diversão e a vê como responsável pelo desenvolvimento humano e fomentadora da autonomia e liberdade. Sugerem-se, também, maneiras possíveis de tornar a música presente em sala de aula, tanto em jogos e brincadeiras cantadas, quanto como auxiliar de outras disciplinas curriculares. O artigo termina com um convite aos professores, para que acolham a música em suas vidas e decidam compartilhá-la com seus alunos.
O artigo tem por base a análise da questão agrária brasileira, a partir da qual são expostas e analisadas diferentes e mesmo opostas perspectivas de apreender a chamada Educação do Campo. Considerando ainda as políticas do Estado e as teses defendidas tanto pelos integrantes do Movimento de Educação do Campo quanto pela academia, demonstra-se a existência de pelo menos três concepções de Educação do Campo, concluindo pela expansão e hegemonização da perspectiva ditada pelo capital, via Estado. Esta hegemonia realiza-se em sintonia com o predomínio da forma capitalista de produção e ainda pela apropriação e deturpação das propostas outras do Movimento pela Educação do Campo que apontam para além da ordem social atual.
O presente ensaio busca percorrer os caminhos do processo de ensino e aprendizagem da Pedagogia da Alternância tendo como referência a Educação do Campo na perspectiva da luta por uma educação no, do e com os sujeitos do campo, compreendendo este campo como espaço de vivências e relações específicas para a ação educativa. Apresenta a Pedagogia da Alternância na especificidade do Movimento CEFFA e como possibilidade para uma educação contextualizada e emergente do povo camponês, vinculada a movimentos sociais desde sua origem na França nos anos 30 e, em 1968 no Brasil, em comunhão com articulações educacionais e sociais populares. Busca aproximações conceituais da práxis da Pedagogia da Alternância a fim de perceber as singularidades das aprendizagens fortalecidas no movimento alternado potencializado por uma organização pedagógica embasada no diálogo problematizador de Paulo Freire, como também, na partilha e na horizontalidade de saberes
O novo milênio expressa múltiplas experiências de resistências na América Latina, oriundas da ação política de movimentos sociais indígenas, camponeses e afrodescendentes, que primam por consolidar projetos políticos de caráter emancipatório. No âmbito destes projetos, a educação emerge como uma categoria fundamental, compreendida como espaço de que se derivam outras linguagens que ressignificam o político, o social e o cultural na correlação de forças entre sociedade civil e Estado. O presente escrito objetiva aprofundar esta reflexão com a experiência da Educação do Campo como projeto histórico-político protagonizado pelos movimentos sociais camponeses no Brasil. Para tanto, serão destacadas as dimensões epistêmico-políticas da Educação do Campo e sua articulação com uma leitura histórico- crítica da realidade do campo no Brasil, fundamental na gênese de uma outra episteme e de uma nova cultura política entre os sujeitos do campo. Igualmente, serão demostrados os pontos de inflexão da Educação do Campo no contexto da luta política latino-americana.
Este texto apresenta uma reflexão acerca da formação do educador, mediada pelo uso das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC´s), com enfoque nas discussões realizadas nas reuniões anuais da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPED). Para tal, buscou-se evidenciar como as TIC´s são contempladas nos Grupos de Trabalho Formação de Educadores (GT8), Currículo (GT12) e Educação, Comunicação e Tecnologia (GT 16), entre a 32ª e 35ª reuniões (2009 a 2012). A partir de um recorte desses trabalhos, constata-se que a disseminação do uso das TIC´s encontra maior concentração no GT16, que focaliza a importância da formação docente para a apropriação das TIC´s no processo de aprender e ensinar. Entende-se que a vivência de experiências de aprendizagem com o uso das TIC´s, no processo de formação do educador, é uma condição necessária para que este desenvolva competências e habilidades que permitam construir práticas pedagógicas em congruência com estas tecnologias.
Este texto é um relato reflexivo sobre as ações e conceitos presentes no projeto de Extensão "Serelepe: uma pitada de música infantil". Ele é pautado na prática de oito anos de experiência na Rádio UFMG Educativa FM 104,5 e no curso de Graduação em Teatro da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais - EBA/UFMG. Dentre os vários temas presentes nas práticas do Serelepe, abordaremos de modo geral os seguintes itens: o Serelepe, sua concepção e seus fazeres - programa de rádio, espetáculo, oficina e disciplina, a bolsa de extensão e tangenciaremos, de forma sucinta, uma reflexão no conceito de "ação formativa" presente nessas práticas.
O artigo apresenta resultados parciais de uma análise crítica de canções coletadas em uma escola infantil estadual, localizada na região metropolitana de Lima. A partir da consideração das canções como discursos, revela a função das mesmas na educação infantil. Também apresenta análises de dados sobre as canções religiosas e das canções como formas de regulação da conduta de crianças, coletadas no trabalho de campo. A análise evidencia o uso instrumental das canções na prática educativa cotidiana, chegando a constituir-se como ferramentas de controle simbólico ao constituir uma forma mascarada de exercer poder sobre as crianças.
Como alicerce para a aproximação da escola como um mundo de possibilidades encontradas na realidade, a música é um dos instrumentos de eficácia pedagógica nos processos de ensino e aprendizagem contemporâneos. Com base nesse pressuposto, o presente artigo busca analisar as possibilidades de utilização de músicas em sala de aula e seu potencial para o desenvolvimento de habilidades e competências nas Ciências Humanas. Para tal, sugere-se um conjunto de atividades para serem aplicadas nas aulas de Geografia e História a partir da contextualização de letras de músicas relacionadas a temas das humanidades, buscando assim a criação de situações diferenciadas de aprendizagem e construção do conhecimento.
Este estudo trata de uma investigação realizada com professores de uma escola da rede pública, localizada no campo, município de Água Boa, Mato Grosso, com a intenção de buscar novas alternativas para a prática de ensino na escola, por meio da realização colaborativa de projetos e pesquisa como alternativa pedagógica. De abordagem qualitativa, a investigação desenvolveu-se por meio do estudo de referenciais que discutem a pesquisa na formação e prática docente, Educação no/do Campo e da realização de projetos de ensino e pesquisas com e pelos professores. O trabalho possibilitou estreitar as relações entre a escola e a comunidade, articular os conhecimentos teóricos estudados na escola e a vida dos alunos do campo, apontando a necessidade da formação teórico-metodológica com envolvimento coletivo dos docentes e políticas públicas que favoreçam o surgimento de condições para novas práticas de ensino na escola no/do campo pelo viés da pesquisa.
Trazemos à discussão a política da Educação do Campo realizada a partir da ação do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária - PRONERA (vinculado ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - INCRA e ao Ministério do Desenvolvimento Agrário - MDA) e da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão - SECADI (vinculada ao Ministério da Educação - MEC), ambos situados na esfera da União e incidindo sob a política de estados e municípios. Destacamos tensões e desafios colocados nas ações locais, evidenciando a experiência do Estado do Piauí. Levamos em consideração que a partir da Constituição Federal de 1988, os municípios brasileiros foram instituídos como entes federados, com atribuição de promover, preferencialmente, o Ensino Fundamental e a Educação Infantil e, pela Lei 9.394 de 1996, devem também criar os seus Sistemas Municipais de Educação - SMEs; tais processos são analisados à luz de desafios suscitados no contexto da política de Educação do Campo.
O artigo debate a Educação do Campo sob a perspectiva do empresariado, do Estado e dos movimentos sociais. Demonstra que a relação entre as orientações dos organismos multilaterais para as políticas educacionais estão presentes na educação do campo. Uma via é a intervenção do empresariado agrícola nas escolas por meio do trabalho voluntário, projetos de ONGs, oferecimento de vagas por isenção fiscal, além do PRONATEC formado pelo sistema S, evidenciando as parcerias público-privadas. Outra via são as políticas de educação do campo, como o PROCAMPO, o PRONATEC e o Transporte Escolar, que ocorrem por programas e editais de forma descontínua, fragmentada e pragmática. A perspectiva dos movimentos sociais é de resistência e de construção de uma educação diferenciada pelo corte de classe. Porém, a partir das contradições vividas na sociedade capitalista, acabam por pactuar e consensuar pela necessidade de acesso à escola e formação de professores.
Este artigo objetiva apresentar reflexões acerca de parte relevante da história da Educação do Campo a partir da conquista de duas políticas específicas de formação de educadores: o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária, vinculado ao Ministério do Desenvolvimento Agrário, e o Programa de Apoio à Formação Superior em Licenciatura em Educação do Campo, vinculado ao Ministério da Educação. Faz, inicialmente, um rápido resgate histórico da formação de professores na perspectiva da educação rural, apresentando, após, os principais aspectos que integram formação de educadores a partir do Movimento da Educação do Campo. Na sequência, são expostas as estratégias de execução dos dois Programas citados, cuja materialidade de origem vincula-se à luta pela terra e pela permanência dos camponeses nela, aliando-se a esta luta novas práticas formativas de educadores do campo. Conclui-se apresentando alguns desafios a serem enfrentados para potencializar os resultados dessas políticas específicas de formação de educadores, a partir dos principais objetivos do Movimento de Educação do Campo.
O artigo aborda a relação entre trabalho na agricultura, na pesca, na pecuária ou na coleta, e a educação rural oferecida às populações camponesas, que rompe com esta relação e, deste modo, fortalece a separação entre cidade e campo, indispensável à sustentação do modo capitalista de produção. Pela grade curricular comum o Estado subordina a educação rural às mesmas diretrizes que normatizam a educação urbana, funcionando como um instrumento de controle das populações rurais e da ocupação da terra, meio essencial de produção. Nesse processo, a educação rural promove a expropriação dos saberes práticos do trabalho camponês, abrindo-se um caminho à expropriação da terra.
O ensaio aborda a intimidade entre as dimensões estética e poética da linguagem no contexto da creche para propor uma escuta fenomenológica dos encontros entre adultos e bebês com a experiência da música como ação lúdica do corpo expressivo no mundo. Ao considerar que sem estética a vida carece de sabor assim como sem poética carece de sentido, parte da compreensão merleaupontiana do corpo sensível como fonte primeira de significação para afirmar a inseparabilidade entre sensível e inteligível na ação de aprender a co-existir. A intenção educacional é reivindicar outra racionalidade para resistir à tendência simplificadora nos encontros entre adultos e bebês com a pluralidade nos modos de interagir em linguagem. Para tanto, pensa o acontecimento estético e poético - no sentido dos termos aisthesis e poiésis - do vínculo da sonoridade e do silêncio com a vida tomando como ponto de partida reflexivo não o que o bebê faz e sim como vivencia o que faz nos encontros musicais na creche. O estudo permite afirmar a potência vital e lúdica do corpo expressivo sentir a si próprio e ao mundo na pluralidade dos modos de estar em linguagem que dinamizam a vida cotidiana do agir, produzir, criar, fazer.
Objetiva-se neste artigo compreender como a Escola Itinerante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST, diante da complexa atualidade apresentada no mundo do trabalho e suas múltiplas influências sobre a educação escolar, associa às contradições expressas na realidade para acumular conhecimentos e incorporar o trabalho como referência no processo educativo. Dessa forma, a pesquisa apresenta uma análise desta prática de Educação do Campo no ano de 2012, a partir de entrevistas com educadores do MST e pesquisa de campo na Escola Itinerante. A análise demonstra uma notável relevância de suas práticas pedagógicas que propõem articular o trabalho humano aos conhecimentos escolares. Compreende-se que frente as limitações presentes, essas práticas demonstram iniciativas fecundas rumo à construção de uma nova forma de organização do trabalho didático-pedagógico, apresentando possibilidades de forjar táticas e estratégias na construção de uma pedagogia voltada para emancipação humana.