Resumo O artigo apresenta uma discussão dos resultados obtidos em uma pesquisa sobre o universo emocional dos adolescentes e tem como objetivo investigar os eventos desencadeantes da emoção da raiva e seus impactos para as relações escolares. O estudo é de natureza qualitativa e contou com a participação de 526 estudantes do Ensino Fundamental da rede pública. Os dados foram obtidos mediante a aplicação de um questionário aberto e analisados considerando os pressupostos da teoria fundamentada de Charmaz (2009), dialogando com as contribuições teóricas de Navas e Bozal (2012), Bisquerra (2014), Mira y Lopez (2012) e Arándiga e Tortosa (2003). Os resultados indicam que a ausência de regulação emocional da raiva dos adolescentes, modifica a natureza protetora daquela emoção, alimentando comportamentos agressivos. Além disso, identificou-se a criação de scripts mentais que favorecem a construção de um habitus escolar que produz e reproduz respostas agressivas no âmbito escolar.
Resumo O presente artigo analisa as relações de sociabilidade e de discriminação dos adolescentes-juvenis em suas vivências em grupo na escola de Ensino Médio em diferentes dimensões. Busca, ainda, compreender como lidam com as diferenças. Nossas análises advêm das observações, questionários, entrevistas e grupos de discussão realizados com 184 adolescentes-juvenis de uma escola pública de Belém do Pará. A partir de nossa interlocução com os estudantes acionamos os conceitos de representação, hierarquia e socialização, os quais nos permitiram compreender que, a despeito da sociabilidade havida, a discriminação se presentifica. Parece haver um descompasso entre o que a escola se propõe a ensinar e o que os estudantes, efetivamente, aprendem, porque o processo de formação dos mesmos não se restringe aos limites da sala de aula, mas espraia-se para além dela.
Resumo O texto integra estudos bibliográficos que vêm sendo realizados com o objetivo de aproximar o pensamento de Paulo Freire com outros autores e autoras, tendo em vista a recriação de seu pensamento diante dos desafios da contemporaneidade. Faz parte da produção oriunda de um percurso de investigação continuada, em momentos distintos e complementares, no que se refere à aproximação do pensamento do autor com outras referências no campo da Pedagogia crítica. O parentesco intelectual entre Paulo Reglus Neves Freire e Boaventura de Sousa Santos é argumentado em função de suas convergências e complementaridades, apresentando, neste trabalho, conceitos que expressam proximidades entre os autores no que se refere à direção e ao sentido contra-hegemônico do pensamento de ambos. Sulear as práticas é uma expressão que resulta do estudo realizado, sugerida como orientação para fundamentar a formação de educadores e educadoras na perspectiva da constituição de práticas educativas emancipatórias.
Resumo: Este artigo problematiza a dimensão epistemológica que sustenta a proposta da Base Nacional Comum Curricular. Para isso, discute as concepções de competências e de conhecimento que são apresentadas no documento do MEC, explorando o conceito de Economia do Conhecimento como matriz da proposta curricular. Isso possibilita estruturar e compreender a concepção curricular que se deseja implantar nas escolas brasileiras. A conclusão foi de que todo aparato discursivo de direito ao ensino não faz mais do que constituir a competitividade como fundamento da educação. O empobrecimento do conhecimento, reduzido a mera competência, não opera para a vida qualificada pela cultura, mas para o produtivismo econômico, pois toda uma dimensão ética e estética é alijada do processo educacional.
Resumo O artigo analisou o movimento educacional carioca denominado Cruzada Pedagógica pela Escola Nova, liderado pelo intelectual católico Everardo Backheuser, no âmbito da reforma estadual de ensino do Rio de Janeiro, sob a administração de Fernando de Azevedo, em fins dos anos de 1920.O estudo se propôs a compreender os níveis de adesão e autonomia registrados pelo movimento, especialmente relacionados com as políticas estabelecidas pela reforma de ensino supracitada. A pesquisa, fundamentada nas noções de rede de intelectuais, conexões e suportes de cultura, examinou a articulação de professores primários a partir de teses católicas expressas em documentos pontifícios, na literatura especializada e na imprensa periódica. Os resultados indicam que círculos do magistério público, sob a liderança de Backheuser, apostaram na efetivação de um ethos urbano-católico capaz de orientar as ações escolares em tempos de intenso debate educacional.
Resumo: Este artigo analisa a concepção de educação na Confissão de Fé de Westminster, documento redigido na Abadia de Westminster, na Inglaterra, em 1647. O texto foi elaborado por teólogos calvinistas e serviu como manual doutrinal e confessional da Igreja Reformada. As confissões de fé são típicas da Modernidade na Europa Ocidental e surgiram no contexto do nascimento dos Estados modernos e das novas denominações cristãs, que, por sua vez, estiveram diretamente relacionados com os processos de confessionalização vividos pela religião cristã na Europa Ocidental nos séculos XVI e XVII. Trata-se de um documento amplamente utilizado pelas igrejas de orientação calvinista, e suas propostas educacionais, estratégias pedagógicas e concepção de educação tiveram larga influência nas regiões onde foi utilizado.
Resumo Este artigo tem por objetivo discutir aspectos relativos a um projeto formativo na perspectiva da teoria histórico-cultural, envolvendo professores e futuros professores da Educação Básica que ensinam matemática e estudantes de pós-graduação. Constituiu-se a partir de uma pesquisa realizada no âmbito de um projeto financiado pelo Observatório da Educação/INEP/CAPES/Brasil. As análises dos dados mostram que, ao participar de um projeto formativo, os professores da Educação Básica se tornam autores de atividades de ensino, pois adquirem autonomia didático-pedagógica, rompendo com a falsa ideia de que podem ser considerados meros executores de propostas pensadas, única e exclusivamente, por especialistas da universidade. O projeto formativo também propiciou aos professores a aquisição de um modo geral de organização do ensino, em uma perspectiva humanizadora, a elaboração, a implementação e a avaliação de atividade de ensino como movimentos que os convidam a participar engajados no projeto.
Resumo A cosmopolítica, como uma forma crítica do cosmopolitismo, está crescendo como uma alternativa às lutas identitárias. Trata-se de uma alternativa que só será viável se os indivíduos se entenderem como selfs dialógicos. As entrevistas etnográficas realizadas com muçulmanos e cristãos, de diferentes gerações, forneceram insights sobre suas noções de personhood. Verificam-se noções inovadoras de pessoa diante da nova situação da cosmopolítica em ambientes urbanos. A noção tradicional de “pessoa plena” pode ser diferenciada da de “pessoas parciais”, subjacente às visões do self dialógico. No texto, é delineada a produtividade para os campos educacional e social do uso do conceito de “pessoa parcial”. A pesquisa qualitativa sobre a percepção da pessoa como “pessoa parcial” abre possibilidades para uma apreciação da abordagem dialógica do self, especialmente no contexto de uma humanidade cada vez mais urbanizada. Em oposição a esse cenário, a cosmopolítica volta a ser discutida como uma possível via para a sociedade global.
Resumo Este artigo propõe-se a analisar a crítica dos pedagogos jesuítas portugueses publicada em duas dezenas de artigos na Revista Brotéria nas décadas de 1930 e 1940. O movimento da Escola Nova foi observado por pedagogos e filósofos da educação da Companhia de Jesus, nomeadamente Paulo Durão, José Gomes Braz e Costa Lima, que estudaram a teoria e os pressupostos desse movimento pedagógico valorizando os aspetos que coincidiam com os valores da pedagogia inaciana e criticando opções e práticas pedagógicas opostas aos princípios educativos da doutrina católica vigente. Mormente sua neutralidade religiosa e apropriação de “agremiações laicas”, que, alegadamente, estariam a instrumentalizar ideologicamente esse movimento educativo, para distanciar-se, ou mesmo opor-se, à chamada educação de inspiração católica. Procuramos refletir de maneira crítica sobre a evolução do pensamento jesuíta expresso na Revista Bortéria com relação à difusão da Escola Nova em Portugal no contexto do Estado Novo e salientar a tentativa de diálogo entre os articulistas pedagogos jesuítas e esse movimento que contribui para diversificar os ideários e metodologias pedagógicas implementadas no país.
Resumo: O texto discute o processo de inclusão de estudantes universitários com deficiência no âmbito de uma instituição de educação pública superior brasileira, bem como acena para algumas possibilidades de políticas públicas que a universidade expõe nesse processo. Para isso, procedeu-se à remontagem histórica em torno da adoção de políticas inclusivas, bem como à utilização de questionários e entrevistas semiestruturadas junto a alguns desses estudantes universitários. Os resultados apontam que, por vezes, a “inclusão” confunde-se com a garantia de vaga e/ou acesso à universidade, não avançando para além disso. Acentua-se também o relativo desconhecimento dos participantes a respeito da legislação, assim como das políticas que regem ou direcionam a inclusão de pessoas com deficiência. Como conclusões, constatam-se a incerteza quanto ao lugar reservado aos alunos portadores de deficiência no ensino superior, bem como o desafio de consolidar o processo de inclusão educacional.
Resumo O artigo2 apresenta resultados de uma pesquisa com um grupo de estudantes concluintes de um curso de licenciatura em dança que buscou investigar o que prevalece como didática nos cursos de formação de professores. O estudo orientou-se pelos objetivos de analisar conhecimentos sobre a docência construídos por meio do estudo de didática por futuros professores, assim como as contribuições da formação em didática para o processo de constituição dos saberes profissionais docentes. O quadro teórico foi construído a partir de três eixos conceituais: (i) sobre o ensino enquanto especificidade profissional docente, com base em Roldão; (ii) sobre a base de conhecimento profissional docente a partir do que propõem alguns autores, entre os quais Gauthier; (iii) sobre concepções de formação de professores segundo Cochran-Smith e Lytle. Para a obtenção dos dados, foi aplicado um questionário e foram realizados grupos de discussão. Três eixos de análise sumarizam os resultados, a saber: (i) O que se ensina em didática? (ii) Como se ensina em didática? (iii) Que nível de importância se atribui à interferência do professor formador? Os resultados apontam que o ensino de didática, embora pareça superar a tendência prescritiva, trata de temas importantes à compreensão do processo de ensino, porém, com pouco investimento no reconhecimento do ensino enquanto ação especializada e na necessidade de construção da base de conhecimento profissional docente, fazendo prevalecer uma formação para a prática, com ênfase aplicacionista.
Resumo O objetivo deste artigo é analisar as reformas educacionais realizadas em Portugal, a partir da década de 1990, e sua operacionalização no sentido de ampliar a precarização do trabalho docente. Desde o final da década de 1980, época da entrada de Portugal na Comunidade Econômica Europeia, sob as diretrizes dos acordos firmados com o Fundo Monetário Internacional e, consequentemente, das privatizações, a implantação de uma série de reformas político-econômicas e trabalhistas desencadeou a ampliação do trabalho precário. Para efeito de análise, privilegiamos dois elementos que constituem o trabalho precário da categoria docente: as formas flexíveis de contratação e o arrocho salarial. Neste estudo, utilizamos a pesquisa bibliográfica, documental e entrevistas semiestruturadas. Constatamos que, nos últimos 27 anos, a aplicação de várias legislações contribuiu para a ampliação do trabalho precário dos docentes portugueses, em especial em relação aos contratos temporários e aos cortes salariais.
Resumo O presente estudo tem por objetivo resgatar o processo histórico de inserção da educação nas instituições prisionais brasileiras desde a fundação da primeira Casa de Correção da Corte, no Rio de Janeiro, até a publicação das últimas diretrizes legais que normatizam o ensino escolar em espaços de privação e restrição de liberdade. Para tanto, utilizou-se do método de revisão teórica e da consulta de leis históricas brasileiras para contemplar os objetivos propostos. Os resultados apontam cinco períodos significativos na história da educação escolar em instituições prisionais: o período imperial, o governo de Juscelino Kubitschek, a Ditadura Militar, a Constituição de 1988 e o período contemporâneo, que marca o início do presente século. Ao longo da história, a educação passou de religiosa à técnica, de técnica à obrigatória e de obrigatória a um direito constituído.
Resumo: A autoridade docente é, muitas vezes, confundida com a ideia de autoritarismo e de rigidez no espaço escolar. Porém, o rigor nas práticas pedagógicas disciplinares é uma escolha pedagógica do educador comprometido com a pedagogia libertadora. A partir da perspectiva freireana, este texto é resultante de uma pesquisa que, de caráter qualitativo, a partir de um estudo de caso, teve como objetivo conhecer e compreender as práticas e saberes de uma professora acerca dos processos de construção de sua autoridade e da autonomia dos estudantes. A partir de entrevistas semiestruturadas, observações participantes e análise de documentos oficiais/escolares, apresentou como resultados a necessária articulação dos conceitos de autoridade e autonomia, a importância das práticas de autoridade docente para a construção da autonomia dos estudantes e as dificuldades da instituição escolar para o trabalho com essa problemática, tendo em vista os conceitos de autoridade e autonomia.
Resumo: O artigo analisa a representação mental do conhecimento por cegos congênitos e adquiridos, a partir de conceitos geográficos, com o objetivo de compreender como os cegos processam informações e se utilizam de outros sentidos quando estimulados a conceituar objetos e fenômenos sobre os quais possuem noções. A investigação revela que a experiência de vida dos cegos adquiridos, ampliada pela visão temporária, oportunizou o estabelecimento de conexões mais avançadas em relação aos congênitos. Portanto, a condição de ambos sobre o conhecimento e sua representação é desigual, manifestando a necessidade de que as experiências interativas sejam adaptadas e qualificadas em relação às características biológicas e culturais diferenciadas dos cegos, principalmente nos espaços educacionais, como a escola.
Resumo Este artigo se propõe a compreender a circulação e a apropriação da pedagogia personalizada e comunitária no Brasil de 1959 ao final dos anos de 1960. Inicialmente, faz uma síntese dessa proposta educacional concebida por Pierre Faure, padre jesuíta francês que amalgamou o movimento da Escola Nova e a tradição pedagógica católica. O foco é colocado sobre as operações de circulação e de apropriação da pedagogia personalizada e comunitária, procurando verificar seu circuito católico e franco-brasileiro por meio de diferentes estratégias e constatar seu uso em colégios católicos por meio de recursos didáticos que personalizavam e incitavam à socialização o trabalho dos alunos. Tendo como fontes artigos científicos, livros e relatórios técnicos em português e em francês, busca-se estudar a pedagogia fauriana em movimento na educação brasileira.
Resumo: Este trabalho almeja discutir a presença da diversidade cultural no currículo por meio da investigação de concepções de musicalidade entre professores em formação. Apresenta reflexões sobre material empírico coletado ao longo de seis anos de trabalho docente desenvolvido pelas autoras nos cursos de Graduação em Música e Pedagogia, modalidade presencial e a distância, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Aborda as concepções de musicalidade e sua implicação na atuação docente, discutindo caminhos para a valorização da pluralidade cultural no currículo acadêmico. A fundamentação teórica abarca principalmente pesquisadores das áreas de educação e educação musical, com abertura a outras áreas que a elas se associam, na perspectiva de atender aos da Política Nacional de Formação dos Profissionais da Educação Básica (2016). As reflexões e análises do material coletado seguem os parâmetros da pesquisa qualitativa no modo de explorar e interpretar seu conteúdo. Os resultados mostram sintonia entre os depoimentos dos estudantes e as concepções de musicalidade defendidas por teóricos da área; as discussões e a convivência propiciadas pela prática musical coletiva promoveram a ampliação do sentimento de pertencimento, reconhecimento e aceitação mútua, elementos positivos que também ressaltam a importância da valorização da pluralidade cultural no contexto educacional.
Resumo: A filosofia de inclusão escolar pressupõe que não só o acesso, mas a permanência, participação e a aprendizagem dos alunos público-alvo da Educação Especial sejam garantidas. Uma das propostas usuais tem sido a de prover adaptações ou flexibilizações no ensino, aplicadas exclusivamente para esses alunos. Todavia, tais práticas demandam trabalho duplo, tanto no planejamento quanto na execução do ensino. E haveria uma forma melhor de ensinar em classes heterogêneas? O presente trabalho visou apresentar uma discussão teórica sobre a proposta do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), a fim de adequar o ensino, com vistas a ampliar a participação e a aprendizagem de todos e reduzir a necessidade de adequações personalizadas custosas que dificultam as práticas inclusivas do professor da classe comum. Espera-se que a reflexão apresentada seja apenas o despertar para uma discussão aprofundada entre profissionais da educação comum e especial sobre práticas pedagógicas mais acessíveis na perspectiva da inclusão escolar.
Resumo O reconhecimento de um conjunto de outros saberes e práticas sociais diversas que se orientam a partir de outros critérios de rigor, para além da ciência moderna, ainda é questão de pauta hoje. Trata-se, fundamentalmente, de uma reflexão teórica sobre o reconhecimento de que o conhecimento é indelevelmente marcado pelas condições do humano. Tal entendimento permite questionar a perspectiva monolítica de ciência ou a possibilidade de um conhecimento científico desvinculado dos diferentes quadros históricos e sociais. Nesse sentido, é imperativo que tanto a escola quanto a formação de professores interrogue a ciência, o sentido e a intencionalidade do saber científico. A escola e a universidade, enquanto espaços e tempos de transmissão de uma tradição, devem se constituir em possibilidades de abertura de mundo.
Resumo Este artigo procurará retomar uma discussão surgida recentemente na França, interessada em demonstrar a íntima relação entre a atividade docente de Gilles Deleuze e a sua filosofia, e pensar suas implicações para o conceito deleuziano de aprendizado. Pouco trabalhado pelo filósofo francês, que dedicou apenas duas de suas obras para discutir tal noção, o conceito de aprendizado, a partir dessa produção francesa contemporânea, adquire um local de destaque no interior do pensamento de Deleuze e pode vir a contribuir com o estudo de muitos pesquisadores brasileiros interessados em articular a filosofia deleuziana com temáticas educacionais. Atestando a íntima relação entre o professor-Deleuze e o pensador-Deleuze, uma nova e interessante vereda de sua filosofia vem à tona e nos auxilia a pensar uma educação balizada por um conceito outro de aprendizado.