Resumo: A partir da relação entre educação e nacionalismo, o propósito deste artigo consiste em colocar em tela o papel das cartilhas escolares enquanto fontes de leitura e de doutrinação infantil no contexto do Estado Novo, assim como a concepção de educação e de infância que delas pode emergir. Em diálogo com o horizonte teórico oferecido por Roger Chartier (1990), sobretudo no que diz respeito às noções complementares de “representações” e “práticas” sociais, o trabalho concentra-se em duas fontes específicas: as cartilhas “Getúlio Vargas para Crianças” e “Getúlio Vargas: O Amigo das Crianças”. Os resultados apontam que, ao veicularem valores, crenças e padrões de comportamento ancorados nos princípios da autoridade, hierarquia, ordem e patriotismo, as cartilhas escolares refletem facetas significativas de um projeto político dedicado a difundir, no imaginário infantil, os princípios básicos da mentalidade que deu suporte ideológico ao regime varguista.
Resumo: Este artigo defende que a formação de professores pode ser beneficiada pelo olhar multicultural e argumentativo, a partir do qual estratégias didáticas e práticas formativas são valorizadas como meios de promover o diálogo crítico. Na primeira parte, é apontado o debate sobre o multiculturalismo, suas vertentes e seus desdobramentos na educação; a segunda traça articulações entre o multiculturalismo e a Teoria da Argumentação desenvolvida por Perelman e Olbrechts-Tyteca (1999), que preconiza tomar os sujeitos do diálogo como portadores do direito de se colocarem em posições respeitáveis. A perspectiva multicultural é pensada, então, como argumentação para o diálogo das diferenças, o que pode resultar em impactos positivos na didática e nas práticas formativas docentes. O texto apresenta metodologia híbrida, constituída de ensaio teórico, intercalado com ilustrações de estudos práticos que apoiam o argumento central defendido. Desse modo, pari passu à discussão, analisamos pesquisas desenvolvidas em metodologias qualitativas, participantes, que mostram como o enfoque multicultural e argumentativo poderia ser traduzido em experiências didáticas e em práticas formativas docentes, discutindo suas possibilidades e desafios.
Resumo: Tendo como base a concepção de educação multicultural na contemporaneidade face à obrigatoriedade do ensino de música no ensino curricular das escolas brasileiras, o texto procura discutir aspectos relacionados com as culturas musicais religiosas. Algumas linhas teóricas em educação musical, informadas pelo olhar do cotidiano musical dos alunos, têm debatido os desafios e as possibilidades de um ensino de música plural e aberto às diferentes formas de produzir, circular e consumir música(s). As questões aqui abordadas tratam de uma reflexão teórica sobre as possíveis tensões do ensino de música na escola, tendo em vistas as especificidades das culturas religiosas e de suas práticas e vivências musicais.
Resumo: O artigo tem por objetivo analisar a configuração da Educação Especial no processo do regime federativo brasileiro após a CF/1988, em articulação com os aspectos administrativos e políticos da Federação Nacional das Apaes (Fenapaes). Trata-se de um estudo documental das legislações brasileiras, bem como dos projetos e programas da Federação. Os resultados indicaram que a municipalização do ensino no Brasil teve diferentes repercussões para a Federação - com sua expansão pelo país e com a captação de verbas para a execução de serviços sociais, entre eles, a educação, por exemplo. O Federalismo e a Reforma do Estado impulsionaram, então, a consolidação do ramo paralelo de ensino nessa modalidade, por meio de repasse de recursos para as instituições filantrópicas.
Resumo: • O artigo discute o fenômeno do empresariamento da educação a partir do final do século XX e apresenta um mapeamento inicial das parcerias escola/empresa no Rio Grande do Sul. A partir de uma análise documental, foram estudados programas desenvolvidos em escolas públicas por uma Associação Educativa sem fins lucrativos mantida pela iniciativa privada, cuja finalidade é formar sujeitos empreendedores no Ensino Fundamental e no Ensino Médio. As discussões e a análise dos documentos foram realizadas com base nas teorias de Ball, Dardot e Laval, Sennett e López-Ruiz. O estudo permitiu-nos compreender como algumas das discussões realizadas pela área de Gestão e Negócios sobre a reengenharia, o capital humano e o empreendedorismo adentram as instituições de ensino e demandam a formação de um sujeito flexível.
Resumo: O presente artigo é fruto de pesquisa financiada pela FAPESP e problematiza a desigualdade escolar tomando uma de suas possíveis facetas: a distribuição de alunos entre escolas vizinhas. Discute a questão trazendo para a análise das desigualdades educacionais a segregação escolar e a possibilidade de escolha da escola pelas famílias. Metodologicamente, dialoga com autores que tratam do assunto e utiliza o mapeamento de escolas vizinhas da rede pública do município de Campinas (SP), cruzando informações de desempenho no IDEB e da composição socioeconômica das famílias de cada escola. O percurso empreendido permite avançar metodologicamente na investigação de fatores associados à desigualdade educacional, a partir da discussão da distribuição desigual de matrículas entre escolas vizinhas, trazendo evidências diretas e indiretas sobre a segregação escolar e a escolha da escola.
Resumo: Este artigo parte da área da educação, com atravessamentos na filosofia e na história para pensar as relações entre as práticas de escrita escolares e os modos de subjetivação. Para tanto, empreende-se uma pesquisa bibliográfica analisando-se produções acadêmicas que se debruçaram sobre a escrita escolar e examinando-se nesses materiais a regularidade da escrita operada como expressão/revelação de uma ideia e de si mesmo, como controle dos riscos e operada em certa velocidade. Tais regularidades são marcadas e asseguradas pela perspectiva da vontade de verdade e de um sujeito fundante. Essas práticas discursivas são problematizadas a partir de dois ferramentais analíticos foucaultianos: a ficção e a escrita tomada como técnica de si. Ambos são operados como possibilidades de se tomar a escrita como exercício de pensamento e de si, deslocando-se da escrita como expressão/revelação para a escrita como transformação, em se tratando dos modos de relação que assumimos com nós mesmos.
Resumo: O presente artigo objetiva apontar e discutir as formas de privatização evidenciadas nas relações que se estabelecem entre Estado, mercado e educação no contexto da educação básica brasileira. Para tanto, realizou-se o levantamento de teses e dissertações sobre essa temática, defendidas nos programas de pós-graduação brasileiros, no período de 2000 a 2012. O estudo foi pautado pela análise de conteúdo baseada em categorias temáticas, quais sejam: Estado, mercado e educação; privatização da/na educação; quase-mercado educacional; gerencialismo e/na/da educação. O estudo evidencia a predominância de parcerias público-privadas como principais formas de privatização no contexto da educação básica brasileira, materializadas pela venda de melhorias para as escolas e redes de ensino e pelas parcerias com o terceiro setor. Circunscritas no âmbito da privatização endógena, esse desenho se caracteriza pela incorporação, pelos setores públicos, de práticas originárias do mercado.
Resumo: O texto buscou identificar aproximações e distanciamentos sobre a formação de professores para a atuação com crianças pequenas em creches e pré-escolas, por meio de revisão de literatura, análise documental e entrevistas sobre a formação de educadores de infância em Portugal e no Brasil. As conclusões indicam que as descontinuidades das políticas públicas para o ensino superior nas últimas décadas, naquele país, representaram rupturas com relação à formação anterior, em que havia especificidade na formação profissional, com consequências na qualidade formativa. Aproximamo-nos da situação portuguesa no que se refere às perspectivas de formação de professores para a atuação com crianças pequenas em ambientes institucionais (formação genérica e pouco especializada) e nos distanciamos no que diz respeito ao atendimento pleno do direito à educação das crianças de 0-3 anos em creches, situação que se traduz nos programas de formação inicial de educadores de infância em Portugal.
Resumo: O presente artigo tem por objetivo contribuir para o aprofundamento da discussão teórico-conceitual realizada acerca da pesquisa em práticas sociais e processos educativos, situando-a no âmbito dos estudos acadêmicos da área da Educação. Por meio da realização de revisão bibliográfica, abarcando textos de Paulo Freire, Ernani Maria Fiori, Enrique Dussel, Maurice Merleau-Ponty e Boaventura de Sousa Santos, buscamos ampliar nossa compreensão acerca de aspectos conceituais que emergem como elementos constitutivos das duas categorias analíticas centrais desta perspectiva epistemológica de pesquisa em Educação, a saber: práticas sociais e processos educativos. Para tanto, discutimos tais categorias e argumentamos a favor de tomarmos as práticas sociais vivenciadas cotidianamente pelos seres humanos enquanto práxis essencialmente intersubjetiva, geradora de processos educativos que se projetam no tempo-espaço a partir de situações gnosiológicas problematizadoras da realidade social.
Resumo: No presente artigo, problematizamos o discurso do empoderamento local na conjuntura de criação do sistema próprio de educação no município de Fortaleza (CE), Brasil. Tomando-se por base a teoria de Análise do Discurso como aporte metodológico, evidenciou- -se, por um lado, o impacto da criação do sistema como impulso à vivência de experiências democráticas. Por outro lado, também se verifica o interesse da governança municipal pela implantação da gestão sistêmica como condição para a reedição de práticas da barganha política na administrativa pública. Em face desse paradoxo, tecemos considerações na perspectiva de fomentar possibilidades à democratização da gestão educacional nessa municipalidade.
Resumo: O trabalho discute os conceitos de infância, natalidade e educação em diálogo com Hannah Arendt. A apresentação da tese de que o poder da infância reside na força da linguagem, sustentada por autores da filosofia tais como Giorgio Agamben e Walter Kohan, compõe a estratégia argumentativa que propõe uma aproximação entre o conceito de natalidade formulado por Arendt e o processo de educação das novas gerações. O estudo é de cunho teórico, com base em revisão da literatura e busca articular educação e filosofia, campos epistemológicos distintos. Como resultado provisório, afirma-se, por um lado, que o nascimento e a chegada das crianças ao mundo desafia os adultos, que devem assumir a responsabilidade de educá-las, tendo como fundamento a liberdade da vontade. Por outro lado, argumenta-se que a natalidade dos adultos somente pode acontecer quando eles agirem de forma livre na esfera política da vida pública.
Resumo: Este artigo propõe uma análise sobre a estrutura epistemológica dos conteúdos de livros didáticos de história (movimentos sociais) aprovados pelo Plano Nacional do Livro Didático (PNLD) de 2010 a partir da perspectiva teórico-metodológica desenhada pelo historiador e filosofo alemão Jörn Rüsen, quando discute a possibilidade da produção de um livro didático de história ideal. A pesquisa vincula-se aos estudos realizados no Programa de Pós-Graduação em Educação, da Universidade Estadual do Centro-Oeste, cujas investigações preocupam-se com as relações entre epistemologia da História e o ensino de História na educação básica. Os resultados apontam para a potencialidade das narrativas históricas de livros didáticos para o campo de pesquisa em ensino de História, bem como indicam a relevância desses materiais didáticos no processo de ensino-aprendizagem de História.
Resumo: O artigo aborda historicamente a formação profissional para o trabalho com a educação infantil, tomando por objeto uma creche universitária paulista e as experiências de formação que ocorreram com seu grupo de professoras. Nele, veiculamos as memórias dessas profissionais, em uma dinâmica de produção de pesquisas que utiliza entrevistas, em articulação a demais documentos impressos, encontrados nos arquivos da instituição. Insere-se na história da formação docente, refletindo sobre políticas e culturas da formação de educadores. Como resultado, verifica-se como as depoentes vinculam suas experiências de trabalho e a experiência acadêmica, revisitando suas práticas e promovendo a emergência de novos significados para suas carreiras e o trabalho pedagógico. Por fim, refletimos sobre a busca por uma identidade profissional docente da educação infantil, em especial em relação aos que trabalham com crianças de 0 a 3 anos de idade.
Resumo: O presente artigo discute a formação de uma classe profissional de professores de arte a partir da transição do Curso de Artes Plásticas na Educação (CAPE) para a Licenciatura em Educação Artística vinculada à Faculdade de Educação Musical do Paraná (FEMP). Tal mudança significou a alteração de um curso de aperfeiçoamento destinado aos egressos do curso normal para uma formação em nível superior, especializada no ensino de arte - Licenciatura em Educação Artística. Adota como principal referencial teórico Bourdieu (1996) no que diz respeito à profissionalização do ensino de arte em Curitiba no final da década de 1940. Conclui- se que a nova configuração do ensino de arte é decorrente das condições institucionais para a estruturação do mercado de bens simbólicos em Curitiba, destacando a importância do ensino superior nessa fase inicial de constituição do campo.
Resumo: Este trabalho é uma abordagem da avaliação padronizada construída sobre o trabalho de Foucault. A avaliação é considerada como um dispositif que permite o exercício do poder, em termos de governamentalidade. Diversos discursos sobre avaliação circulam entre agências nacionais e internacionais, que promovem sua “bondade” para o progresso e o desenvolvimento das nações. Este artigo, ao historicizar o presente, visa traçar as continuidades e descontinuidades dos discursos sobre a avaliação padronizada no Chile e retratar como os sistemas de avaliação governam os sujeitos. A estrutura deste artigo não é a estrutura acadêmica típica. Em vez disso, usa o enredo de dois filmes para articular e descrever os sistemas de avaliação como um dispositif de poder.
Resumo: Este artigo apresenta resultados de uma pesquisa de mestrado cujo objetivo foi conhecer as representações de professores de um curso de Pedagogia acerca da relação entre a teoria trabalhada na formação inicial de professores e a prática profissional. O estudo de natureza qualitativa contou com a participação de cinco sujeitos, docentes de um curso de Pedagogia de uma universidade pública. Os dados foram obtidos mediante a técnica da entrevista semiestruturada e foram tratados de acordo com a análise de conteúdo do tipo temática (Bardin, 1977). Dentre os principais achados, destacam-se a concepção de escola como espaço de mera experimentação da docência, portanto, de aplicação das teorias ensinadas na universidade, e a percepção de que a articulação entre o ensino e o contexto da prática profissional é responsabilidade específica do componente Pesquisa e Estágio.
Resumo: O artigo analisa os impactos da certificação pelo Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) no ensino e nos processos de ensinar e de aprender na Educação de Jovens e Adultos. A discussão teve como fundamentação teórica os estudos de autores como Michael Apple, Stephen Ball, Leôncio Soares e outros pesquisadores, que são referência no campo da sociologia em educação e das políticas educacionais, currículo, trabalho docente e educação de jovens e adultos. Esse referencial foi utilizado como subsídio para a discussão de uma das temáticas encontradas: o ensino e os processos de desqualificação e de desvalorização do aprender e do ensinar. Percebeu-se que essa política educacional para a educação de jovens e adultos vem disseminando sentidos e significados de responsabilização acerca do que é ensinar e aprender, e podem alterar a constituição das práticas curriculares e da organização no trabalho docente na educação de jovens e adultos.
Resumo: O trabalho por meio de uma pesquisa documental e bibliográfica em abordagem exploratória e descritiva evidencia o processo de elaboração dos Planos Municipais de Educação (PMEs) em municípios baianos, tanto na compreensão dos aspectos que ratificaram o cenário de fracasso e metas frustradas no plano nacional do decênio anterior (2001-2010) quanto na adoção de novas diretrizes para o decênio atual (2014-2024). Os resultados obtidos ratificam o cenário de metas frustradas do Plano Nacional de Educação (PNE) no contexto educacional baiano, pois identificaram que a reconfiguração das forças de poder no arranjo político nacional e a consequente (re)compreensão do papel do estado brasileiro no âmbito das políticas sociais impediram a regulamentação das fontes incrementais de financiamento, a efetivação da instância federativa no plano educacional e a sistematização metodológica na efetivação do papel dos conselhos de acompanhamento e avaliação (CAAs) preconizados nas diretrizes do novo PNE.
Resumo: Este artigo constrói um referencial para estudar o poder, na educação, por meio de histórias. Histórias são apresentadas como modos práticos nos quais subjetividades são produzidas dentro de um dispositivo, que é teorizado como o lugar onde o poder se torna concreto. Histórias assumem duas funções paradoxais. Elas atualizam o poder, mas são também o lugar onde se constroem resistências a ele. O sujeito humano é teorizado como corporificado em histórias vivas, que vive e produz forças discursivas, espaciais e materiais de novas maneiras. A história é a resposta viva para os “outros”, humanos e não humanos, com quem o sujeito está envolvido em cada momento. Portanto, argumenta-se que o poder e a contação de histórias - storytelling - estão intimamente ligados e dependem um do outro. Utilizados em conjunto, proporcionam um referencial para considerar a educação como um espaço vibrante, dinâmico, vivo e plural, no qual múltiplas subjetividades são criadas e recriadas a cada momento, dentro e entre as tramas do poder.