O presente texto procura examinar os modos contemporâneos de constituição da docência no Ensino Médio. O eixo da investigação esteve centrado em examinar como determinadas economias de poder que operam nesse processo, enfatizadas pela centralidade dos saberes tecnocientíficos e pelas dinâmicas políticas do capitalismo cognitivo, constituem determinadas estratégias de governamento das condutas dos docentes contemporâneos no Ensino Médio. A revista Carta na Escola, em suas publicações desenvolvidas entre os anos de 2005 e 2010, foi a materialidade empírica escolhida para este estudo. Do ponto de vista teórico, operamos com o conceito foucaultiano de governamentalidade, tomando-o como possibilidade de interrogar as economias de poder, que regulam determinadas práticas. A constituição da docência descrita neste texto parte da perspectiva de que, desde a disposição de um conjunto de saberes pedagógicos e a mobilização de um conjunto de estratégias, a inovação é posicionada como uma atitude pedagógica permanente. Para tanto, entendemos que três estratégias são mobilizadas na constituição dessa docência inovadora: a) o privilégio da atualidade; b) o desafio da inventividade; c) a atitude da determinação voluntariosa.
Desde a Modernidade, o risco vem sendo um componente de crescente importância na organização social. O objetivo deste artigo é mostrar que a Educação Básica no Brasil vem sendo convocada a participar na produção de sujeitos voltados para a gestão individual de riscos, de acordo com a racionalidade atual. Para isso, o artigo mostra que o modo de gerir o risco por meio de mecanismos coletivos, coordenados pelo Estado, que surge no século XIX e avança até finais do século XX, vem sendo gradativamente substituído por um entendimento de que cada um deva tornar-se responsável por lidar com seus riscos de modo individual. A partir dessas teorizações, e tomando como material empírico artigos acadêmicos publicados no Brasil, o artigo mostra que hoje vêm sendo propostas diversas novas temáticas para os currículos que têm em comum o fato de estarem, na maioria das vezes, ligadas de algum modo à noção de risco. As análises desenvolvidas desdobram-se em três eixos - saúde, renda e coletividade - e permitem compreender a existência de uma confluência de fatores para configurar as escolas em produtoras de sujeitos prudentes, conhecedores dos vários riscos a que estão expostos e capazes de agirem para minimizá-los.
O discurso atual sobre Direitos Humanos está marcado pela ambivalência. Proclamados e negados constituem um referente considerado fundamental para a construção democrática. Cresce a convicção de que se eles não forem internalizados nas mentalidades individuais e coletivas não construiremos uma cultura dos Direitos Humanos na nossa sociedade. E, neste horizonte, os processos educacionais são fundamentais. O presente trabalho se situa na contexto da pesquisa “Educação em Direitos Humanos na América Latina e no Brasil: gênese histórica e realidade atual”. O nosso foco principal é nos diferentes significados da expressão educação em Direitos Humanos e nos desafios que apresenta para a formação de educadores. Defende a tese de que nesta perspectiva é imprescindível desenvolver processos que permitam articular diferentes dimensões, assim como utilizar estratégias pedagógicas participativas e de construção coletiva que favoreçam educar em Direitos Humanos.
A educação em direitos humanos (EDH) vem avançando nas últimas décadas, em vários países, seguindo as diretrizes internacionais para a área. No Brasil, a partir do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH, 2003) um conjunto de ações no ensino formal foi sendo desenvolvido. Em 2010 a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do MEC e a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República apoiaram as Secretarias Estaduais de Educação no desenvolvimento de Planos de Ação de Educação em Direitos Humanos. A análise dessa realidade e o acompanhamento das ações propostas são fundamentais para a ampliação e/ou reorientação desse trabalho, de forma a contribuir para que a EDH se institucionalize enquanto política pública. Este artigo discute os avanços e as limitações da EDH no Brasil, a partir de seu contexto, de seu processo de desenvolvimento, com base na literatura da área, análise documental do PNEDH e dos Planos de Ação.
En el artículo se analiza la constitución de algunos saberes, nociones, conceptos y prácticas en el campo del saber pedagógico y como producto de la preocupación por el gobierno de sí y de los otros. Tal situación es presentada como evidencia para explicar que el gobierno encontró en las prácticas pedagógicas (enseñanza, instrucción, educación, formación, aprendizaje) su principal - y quizás - su más eficiente forma de despliegue. Son señalados dos momentos: 1) la emergencia, entre los siglos XVI y XVII, de la Didáctica como saber y con ella de nociones como instrucción y enseñanza, que expresan una forma de pensar el gobierno de los individuos y las poblaciones como parte del despliegue de un conjunto de dispositivos de gobierno de énfasis disciplinario; 2) la emergencia, entre los siglos XVIII y XIX, de la noción “educación” en los discursos pedagógicos vinculada al desplazamiento de énfasis de los dispositivos de disciplinarios hacia los dispositivos de gobierno liberales. Así, los análisis realizados por Foucault usando la noción gubernamentalidad y, que sirven como herramienta metodológica en este estudio, remiten claramente un conjunto de prácticas y saberes pedagógicos de los cuales él no se ocupó y que el presente análisis intenta describir.
Este artigo tem como objetivo discutir e problematizar a aprendizagem dos jovens na sociedade do entretenimento, bem como analisar os possíveis desafios para a formação docente em uma sociedade mediada por tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIC). A centralidade do lazer e do entretenimento na vida contemporânea reconfigura as estratégias de ensino e aprendizagem escolares. Entretanto, a escola, por ser lugar de tradição e de aprendizagem sistematizada, encontra dificuldades para enfrentar este problema, já que existem obstáculos para a formação superior inicial de professores, em uma perspectiva de incorporação de diferentes linguagens midiáticas neste processo. Por fim, o texto procura explorar caminhos possíveis para estas práticas formativas, sob o risco de sua ausência aumentar a fragilidade da escola frente às transformações oriundas das TDIC.
O artigo apresenta a noção de corporeidade, relacionando-a as dimensões da agência, da diferença sexual e do adoecimento. O autor parte da antropologia fenomenológica para realizar o que denomina de uma fenomenologia cultural do Self. Contrasta uma noção de corpo enquanto objeto material à corporeidade como carne compartilhada, mutuamente implicada e nunca completamente anônima que ressignifica o corpo como fonte da existência e local da experiência no mundo. O artigo constrói um esquema das relações corpo-mundo e suas implicações para o conceito de corporeidade. Para isto articula a noção de agência desde Merleau-Ponty, Bourdieu e Foucault; a diferença sexual desde as teorias feministas em Luce Irigaray, Julia Kristeva e Maxine Sheets- Johnstone. Na seção final completa o esquema com uma discussão sobre três doenças - membro fantasma, fadiga crônica e doença ambiental - como ilustração de diferentes dinâmicas da corporeidade.
Ancorado nos pressupostos da história cultural, o presente texto versa sobre um tipo de impresso protestante: o catecismo. Com vistas a analisar a materialidade e evidenciar os valores difundidos nos impressos, elegemos como objeto de análise os catecismos, a saber: Breve catechismo (1892), O breve catecismo (1927) e Cartilha com estampas (s.d.). O aporte teórico está pautado em Robert Darnton (1990), Roger Chartier (1998) e Carlo Ginzburg (1979), os quais discorrem acerca da circulação de impressos, das práticas de leitura e do conceito de circularidade cultural. Os catecismos protestantes foram utilizados como instrumentos pedagógicos pelos presbiterianos norte-americanos no Brasil dos oitocentos e funcionaram como um instrumento prescritivo de inculcação de hábitos e valores que deveriam ser externados através de atitudes e comportamentos, demonstrando o caráter cristão.
Com a noção de governamentalidade, Foucault refletiu sobre a constituição do Estado moderno e suas tecnologias de condução da vida da população. Discutimos neste texto a relação entre Estado brasileiro, movimentos sociais LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) e a elaboração de políticas curriculares para a inclusão social e jurídica daquela população. Nossa hipótese é que o processo de governamentalização dessa população específica, a despeito de garantir avanços antidiscriminatórios, tem como consequência colateral o aprisionamento dos próprios movimentos sociais LGBT e das políticas educacionais a eles relacionados numa lógica identitária e normalizadora, que tende a pacificar suas demandas e arrefecer sua capacidade de crítica e autocrítica. Finalmente, recorremos à noção foucaultiana de estética da existência e de atitude queer para pensar novas formas de resistência pós-identitária.
Pesquisas sobre a adoção de políticas de ações afirmativas no ensino superior no Brasil são recentes. Já estudos sobre o acesso e a permanência de estudantes das camadas populares nesse nível de ensino começam a surgir a partir de 1990 e privilegiam a investigação da experiência dos estudantes. O objetivo deste trabalho é discutir a experiência universitária de estudantes que ingressaram na USP por meio do Inclusp (Programa de Inclusão Social da USP), destacando suas dimensões subjetivas. Para isso, são apresentadas entrevistas realizadas com seis estudantes de cursos mais e menos concorridos. O trabalho discute a maneira por meio da qual a USP surge em seus horizontes de possibilidades e as dificuldades oriundas da desigualdade social, apontando a importância da consideração da dimensão subjetiva nas pesquisas e na formulação de políticas de ações afirmativas.
Este artigo problematiza as condições que contribuíram para que a inclusão educacional tenha se configurado como uma questão social e econômica relevante. Entendendo a inclusão como um conjunto de práticas (bio)políticas que visam normalizar as condições de vida, acessos e fluxos no interior da população, examinam-se as principais políticas públicas de inclusão escolar no Brasil, a partir de leis e programas criados e divulgados durante os governos de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e de Luiz Inácio Lula da Silva (2002-2010). Argumenta-se que conhecer minimamente os deslocamentos do conceito de biopolítica é uma condição fundamental para compreender melhor as atuais práticas e políticas de inclusão, bem como os significados possíveis conferidos a essa palavra.
O presente estudo visa a explorar o tema da individualização sob o prisma da teoria do reconhecimento de Axel Honneth com o intuito de situar a problemática da formação humana entre os paradoxos do individualismo da autorrealização contemporâneo e as perspectivas emancipatórias abertas pela ideia de liberdade comunicativa. O percurso desenvolvido inicia com um retorno a Simmel e ao próprio Honneth para retomar o sentido que a individualização assumiu em seu advento com a modernidade. Na sequência, trata da transformação paradoxal sofrida, contemporaneamente, pela individualização moderna em individualismo de autorrealização e de algumas de suas consequências para a constituição da subjetividade. Por fim, com base no conceito honnethiano de liberdade comunicativa, procura-se defender a posição de que esse conceito, atualizado de Hegel, oferece importantes elementos para pensar o âmbito da formação humana para além dos paradoxos do individualismo de autorrealização.
O artigo discute como a simultaneidade e a ambivalência, presentes em experiências cotidianas, inscrevem-se em produções audiovisuais da arte contemporânea. Com base em estudos teóricos e metodológicos da semiótica discursiva, relativos ao efeito de unidade de sentido em textos audiovisuais; da arte contemporânea, acerca dos processos de apropriação e ressignificação de imagens e sons; e do ensino da arte sobre leitura de imagens, analisa a videoarte Para Dentro e a leitura desta criação por um grupo de crianças. A análise da videoarte ressalta a articulação, através de superposições, das várias linguagens que constituem o texto audiovisual e a apresentação de imagens e sons de forma ambígua, criando efeitos de ambivalência. Nas leituras, o que mais inquietou as crianças, foram as ambivalências visuais e sonoras. Os resultados indicam a necessidade de refletirmos, na escola, sobre narrativas audiovisuais contemporâneas, buscando entender o momento atual.
El trabajo es un estudio crítico sobre los fundamentos teóricos de la prueba lectora PISA. Con esta finalidad, se ha intentando utilizar como teoría de referencia la propuesta por Paulo Freire, procurando ofrecer un enfoque diferente y proponer, con una visión crítica, elementos de discusión que puedan enriquecer el debate educativo frente a ciertas evaluaciones internacionales que están condicionando las agendas educativas nacionales. El foco de la investigación es determinar el fundamento teórico de la competencia lectora según PISA e identificar sus principales distanciamientos y tensiones frente la teoría lectora de Freire. El estudio es de índole especulativa, los enunciados de base del corpus son contrastados con el fin de evidenciar diferencias y tensiones teóricas bajo un enfoque crítico. Los resultados mostraron diferencias y/o contradicciones relacionadas con la capacidad cognitiva, los códigos representacionales, los modos interpretativos y, fundamentalmente, ofrecieron una visión contrastada del sujeto lector.
Este trabalho analisa os ritos de instituição como mecanismos disciplinares presentes em O Ateneu, romance do escritor brasileiro Raul Pompeia publicado em 1888, que retrata um colégio interno da época. Compreende-se que a produção e a reprodução do ideal disciplinar no colégio se apoiam em cerimônias, ritos e solenidades inerentes a interesses educacionais e políticos amplamente compartilhados. Os ritos analisados são relativos aos exames aos quais são submetidos os internos, à divulgação das notas dos exames e do comportamento dos internos por meio do “livro das notas” e as cerimônias do “Grêmio Literário Amor ao Saber”. Conclui-se que os ritos de instituição no colégio acionam ideais disciplinares tão mais implícitos à medida que contam com o sentido solene que a magia dos ritos produz.
Educar para a cidadania, ou no exercício ativo da cidadania, tem constituído recomendações que pretendem gerar efeitos nas políticas educacionais e com algum eco no currículo escolar. É tendo por referência um conceito de educação para a cidadania, que inclui o sentido que lhe é atribuído enquanto prática da vivência ativa e responsável dessa cidadania, e aqui clarificado, que neste texto se dá a conhecer o lugar que tem tido a educação para a cidadania nas políticas educativas em Portugal e, particularmente, num projeto educativo de uma escola que elege como um dos seus eixos de ação trabalhar para proporcionar aos alunos vivências de cidadania. Recorre-se a discursos e perceções de professores sobre os resultados finais do projeto. Nesse projeto, entre outros aspetos, constata-se que as ações orientadas para uma educação para a cidadania não se limitam às fronteiras das disciplinas e do espaço escolar mas, antes, se ampliam a situações de forte relação com os contextos de vida.
Este artigo cogita caminhos que se perfazem desde o suposto ponto inicial de algum aprender até o objeto final, se é que existe, onde o aprendizado seria consumado num conhecimento almejado. Através de conceitos apropriados, principalmente, da filosofia de Gilles Deleuze, nos guiamos em experiências múltiplas que vislumbram paradoxos e encontros hieroglíficos que o meio reserva aos desbravadores da Educação. Esse caminho do meio é infinito, apinhado de paradoxos e encontros necessários que nos guiam a um aprendizado outro para além do almejado, uma vez que se sustenta na arte de decifrar mundos de signos, repletos de sentidos.
O artigo problematiza a formação de professores centrada na escola assumindo as atividades de trabalho pedagógico coletivo (ATPC) como instâncias de produção e aprofundamento do projeto político-pedagógico (PPP). Os dados foram produzidos no diálogo com as equipes gestoras de quatro unidades de ensino de uma rede pública municipal do interior do Estado de São Paulo no contexto de um projeto de pesquisa e de formação continuada. As análises das comunicações eletrônicas trocadas entre as equipes gestoras e pesquisadoras, bem como as reflexões escritas das professoras coordenadoras evidenciaram o esforço de garantir a participação de todos os profissionais da escola em torno da discussão do PPP através de estratégias diversificadas de trabalho coletivo e também a falta de condições de trabalho que sustentem e contribuam com a articulação de todos os membros das escolas.
Neste artigo, sob a perspectiva dos estudos culturais de inspiração pós-moderna e pós-estruturalista, buscamos indicar como os filmes de ficção científica têm operado na configuração de um mundo futuro, altamente tecnológico, bem como dos sujeitos que nele viverão, a partir de representações que exacerbam e satirizam modos de viver já em curso nas sociedades contemporâneas. O cinema, assim como outras pedagogias culturais, atua na produção e no governo dos indivíduos em um mundo repleto de tecnologias da informação e da comunicação, promovendo deslocamentos nas suas subjetividades. Para promover tal discussão, abordamos seis filmes de ficção científica cujas análises focalizaram a perturbadora semelhança entre seres humanos e máquinas, representadas nestes filmes como criaturas ciborgues, pós-humanas e pós-orgânicas. Indicamos, também, a proliferação de lixo tecnológico e lixo humano nas sociedades “do futuro” e, ainda, a substituição do disciplinamento moderno por ações bastante sutis de controle.
O artigo objetiva colocar em causa a razão imanente entre as práticas educacionais atuais e o âmbito da governamentalidade, por meio da problematização dos processos de pedagogização aí levados a cabo. Mais especificamente, visa analisar o jogo do expert como modalidade privilegiada do governamento docente na atualidade. Para tanto, toma como objeto empírico entrevistas concedidas por especialistas à revista Nova Escola entre 2005 e 2009. A discussão indica uma espécie de saturação pedagogizante do campo escolar, sempre com vistas a um (auto)governamento flexível, porém obstinado, das condutas docentes, operando a reboque da autoridade indefectível do expert, da lógica da desqualificação/requalificação profissional e da apologia da formação permanente, as quais, somadas, redundarão numa acirrada pedagogização do pedagógico.