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Como os indivíduos se tornam indivíduos? Entrevista com Danilo Martuccelli

PID: S1517-97022013000100016 | Journal: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Year: 2013
Authors: Setton Sposito
O objetivo desta entrevista é oferecer subsídios para o debate acerca dos desafios epistemológicos atuais da sociologia. Trata-se de uma rara oportunidade de dar voz a um pesquisador que mesmo se ocupando de temas europeus e específicos da realidade francesa, não deixa de ter um envolvimento com a realidade latino-americana. A entrevista concedida por Danilo Martuccelli, em outubro de 2012, foi realizada pelas professoras de sociologia da educação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, Maria da Graça Jacintho Setton e Marilia Pontes Sposito, a partir de um debate informal e cordial realizado ora por e-mail, ora presencialmente. Danilo Martuccelli é professor de sociologia da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Paris-Descartes (Sorbonne). É também membro do grupo de pesquisa CERLIS (Centre de recherches sur les liens sociaux), que pertence à mesma instituição. Nesta entrevista temos a exposição de um instrumental teórico e analítico que evidencia a integração das perspectivas micro e macrossociológica. Aproveitando-se de uma sólida leitura dos clássicos da sociologia a partir de um enfoque grupal ou individual, Danilo Martuccelli oferece um relato inspirador de como podemos nos apropriar de uma larga tradição teórica. Fazendo uso dessas reflexões, o depoimento põe em tela um debate contemporâneo no interior das ciências sociais, bem como garante a ampliação e a contextualização histórica e teórica dos processos de formação do social.

Contexto escolar e indicadores educacionais: condições desiguais para a efetivação de uma política de avaliação educacional

PID: S1517-97022013000100012 | Journal: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Year: 2013
Authors: Alves Soares
A introdução do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) pelo governo federal representou uma mudança significativa na forma como a educação passou a ser acompanhada no Brasil. O Ideb é o indicador de qualidade desenvolvido para avaliar a educação oferecida no país e em cada unidade da federação, município e escola pública. Ele serve também para acompanhar a melhoria da qualidade educacional segundo metas preestabelecidas. Seu uso para essas finalidades tem suscitado debates sobre o tipo de política de responsabilização que o indicador engendra. Argumenta-se, neste artigo, que o Ideb coloca foco em resultados finalísticos, sem considerar as condições que propiciam a obtenção de tais resultados. O trabalho analisa a relação entre o indicador e o contexto escolar, considerando para tal o perfil de seus alunos e as características do estabelecimento de ensino. A análise empírica utiliza dados da Prova Brasil, do Censo Escolar e do próprio Ideb, por meio de modelos de regressão linear múltipla. Os resultados mostram que as escolas que atendem a alunos de menor nível socioeconômico, como esperado, têm piores resultados, mesmo com o controle de outras características. Para essas escolas, é muito mais difícil elevar o valor do indicador. Além disso, as condições de infraestrutura e de complexidade da instituição também guardam relação com o Ideb. Por fim, os resultados indicam que são necessárias políticas de superação dessas limitações e que tais condições não podem ser ignoradas na análise do Ideb.

Currículo de ciências: estabilidade e mudança em livros didáticos

PID: S1517-97022013000200013 | Journal: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Year: 2013
Authors: Gomes Selles Lopes
O estudo focaliza aspectos relacionados aos conteúdos de ensino presentes em livros didáticos de Ciências no período entre as décadas de 1970 e 2000. A partir de questões que buscam compreender como vem se dando sócio-historicamente a valorização dos conhecimentos ecológicos nos currículos dessa disciplina, a análise prioriza as relações estabelecidas entre tais conhecimentos e outras temáticas também ensinadas. Para tanto, os conteúdos de ecologia selecionados para ensino são considerados resultantes de aspectos relativos à produção científica da ecologia biológica, ao ensino de Ciências, ao campo educacional e aos movimentos ambientais. Assim, com a finalidade de compreender a inserção de conhecimentos ecológicos nos currículos brasileiros de Ciências, identificam-se enfoques curriculares articulados às seleções de conteúdos de ensino e investigam-se as relações estabelecidas entre esses conhecimentos e outras temáticas dessa disciplina escolar em livros didáticos destinados ao ensino fundamental. Com base principalmente nas discussões de Ivor Goodson, evidencia-se a trajetória sócio-histórica dos currículos de Ciências por uma relação interdependente entre padrões de estabilidade e de mudança. Argumenta-se que os conteúdos de ecologia são introduzidos, causando mudança, na medida em que se inserem num padrão de estabilidade. Nessa perspectiva, tais materiais são tratados como fontes históricas importantes para entender a produção curricular escolar desenvolvida no período em questão.

Desafios do currículo multicultural na educação superior para indígenas

PID: S1517-97022013000100008 | Journal: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Year: 2013
Authors: David Melo Malheiro
O artigo avalia como a universidade brasileira está enfrentando os desafios curriculares para atender à demanda de alunos índios diante do recente acesso institucionalizado dos povos indígenas à educação superior. Apresenta-se a trajetória da educação escolar indígena até a universidade ocorrida nos primeiros anos da década de 2000, após as mudanças promovidas pela Constituição Federal de 1988, que reconheceu o direito indígena à alteridade. A questão central levantada é: o currículo da educação superior está em consonância com a perspectiva multicultural? Mostra-se um retrato da situação brasileira, desenhado a partir de pesquisa documental feita em sites governamentais e não governamentais, além de portais de notícia. Com discussões teóricas em torno do que é o currículo multicultural, destaca-se que, devido aos problemas relatados, a prática de ações afirmativas para promover o acesso de indígenas ao ensino superior tem-se limitado a um multiculturalismo reparador. Expõe-se também o resultado de pesquisa feita com discentes indígenas de um dos cursos mais procurados da Universidade Federal do Pará, que revelou contradições e resignação: os entrevistados apontam a existência de um etnocentrismo curricular, mas dizem que a formação é satisfatória para o exercício da profissão escolhida. Discute-se o fenômeno à luz da semelhança com o multiculturalismo curricular norte-americano. Os resultados indicam que a igualdade no acesso à educação não é obtida simplesmente pela igualdade de acesso a um currículo hegemônico. Sugere-se pensar currículos que considerem as múltiplas identidades e diferenças de nossa sociedade, bom como o modo como estas são produzidas e reproduzidas constantemente por meio das relações de poder.

Desenhos e vozes no ensino de geografia: a pluralidade das favelas pelos olhares das crianças

PID: S1517-97022013000400014 | Journal: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Year: 2013
Authors: Dias
A ciência geográfica prioriza como objeto de estudo as relações entre sociedade e natureza. No entanto, é preciso refletir sobre a possibilidade de escuta no ensino da geografia escolar, em diálogo com sua epistemologia. O recorte escolhido para ilustrar a potencialidade dessa perspectiva se deu na busca por compreender a leitura de mundo a partir da favela, considerando-se a pluralidade presente nas produções de sentidos e significados dos sujeitos que a observam. Em tais produções, existem as experiências mediadas e aquelas diretas com as/nas favelas. Quais noções, entretanto, orientam a concepção de favelas construídas pelos alunos? Compreender como os alunos percebem as favelas e criam sentidos e significados ao conceberem suas noções foi uma importante aproximação entre os saberes escolares e não escolares no processo educativo e na aprendizagem espacial. A pesquisa desenvolvida aponta a geografia humanista como uma possibilidade de compreensão do universo investigativo na contemporaneidade, ao permitir deslocar diferentes sentidos - no caso, do espaço urbano e de suas relações com o ensino - para escorar ações de formação de professores. Repensar noções como espaço e lugar propicia a reflexão sobre a apropriação de diferentes sentidos e saberes na escola e fora dela. O espaço urbano está repleto de práticas sociais que revelam diversas temporalidades e experiências espaciais. Pensá-lo no interior da escola significa dar visibilidade aos diferentes sujeitos e às suas territorialidades. Para alcançar esse objetivo, utilizou-se o desenho infantil como um instrumento de interlocução com os sujeitos.

Do pensamento abissal à ecologia de saberes na escola: reflexões sobre uma experiência de colaboração

PID: S1517-97022013000400002 | Journal: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Year: 2013
Authors: Urzêda-Freitas
Neste trabalho, compartilho algumas reflexões a respeito da minha experiência de colaboração com uma professora de inglês da rede estadual de ensino em Goiânia (GO). A pesquisa teve por objetivo investigar os aspectos e desafios que permeiam a colaboração entre pesquisadores e professores. Para fundamentar as reflexões, busco respaldo em teorias que exploram: os aspectos e desafios da educação regular pública no Brasil; as condições de ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras, em especial, inglês, em escolas públicas; as políticas da formação de professores de línguas estrangeiras; a relação entre pesquisa/reflexão colaborativa e formação de professores; e, por fim, a disparidade que separa a universidade e a escola na produção de conhecimentos pedagógicos. O estudo se caracteriza como uma pesquisa colaborativa e emancipatória, uma vez que encoraja a produção colaborativa de saberes entre um pesquisador e uma professora. Por meio de um questionário, três sessões reflexivas e um diário de campo, foram selecionados dois aspectos principais para serem analisados: os entraves iniciais da colaboração entre os participantes e as reflexões que os participantes produziram na e por meio da ação colaborativa. A análise desses aspectos mostrou que a pesquisa colaborativa pode reduzir as linhas abissais que separam pesquisadores, enquanto articuladores da teoria, e professores em sua prática, abrindo espaço para uma ecologia de saberes na escola.

Dos desafios para a psicologia histórico-cultural à reflexão sobre a pesquisa nas ciências humanas: entrevista com Pablo del Río

PID: S1517-97022013000200015 | Journal: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Year: 2013
Authors: Rego Braga
O texto apresenta reflexões instigantes de Pablo del Río Pereda, renomado professor espanhol da Faculdade de Humanidades, Comunicação e Documentação da Universidade Carlos III de Madri, editor e revisor (em conjunto com Amelia Álvarez) da Coleção Obras Escogidas, de Lev Semienovitch Vigotski, e presidente da Fundación Infancia y Aprendizaje (FIA). Considerado um dos principais responsáveis pela divulgação dos trabalhos de Vigotski no mundo ocidental, Pablo del Río é muito respeitado no cenário acadêmico internacional pelo fato de ser um profundo conhecedor e intérprete da chamada psicologia histórico-cultural. Nessa linha, tem desenvolvido e coordenado importantes projetos de investigação em diversas universidades e instituições, como a Universidade Complutense de Madri (Grupo GOMEL), a Universidade de Salamanca (Centro Tecnológico de Diseño Cultural) e a própria Fundación Infancia y Aprendizaje. Atualmente dirige o Laboratorio de Investigación Cultural (LIC) e o Master Oficial Universitario en Investigación Aplicada a Medios de Comunicación. A entrevista foi realizada em agosto de 2012. Por um lado, o relato de Pablo del Río expressa a solidez de sua formação, sua erudição e sua experiência como investigador da psicologia; por outro, revela o perfil de um intelectual inquieto e crítico, capaz de analisar com rigor e abertura as vicissitudes de nosso tempo. Assim, as reflexões apresentadas oferecem ricos subsídios para o debate acerca dos desafios atuais da psicologia e das ciências humanas de modo geral.

Educadores e a implementação de diretrizes contra desigualdades: o caso do ProJovem Urbano

PID: S1517-97022013000100011 | Journal: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Year: 2013
Authors: Ferreira
O artigo apresenta e discute resultados de uma pesquisa com educadores do ProJovem Urbano na Região Metropolitana de São Paulo. O objetivo foi investigar as experiências dos educadores com a implementação das diretrizes desse programa e a possibilidade de construção de relações entre professor e aluno marcadas pelo respeito à diferença e compromissadas com a inclusão. A orientação teórica apoia-se nos estudos que abordam a escola como lugar de reprodução das desigualdades sociais, nos autores que estudam os modos como se dão as relações entre a lógica escolar e as formas de socialização das famílias populares, e também nas investigações sobre escola e diversidade cultural. As linhas teóricas destacam o processo que converte diferenças em desigualdades. Foram realizadas entrevistas em profundidade com educadores do ProJovem a fim de compreender se os objetivos e as diretrizes do programa aproximam educadores e educandos e promovem a produção conjunta do conhecimento, contribuindo para a construção de relações mais justas e respeitosas entre professores e alunos. Os resultados comprovam essa possibilidade, elucidando o papel-chave do educador na implementação do programa. Além disso, também são desvendados problemas como a falta de apoio aos educadores e a precariedade da relação de trabalho, os quais podem prejudicar os resultados do ProJovem.

Educação bilíngue nos Estados Unidos: uma possível transição moral para a cidadania global

PID: S1517-97022013000300008 | Journal: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Year: 2013
Authors: Barbosa
Este trabalho consiste em um estudo teórico cujo objetivo é investigar a importância de competências interculturais, tais como habilidades de comunicação, para o desenvolvimento de uma educação para a cidadania global. Tem como hipótese a sugestão de que os argumentos contra a educação bilíngue nos Estados Unidos da América (EUA) podem representar indícios da existência de uma transição entre uma abordagem conservadora de cidadania e uma de cidadania global. Para esse fim, uma reflexão teórica sobre os aspectos morais associados a argumentos contra a educação bilíngue e em favor de movimentos English-only dentro do sistema educacional dos EUA, bem como sobre as suas implicações para a cidadania global, será construída por meio de uma análise crítica da literatura produzida na área. Demonstra-se que os argumentos a favor do uso exclusivo do inglês e contra a educação bilíngue parecem reforçar a necessidade de uma reforma educacional baseada tanto na teoria de Adela Cortina (2005) sobre ética mínima, quanto na proposição de Makoni e Pennycook (2007) a respeito da necessidade de uma desinvenção e reconstituição das línguas. Concluiu-se que uma análise crítica dos argumentos contra a educação bilíngue, e em favor movimentos educacionais English-only, parece reforçar a proposta de que os EUA podem estar enfrentando um período de transição entre uma condição de monismo moral para uma de pluralismo moral, ao mesmo tempo em que o pluralismo moral pode ser um pré-requisito para a cidadania global.

Educação bilíngue para surdos e inclusão segundo a Política Nacional de educação especial e o Decreto n. 5.626/05

PID: S1517-97022013000100004 | Journal: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Year: 2013
Authors: Lodi
Este artigo foi desenvolvido com o objetivo de desvendar os diferentes sentidos de educação bilíngue e de inclusão na Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva e no Decreto nº 5.626/05 à luz da teoria discursivo-enunciativa de Bakhtin. Enquanto a Política de Educação Especial defende a inclusão dos alunos surdos no sistema regular de ensino, as comunidades surdas e pesquisadores da área, considerando a diferença linguística desse grupo social e o disposto no Decreto nº 5.626/05, advogam que a educação de surdos constitui-se como um campo específico do conhecimento, distanciando-se da educação especial. Observou-se que o Decreto compreende educação bilíngue para surdos como uma questão social que envolve a língua brasileira de sinais (Libras) e a língua portuguesa, em uma relação intrínseca com os aspectos culturais determinantes e determinados por cada língua; a Política, por sua vez, reduz educação bilíngue à presença de duas línguas no interior da escola sem propiciar que cada uma assuma seu lugar de pertinência para os grupos que as utilizam, mantendo a hegemonia do português nos processos educacionais. Tal concepção limita a transformação proposta para a educação de surdos apenas ao plano discursivo e restringe a inclusão à escola, impossibilitando uma ampliação desse conceito a todas as esferas sociais, conforme defendido pelo Decreto. Essa diferença entre os sentidos dos conceitos de educação bilíngue e de inclusão nos dois documentos tem alimentado velhas tensões e inviabilizado o diálogo entre as proposições da Política de Educação Especial e do Decreto nº 5.626/05.

Ensino médio integrado: subsunção aos interesses do capital ou travessia para a formação humana integral?

PID: S1517-97022013000300010 | Journal: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Year: 2013
Authors: Moura
Este artigo discute o significado do ensino médio na condição de etapa final da educação básica, tendo em vista a realidade socioeconômica e educacional brasileira, em que grande parte dos filhos das classes populares precisa trabalhar antes dos 18 anos de idade. Parte-se do pressuposto de que o objetivo a ser alcançado, na perspectiva de uma sociedade justa, é a formação omnilateral, integral ou politécnica de todos, de forma pública e igualitária e sob a responsabilidade do estado. Apesar de essa representar a utopia a ser buscada, a realidade atual está muito distante dessa perspectiva formativa. Neste trabalho, então, questiona-se: é possível caminhar nessa direção, mesmo em uma sociedade capitalista e periférica como a do Brasil? Tendo essa questão como norte do trabalho, discute-se o ensino médio integrado à educação profissional técnica de nível médio como uma possibilidade de travessia na direção formativa pretendida para os jovens brasileiros. O estudo foi desenvolvido tendo como referência os pensamentos de Karl Marx e Friedrich Engels, de Antonio Gramsci, assim como de autores que dialogam com eles. A análise permitiu concluir que a realidade socioeconômica brasileira exige, do ponto de vista teórico e ético-político, conceber e materializar um tipo de ensino médio que garanta uma base unitária para todos, fundamentado na concepção de formação humana integral, tendo como eixos estruturantes o trabalho, a ciência, a tecnologia e a cultura. Garantida essa mesma base, é preciso também que o ensino médio integrado à educação profissional técnica de nível médio seja colocado como uma possibilidade de formação.

Entre o texto e a vida: uma leitura sobre as políticas de educação especial

PID: S1517-97022013000100006 | Journal: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Year: 2013
Authors: Vasques Moschen Gurski
À margem da agenda política do Estado, a educação especial tradicionalmente se organizou como atendimento educacional especializado substitutivo ao ensino comum, em classes e escolas especiais. Nas últimas décadas, o Brasil, em consonância com movimentos internacionais, estabeleceu uma série de leis, políticas e programas para combater as desigualdades e a exclusão escolar. Nesse movimento, sujeitos com transtornos globais do desenvolvimento (TGD), tradicionalmente apartados dos processos de escolarização, são recebidos nas salas de aula e no velho pátio da escola. Quais racionalidades sustentam as formas de nomear e identificar esses alunos? Como compreender as relações entre os diagnósticos, as políticas e a inscrição das (im)possibilidades escolares? Em que medida as políticas inclusivas de educação especial desconstroem sentidos que relacionam os TGD à ineducabilidade, ou, ainda, a diferença à anormalidade e à inferioridade? O presente ensaio discute a implementação das diretrizes inclusivas considerando o texto político e seus efeitos no contexto da prática. A hermenêutica filosófica oferece os tempos e os focos da leitura. O argumento é tecido com e a partir das falas de um aluno e de professores, em diferentes campos de pesquisa. Do texto à vida, o incremento das matrículas; a proliferação dos sentidos sobre esses alunos e as possibilidades escolares; a atualização de antigos impasses perante o novo, o diferente. Se, no âmbito dos princípios, são reconhecidas a igualdade e as diferenças, na concretude das escolas ainda persiste a noção do diferente como desigual. Da inclusão ao pertencimento, aposta-se no diálogo como valoração da alteridade e condição de pertença.

Estágio docente: formação profissional, preparação para o ensino ou docência em caráter precário?

PID: S1517-97022013000200005 | Journal: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Year: 2013
Authors: Joaquim Vilas Boas Carrieri
Este trabalho foi construído a partir de um estudo desenvolvido com o intuito de avaliar a viabilidade do estágio docente como alternativa à prática do ensino. O alvo da pesquisa foram os pós- -graduandos matriculados no estágio docente durante o ano de 2010 em uma universidade federal situada no Estado de Minas Gerias. O trabalho foi desenvolvido com base no método de estudo de casos em um programa de pós-graduação em Administração e a coleta de dados foi feita por meio de um único questionamento sobre o sentido atribuído pelos pós-graduandos ao desenvolvimento do estágio. Para que fosse possível interpretar os dados coletados, utilizou-se da análise de conteúdo. Por meio da percepção dos pós-graduandos, ressaltaram-se as contribuições, o sentido e as motivações de se realizar o estágio docente. Dessa forma, foi possível identificar a necessidade de se adequar a disciplina em termos práticos para que haja um maior envolvimento de todos os sujeitos e para que os resultados produzidos coletivamente sejam melhores e mais efetivos. Por fim, constatou-se que o processo de formação de professores nos programas de pós-graduação stricto sensu demanda uma (re)integração entre teoria e prática, de modo que o envolvimento com o estágio docente pode ser uma forma interessante de se promover a prática do ensino por parte dos pós-graduandos. Além disso, para aqueles que estão mais envolvidos com a pesquisa e com a leitura técnica de textos acadêmicos, a maior motivação apontada foi a redução da distância experimentada entre teoria e prática.

Evolución de los modelos metodológicos y su relación con la política educativa en España

PID: S1517-97022013000100015 | Journal: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Year: 2013
Authors: San Román Gago
Con base en investigación realizada sobre los marcos institucionales del proceso de cambio social de transición democrática en España y los contextos motivacionales de la participación de las maestras en el actual proceso educativo, este artículo tiene por objetivo esbozar, desde la perspectiva de la sociología, un recorrido histórico del sistema educativo en España desde el comienzo de la escuela pública para comprender la evolución de los modelos culturales, ideológicos, metodológicos y curriculares y su relación con los cambios en las política educativa. Está centrado en señalar que, más allá de las cuestiones económicas que implican recortes en educación, se esconde un modelo ideológico interesado o no por dotar a la población de un mayor o menor nivel cultural. La intención es destapar la relación entre cultura, educación y metodología empleada en función de las demandas políticas y comprender el tipo de normas ideadas para producir valores y obtener conductas acordes con los intereses políticos en cada uno de los contextos históricos que se suceden en la evolución de la escuela pública en España. Fue posible percibir que en España no ha habido ni un solo momento en la historia de la escuela pública en el cual los políticos, y en muchas ocasiones la propia Iglesia, no hayan sido los encargados de diseñar los contenidos, currículos y metodologías que dan forma a las políticas educativas.

Formação de professores de licenciatura a distância: o caso do curso de pedagogia da UAB/UECE

PID: S1517-97022013000300013 | Journal: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Year: 2013
Authors: Nunes Sales
Este trabalho parte da consideração de que a educação a distância (EaD), por seu caráter flexível, tem alcançado paulatinamente espaço no panorama educacional brasileiro. Um exemplo da expansão desse modo de ensino foi a criação, em 2006, pelo governo federal, do sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB) como resposta a, no mínimo, dois graves problemas do país: a falta de qualificação de professores e a dificuldade de acesso da população à educação superior. Tendo em vista essas duas necessidades da educação brasileira, realizou-se uma pesquisa que procurou responder à seguinte pergunta: em EaD nos cursos de licenciatura em pedagogia do sistema UAB da Universidade Estadual do Ceará (UAB/UECE), como a formação dos professores contribui para o exercício da docência? O trabalho tem como objetivo identificar qual a formação dos professores atuantes no curso de licenciatura em pedagogia da UAB/UECE. Para tanto, na metodologia, adotou-se o survey como método de pesquisa. O instrumento utilizado foi um questionário on-line, enviado por correio eletrônico e criado com o apoio do software livre LimeSurvey. A amostra da pesquisa foi tomada aleatoriamente e composta por 47 docentes, de uma população de 90 professores. Os resultados evidenciam que ainda há um grande número de docentes sem formação específica em EaD para atuar no curso. Por outro lado, a formação para a EaD oferecida pela UAB/UECE não atende plenamente as necessidades formativas dos docentes.

Formação às avessas: problematizando a simetria invertida na educação continuada de professores

PID: S1517-97022013000400004 | Journal: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Year: 2013
Authors: Oliveira Bueno
O trabalho busca problematizar a implementação do modelo de formação docente prescrito pela legislação educacional brasileira, por meio da análise de um Programa de Educação Continuada, o PEC Formação Universitária Municípios, realizado no Estado de São Paulo entre 2003 e 2004. A pesquisa é de natureza qualitativa. Contou com observações em contextos de ensino on-line e off-line, durante 18 meses, e coleta de materiais de natureza diversa: documentos oficiais, notas de campo, entrevistas, além de trabalhos produzidos pelas alunas-professoras, em especial uma modalidade de trabalho chamada escritas de memórias. O marco teórico fundamenta-se na teoria do habitus de Bourdieu e nas contribuições de seus críticos contemporâneos. Ao investigar os processos formativos inerentes à condição de aluna das docentes, intenta-se analisar as relações entre as situações de aprendizagem observadas ao longo do desenvolvimento do Programa e o modo como foram apropriadas pelas professoras. As análises desenvolvidas permitem afirmar que muitas das reflexões feitas pelas professoras, quando na situação de alunas, tiveram origem em um processo de aprendizagem não previsto e até mesmo ignorado pelo Programa. Esse processo, aqui denominado formação às avessas, colocou em causa o princípio da simetria invertida pelo qual o Programa de Educação Continuada de Formação de Professores (PEC) se orientou e, por conseguinte, alguns dos fundamentos pedagógicos do modelo em análise.

Governamentalidade e a genealogia da política

PID: S1517-97022013000400015 | Journal: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Year: 2013
Authors: Gordon
O artigo oferece uma série de reflexões a respeito de uma fase dos trabalhos de Michel Foucault e de alguns de seus colaboradores apresentada no volume The Foucault effect: studies in governmentality (1991), coeditado pelo autor. Tais reflexões se organizam em três partes. Primeiro, há uma revisão de alguns aspectos das aulas de Foucault sobre governamentalidade que, por diferentes razões, foram deixados de lado quando o livro foi publicado. Em seguida, faz-se um balanço de temas importantes que, embora presentes no livro, não receberam suficiente atenção dos leitores. Finalmente, no eixo que ocupa a maior parte do artigo, examinam-se as últimas discussões de Foucault a respeito do que o autor denomina múltiplos nascimentos da política, a fim de demonstrar a continuidade da pertinência do empreendimento foucaultiano nos anos 1970, tornado possível devido à noção de governamentalidade, ao mesmo tempo tão estranha e operacional. Tal atualidade é indicada não somente pelo incremento dos estudos sobre governamentalidade após o aparecimento dos cursos que Foucault deu no Collège de France, mas principalmente pelos dilemas e aporias que a cultura política em que estamos mergulhados nos trouxe. Nesse sentido, o artigo se encerra com uma espécie de agenda de pesquisa para dar continuidade ao trabalho inacabado de Foucault, uma agenda que nos convida a aprofundar nossa compreensão das relações entre a filosofia crítica, a racionalidade política e a cultura política, compreendidas como um conjunto de formas de conduta e de sociabilidade, modos de vida e estilos de subjetivação e dizer verdadeiro.

Igualdade, desigualdade e diferenças: o que é uma escola justa?

PID: S1517-97022013000100003 | Journal: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Year: 2013
Authors: Schilling
Neste artigo apresentamos os resultados de uma pesquisa que teve por título Direitos humanos, justiça e violência: percepções sobre a escola justa. O ponto de partida foi a constatação do impasse e da circularidade do debate sobre a violência, a reprodução das desigualdades e o desrespeito às diferenças no cotidiano escolar. Como enfrentar de forma mais oblíqua os conflitos que aí acontecem, lidando de outra maneira com as demandas por uma escola mais justa e pensando em práticas que nos podem permitir ocupar outro lugar? Na pesquisa, realizamos uma sistematização do debate teórico sobre justiça/injustiça e um estado da arte acerca do debate acadêmico sobre a questão, ambos com foco sobre as produções que cercam a escola, além de dois estudos empíricos. Neste texto, que é necessariamente um recorte de uma pesquisa mais ampla, apresentamos os resultados das percepções sobre o justo/injusto coletadas entre alunas(os) do curso de pedagogia da Universidade de São Paulo e estudantes do ensino médio, professores e gestores de uma escola pública de São Paulo. Tais resultados foram obtidos a partir da análise das respostas a uma questão que implicava um relato de uma situação justa ou injusta no mundo e de uma situação justa ou injusta na escola. Encontramos uma forte ênfase na percepção sobre a injustiça, tanto nos relatos sobre o mundo, quanto naqueles sobre a escola, comprovando a discussão teórica de que o positivo é a percepção da injustiça. Essas percepções são apresentadas a partir de algumas categorias construídas, e o artigo se encerra com uma breve exposição das propostas sobre o que seria uma escola justa.

Inclusão e internacionalização dos direitos à educação: as experiências brasileira, norte-americana e italiana

PID: S1517-97022013000100007 | Journal: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Year: 2013
Authors: Rahme
Considerando a educação inclusiva como um discurso que engendra formas de estabelecimento do laço social, investiga-se neste trabalho, a partir do referencial psicanalítico, o delineamento de um discurso inclusivo em três experiências educacionais: a brasileira, a norte-americana e a italiana. A educação especial configura-se, social e historicamente, como um campo de saberes e práticas destinadas a sujeitos que apresentam especificidades do ponto de vista sensorial, físico e mental. A partir da década de 1990, o termo inclusão passa a ser adotado em publicações desse campo provenientes dos Estados Unidos e da Suécia, processo que se fortalece nos anos seguintes por meio de declarações internacionais que introduzem, de modo pungente, a perspectiva de uma educação inclusiva destinada, a princípio, a alunos com necessidades educacionais especiais. Posteriormente, observa-se um emprego mais amplo dessa terminologia, que passa a significar, a partir dos anos de 1990, uma demanda dirigida aos sistemas de ensino no sentido de garantir escolarização e pertencimento social para todo aluno, independentemente de seus atributos individuais e sociais. Neste artigo, apresentamos o resultado de levantamento e análise de documentos e publicações referentes às experiências educacionais sobre o tema desenvolvidas no Brasil, nos Estados Unidos e na Itália. Tais experiências permitem indicar, entre outros aspectos, que o processo de inclusão encontra-se articulado a um movimento mais amplo de internacionalização de direitos e que o discurso inclusivo comporta tanto mudanças quanto permanências dos lugares socialmente ocupados pelos alunos considerados diferentes no contexto escolar.

Infância e educação: novos estudos e velhos dilemas da pesquisa educacional

PID: S1517-97022013000400008 | Journal: Educação e Pesquisa (1517-9702) | Year: 2013
Authors: Rocha Buss-Simão
Este artigo toma como objeto de análise a produção acadêmica relacionada ao tema educação e infância, no âmbito dos programas de pós-graduação em Educação da Região Sul do Brasil, nos últimos cinco anos (2007-2011). Tem o objetivo de buscar indicativos das interlocuções dessa produção com a educação nas creches, pré-escolas e escolas. Para o desenvolvimento da análise, retomaram-se alguns velhos dilemas da pesquisa educacional, em especial aqueles que envolvem a relação entre teoria e prática uma vez que uma perspectiva avaliativa da contribuição da pós-graduação para a educação básica brasileira exige um olhar sobre as relações da pesquisa com as práticas pedagógicas nos sistemas educativos. Sem a pretensão de realizar um estado da arte do referido período, buscou-se identificar as perspectivas e bases analíticas desse conjunto de investigações, o qual revela um fortalecimento dos diálogos possíveis entre pós-graduação e educação básica, a partir da abertura científica para colaborações disciplinares e teóricas na direção de consolidar uma ciência da educação cujo foco são os processos educativos que envolvem as crianças pequenas, considerando sua concretude social e cultural. As análises indicam a necessidade de estar alerta para os riscos de superficializações e generalizações que o interesse em conhecer as crianças e sua infância coloca para a pesquisa educacional realizada contemporaneamente outro passo: a reavaliação de sua especificidade.
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