A discussão em torno da temática ambiental e das possibilidades e limites do processo educativo relacionado com as questões propostas por essa temática se faz presente em muitos setores da sociedade atual. A produção e veiculação de pesquisas e a proposição de programas e ações relacionados principalmente com a inserção da Educação Ambiental (EA) no ensino formal nos permitem vislumbrar a amplitude que tal iniciativa vem tomando. Nesse contexto, desenvolvemos uma pesquisa em nível de mestrado que se insere no âmbito do Projeto Observatório da Educação Capes/INEP/Secadi e procura analisar possíveis processos de ambientalização curricular expressos nos projetos políticopedagógicos (PPP) dos cursos de licenciatura em Pedagogia de universidades federais brasileiras. O artigo que apresentamos é um recorte dessa pesquisa no qual aprofundamos a discussão de dois temas ambientais: - As dimensões da EA - e - Desenvolvimento e natureza: algumas possibilidades -. Assim, partindo de uma pesquisa documental e tendo o apoio teórico de autores que têm procurado refletir sobre os significados da temática ambiental para as sociedades contemporâneas e sobre propostas críticas para a Educação Ambiental, procura-se explorar, por meio de análise dos PPPs, possíveis sentidos atribuídos a esses processos de ambientalização curricular. Como principal referencial metodológico, nos apoiamos na proposta de - produção de sentidos - apresentada por Gomes e Nascimento (2006). Algumas reflexões sobre os dados nos permitem vislumbrar que diferentes temas ambientais vêm sendo considerados nos projetos desses cursos, o que evidencia movimentos e processos de ambientalização curricular.
Em meio à constelação de mitos que têm contribuído para a atual crise socioecológica, encontra-se a crença de que somos indivíduos substanciais, atomizados ou separados do meio o qual tentamos “dominar”. A ignorância com respeito à nossa interdependência ontológica está na base de muitas das nossas posturas (auto)destrutivas e tem sido reforçada por diversos sistemas teóricos ao longo da história ocidental. À margem de dualismos platônicos, de transcendências judaico-cristãs e do cogito cartesiano, a filosofia de Benedictus de Spinoza (1632-1677) nos convida a repensar os fundamentos da realidade complexa na qual estamos imersos. Meu propósito neste artigo é tecer relações produtivas entre algumas dimensões da filosofia de Spinoza, o pensamento ambiental e a educação. Nosso ponto de partida será a concepção spinozista de corpo. Este será definido como potência que se expressa ao mesmo tempo como produtividade (força causal) e sensibilidade (força receptiva). O carácter essencialmente relacional e afetivo do corpo humano nos permitirá pensá-lo também como potência compositiva. Desconstruindo a dicotomia entre Natureza e Cultura, proporei que reflexionemos sobre as composições humano-tecnológicas com respeito a seus efeitos sobre nossa potência de pensar e atuar. Em conclusão, apresentarei alguns comentários sobre o papel da educação como espaço relacional no qual podem se integrar de forma potenciadora as dimensões epistêmica, ética, política e ambiental da nossa existência como partes interdependentes da Natureza.
Este artigo apresenta um conjunto de estratégias para ler e apreciar a poesia em contexto escolar, particularmente nos primeiros anos da escolaridade. A poesia é concebida como um tipo de texto onde a elevada concentração sígnica e a multivalência semântica, expandidas pela plurissignificação da conjugação dos elementos do conteúdo com os da expressão, possibilita, ao leitor, o contato emocional e afetivo com o estado de coisas do mundo empírico e histórico-factual, sugerindo percursos hermenêuticos plurais para o seu acesso, conhecimento e reflexão. Assume-se, ao longo do texto, que a fruição do texto poético é relevante na criação de hábitos leitores, aspeto crucial para a formação de leitores capazes de ler voluntariamente em quantidade e em qualidade.
Neste artigo, investigam-se as políticas de avaliação da pós-graduação e suas consequências no trabalho dos pesquisadores. A pesquisa fundamentou-se na abordagem qualitativa, incluindo a análise histórica e realização de entrevistas com professores dos Programas de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) e da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB). Os resultados indicam que as atuais políticas para a educação superior do país se encontram inseridas nessa estratégia de inclusão da economia brasileira às intensas mudanças que ocorrem na base produtiva do capitalismo em nível global, atingindo as políticas públicas para a pós-graduação. As mudanças no mundo do trabalho tiveram um impacto significativo marcado pela negatividade na natureza do trabalho docente da pós-graduação.
A transição entre modelos pedagógicos, pelo qual passa hoje a Educação a Distância, encontra obstáculos nas dificuldades para a diferenciação das condições fundamentais à mudança. Buscando contribuir para essa discussão, apresentamos um modelo interacionista de formação de professores a distância e realizamos uma avaliação preliminar dos impactos da sua aplicação em um curso de graduação em Pedagogia, em que as estudantes são professoras da rede pública de ensino. Analisamos a percepção das professoras-alunas com respeito às mudanças em suas vidas (nos âmbitos pessoal, profissional e como estudante) e também com respeito às características do curso que se mostraram facilitadoras do processo de aprendizagem. Observamos correlações importantes entre os elementos centrais do modelo adotado, os impactos do curso e as características facilitadoras percebidas pelas professoras-alunas.
O artigo tem por finalidade apreender e discutir os fundamentos das propostas de ampliação de tempo escolar em curso nas redes de ensino público brasileiro. É um desdobramento de um trabalho anterior (SANTOS, 2009), em que foram levantados, entre outros dados, os argumentos mais frequentemente utilizados para justificar as propostas de escola integral em curso no País. Tendo por referência essas justificativas, o artigo discute duas tendências na argumentação em defesa da implantação das redes de escola integral no País: primeiro, a escola integral assume o discurso de prevenção de risco social, incorporando a função de assistência social às responsabilidades da instituição escolar; segundo, a ampliação do tempo escolar passa a envolver ações de atores voluntários e a incorporar novos ambientes dentro e fora da escola. Por fim, são discutidas possíveis implicações para a política de ampliação de tempo escolar em curso no Brasil, com destaque para os riscos de descaracterização do papel social da escola e a diminuição da responsabilidade do Estado diante da Educação Básica.
O presente artigo busca analisar como as recentes reconfigurações das universidades federais (IFES) no País têm sido processadas de forma compartilhada entre o governo federal, através do Ministério da Educação (MEC), reitores e setores importantes destas instituições. Apresenta conclusões a partir da análise das mudanças político pedagógicas engendradas, no início da primeira década deste novo século, pelas universidades no contexto de sua inserção na contrarreforma da Educação Superior. Através da análise de documentos institucionais das universidades pesquisadas, particularmente da Universidade Federal Fluminense (UFF), o texto aponta as diretrizes que orientam tais alterações e conclui que o recente Programa de Apoio aos Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni) cumpriu, em grande medida, o papel de ampliar e legitimar um processo de reforma das IFES, já em curso antes de sua implementação.
Este artigo é parte de estudos realizados no doutorado em Educação e tem por objetivo discutir a qualidade da educação apresentada nos materiais instrucionais de uma entidade do Terceiro Setor que tem influenciado políticas educacionais de diferentes esferas de governo desde finais da década de 1990 no Brasil. É de abordagem qualitativa e constou de análise de documentos expedidos pela referida entidade e pelo poder público de um município brasileiro. A ideia de qualidade veiculada nesses materiais é tomada de empréstimo das teorias das organizações empresariais, como a Gerência da Qualidade Total. Atualmente, tem se evidenciado que a polissemia de ideias envolvidas no termo qualidade da educação possibilita diversas interpretações e facilita os discursos ou slogans sobre a temática. Apesar da relevância desses discursos, os materiais analisados mostram que a defesa da qualidade tem se dado no plano discursivo ou em slogans, como um recurso de poder, sem uma definição clara e objetiva da qualidade que se defende para a educação brasileira.
Na infinidade de questões que perpassam o debate do currículo escolar, em sua vastíssima complexidade, elegemos a questão do trato do conhecimento no currículo integrado, presente na política educacional voltada para a Educação Profissional, particularmente ao Programa de Integração da Educação Profissional ao Ensino Médio na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (PROEJA). Adotamos como recurso metodológico a pesquisa bibliográfica, que compreendeu o levantamento e a análise de fontes primárias (legislação educacional) e fontes secundárias (teses, dissertações, relatórios de pesquisa, livros e periódicos). Apontamos para a necessidade de se postular um currículo que esteja integrado ao método, o qual, por sua vez, expresse a luta de classes em perspectiva de totalidade, ou seja, que possibilite trabalhar os elementos integradores da vida humana em seu movimento histórico e contraditório.
Este texto analisa os sentidos que têm sido atribuídos à incorporação educacional das tecnologias da informação e da comunicação (TIC) e está organizado em três seções. A primeira compreende uma tentativa de síntese da análise crítica de discurso como alternativa teórico-metodológica para a abordagem dos encaminhamentos relativos ao tema, tendo como horizonte o contexto da “sociedade global da informação”, suas formulações-chave e tendências, enfatizando a de restringir os sentidos possíveis ao da substituição tecnológica. A segunda seção envolve as ressignificações de ensinar e aprender no contexto citado, focalizando os discursos sobre estes processos no cenário internacional. A terceira e última seção aponta para o resgate dos sentidos plurais das TIC na sua recontextualização educacional, tendo em vista superar a substituição tecnológica como sentido hegemônico.
Este artigo propõe uma interlocução entre a noção de invenção e a Educação Matemática, em particular, a sala de aula de matemática. A discussão tem como mote um episódio de pesquisa de campo, realizada a partir do método cartográfico em uma escola da rede pública de Juiz de Fora/MG. Em torno deste episódio são articulados dois discursos acerca da cognição e da aprendizagem: o da Teoria dos Campos Conceituais, de Gérard Vergnaud, e o do Modelo dos Campos Semânticos, de Rômulo Lins. A invenção opera transversalmente nos dois discursos, abrindo possibilidades de pensar a aprendizagem como coprodução si-mundo.
O texto analisa o processo de escolarização e letramento entre os Xakriabá, povo indígena residente no norte de Minas Gerais, a partir de um recorte de gênero. Serão apresentados dados estatísticos da escola indígena Xakriabá e breves descrições da vida cotidiana. O principal objetivo é demonstrar que, apesar dos pontos de convergência entre a escola indígena Xakriabá e a escola não indígena brasileira no que tange à melhor progressão escolar das mulheres e à feminilização do magistério (ainda que não seja nos cargos hierarquicamente de comando), observam-se diferentes significados atribuídos ao processo de escolarização e letramento, pois se instalam em contextos com dinâmicas sociais, culturais e econômicas específicas.
O artigo reflete sobre a experiência de ingresso e permanência de estudantes indígenas nas instituições de Ensino Superior públicas do Paraná enquanto promotora de uma política pública de educação superior no território paranaense. Inspira-se nas trajetórias desses acadêmicos, ingressantes pelo Vestibular dos Povos Indígenas, demonstrando que a permanência desses sujeitos no ensino superior somente se faz possível mediante a efetivação de um duplo pertencimento: o acadêmico e étnico-comunitário. São evidentes os limites da tarefa do Estado nessa ação, uma vez que a permanência requer políticas públicas de educação superior voltadas efetivamente a esses sujeitos e sensíveis aos pertencimentos por eles construídos. O trabalho resultou de revisão de literatura, análise documental e análise de conteúdo de entrevistas realizadas junto aos acadêmicos indígenas e profissionais índios recém-formados. Reconhece-se o ineditismo da experiência paranaense iniciada nesta década, cuja consolidação se deve à efetiva atuação do Estado, das universidades públicas e das lideranças e comunidades indígenas.
O texto tem por objetivo reconstruir e analisar as razões que levaram o educador americano John Dewey a eleger a democracia como credo pedagógico de sua filosofia da educação. Para tanto, inicialmente se fará uma breve reconstrução das origens da democracia na paideia grega para em seguida analisarem-se os motivos que levaram Dewey a eleger a democracia como principal referência do seu credo pedagógico. Nos dois últimos tópicos analisa-se a concepção democrática de educação na obra Democracia e Educação e por que Dewey utiliza a ciência, a filosofia e a educação como instrumentos na reconstrução da democracia.
Este artigo reflete sobre uma vivência de intervenção docente, na forma de Estágio de Docência no Ensino Superior, no Curso de Licenciatura em Matemática de uma universidade do interior do Rio Grande do Sul, Brasil. A intervenção ocorreu em uma disciplina de Prática de Ensino, que teve como centralidade a discussão dos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental. Esta produção é marcada por momentos, que, embora, separados, se complementam, se articulam. Foram feitas análises das observações de aula da professora titular e das atividades usadas pelo professor estagiário e, por fim, análises de registros dos licenciandos, advindos da reflexão das atividades realizadas na intervenção. As contribuições provenientes deste artigo são, principalmente, as articulações imprimidas pelos licenciandos entre os campos, blocos de conteúdos e conceitos de matemática do Ensino Fundamental. As articulações construídas revelam possibilidades de tratamento dos conceitos matemáticos na licenciatura e projetam os licenciandos como professores de matemática da Educação Básica.
Este trabalho procura apresentar um panorama da situação da educação superior indígena no Brasil, focalizando tanto algumas políticas públicas implementadas pelo Estado quanto programas de ações afirmativas de universidades federais e estaduais destinadas a alunos indígenas. Com base em registros de campo e pesquisas existentes são discutidas as condições de acesso e permanência de estudantes indígenas em algumas universidades do País. São também descritas e analisadas as demandas por eles colocadas, suas principais dificuldades e as experiências que vivenciam no espaço universitário. Deste modo, pretende-se contribuir com pesquisas em um campo ainda pouco explorado, o da educação escolar indígena, que tem se tornado uma importante demanda do movimento indígena, mas ainda é objeto de pouca reflexão analítica.
Este artigo apresenta resultado de pesquisa sobre processos de interação e mobilização identificadas em alunos de um curso presencial de Licenciatura em Matemática usando recursos de ambientes virtuais de aprendizagem. O recorte neste artigo se dá sobre a mobilização de conhecimentos curriculares numa perspectiva de prática pedagógica em interações estabelecidas com o uso do chat e do diário. A análise teve por base Thompson (2004), Primo (2008), Silva (2010), Scherer (2005), Charlot (2000), entre outros. Os resultados mostram que houve mobilização de conhecimentos através de interações mútuas e a existência de um movimento reflexivo de aprendizagem que implicou construção conceitual, que a integração das ferramentas disponíveis em ambientes virtuais no ensino presencial potencializam a comunicação e a interação entre professor e aluno e entre os alunos, estendendo os processos de aprendizagem para além do espaço e do tempo das aulas, dando a ideia de uma “sala de aula expandida”.
Essa pesquisa objetiva verificar como estudantes da Educação Básica se percebem em relação à matemática e, ao mesmo tempo, analisar os procedimentos utilizados para resolver questões algébricas. Os sujeitos, estudantes de 8ª série do Ensino Fundamental, 1º e 3º anos do Ensino Médio, de duas escolas públicas de Passo Fundo/RS, responderam a um instrumento contendo questões relacionadas à sua própria percepção das aulas da disciplina, à matemática e a conteúdos algébricos. A análise foi baseada principalmente em autores das áreas da Educação Matemática e da psicologia histórico-cultural. Verificamos que, mesmo entre os estudantes que afirmaram sentirem-se alegres ou felizes com a ideia de terem uma aula de matemática, muitos apresentaram dificuldades de aprendizagem de conteúdos algébricos, reveladas pelos procedimentos utilizados. Concluímos que é necessário elaborar propostas com sequências didáticas, fundamentadas matemática e pedagogicamente, que efetivamente potencializem a apropriação de significados dos conceitos abordados e a sua aplicação em diferentes situações.
Esta pesquisa discute as concepções de duas professoras sobre o ensino da argumentação e suas relações com a prática pedagógica em turmas do 5º ano. A análise de cinco aulas de cada professora revelou que uma delas adotava uma concepção de argumentação desvinculada das situações de uso, expressa no ensino de conceitos e de uma forma composicional padrão. A outra professora demonstrou maior clareza acerca da diversidade de gêneros textuais e das situações em que se deve argumentar, o que gerou a proposição de atividades de leitura e escrita mais contextualizadas, com foco nas especificidades dos gêneros trabalhados. Conclui-se que a concepção de argumentação como prática discursiva demanda um maior conhecimento sobre a variedade de situações e gêneros presentes na sociedade, sendo este um requisito para uma ação pedagógica mais reflexiva e voltada para os usos sociais da escrita.
Este artigo tem como objetivo identificar e analisar os conhecimentos mobilizados por professoras dos anos iniciais do Ensino Fundamental, ao elaborarem histórias infantis com conteúdos matemáticos. A pesquisa desenvolvida aproxima-se da vertente de pesquisa participante, e o local de investigação foi um curso de curta duração oferecido, pelos autores deste texto, em um seminário de Educação Matemática para professores dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Os instrumentos usados para a produção dos dados foram o áudio, o vídeo, o diário de campo e os registros produzidos pelas professoras. Os resultados evidenciaram que as professoras mobilizaram seus conhecimentos do conteúdo e seu conhecimento pedagógico do conteúdo, ao buscarem solucionar os diferentes problemas propostos e, principalmente, ao elaborarem histórias infantis com conteúdo matemático.