Este artigo tem como objetivo central investigar as conexões e os distanciamentos entre a violência em meio escolar e a violência nos bairros de onde provém sua clientela. Procuraram-se identificar fatos que caracterizam a realidade escolar como também as representações sobre a violência. O estudo teve uma abordagem qualitativa, no qual foi utilizada a metodologia de estudo de caso. Os dados foram obtidos por meio de entrevistas e observações das relações escolares. A escolha da escola esteve pautada em critérios socioeconômicos da população residente, na condição de violência no entorno e na situação de violência da própria escola. Os resultados obtidos indicam tanto a existência de manifestações de violência, próprias da realidade externa penetrando o interior das escolas, quanto o modo como essas representações interferem na conduta dos profissionais e agentes da educação. Essas representações têm por referência dois momentos. O primeiro em que relatos de acentuada violência estimulam sentimentos de medo e insegurança entre os atores da escola, impedindo ou dificultando a ação educativa. Um segundo momento, datado a partir da chegada de nova direção, no qual são percebidas tentativas de reversão desse quadro mediante adoção de disciplina rígida. Os efeitos dessa mudança revelam, por um lado, percepções quanto à redução da violência associada à realidade externa, em especial à presença do tráfico de drogas nas dependências da escola; por outro, evidenciam a produção de uma violência institucional, que exclui aqueles resistentes à nova ordem.
Este artigo conversa com a noção de infância proposta por Maurice Merleau-Ponty em seus Cursos na Sorbonne sobre a Psicologia e a Pedagogia da criança. O texto tem raiz nos resultados da pesquisa de pós-doutoramento da autora, pesquisa de criação dramatúrgica na metodologia de “trabalho em processo” cuja totalidade, entre etnografia, estudo das cenas de rua e criação de roteiros teatrais, permitiram-na propor a noção de criança performer. Trata-se de uma contribuição original com base na tradição fenomenológica, bem como na noção de culturas da infância. O artigo faz interlocução com o que estudiosos da cena contemporânea nomeiam performance e performer de modo a propor uma visão de criança performer, com foco especialmente voltado para a Pedagogia Teatral e a Educação Infantil.
O objetivo deste texto é discutir os planejamentos plurianuais realizados no período do governo de Fernando Henrique Cardoso e do primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva, com destaque para a análise das políticas para a educação profissional do Brasil, sob o olhar das mudanças socioinstitucionais ocorridas no período, e também o caráter descentralizado das políticas adotadas. Para o alcance desse objetivo foi desenvolvida uma análise dos documentos oficiais dos planejamentos plurianuais produzidos durante o período de 1995-2007, além da análise de estudos de relatórios técnicos do IPEA sobre a matéria. A leitura desses relatórios justifica-se pela participação de técnicos do IPEA na elaboração e na avaliação dos PPAs. O artigo conclui que há um padrão de regulação no quadro das políticas de educação profissional após os anos 1990, centrado na adoção de políticas descentralizadas (de transferências de responsabilidades) e focado na população em risco social.
Este texto interroga-se sobre a função formadora da experiência e propõe uma série de questões, entre elas, o que é a experiência? Trata-se de formar aquele que faz experiência ou aquele que não tem esta experiência? Formar para fazer o quê? Como fazer falar a experiência? Qual é a articulação possível entre o polo do saber formal e aquele da experiência? O autor aborda essas questões problematizando a história filosófica do conceito de experiência. Essa passagem pela filosofia indica que é preciso pensar outra coisa, além disso, que foi pensado até o momento como experiência, para poder dar um sentido à questão de saber se ela é formadora.
Uma indústria da reforma escolar tem se desenvolvido nos Estados Unidos, desde a publicação do relatório encomendado, A Nation at Risk, de 1983. Esse movimento pela reforma escolar foi impulsionado pela teoria do capital humano, pela influência do lobby empresarial, pelo apoio bipartidário dos testes da responsabilização por meio da introdução de uma avaliação padronizada e por grandes fundações filantrópicas como as de Bill Gates, Sam Walton e Eli Broad. Esse capítulo defende que o estudo minucioso de que necessitamos exige novas teorias de poder e das relações políticas. Enquanto os atores políticos tradicionais foram cruciais na promoção da legislação a respeito das reformas educacionais, novos e bem-financiados atores políticos promoveram essas reformas por meio da criação daquilo que Edelman (1988) chamou de espetáculo político, resultando em uma cultura de performatividade (Lyotard, 1984) e na privatização de grandes setores da escolarização pública.
As definições de alfabetização, alfabetismo e letramento estão relacionadas aos diferentes olhares lançados sobre tais processos. Este estudo teórico trata, portanto, da trajetória desses conceitos abordados por diferentes autores em um recorte da produção acadêmica na área da educação, constituindo-se como uma pesquisa de caráter bibliográfico. Inicialmente, faz-se uma incursão sobre a origem dos termos para, depois, demarcar a abrangência do letramento - constituído pelos elementos oralidade, leitura e escrita - e especificar os conceitos de práticas e eventos a partir dos Novos Estudos do Letramento, dada a produtividade teórico-metodológica dos mesmos para o desenvolvimento de pesquisas em educação. Como resultado, salienta-se o caráter múltiplo e social das práticas de letramento, descritas através de eventos observáveis e compreendidas em seus contextos de origem.
Neste artigo, traço uma história das ciências dirigidas à escola na virada do século XX e hoje, focando primordialmente os EUA, e exploro os gestos dúbios de esperança e medo como uma história do presente. Considero os temas de salvação da educação progressista americana na pedagogia escolar, no cosmopolitismo da criança que envolve seu gesto de oposto da abjeção e da exclusão nas novas sociologias da comunidade e da vida da familiar urbana. Retorno aos temas da salvação, da educação e da comunidade urbana nas reformas contemporâneas num cosmopolitismo do presente que dirige a atenção às qualidades da criança associadas à aprendizagem ao longo da vida que existe em relação aos medos daquela criança que vive fora do espaço cultural desse cosmopolitismo.
O texto apresenta resultados de pesquisa sobre modos de subjetivação de relações homoeróticas em um CAPS de Aracaju/SE. Busca desnaturalizar práticas, crenças e valores articulados em estereótipos sobre as questões de gênero e sexualidade encontradas nos discursos das diferentes funções sujeito que compõem o campo de intervenção: técnico/as, usuário/as, familiares e gestore/as. A pesquisa salienta modos de atualização da discriminação que se traduzem em pedagogias de gênero e sexualidade, formando e informando relações institucionais e práticas profissionais. Sinalizando limites, limitações e desafios da política de saúde mental, orientado para discutir o caráter de evidência dos saberes e fazeres que produzem e naturalizam corpos normalizados e identificados, o itinerário volta-se para o encontro com o inusitado. Linhas imprevisíveis de análises apontam direções outras, desenhando formas inventivas de relação com o outro. Formas, inclusive, ainda por virem.
O estudo analisa em que medida a mensagem sociológica transmitida pelo Discurso Pedagógico Oficial, veiculado no currículo do 3º ciclo do ensino básico português, traduz os princípios ideológicos e pedagógicos das suas autoras. A investigação apresenta pressupostos epistemológicos e sociológicos e está particularmente baseada na teoria do discurso pedagógico de Bernstein.Os princípios ideológicos dizem respeito a grandes metas da educação e os princípios pedagógicos a características da prática pedagógica. Os dados foram obtidos através de uma entrevista semiestruturada feita às autoras e de análise documental de publicações por elas produzidas. Os resultados sugerem que as autoras valorizavam diferentes princípios ideológicos e pedagógicos e mostram que existiam descontinuidades entre esses princípios e a mensagem do currículo. Estes resultados são discutidos e exploram-se as suas consequências em termos de aprendizagem científica.
Neste artigo, abordo alguns dos desafios exigidos das escolas pelas culturas digitais emergentes dos jovens. Questiono a idéia de que a escola seja uma instituição ultrapassada e que seu fim seja iminente e previsível; o relato de relações necessariamente libertadoras ou empoderadoras dos mais jovens com a mídia digital, promotora de estilos mais espontâneos e informais de aprendizagem; também a ideia de que a tecnologia ofereça uma forma mais eficiente para as escolas atingirem sua missão tradicional. Argumento que as escolas podem desempenhar um papel pró-ativo, ao apresentar tanto perspectivas críticas quanto oportunidades de participação em relação à nova mídia e que a participação dos jovens nos mundos cibernéticos levanta algumas questões fundamentais quanto ao futuro da escola como instituição.
Cultura e Relação de Poder na Escola. Este artigo relata resultados de uma investigação que teve por objetivo analisar a cultura e as relações de poder na gestão escolar, na perspectiva das políticas educacionais contemporâneas brasileiras. A discussão conceitual trata da tensão entre a organização escolar centralizadora, por um lado e, por outro, a gestão coletiva emergente. Analisamos, via estudo de caso em uma escola da rede pública municipal de Recife, como o princípio democrático se concretiza na prática escolar reconhecida como democrática, caracterizada como articulação entre as perspectivas da regulação social e da emancipação. Os resultados apontam para uma diversidade de interpretações dos segmentos escolares a respeito da distribuição de poder na organização escolar, que se refletem em formatos organizacionais difusos inerentes à organização compartilhada em construção e espelham a diversidade cultural.
Com base em casos precisos, a contribuição que segue visa a esclarecer o caráter particularmente didático da performatividade, quando essa acontece no contexto de práticas espetaculares - artísticas ou não. Após uma definição e uma genealogia da palavra, exemplificar-se-á o caráter didático da performatividade, por intermédio do trabalho de profissionais do teatro, em três casos, a saber: o contexto de um teatro-oficina; uma turma de integração escolar e um espetáculo-procissão organizado pela Casa do Protestantismo. Serão abordados, em seguida, os usos sociais do teatro (na empresa, no hospital e na prisão). Por fim, serão mencionados dois casos sem profissionais do teatro, no domínio da publicidade e do esporte-espetáculo.
A Educação Profissional e a Educação de Jovens e Adultos (EJA), ao longo de décadas de sua história percorreram caminhos difíceis e conturbados. Nesse sentido, a realização da V Conferência Internacional de Educação de Adultos - V Confintea, em Hamburgo, na Alemanha, em 1997 trouxe a contribuição de um conceito ampliado de EJA, em que é destacada a presença da relação educação e trabalho, isto é, a integração entre qualificações técnicas e profissionais, como elemento importante para a participação do sujeito no processo de produção de bens da sociedade, bem como das necessidades individuais. Este artigo pretende discutir a articulação entre EJA, Trabalho e Educação, na formação profissional levantando as possibilidades de integração entre as áreas supracitadas problematizando os pontos de confluência entre as áreas e as possíveis dificuldades e possibilidades para consecução deste desafio, imprescindível para uma formação integral de sujeitos jovens e trabalhadores.
O presente artigo busca retomar o desenvolvimento lógico e histórico da Educação Integrada, a partir de reflexões teórico-práticas desenvolvidas na Educação Profissional e Tecnológica e na Educação de Jovens e Adultos no Brasil. A reflexão pauta-se pela retomada do referencial teórico-conceitual de Trabalho, como princípio educativo, matriz do campo da Educação Profissional e Tecnológica, numa perspectiva emancipatória, bem como pelo referencial freiriano de Educação de Jovens e Adultos, mediada pelo diálogo e pela construção coletiva de conhecimento. Por fim, a escolha deste caminho reflexivo quer destacar que a Educação Integrada, na efetivação do PROEJA em Goiás, é ao mesmo tempo conceito, experiência histórica e intencionalidade que se faz e se refaz e que faz e refaz os processos educativos empreendidos pela sociedade.
O artigo discute a educação das crianças pequenas no que se refere ao paradoxo entre o ordenamento legal, os discursos e a realidade vivenciada pelas crianças e suas famílias, tendo como base uma pesquisa que buscou compreender como alguns grupos de famílias, dos meios populares de um bairro da periferia urbana do Município de Rio Grande, estruturam suas práticas e lógicas de cuidado/educação das crianças pequenas. O estudo aponta que a lógica cultural familiar está associada a uma obrigação moral em que a família não deseja delegar, mas sim compartilhar e socializarse, junto com as crianças; apresenta-se a possibilidade de pensar para além dos modelos existentes de creches e pré-escolas. Por fim, problematiza as relações entre as famílias e as instituições escolares, pois esta tem sido a única política educativa vivenciada pelas famílias.
Este artigo argumenta em prol de uma compreensão estendida do conceito de educação. Examina a socialização das crianças inglesas em casa no início do período Moderno. Analisa o papel desempenhado pelos pais na instrução religiosa e na educação acadêmica dos filhos. Investiga também como as crianças foram preparadas para o seu ambiente em sua cultura e sociedade. Os pais ingleses do início do período Moderno enfatizavam a importância dos bons modos, do respeito, da deferência à autoridade e da necessidade do respeito a um código moral. Embora os pais tivessem um conjunto de valores bem definido, que desejavam passar para os filhos, não era a sua pretensão obrigá-los a aceitar tais valores. Em vez disso, os pais queriam garantir que os filhos trabalhassem muito e compreendessem que os bons modos seriam recompensados.
Durante a quinta reunião dos chefes de Estado dos Países Ibero-americanos, no ano de 1995, foi aprovada a criação do Programa Ibero-americano de Cooperação para o Desenho Comum da Formação Profissional (Programa IBERFOP). Ele teve vigência entre 1995 e 2001 e objetivou favorecer o processo de cooperação entre os países ibero-americanos, tendo em vista a confecção de um modelo comum de formação profissional. Este trabalho objetiva analisar o projeto de educação profissional almejado nesse Programa e suas repercussões nas políticas de educação profissional dos países ibero-americanos.
Este artigo apresenta resultados de uma experiência de inovação curricular no ensino presencial de Ciências e foi realizada com uma turma de educação profissional de jovens e adultos. A proposta pedagógica está apoiada na metodologia de Aprendizagem Baseada em Casos e no Espaço Virtual de Aprendizagem (EVA). O objetivo da pesquisa é analisar a adequação dos recursos tecnológicos adotados, a partir da participação dos estudantes em estudos de temas que favorecem a aprendizagem para o trabalho e a cidadania. São analisadas a evolução das concepções dos estudantes e a aquisição de atitudes e habilidades adequadas, durante a realização de um Estudo de Caso sobre nanotecnologia. A análise conclui que os espaços virtuais podem contribuir para a aprendizagem significativa, constituindo-se em importante recurso para o ensino de Ciências, de modo particular, na Educação Profissional de Jovens e Adultos.
O artigo objetiva analisar o contexto político no qual se originou o PROEJA. A recorrência de políticas educacionais, geridas durante décadas sob a ética do mercado e de um modelo de desenvolvimento subalterno aos interesses internacionais, potencializa a dualidade da educação escolar e, ao mesmo tempo, dificulta a emergência de experiências que buscam integrar a formação geral e profissional. No que tange aos dilemas epistemológicos do PROEJA, a análise busca estudar a categoria integração e as possibilidades de organização do currículo integrado, pela mediação de um grupo de professores em formação na confluência dos campos da educação profissional e da EJA. As experiências nos advertem sobre o limite da convivência de projetos múltiplos e heterogêneos em sistemas de ensino deficientes estrutural e pedagogicamente, numa sociedade, como a nossa, que ainda não universalizou a educação básica.
O artigo discute a experiência do PROEJA (PROGRAMA NACIONAL DE INTEGRAÇÃO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL COM A EDUCAÇÃO BÁSICA NA MODALIDADE DE EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS) no Rio Grande do Sul, analisa aspectos relativos à escola e aos saberes do trabalho e discute propostas curriculares, acesso, permanência e inclusão social. O texto inicia apresentando a proposta do PROEJA no Rio Grande do Sul e o projeto de pesquisa no estado. A metodologia parte de um mapeamento do perfil dos estudantes, dos cursos e das escolas, e de estudos de caso em escolas. Discute o tema da escola e dos saberes do trabalho e dos trabalhadores, que dá suporte teórico para as análises sobre as propostas curriculares integradas e sobre dados que se referem à evasão e ao acesso e permanência. Conclui-se que o Programa nas instituições federais de Educação Profissional e Tecnológica enfrenta inúmeras dificuldades na sua implantação, mas é ainda uma possibilidade de aprofundamento de experiências educativas dos trabalhadores.