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Estaremos prontos para a escuta das crianças?

PID: S1984-59872023000100213 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2023
Autores: Frias Diniz Carvalho
resumo Este texto parte de inquietações em torno da prática filosófica com crianças e da escuta que ocorre em algumas comunidades de investigação filosófica (Sharp, 1987; Mendonça; Carvalho, 2018) em contexto escolar. Pensamos nas certezas com que nos movemos nestes espaços e como momentos imprevisíveis podem interromper esses caminhos (aparentemente) seguros, possibilitando novas formas de educar. Esses “momentos críticos” (Haynes; Murris, 2012a) surgem a partir da escuta das vozes de crianças e transformam a forma como o educador-filósofo-investigador se conduz na escola e nas reflexões que faz a partir dessas práticas. Dessa forma, a pergunta da Inês abre a presente escrita. Partiremos também de diálogos com alguns autores, como seja Jean-Luc Nancy, que nos traz importantes ideias acerca da escuta, e Michael Apple, nos lembrando que as escolas podem atuar como mantenedoras de uma situação hegemônica por meio da transmissão de valores e tendências culturais e econômicas ao contexto escolar. Seguimos pela importância e pela reflexão crítica sobre a escuta das vozes das crianças, até nos perguntarmos se a escola as escuta e quais vozes são consideradas nessa escuta. Além disso, em diálogo com hooks, Haynes, Murris e Carvalho, propomos pensar a escola também como um espaço político e, sendo assim, como os exercícios e vivências da escuta ali experienciados podem constituir práticas democráticas. Compartilhamos como exemplo algumas vivências que buscam escutar as vozes das crianças na sala de aula, a partir das quais perpassamos juntamente com Walter Kohan pelos enlaces marginais entre escuta, escola e filosofia. Terminamos referindo que o percurso desta escrita nos conduziu a considerar que a escuta, quando pensada criticamente, pode contribuir para comunidades de investigação filosófica cada vez mais atentas e cuidadosas com a dimensão política das contribuições e falas das crianças.

Filosofia para crianças na arábia saudita e seu impacto nas habilidades não-cognitivas

PID: S1984-59872023000100015 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2023
Autores: Alzahrani Almutairi
Resumo Este estudo examina os efeitos do ensino de Filosofia para Crianças (FpC) no desenvolvimento de habilidades não-cognitivas entre os/as estudantes. Embora o foco principal da escolarização moderna esteja nos resultados, as habilidades e atitudes não-cognitivas ainda estão no escopo da educação moderna. Em 2017, o Ministério da Educação da Arábia Saudita introduziu uma nova política para ensinar o pensamento crítico e a filosofia em suas escolas públicas. Apesar de os efeitos do ensino de filosofia nas habilidades cognitivas terem sido amplamente pesquisados, poucos estudos investigaram os efeitos do ensino de filosofia nas habilidades não-cognitivas. O presente estudo é o primeiro a explorar essa questão no contexto educacional saudita. Este artigo apresenta resultados de um desenho de pesquisa quase-experimental, no qual participaram 28 estudantes de uma escola pública saudita de ensino fundamental. Um grupo experimental de alunos/as da 6ª série participou de sessões de Filosofia para Crianças durante três meses, enquanto outro grupo de alunos/as da 6ª série não recebeu nenhuma formação relacionada à filosofia. Para coletar dados, os pesquisadores criaram um questionário para obter resultados não-cognitivos. Os resultados mostram que o grupo que participou das sessões de Filosofia para Crianças (FpC) alcançou melhores colocações nas medidas de comunicação, sociabilidade, autoconfiança, determinação, disposição para tentar coisas novas, felicidade e resolução de problemas. Por outro lado, os resultados mostram que o grupo com FpC ficou atrás em termos de empatia, democracia e diversidade, comparado ao grupo experimental. No entanto, as diferenças são mínimas e a amostra é pequena. Ainda assim, os resultados são promissores ao indicar que a FpC pode melhorar as habilidades não-cognitivas dos estudantes.

Greta thunberg - uma voz única numa era pós-verdade

PID: S1984-59872023000100101 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2023
Autores: ljungblad
resumo Desde a mudança do milênio, um novo fenômeno surgiu no cenário mundial, à medida que as meninas começaram a levantar cada vez mais a voz. Em um esforço para alcançar novos entendimentos filosóficos da infância contemporânea em uma era pós-verdade, o presente artigo examina este movimento Girl Rising (Ascenção das Meninas) a partir de uma perspectiva existencial. Ao fazê-lo, o artigo visa problematizar o direito das crianças a serem ouvidas e escutadas, como consagrado no artigo 12 da Convenção sobre os Direitos da Criança. Mais especificamente, o artigo explora a ideia das crianças como detentoras de direitos, e sua posição de sujeitos de direitos, e como esta posição é apoiada (ou não) por adultos, de diferentes maneiras. Ao longo da análise, Greta Thunberg é utilizada como um estudo de caso para ilustrar o fenômeno em estudo. Este novo movimento destaca o direito das crianças a serem ouvidas como um direito valioso. A defesa deste ponto de vista baseia-se na afirmação de que no cerne do reconhecimento do adulto está a singularidade de cada criança e as implicações desta singularidade. Levando em consideração a concretização dos direitos das crianças, os poderosos implicados que procuram silenciar as vozes das crianças também são identificados, assim como os reconhecimentos de adultos em todo o mundo destinados a capacitar as meninas a existir 'dentro' e 'com' o mundo de uma forma 'adulta'.

Infância em relações entre avós e netos: vínculo, amor e potência de vida

PID: S1984-59872023000100107 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2023
Autores: castro
resumo Este artigo tem como objetivo tecer reflexões sobre infância, vínculo e amor, a partir das narrativas de avós, ouvidas em uma pesquisa de doutorado em educação. Participaram da pesquisa sete avós e três avôs, entre 51 e 71 anos: nove, moradores da cidade do Rio de Janeiro, e um do município de Niterói. Além deles, participaram seis de seus netos, na faixa etária entre 5 e 12 anos, moradores das seguintes cidades: Rio de Janeiro, Niterói, Brasília e Montevidéu, no Uruguai. Realizada durante a pandemia de Covid-19, a pesquisa teve como estratégia metodológica entrevista concedida por meio da plataforma Zoom. Com os adultos, os encontros ocorreram individualmente; com as crianças, a conversa se deu de modo coletivo. Das narrativas das avós e dos avôs, emergem as reflexões sobre relações entre adultos e crianças, apresentadas no presente texto, construídas a partir da concepção de infância da filosofia de Walter Benjamin em articulação com a antropologia filosófica de Martin Buber e a psicanálise de Donald Winnicott. A ênfase das/os participantes da pesquisa está na segurança afetiva, construída nos minúsculos gestos cotidianos, que ampara crianças e adultos. Desses encontros amorosos entre os mais novos e os mais velhos, parece se instaurar uma força infantil, que produz novas possibilidades de vida. As narrativas da pesquisa nos ensinam não apenas sobre modos de ser adulto e de estar com as crianças, como também modos de estar na vida, a partir do reencontro com a própria sensibilidade e com a capacidade de brincar, de criar e de, na relação com as crianças, reinventar a si mesmo e reaprender a alegria dos inícios.

Inversão das perguntas: um convite a deambular por um outro lado das perguntas

PID: S1984-59872023000100207 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2023
Autores: Sousa
resumo Este artigo procura atingir dois objetivos: explorar quão importante é a inversão das perguntas em contexto de comunidade de investigação filosófica (Kennedy, 2004), nomeadamente no desencadear de processos de pensamento filosófico; e, mais genericamente, reconhecer o quanto é necessário inverter os papéis dados tradicionalmente às crianças, essencialmente tomados como espectadores do seu próprio pensamento e educação. No seguimento desta última ideia, assumiremos que as crianças possuem voz epistémica e política, em pé de igualdade da do adulto, e que esta voz há muito que tarda em fazer-se ouvir. É um facto indesmentível que as perguntas têm um papel central nas sessões de Filosofia para Crianças organizadas em comunidade de investigação filosófica (Costa-Carvalho e Mendonça, 2020; Costa-Carvalho e Kohan, 2020), e que desencadeiam (Kennedy, 2004) inúmeros processos de raciocínio e de pensamento. Algumas destas questões necessitarão de clarificação, sendo vagas, e outras poderão mesmo facilitar um posicionamento metacognitivo face ao assunto em discussão e face ao próprio processo de pensamento que o sustenta. Exploraremos, pois, neste contexto, o quanto a inversão das perguntas pode ser uma ferramenta útil, considerando igualmente, como esta anástrofe do pensamento pode ocorrer em diálogo filosófico com crianças. A nossa proposta deambulará, pois, na intersecção da linguagem e do pensamento, da lógica e da semântica, da teoria e da prática. Conscientes que o termo “inversão” pode ter vários significados, ensaiaremos neste artigo uma abordagem rizomática ao conceito (Deleuze e Guattari, 1987) com especial foco na voz e na perspetiva das crianças e no quanto esta perspetiva é epistemologicamente privilegiada (Kennedy, 2020). Um dos nossos pressupostos centrais é o de que a voz das crianças possui valor epistémico e político igual à do adulto, e que esta inversão entre adultidade e infância no contexto da educação também urge fazer-se.

Maravilhamento primeiro como um broto de virtude intelectual

PID: S1984-59872023000100214 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2023
Autores: peng
resumo Este trabalho de investigação defende que o conceito de Maravilhamento Primeiro (primal wonder) na FpC, proposto por Thomas E. Jackson, pode ser considerado o desabrochar da virtude intelectual. Minha interpretação desse conceito foi inspirada pela visão de cultivação moral de Mengzi e pelos relatos eudaimonistas de virtudes éticas, de Aristóteles. De acordo com Mengzi, os seres humanos possuem quatro brotos inatos de virtude, e o objetivo da educação moral é nutrir esses brotos de moralidade para que cresçam e se tornem virtudes amadurecidas. Em termos de FpC, Jackson afirma que todos nós nascemos com um sentimento especial de maravilhamento, ao qual ele se refere como “maravilhamento primeiro”. Sintetizando essa afirmação à metáfora agrícola de brotos morais de Mengzi, posso dar um passo à frente e argumentar que esse maravilhamento inato a cada criança pode ser visto como o desabrochar da virtude. Além disso, uma vez que o maravilhamento primeiro das crianças tem sido transformado em virtude através da implementação da FpC em sala de aula, esse admirável traço de caráter, eu sugiro, deve ser compreendido como uma virtude intelectual, de acordo com as virtudes éticas aristotélicas. Isso porque a virtude do maravilhamento pode promover o florescimento intelectual das crianças, o que é totalmente endossado pelas afirmações de Aristóteles de que o tipo mais feliz de vida é ser um filósofo e que a filosofia começa no maravilhar-se. Em resumo, se o maravilhamento primeiro como um broto de virtude intelectual pode levar ao bem maior para os seres humanos, então um dos principais objetivos educacionais de fazer filosofia com crianças, eu sugiro, é transformar seu maravilhamento primeiro em um hábito virtuoso para que elas possam viver uma vida examinada.

Modelo de processo polilógico de educação (elementar-)filosófica: um conceito interdisciplinar que integra a filosofia para/com crianças à teoria construtivista de mudança/crescimento conceitual

PID: S1984-59872023000100208 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2023
Autores: Höller
resumo Embora o movimento de Filosofia para/com Crianças (Fp/cC) pareça ter superado as duas maiores críticas a seu respeito, essas questões ainda podem ser encontradas na literatura recente. A primeira pergunta é se a Filosofia para/com Crianças pode ser considerada um campo da filosofia; a segunda questiona se as crianças possuem as habilidades cognitivas necessárias para participarem ativamente de um debate filosófico. Uma das mais recentes críticas sobre o movimento é o artigo escrito por Caroline Heinrich (2017, 2020a, 2020b), que descreve a Fp/cC como “um ataque à filosofia e às crianças” (“Ein Angriff auf die Philosophie und ein Angriff auf das Kind”) e afirma que a Fp/cC é um “conceito imposto pelos adultos às crianças” (“ein übergestülptes Konzept von Erwachsenen auf Kinder”). Ela sustenta, ainda, que a Fp/cC ignora “o pensamento, o questionamento e o jogo infantil”. Além disso, Heinrich afirma que a Fp/cC não pode ser chamada de filosofia, porque as crianças não são capazes de filosofar. Em grande parte de sua argumentação, Heinrich se refere à teoria de Piaget sobre os estágios de desenvolvimento cognitivo infantil. Apesar do discurso da Fp/cC já ter se ocupado dessas questões nas últimas décadas, ainda parece ser necessário certos esclarecimentos. O conjunto dos debates relacionados a essas perguntas certamente não pode ser ilustrado em um único artigo. Apesar disso, espero que esse trabalho ofereça uma visão geral das principais críticas e argumentações, que são o ponto de partida das minhas próprias considerações - que podem ser encontradas em meu modelo de Processo Polilogico de Educação (Elementar-)Filosófica (Modelo PPEE). Minha abordagem interdisciplinar, baseada na teoria construtivista de mudança conceitual de Stella Vosniadou e William Brewer (1992), busca acrescentar novas perspectivas para as principais questões do movimento de Fp/cC: primeiro, pode a Fp/cC ser realmente chamada de filosofia?; segundo, as crianças têm habilidades cognitivas para se engajarem em um debate filosófico? Em adição, surge a seguinte pergunta: “Quais considerações pedagógicas baseadas na teoria construtivista de aprendizagem poderiam ser acrescentadas?”. O objetivo do modelo interdisciplinar PPEE é criar uma base científica ampla que reduza os principais pontos de críticas ao movimento de Fp/cC.

No final, é o nosso futuro que será mudado: investigação sobre o meio ambiente com liberdade e responsabilidade

PID: S1984-59872023000100300 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2023
Autores: Lockrobin
Resumo A crise ambiental - por causa da sua complexidade, urgência, imprevisibilidade e escala - requer a defesa do papel educacional da filosofia e um panorama de como implementar a pedagogia filosófica na exploração das questões ambientais. Este é o objetivo do presente trabalho. Conforme enfrentamos um futuro incerto, todos os educadores devem considerar que conhecimentos e “know-how” os jovens precisam, e que tipo de pessoa eles precisam de se tornar, se quiserem sobreviver e prosperar neste mundo em transformação. Educadores filosóficos não podem presumir a utilidade contínua de sua prática, nem podem esperar que ela permaneça a mesma. No contexto da corrente crise, a investigação filosófica dos problemas ambientais emergentes cria desafios para aqueles que trabalham no espírito da Comunidade de Investigação e esses desafios exigem tanto disciplina quanto flexibilidade por parte dos praticantes e participantes. Este artigo resume algumas das adaptações que tenho usado para tentar responder flexivelmente a essa situação. Mas também defendo uma questão sobre a qual acredito que os educadores filosóficos devem manter a linha aberta - a importância de não ser diretivo em assuntos que são filosoficamente controversos. Defendo a ideia de que, apesar da natureza existencial dessa emergência e de sua profunda urgência, não é o papel dos educadores filosóficos convencer ou coagir os estudantes a adotarem pontos de vista particulares sobre as questões filosóficas que essa crise levanta. Isso porque toda investigação filosófica envolve a criação de um ambiente de liberdade e responsabilidade, com respeito ao que os participantes acreditam ser certo e verdadeiro e ao que eles fazem como resultado disso. Os participantes da investigação devem ser epistemicamente livres para explorar e avaliar as questões filosóficas conforme lhes fizer sentido, mas também devem ser epistemicamente responsáveis pelas evidências e pelos argumentos nos quais seus juízos provisórios se baseiam. Da mesma forma, os participantes da investigação devem ser eticamente livres para responder aos problemas filosóficos de formas que expressem e cultivem seu caráter e compromisso autênticos, mas eles permanecem eticamente responsáveis por suas verdadeiras motivações, seus valores proferidos e pelas consequências reais de suas palavras e ações, e seus silêncios e inações. Este artigo explora alguns caminhos para otimizar a liberdade e a responsabilidade em todas as formas de investigação filosófica, baseando-se especificamente em exemplos do meu trabalho com jovens sobre questões ambientais filosoficamente controversas. Esses exemplos também destacam algumas das adaptações que desenvolvi para abordar os desafios que a investigação ambiental traz.

Notas para uma representação político-escolar da infância no chile do século xix

PID: S1984-59872023000100108 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2023
Autores: zúñiga coronado
resumo Neste artigo, queremos propor uma representação da infância que sirva para pensá-la e problematizá-la. Nosso objeto de estudo, nesse sentido, será sempre uma representação e não uma definição substancialista. Propomos analisar a infância desde uma perspectiva crítica, para rever a representação dela no mundo político e escolar do Chile do século XIX, em particular, a partir da revisão de uma tradução de Domingo Faustino Sarmiento. Para realizar esta viagem, propomos três eixos temáticos para revisar: 1) como todo aparato escolar configura um tipo de representação da infância 2) que objetivos e características tem este aparato - como dispositivo de governo - no Chile do século XIX e 3) exemplificar através de um objeto cultural específico a forma como essa determinação se torna visível. Ser menino ou menina no Chile no período que nos interessa é ser uma miríade de conotações diversas que exigem, cada uma, ser pensada em seu contexto. As revistas, os silabários, os manuais escolares e os contos infantis configuram diferentes olhares sobre a infância, que por sua vez se associam à origem social destes documentos e à finalidade a que se propõem. As imagens, ideias e diálogos que aparecem nesses documentos escolares mostram como os adultos da época pensam e representam a infância. Pensar a partir de documentos dessa natureza não representa bem toda a infância, porém, permite observar a representação que a classe política fez dela.

O cinema dos primeiros tempos como uma infância do cinema

PID: S1984-59872023000100112 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2023
Autores: Carvalho Fresquet
resumo Tendo como inspiração as muitas imagens de crianças encontradas no cinema dos primeiros tempos, propomos uma reflexão sobre as relações entre a infância e o cinema. A partir do pensamento de Walter Benjamin (2009), pode-se afirmar que tanto a infância quanto o cinema são invenções da modernidade: o conceito de infância como um período importante de formação do sujeito nasce de forma inseparável das tecnologias de produção e reprodução da imagem que nos dão a ver as crianças de uma forma inédita, primeiro na fotografia e depois no cinema. A partir deste ponto , perguntamo-nos se seria possível pensar na “invenção” do cinema como também um gesto de infância. Propomo-nos, portanto, a pensar uma ideia de infância do cinema para além de um reducionismo teleológico. Para tanto, partimos de uma visão psicanalítica sobre o processo de entrada na linguagem, que coincide com o movimento de individuação do sujeito, na infância. A partir desta perspectiva, estabelecemos uma analogia entre a infância e o desenvolvimento do cinema como momentos igualmente marcados pelo processo de entrada na linguagem: partindo de um estado atravessado fortemente pela visualidade, pela experimentação, pela descoberta e pela brincadeira, em direção a uma entrada no sistema simbólico estruturado da linguagem através de constantes negociações com as convenções e os limites do mundo adulto.

O conceito de pessoa de Ann Sharp e a dimensão espiritual da comunidade de investigação filosófica

PID: S1984-59872023000100103 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2023
Autores: Al-Rayes
resumo Neste artigo, exploro criticamente a concepção de pessoa de Ann Sharp, tal como figura na teoria e prática da comunidade de investigação filosófica (CIF). Através do levantamento da rica e variada produção filosófica de Sharp, será mostrado como a concepção de pessoa de Sharp enquanto uma relação trilateral (entre eu, outro(s), e comunidade) mapeia “os Três C's” do pensamento crítico, criativo e cuidadoso que compõem a prática da Filosofia para Crianças. Assim, depois de apresentar a concepção de pessoa de Sharp, o artigo traz à luz um aspecto da referida concepção que poderia se beneficiar de um maior desenvolvimento. Este potencial déficit no pensamento de Sharp é identificado como “o problema do encerramento”. Ao salientar o problema do encerramento, vou indicar como Sharp aborda o conceito de fé na sua concepção de CIF enquanto comunidade espiritual, uma relação que coincide com a própria pessoa, pois representa o vínculo que une as dimensões individual (eu e outro(s)) e colectiva (comunitária) da CIF. Defendo que a fé serve, entre outras coisas, como um agente de fechamento entre o indivíduo e o colectivo no pensamento de Sharp. Ao considerar a função da fé na CIF, sugiro uma via de possível resolução para o problema do encerramento na concepção do “espírito socrático”, de Leonard Nelson, como a encarnação da “autoconfiança da razão”. Por fim, o artigo olha para os escritos de David Kennedy sobre a estrutura de intencionalidade que rege a relação entre o indivíduo e o colectivo na CIF como um recurso que promete oferecer um tratamento mais rigoroso e sistemático do problema do encerramento.

O governo da infância: para uma ontologia histórica do desenvolvimento infantil e a delimitação de modos de ser criança

PID: S1984-59872023000100109 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2023
Autores: almeida
resumo O objetivo deste texto é questionar, no contexto sócio-histórico da modernidade europeia, o modo como se forjou no interior do “novo sentimento de infância” uma vida por etapas que outorga às pessoas de pouca idade a urgência de uma existência em permanente desenvolvimento. Problematizar a “ideia” de desenvolvimento, mais concretamente de desenvolvimento infantil e as suas implicações na produção de modos de ser criança, permite avançar pistas sobre como é que a narrativa desenvolvimentista se tornou hegemónica e inquestionável nos contextos educativos a si destinados. Para tanto, recorre-se à ontologia histórica como ferramenta metodológica com o intuito de encetar um diálogo com educadores e psicólogos dos séculos XVIII, XIX e XX, procurando estabelecer um entendimento sobre como a ideia de desenvolvimento infantil surge associada à necessidade de hierarquização e normalização da população infantil. Discute-se como os agenciamentos históricos, que vinculam a infância (enquanto tempo cronológico) a uma certa ideia de desenvolvimento, estão intimamente ligados a projetos políticos. Este exercício não é possível sem reconhecer o olhar eurocêntrico e adultocêntrico que se tem assumido na forma como habitualmente olhamos para este tema e, nesse sentido, expressa-se a importância de se considerar a multiplicidade de outros modos de ser criança, à semelhança do que epistemologias não eurocêntricas nos têm dado a conhecer.

O presente e o futuro de fazer filosofia com crianças

PID: S1984-59872023000100307 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2023
Autores: Petropoulos
resumo Este artigo é uma introdução ao dossiê “o presente e o futuro do fazer filosofia com crianças”, cuja inspiração surgiu a partir de uma conferência do mesmo tema que ocorreu na University College Dublin em 24 de junho de 2022. A conferência, que tinha como objetivo defender a importância de envolver estudantes pré-universitários no pensamento filosófico, também funcionou como um fórum onde os participantes podiam refletir criticamente na prática do fazer filosofia com crianças. Os participantes foram convidados a refletir sobre: 1) como a filosofia prepara as crianças para participarem de um mundo cada vez mais complexo; 2) os desafios futuros do movimento FpcC; 3) de quais formas e em que dimensão a prática de FpcC contribui para a descolonização dos discursos sobre a infância; 4) de quais formas e em que dimensão a iniciativa da filosofia com crianças aborda problemas de injustiça epistêmica e de desigualdades educacionais e sociais. Construído a partir de discussões que ocorreram durante e após a conferência, os autores interrogam, neste dossiê, a oposição hierárquica entre crianças e adultos, e lançam um olhar crítico aos pressupostos adultistas que impedem que as iniciativas de Filosofia para/com Crianças alcancem seu potencial completo.

O presente e o futuro do fazer filosofia com crianças: filosofia prática e abordando a situação de crianças e jovens em um mundo complexo

PID: S1984-59872023000100302 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2023
Autores: Cassidy
resumo Este artigo considera o estatuto das crianças na sociedade e como este pode ser elevado com vista a imaginar um futuro possível. O estatuto das crianças é tal que as estruturas e sistemas sob os quais elas vivem diminuem a sua agência. Ao fazê-lo, a sua oportunidade de contribuir para a formação do que parece ser um futuro incerto é limitada. O artigo propõe que olhar para as crianças como salvadoras dos nossos amanhãs é incorreto e que uma visão mais sadia é reconhecer a natureza em rede das crianças, que reconhece a humanidade das crianças e as vê como ligadas ao mundo em que e do qual elas fazem parte. Ao aceitarem a natureza em rede das crianças, os adultos podem vir a pensar e a comportar-se de forma diferente em relação às crianças, começando a ver-se a si próprios e às crianças como "um entre muitos". Esta perspectiva permite a compaixão, uma noção que apoia a nossa vida em conjunto. Este artigo propõe que a Filosofia com Crianças pode oferecer uma abordagem de envolvimento na comunidade e no diálogo que nos permita pensar num futuro que seja epistemicamente inclusivo. Em última análise, o envolvimento com crianças como potenciais conhecedores exige que sejamos mais manifestamente políticos nas formas como nos envolvemos com a Filosofia com Crianças.

O que estamos perdendo? Voz e escuta como acontecimento

PID: S1984-59872023000100205 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2023
Autores: Carvalho almeida Taramona-Trigoso
resumo O artigo parte do conceito de voz e procura questionar os seus diferentes sentidos, especialmente em contextos educativos, para propor um enquadramento filosófico das vozes materiais das pessoas-de-pouca-idade. O texto propõe, depois, que se entendam essas vozes como diferenças perturbadoras ou oportunidades para (re)pensarmos os nossos papéis enquanto educadores e, acima de tudo, para voltarmos à questão sobre o que é que uma abordagem filosófica da infância pode perturbar. Nesta linha, delinear-se-ão algumas ideias sobre a 'voz' como som e materialidade (Cavarero, 2005) e também sobre a 'escuta' enquanto atenção permanente ao que possa emergir (Nancy, 2002; Davies, 2014), para depois se alargarem os significados particulares destes conceitos à prática de pensar filosoficamente com pessoas de diferentes idades, no contexto educacional da comunidade de investigação filosófica (Kennedy; Kennedy, 2012). Também nos baseamos no conceito de 'evento' de Gilles Deleuze (Deleuze, 2013), enquanto potencial imanente dentro de uma confluência de força, para perguntarmos como podemos encontrar uma forma filosófica de viver (n)a educação que tome as vozes materiais das pessoas-de-pouca-idade como algo que não nos podemos dar ao luxo de perder. Por fim, o texto propõe considerar-se a comunidade de investigação filosófica enquanto comunidade filosófica de vozes, no sentido de ser uma oportunidade para se experienciar a materialidade de todas as vozes enquanto algo que importa no pensamento partilhado dos seus participantes.

Os direitos da infância e o papel das famílias na sua proteção: perspectiva ética e jurídica

PID: S1984-59872023000100105 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2023
Autores: fernández guerrero martínez-lópez álvarez terán castrejón ovejas
resumo Os direitos das crianças são de formulação recente, e as primeiras tentativas de reconhecê-los e regulá-los só apareceram no século XX. Além de revisar os textos legais que formulam e protegem esses direitos em todo o mundo, este estudo visa oferecer uma leitura filosófica dos direitos da criança e do papel das famílias em relação a esses direitos. A ética do cuidado constitui um ótimo ponto de reflexão para se discutir a responsabilidade ética que pais e mães, e a sociedade em geral, têm para com os filhos, que são os membros mais vulneráveis ​​da sociedade e os que mais sofrem as consequências da pobreza, da migração ou dos desastres naturais. Este estudo faz uma revisão crítica dos direitos da criança e das principais tentativas de reconhecer e garantir legalmente esses direitos no nível internacional. Além disso, explora também a situação atual das crianças no mundo, enfatizando as consequências negativas da pandemia de COVID-19 neste setor mais vulnerável da população. Por fim, adota-se a perspectiva da ética do cuidado para analisar as responsabilidades das famílias e o papel das instituições e da sociedade em geral na proteção das crianças.

Os paratextos da comunidade de investigação filosófica (CIF): achados emergentes de uma pesquisa no irã

PID: S1984-59872023000100203 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2023
Autores: Shokrollahzadeh Khosronejad
resumo Este artigo apresenta os resultados emergentes de pesquisa realizada no Irã. Seu principal objetivo foi investigar se o pensamento dos adolescentes poderia se tornar polifônico na comunidade de investigação filosófica (CIF) e quais processos o pensar passaria para atingir este objetivo. Dezessete adolescentes, dez meninas e sete meninos participaram de catorze sessões com três romances iranianos e três estrangeiros como material de investigação. As sessões foram gravadas em vídeo e analisadas pelos pesquisadores. as descobertas a partir de objetivos pré-determinados revelaram que a CIF foi eficaz no desenvolvimento do pensamento polifônico dos adolescentes, e os processos de pensamento polifônico no trabalho também foram revelados. ao mesmo tempo, surgiram alguns dados inesperados que deram origem a algumas descobertas emergentes, entre as quais o fato de que o significado não se limita ao que acontece "dentro" da CIF, mas alguns eventos antes, depois e durante as sessões são decisivos para o significado dentro deste círculo comunitário e para a formação da CIF. Nós os denominamos "paratextos" da CIF que incluíam conversas da WhatsApp, discursos religiosos, educacionais, científicos e de gênero, a extensão das questões discutidas na CIF para a escola e para casa, diálogos adolescentes antes e depois das sessões, e sua leitura de ideias filosóficas e comentários literários sobre os materiais de investigação. Gérard Genette, dando moeda de troca ao termo 'paratexto', concebe-o como uma zona indefinida entre o interior e o exterior de uma obra impressa que forma a complexa mediação entre livro, autor, editora e leitor. É uma zona de fronteira na qual texto e fora de texto entram em diálogo. os paratextos associados à CIF nos orientaram a reconfigurar a prática na reconsideração dos papéis e posições do facilitador. Por este motivo, o facilitador é alguém que precisa ser capaz de ouvir ativamente tanto as vozes dos membros do grupo quanto as vozes dos paratextos existentes, e de manobrar entre múltiplos papéis e posições, conforme a situação exige.

Palavras e tempos da infância como formas de experiência política

PID: S1984-59872023000100111 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2023
Autores: burgos suárez vaca
resumo Este artigo é construído no âmbito do projeto de pesquisa Democracia, igualdade e desacordo: conceitos teóricos e metodológicos de Jacques Rancière para pensar a educação no mundo contemporâneo. O objetivo do projeto é explorar conceitos como democracia, igualdade e desacordo para pensar os sujeitos e as realidades educativas a partir das lógicas políticas contemporâneas. Como um adendo ao projeto de pesquisa, este artigo explora algumas premissas de Jacques Rancière que nos permitem pensar as potencialidades políticas da infância a partir do reconhecimento das palavras e do tempo das crianças como formas de experiência comunitária. A perspectiva metodológica pressupõe uma escrita que elimina as distâncias entre os discursos dos filósofos e das vozes das crianças para afirmar a potência das suas palavras na reflexão sobre um problema filosófico. Neste exercício de escrita e leitura não hierárquicas, pode-se constatar que as palavras das crianças não são o reflexo, a expressão nem o símbolo de uma realidade teórica superior, mas funcionam como uma condição de possibilidade para que o pensamento não pare. Precisamente, o objetivo não é escrever sobre a infância, mas com a infância. O objetivo não é encontrar a verdade da infância, mas aproveitar o poder das suas vozes para encurralar o senso comum. Desta forma, estabelece-se a relação entre o conflito político, o estatuto da palavra, a infância e a igualdade, indicando a capacidade da infância para renovar o significado dos conceitos em que se baseia a sociedade. Por último, defende-se que a infância é uma forma de subjetividade que experimenta a temporalidade através da afirmação de intensidades marcadas pela curiosidade e pela criatividade. Por isso, constitui-se como uma forma de experiência política capaz de inventar temporalidades múltiplas que subvertem a ordem da dominação.

Sobre o encontro de professoras com/em um exercício infantil de filosofía

PID: S1984-59872023000100202 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2023
Autores: Taramona-Trigoso
resumo O objetivo deste artigo é apresentar uma pesquisa em andamento que visa descobrir significados sobre a figura da professora na comunidade de investigação filosófica. O que há de singular nesta figura? O que a configura? Como é configurada e reconfigurada em sua própria prática? O artigo começa descrevendo o que caracteriza, define ou constitui a figura da professora como facilitadora delineada no programa inicial de Philosophy for Children . Em seguida, aborda algumas perspectivas críticas sobre a noção de facilitador e procura propor uma alternativa à figura do facilitador que, longe de tentar definir uma taxonomia do ensino da filosofia com crianças ou estabelecer um modelo de professor, nos permite pensar em uma figura de mestra que é sensível aos encontros e que, através deles, também encontra outras formas de ser e de fazer. Neste sentido, também é proposta uma reflexão sobre o que pode significar um encontro educacional e qual é o lugar das mestras nestes encontros. Finalmente, algumas condições possíveis de/para o encontro são propostas como pontos de partida que nos permitem promover e sustentar o encontro, tais condições são: o comum, a igualdade, a escuta e a imprevisibilidade.

Tornar-se calunga: participação e subjetivação política de crianças e jovens

PID: S1984-59872023000100102 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2023
Autores: noronha tebet
resumo O artigo pretende discutir processos de subjetivação política de crianças e jovens a partir de recortes de uma pesquisa realizada no âmbito de mestrado em educação, apresentando uma cartografia da participação política de crianças e jovens moradoras de territórios vulnerabilizados do município de São Vicente, no litoral Sul de São Paulo, integrantes de coletivos e ações educativas do Instituto Camará Calunga. Os conceitos de participação e subjetivação se apresentam como elementos importantes dos processos de politização, retratando o modo pelo qual crianças e jovens se engajam politicamente de diferentes formas, coordenadas ou apoiadas por adultos, representando a si mesmas ou apoiando os adultos em suas demandas, contrapondo a noção de que as crianças não agem politicamente ou de que o modo ideal de participação de crianças e jovens seria a produção de consenso e não haveria espaço para a contestação. A pesquisa ocorreu em meio a pandemia de COVID-19, fundamentalmente de modo virtual, mas traça uma continuidade com as práticas de participação do Instituto no período pré-pandêmico. A pesquisa fez uso do método cartográfico, de modo virtual e presencial no contexto do trabalho vivo, da convivência cotidiana com crianças, jovens e educadores do Camará, por meio de entrevistas semiestruturadas e diários de campo.
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