Resumo: O objetivo do estudo é analisar os impactos dos espaços de violência no caso da imigração LGBTIQ +. A metodologia qualitativa inclui um conjunto de reflexões teóricas sobre a migração de sujeitos LGBTIQ+ e a conjuntura da violência contra a população LGBTIQ+ no Brasil, assim como dez entrevistas semiestruturadas com imigrantes e refugiadas/os LGBTIQ+ residentes na cidade de São Paulo. A análise enfoca como os espaços de violência podem afetar a experiência migratória desses sujeitos. Os resultados demonstram que os espaços de violência estão relacionados principalmente ao âmbito institucional e à apropriação dos espaços físicos e simbólicos da cidade.
Resumo: O Brasil tem enfrentado um processo de intensificação do neoconservadorismo no período recente com ataques a discussões e políticas que visam o combate às desigualdades de gênero, assim como uma ampliação da mobilização religiosa no espaço político. Em 2022, a disputa eleitoral se polarizou entre o atual presidente, Jair Bolsonaro, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Dois aspectos chamam a atenção: a rejeição das mulheres a Bolsonaro e a disputa dos eleitores evangélicos. A partir da análise dos programas eleitorais veiculados nas emissoras de canal aberto de televisão, esse artigo pretende observar como as propagandas eleitorais de Bolsonaro e Lula no segundo turno mobilizam argumentos em torno de questões de gênero, família e religiosidades, à luz das perspectivas críticas feministas.
Resumo: O objetivo foi analisar as experiências que um grupo de homens e mulheres no México tem sobre o cuidado, a partir da abordagem da gerontologia crítica e feminista, apostando na existência de experiências diferenciadas que devem ser consideradas nas políticas de cuidado na velhice. Foram realizadas entrevistas em profundidade com dez pessoas e por meio de análise de conteúdo identificou-se que, ao contemplar a experiência na perspectiva do cuidado sustentado da família e da comunidade, elas levantam a relevância do cuidado sustentado no mercado, embora reconheçam as limitações econômicas para acessá-lo. Elas desenvolvem estratégias interpessoais e comunitárias para trocar o cuidado como um bem, enquanto eles resistem a se reconhecer como cuidadores.
Resumo: Buscamos analisar a evolução da produção acadêmica brasileira sobre feminismo negro e interseccionalidade, no período de 1992 a 2020, por meio de uma análise bibliométrica e com raspagem de dados de artigos publicados em revistas das áreas de ciências sociais e humanas (A1, A2 e B1). Destacamos o impacto dos fluxos internacionais em difundir e adensar agendas de pesquisa sobre mulheres negras a partir dos anos 2000 e a importância de dossiês temáticos sobre gênero e raça em periódicos qualificados como mecanismo indutor para a ampliação da produção científica sobre as temáticas. Há um aumento contínuo de textos sobre tais questões a partir dos anos 2010, sugerindo que maior acesso de estudantes negros ao ensino superior e ampliação do debate público sobre interseccionalidade fora da academia possam estar gerando uma retroalimentação quanto ao interesse e à relevância do tema.
Resumo: Na última década, o Brasil viveu um processo de desdemocratização e de avanço das políticas neoliberais, que levaram a uma precarização da vida. À desqualificação das mulheres, das lutas feministas e dos estudos de gênero, presente nos discursos da extrema-direita e de seus representantes, combina-se a privatização dos serviços públicos ou a restrição ao seu acesso, ampliando as tarefas não remuneradas de cuidado. Diante de tal quadro, que atinge particularmente as mulheres e as pessoas que exercem funções reprodutivas, torna-se urgente estabelecer um diálogo entre teorias feministas materialistas que têm no mundo do trabalho seu eixo central. O presente artigo propõe um encontro entre o feminismo materialista francófono e a teoria marxista da reprodução social, buscando contribuir para a análise e, desde a teoria da práxis, para transformar a realidade social.
Resumo: A partir da análise da criminalização da lgbtfobia sob fundamento da legislação antirracismo pelo STF, discutimos as implicações e os efeitos discursivos do entendimento da homotransfobia como espécies de racismo. Propomos refletir sobre as possibilidades que eles produzem por meio da criação de pós-categorias de modo a tensionar as realidades em oposição à lógica categorial fundada na modernidade colonial. Fobia torna-se insuficiente para a totalidade do que precisa abarcar. Destacamos que as pós-categorias lgbticídios e mariellecídios (no plural) denunciariam discursivamente mortes e assassinatos decorrentes de diferentes formas de abjeção e subalternização. Da mesma forma, as feminoabjeções constituem-se em engrenamentos que mantêm os grupos em aliança pelo que os diferencia sem desconsiderar suas différances histórico-políticas.
Resumo: A partir da análise do livro Cunhataí: um romance da Guerra do Paraguai (2003), de Maria Filomena Bouissou Lepecki, temos por objetivo debater criticamente o lugar excêntrico que a história oficial destinou às mulheres, em particular, no espaço da Guerra do Paraguai/Guerra Guasu (1864-1870), cenário a partir do qual se desenvolve o enredo. O romance é aqui empreendido como um produto cultural ético, estético e político que se constitui por meio de uma (re)visitação/(re)escritura do episódio bélico a partir da ótica feminina, mobilizando, dessa maneira, vozes outras, formas outras de ser e sentir marcadas nesses corpos dissidentes. Sob essa perspectiva, nossa proposta é apresentar o debate historiográfico em torno do conflito platino com vistas a discutir como a ficção literária de Maria Filomena Bouissou Lepecki questiona a narrativa oficial da Guerra do Paraguai/Guerra Guasu ao tornar visível o papel das mulheres nesse conflito bélico.
Resumo: Problematizamos, por meio deste artigo, a existência ou inexistência de disciplinas versando sobre gênero em grades curriculares de cursos de direito de sete universidades federais, situadas nos três estados da Região Sul do Brasil. Diante da atual publicação das diretrizes curriculares para cursos de direito brasileiros, efetuamos a análise documental em projetos pedagógicos, grades curriculares, ementas e planos de ensino previstos pelos cursos das instituições de ensino pesquisadas. Por meio da revisão bibliográfica e de metodologia fundamentada em análise documental, pautadas no viés pós-estruturalista e interdisciplinar, buscamos compreender o como da formação dos currículos acadêmicos. A partir dos resultados empíricos auferidos, questionamos as disputas que elegem alguns conteúdos como centrais e outros como saberes hierarquicamente inferiores na formação jurídica.
Resumo: Neste artigo, analisamos a divisão sexual do trabalho no trabalho agroecológico de mulheres que vivem em territórios de Reforma Agrária do Paraná. Os dados de campo apontam para o aumento da autonomia, ‘agência’ e subjetividade ativa das mulheres. Entretanto, identificamos persistências de divisões sexuais do trabalho patriarcais. Esse quadro conduz à ampliação de jornadas de trabalho e esgotamento do corpo das mulheres. Além disso, identificamos redução da organização sociopolítica e migração para o âmbito da produção e comercialização agroecológica. Essas desigualdades são reduzidas por fatores geracionais, escolaridade, formação de gênero e transitoriedade campo-cidade. Mediante tal cenário, a reivindicação feminista da divisão sexual do trabalho igualitária é relevante na luta política de gênero, pela terra, agroecologia e decolonial.
Resumo: Este estudo visava descobrir se a construção social das pessoas idosas quanto às identidades que transgridam a heteronormatividade contribui para a sua inclusão. A investigação foi localizada na região de Valparaíso, que desde 2017 ocupa o primeiro lugar no Chile em discriminação homolesbobitransfóbica. Dos resultados emerge a categoria central, "inclusão dentro do armário", uma vez que os mais velhos, mesmo quando distinguem que as desigualdades estruturais que excluem a diversidade de género e violam os seus direitos à participação social são semelhantes às suas próprias, censuram as suas expressões de identidade nos espaços públicos. Desta forma, contribuem incipientemente para a sua inclusão, mantendo a porta do armário entreaberta e semifechada, entre reconhecimento e discriminação.
Resumo: É possível considerar Luce Irigaray, junto com sua crítica ao caráter falogocêntrico da linguagem, uma pensadora queer? Essa proposta é estranha (queer), pois, por um lado, a hegemonia do construcionismo discursivo de Judith Butler degradou o poder das ideias de Irigaray por meio da alocação espúria de um essencialismo metafísico. Por outro lado, muitas vezes é assumido que o monismo linguístico de Butler constitui o prisma teórico que fundamenta todo o campo dos estudos queer. A conjunção de ambos os motivos impede uma resposta afirmativa à nossa pergunta. Contra eles, este artigo reúne Irigaray com pensadores queer a partir da postulação de uma dimensão ontológica -não essencialista- que envolve a periculosidade do poder gestacional e produtivo de uma alteridade radical no que diz respeito à linguagem.
Resumo: No artigo, discuto como, de acordo com Barbara Cassin, a metafísica da tradição foi marcada por um regime discursivo com base nos imperativos de significado e significação, ao qual eu nomeio, no desenvolvimento da presente investigação, como masculino. Tendo em vista uma visada filosófica sobre o problema da linguagem, pretendo explorar as consequências políticas desse projeto que historicamente excluiu e silenciou mulheres ao aliar uma linguagem logocêntrica ao falocentrismo de uma cultura patriarcal, sendo este corolário daquele. Mobilizando referências da filosofia, da psicanálise, e também do campo da arte, tanto da literatura quanto das artes visuais, busco, no texto, interrogar se haveria - ou o que caracterizaria - uma experiência feminina da linguagem que nos permita pensar uma saída para fora da tirania do sentido legada por Aristóteles ao pensamento ocidental.
Resumo: O artigo realiza um levantamento bibliográfico acerca da história das mulheres montadoras, desde a conformação do cinema como indústria, em contextos nacionais variados. Buscamos um olhar mais atento aos aspectos do trabalho com a montagem que são frequentemente apontados como “femininos”, em especial a ideia de um trabalho meramente manual e da sala de montagem como apartada do espaço público. Aproximando a trajetória das mulheres montadoras àquela das realizadoras de cinema de found footage, sugerimos pensar na sala de montagem como um espaço propício para o exercício de uma espectatorialidade crítica, na qual a possibilidade de pausar, repetir, ralentar o material fílmico permite romper com o tecido representativo da produção audiovisual hegemônica, e elaborar uma visão crítica às representações de gênero vigentes na cultura audiovisual.
Resumo: Neste artigo propomos rever mais uma vez a ligação entre as mulheres e os psicotrópicos com base em três estudos de pesquisa qualitativa realizados no Uruguai de 2013 a 2019 que abordaram a prescrição e o consumo de benzodiazepínicos e de drogas psicotrópicas antidepressivas em Montevidéu. Tentaremos responder o que faz com que as mulheres sejam identificadas como pacientes típicas nos serviços de saúde e por que as mulheres dirigem ali suas experiências de dor psíquica e assumem os tratamentos psicofarmacológicos propostos. Os resultados aqui apresentados mostram como, apesar da visibilidade deste problema, os papéis, as expectativas relacionadas ao gênero e as circunstâncias socioeconômicas adversas levam a que a naturalização do uso de drogas psicotrópicas pelas mulheres persista.
Resumo: Aumentar o número de mulheres eleitas aos parlamentos tem sido um objetivo histórico de grande parte dos movimentos feministas. A expectativa é de que isso não apenas amplie a correspondência entre parlamento e sociedade, mas também que sejam percebidos avanços em relação às políticas para as mulheres. Assim, para investigar a substantividade da representação, foram analisadas 10.753 proposições legislativas apresentadas entre 2015 e 2017 na Câmara dos Deputados, buscando avaliar a qualidade da produção legislativa das deputadas federais brasileiras e a correlação entre a sua atuação legislativa e a agenda da Articulação de Mulheres Brasileiras. Como resultado, identificamos que, no período, as mulheres parlamentares tiveram três vezes mais projetos de lei transformados em norma jurídica do que os homens e que houve aderência entre temas considerados consensuais, mas pouca atuação em relação a pautas mais progressistas.
Resumo: O presente artigo, coloca em cena o protagonismo das mulheres P'urhépecha, em Cherán (Michoacán, México), na revolta em 15 de abril de 2011, em que elas conseguiram recuperar o território que havia sido ocupado pelo crime organizado, que devastou um terço das florestas. Conseguiram também restabelecer os canais de comunicações, conformados por estruturas socioculturais comunitárias, que têm permitido fortalecer seu projeto autônomo, resgatando seus usos e costumes. Nesta pesquisa qualitativa, foram utilizados métodos etnográficos, entrevistas, história oral e a ferramenta de mapeamento corpo-território para uma análise a partir de uma abordagem de gênero. A contribuição deste estudo permite compreender a relação entre o feminismo indígena e a comunicação dos povos originários para a construção de modernidades alternativas.
Resumo: O objetivo deste artigo é oferecer uma chave interpretativa ainda pouco utilizada para o entendimento do conservadorismo que circula entre mulheres evangélicas. Parte-se da observação e da análise de cultos e congressos organizados pela pastora Ana Paula Valadão, entre 2011 e 2016, e que tratavam sobretudo de corpo, sexualidade e família. Os eventos estimulavam as mulheres a um constante automonitoramento, a um “sacrifício de si”, e fortaleciam a figura masculina tradicional. Embora a relação entre religião evangélica e gênero seja escrutinada pela literatura socioantropológica ao menos desde o final da década de 1990, propõe-se que um diálogo com a teoria de Angela McRobbie possa avançar a compreensão da reprodução e da exacerbação do “dispositivo da perfeição”, que, no caso das religiosas, neutraliza, naturaliza e reveste de justificativa espiritual as desigualdades sexuais e de gênero.
Resumo: O artigo busca refletir sobre a organização das mulheres na Amazônia em defesa de seus corpos-territórios. A análise parte do pressuposto de que a exploração da Amazônia segue o mesmo projeto colonizador dos corpos-territórios e que as lutas contra a expropriação da natureza que impacta nas mudanças climáticas são vivenciadas de forma particular pelas mulheres que emergem como a principal força da resistência na atualidade. A partir de pesquisa teórica com análise bibliográfica e de narrativas, refletimos sobre o conceito de corpo-território, dando enfoque na mobilização das mulheres indígenas e quilombolas durante a COP 27. O estudo apontou que esse debate, numa perspectiva feminista, em que se considere o protagonismo dessas lideranças, pode mudar a compreensão das questões ambientais e gerar conscientização sobre a defesa dos corpos-territórios.
Resumo: Neste artigo, objetivamos problematizar a mortificação de vidas pretas e enunciar rastros/resíduos de memórias produtoras de novos imaginários em polifonia de vozes de mulheres trabalhadoras da Enfermagem, atuantes na linha de frente do cuidado e enfrentamento à COVID-19. Apresentamos uma política de escrita encharcada pela afirmação de uma ciência constituída pela complementaridade entre razão e emoção. Partimos da articulação entre os conceitos de escrevivência - enquanto ato político de mulheres pretas que se apoderam da escrita; de atrevivência - propondo uma linguagem sentida e vocalizada; e de oralitura - que lança mão da memória como repertório oral e corporal afrodiaspórico inscrevendo saberes, valores e modos de ser e estar no mundo; portanto, uma escrevivência atrevivida em oralitura. Corpas-pretas da Enfermagem em polifonia denunciam políticas de inimizade em um Estado necropolítico e enunciam novos imaginários que instigam a reinvenção no tempo pandêmico.
Resumo: O objetivo deste estudo é refletir sobre a relação entre mulheres, lazer e trabalho, considerando os dados coletados pela pesquisa Lazer no Brasil, a partir de análise quanti-qualitativa. Para tanto, optamos por descrever e tratar os resultados, buscando inter-relacionar e articular os dados com outras pesquisas e vinculações teóricas, com base no entendimento do lazer como direito social, e considerando as diferenças e desigualdades de gênero, atravessadas pelas questões de raça e classe. Os resultados nos permitiram observar a existência de disparidades entre o que as mulheres gostariam de vivenciar no tempo livre e o que de fato conseguem. Além disso, identificamos a presença de barreiras para a garantia do direito ao lazer, principalmente pela falta de tempo, vinculada às questões relacionadas às tarefas culturalmente entendidas como função das mulheres, seguida da falta de recursos financeiros.