Resumo: Este artigo é um itinerário das rotas da violência de gênero e dos estudos de desenvolvimento no México, na década de 1990, ano em que surgiu o primeiro número do Debate Feminista, publicação periódica sobre feminismo e perspectiva de gênero da UNAM. A metodologia seguida foi a análise do contexto a partir de dois elementos: as condições socioculturais e a definição de violência que a revista tem levado em consideração e contribuição para um contexto mais amplo do discurso académico y teórico feminista. Entre os resultados, denota-se, por um lado, a existência de políticas governamentais para enfrentar a condição de violência sofrida pelas mulheres, mas não ações que mudem sua posição na sociedade; por outro, o posicionamento da revista está intimamente relacionado ao contexto histórico, mostrando a complexidade do problema.
Resumo: Esta pesquisa apresenta os resultados da análise da morte de meninas nas dinâmicas da violência no Ceará a partir da narrativa de adolescentes privadas de liberdade. Tal problemática surge devido ao aumento de torturas seguidas de assassinatos de adolescentes e jovens mulheres no Ceará. Por isso, participam dessa pesquisa adolescentes privadas de liberdade, atuantes no tráfico de drogas, perfil em maior condição de vulnerabilidade a esse fenômeno. Apontamos o femigenocídio e o “decreto” enquanto dispositivos de matabilidade de adolescentes e jovens mulheres. Por fim, as narrativas das adolescentes apontaram que estas estão em uma espécie de fogo cruzado, condição que maximiza tanto a precariedade, como a vulnerabilidade.
Resumo: Embora, no Brasil, as mulheres representem cerca da metade das pessoas com deficiência, faltam dados sobre assistência e necessidades específicas dessa população em fase reprodutiva, dificultando a formulação de políticas públicas. O presente estudo teve por objetivo investigar as particularidades do ciclo gravídico-puerperal de mulheres com deficiência. Foram colhidas narrativas de seis mulheres com deficiência visual e física, moradoras de Santos, São Vicente e Praia Grande. A partir dos resultados, foi possível identificar experiências tanto positivas quanto negativas na assistência ao parto e pós-parto dessas mulheres, ligadas ao tipo de acolhimento que receberam. A pesquisa demonstrou a necessidade de mais estudos sobre essa temática e traz importantes contribuições para as áreas da Reabilitação e da Saúde da Mulher.
Resumo: Neste artigo de experiências, construído em uma lógica reversa, analisamos narrativas experimentais, que produzimos no âmbito da graduação em Jornalismo da UFMS, e as re-elaboramos neste movimento a posteriori, a partir dos ideais ecofeministas, atravessados pela questão decolonial e práticas do jornalismo com perspectiva de gênero. Vislumbramos nestas articulações prático-teóricas entre ensino-graduação, pesquisa-pós-graduação, ambientalismo e feminismo, possibilidades de propor horizontes para o jornalismo ecofeminista, a partir das narrativas complexas, do reconhecimento dos marcadores sociais das diferentes mulheres, da valorização das vozes anônimas, do deslocamento de lugares geográficos e sociais hegemônicos, do deixar narrar para materializar uma escrita criativa e engajada.
Resumo: Neste artigo, coloco em primeiro plano narrativas femininas Tukano, Desana e Tuyuka, sobre as transformações dos cuidados na primeira menstruação, e demonstro como estas mulheres formulam as variações nas práticas de (auto)cuidado em termos de moralidades elaboradas na forma de regras/leis [duhtiro] atreladas a diferentes espacialidades-temporalidades; tempo das avós e das malocas, tempo dos padres e freiras e internatos, tempo dos pais e das comunidades e escolas indígenas; que podem coexistir de acordo com a configuração de cada família e as experiências pessoais. As memórias possuem teor afetivo e moral e revelam vulnerabilidades, responsabilidades e cuidados realizados para proteção de si e dos outros, que conformam diferenças geracionais e de gênero e orbitam ao redor do universo conceitual das encantações xamânicas [bahsese], aconselhamentos [werese], e abstinências [betise].
Resumo: Neste artigo, a autora coloca a literatura existente sobre pessoa genderizada e espaço, e as relações entre os fluidos corporais e o mundo espiritual, em diálogo com um relato etnográfico específico sobre a enfermidade (The sickness) no Sul da Guiana. A enfermidade é uma doença espiritual que atinge meninas ameríndias vivendo em dormitórios de internatos na Guiana e manifesta-se sob ataques violentos repetidos. Ao explorar as reações dos membros da comunidade e dos pais da menina a essa enfermidade incomum, e também como eles vinculam-na ao poder do sangue menstrual, o artigo lida com a pessoa genderizada e a transformação, e o que significa para uma jovem mulher ameríndia atingir a maioridade em face da rápida mudança social.
Resumo: A racionalidade neoliberal, articulada à sociedade do controle, favoreceu um modo de subjetivação calcado na moral. De um lado, o neoliberalismo promoveu um alargamento da incerteza na vida dos ‘humanos feito capitais’, os convocando a uma responsabilidade individual e familiar opressora. De outro lado, a sociedade do controle codifica e captura as percepções e os afetos a fim de apropriar-se do futuro, conformando sujeitos cada vez mais responsivos, porém impotentes. Neste contexto, os afetos que circulam nos feminismos, como a ira e a raiva, correm alto risco de serem colonizados pelo ressentimento moral. Este texto trabalha para evitá-lo, ao trazer a distinção entre moralidade e ética, presentes na obra de Michel Foucault e Gilles Deleuze, e revistar o debate de Wendy Brown e Sara Ahmed, a fim de jogar luz sobre as práticas políticas dos feminismos contemporâneos.
Resumo: O artigo aborda o viés de gênero existente no campo da psiquiatria. Para explorar esta questão, dividimos nossa apresentação em três partes. Inicialmente exploramos o viés de gênero na história da psiquiatria, particularmente no nascimento da psiquiatria moderna. Em um segundo momento, analisamos as críticas feministas à psiquiatria atual, observando a persistência do viés de gênero desde a década de 1970, quando surgiram os primeiros estudos críticos, até os dias atuais. Por fim, na terceira parte desta escrita apresentamos uma narrativa em primeira pessoa, resultado de uma entrevista com uma usuária de um CAPS de Florianópolis.
Resumo: As marchas do orgulho LGBTIQ + no México transcenderam os grandes palcos armados nas áreas metropolitanas mais importantes deste país, a serem realizadas em pequenos enclaves municipais. Através da seleção de quatro marchas municipais que derivam de um estudo mais amplo que analisou as mobilizações ocorridas em 2019, a proposta aqui apresentada dá conta da formação de um circuito nacional de protesto que ocorre em vários pontos da República Mexicana durante os 365 dias do ano. O circuito constrói dinâmicas oscilantes entre os nós que compõem cada uma das mobilizações, e, embora cada contexto tenha características sociopolíticas particulares, a porosidade das fronteiras territoriais, simbólicas, sonoras e políticas das localidades faz que espaços aparentemente díspares se enquadrem em sentidos de lutas festivo-carnavalescas, comemorativas de lembrança ou protesto.
Resumo: O debate de gênero consta nas vidas e nas obras de Ruth Escobar e Leonor Xavier, portuguesas que renovaram seus olhares aos papéis sociais das mulheres após emigrarem para o Brasil, no século XX. Ruth Escobar (1935-2017) instalou-se aos 16 anos, com a mãe, em São Paulo, e foi atriz, produtora teatral, política e feminista. Leonor Xavier (1943-2021) imigrou com o marido e os filhos em 1975-1987, para São Paulo e Rio de Janeiro, onde se tornou escritora e jornalista de veículos do Brasil e de Portugal. Uma análise de conteúdo de suas autobiografias Maria Ruth e Casas contadas permite abordá-las como exemplos de “intelectual mediador” de novos olhares a papéis sociais de mulheres. Ao tratar da trajetória intelectual e adesão ao feminismo de relevantes intelectuais luso-brasileiras, é notada a importância da imigração de ambas para a ruptura com um legado masculino e conservador, e inserção na reflexão sobre gênero.
Resumo: Neste artigo, baseado em estudos, leituras e discussões ocorridas em reuniões de orientação coletiva entre as autoras, trazemos reflexões preliminares à realização de pesquisa sobre a população parda e o tema do “pardismo” na sociedade brasileira. Buscamos refletir a respeito dos processos de invisibilização da negritude com base na ambiguidade de traços fenotípicos. Como todas as opressões que operam na sociedade ocidental colonial, a violência simbólica da desracialização, combinada com as opressões de gênero, pode provocar efeitos psicossociais significativos em pessoas que ocupam posições de gênero não hegemônicas. Com foco em mulheres negras de pele clara, procuramos refletir sobre as formas como a negação da identidade racial incide sobre os processos de subjetivação dessas mulheres em uma sociedade marcada pela colonialidade. Refletimos ainda sobre a adequação do conceito de “colorismo” à realidade brasileira.
Resumo: Este artigo pretende refletir sobre as mulheres e sua entrada na Educação a Distância que pode (ou não) se apresentar como uma possibilidade de acesso ao ensino superior. De modo a termos uma compreensão mais cabal sobre condições objetivas da mulher no mundo do trabalho capitalista serão evidenciados sob análise conceitual os estudos de Heleieth Saffioti (1976; 1984; 2015) e Silvia Federici (2017; 2021) aliando dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Dessa forma, procura-se compreender a entrada das mulheres no ensino superior a distância, avaliando, por fim, alguns elementos do cenário pandêmico, a superintensificação dos afazeres domésticos, cuidados com familiares e o trabalho precário.
Resumo: Este artigo busca problematizar o lugar e o papel da família na política de assistência social brasileira. A partir da análise crítica de conteúdo de leis, regulamentações e diretrizes federais a partir da Constituição de 1988, apontamos as contradições persistentes no campo da assistência social que, por um lado, propõe-se a engendrar autonomia e dignidade individuais, mas por outro, implementa ações com foco acentuado na família e na sua manutenção como instituição central de sociabilidade humana. Argumentamos que, ao longo da implementação da política, observa-se um processo de familização, por meio do qual a família foi se tornando seu objeto central e o veículo por meio do qual os seus outros objetivos são implementados. Valendo-nos de teorias feministas que propõem a abolição da família, realizamos um exercício de imaginar um processo inverso, de desfamilização da política de assistência social no Brasil.
Resumo: A pesquisa aborda um problema quase omitido e pouco discutido no Chile, como a violência de gênero nos espaços universitários, sendo esta uma realidade que os movimentos feministas têm se encarregado de visualizar nos últimos anos. A experiência de pesquisa foi realizada por meio de metodologia quantitativa aplicada em quatro regiões do país, em universidades onde se concentra a maior taxa de matrícula. Os resultados mostraram, entre outras constatações, que as universidades são instituições com forte sentido patriarcal, bem como situações de assédio, tratamento diferenciado, reprodução de piadas degradantes para com as mulheres, etc.
Resumo: O objetivo do artigo é fazer uma viagem pelo desenvolvimento de epistemologias feministas, cujas contribuições para as ciências sociais vão desde a exposição do viés androcêntrico de suas pesquisas, a rejeição das noções de objetividade e neutralidade dos métodos empíricos tradicionais, até a exposição dos sistemas de poder que criam e recriam os conceitos usados pela ciência em um determinado sistema social e político. Se a princípio as mulheres eram o principal objeto de estudo do feminismo, seu interesse se deslocou para outros marginalizados, indagando sobre as condições de possibilidade que mantêm sociedades profundamente desiguais. Três correntes da epistemologia feministas são revisitadas, com ênfase no pós-estruturalismo feminista por suas contribuições para a pesquisa pós-qualitativa pós-cartesiana.
Resumo: A psique feminina concebida a partir da versão biotipológica da eugenia, de grande impacto na Argentina desde a década de 1930, reconhece uma significativa influência das teorias de dois renomados endocrinologistas europeus, o italiano Nicola Pende e o espanhol Gregorio Marañón. Partindo de resgatar sucintamente a recepção local de suas teses, este trabalho sustenta que esse olhar, dotado de pretensões de cientificidade, fortaleceu preconceitos já existentes quanto às diferenças entre homens e mulheres, lugar a partir do qual se pretendia legitimar, aliás, papéis tradicionais de gênero, estabelecendo às mulheres os de esposa e mãe.
Resumo: No objetivo de analisar a imbricação entre eugenia, educação e inserção da mulher-mãe no magistério novecentista, fundamentado teórica e metodologicamente nos estudos de gênero pós-estruturalistas e nos estudos de História da Educação, recorreu-se à materialidade da I Conferência Nacional de Educação (1927), em que se investigou a educação e o discurso médico-eugênico pensados para a condução biossocial da mulher-mãe, o qual visava intervir no corpo feminino a fim de gerar descendentes eugenizados. A maternidade posicionaria a mulher-mãe em um não lugar no magistério. Esse ideário, presente também na Conferência de 1927, estabelecia que o compromisso primeiro da mulher-mãe obedeceria às tarefas do lar e ao zelo com os filhos e o esposo. Os “custos” do Estado alusivos à licença especial concedida por lei às mulheres puérperas durante o período letivo foi igualmente debatido.
Resumo: Nesse artigo, focamos o aumento do consumo de psicotrópicos por mulheres. Estudos recentes indicam uma variação de gênero em relação ao uso desses medicamentos. Mulheres com idade média de 40 anos seriam o principal grupo consumidor. A partir de um diálogo entre a sociologia econômica e mundo digital, o artigo explora discursos e espaços de aconselhamento do mundo digital. Analisamos qual apelo de imagem da mulher surge e como essa imagem pode potencializar o consumo de psicotrópicos. A metodologia incluiu revisão bibliográfica e etnografia virtual no Instagram, investigando influenciadoras que se dirigem às mulheres entre 40 e 50 anos. Essa pesquisa foi realizada ao longo do ano de 2022. Concluímos mostrando um aspecto de espelhamento da imagem da mulher empreendedora de si no mundo digital como corolário do esvaziamento dos espaços de solidariedade e associado ao recurso de psicotrópicos.
Resumo: A compreensão que a violência contra a mulher possa ser analisada territorialmente abre a perspectiva que políticas públicas de segurança, saúde, assistência social e acesso à justiça possam ser planejadas para serem estratégicas dependendo da forma como se manifesta no espaço urbano. Foi feita a espacialização das ocorrências de violências das bases de dados estaduais e dos atendimentos dos centros da mulher municipais em 2018. Apesar de ocupar todo o perímetro da mancha urbana, os mapas revelaram que, em números absolutos, existem concentrações em vários distritos periféricos e semiperiféricos. Em números relativos, as violências estão em maior número nos distritos do centro expandido. Essa concentração nas áreas centrais nos levou a supor que esta violência é resultado do tensionamento das normas subordinadoras patriarcal, capitalista e racial aplicadas sobre os padrões de uso e ocupação do solo, um recalque espacial.
Resumo: Em 2019, realizei a minha primeira e única reclusão menstrual entre os Korubo de recente contato da Terra Indígena Vale do Javari (Amazonas, Brasil). A menstruação e a reclusão menstrual (tsat vule) consistem em permanecer sentada enquanto o sangue desce. No meu caso, durante a reclusão, houve um acidente com um dos anciões que levou ao início dos rituais de canto-choro e, posteriormente, uma das minhas anfitriãs entrou em estado de raiva. Este artigo parte da minha reclusão menstrual como um estudo de caso para analisar as concepções korubo sobre os brancos, a adoção e a menstruação. Argumento que a reclusão menstrual da antropóloga, tratada como menina e velha, pode ser interpretada como uma menarca anômala em que concepções ameríndias sobre os brancos são reconstruídas sob o aspecto performativo do parentesco.