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imediatez pedagógica, escuta e significado silencioso: ensaio de exercícios em filosofia e literatura para educadores da primeira infância

PID: S1984-59872022000100013 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2022
Autores: Johansson
resumo Este ensaio se concentra no filosofar que acontece fora e além das discussões filosóficas planejadas, filosofar que ganha vida na prática, que se intensifica nos encontros das crianças com o mundo, com os outros, com a linguagem, em jogo. Ele contempla como adultos, educadores e pais encontram as crianças e são afetados pelas explorações filosóficas das crianças. Qual é o papel do adulto no questionamento filosófico das crianças? Como podemos responder ao questionamento filosófico das crianças? O que significa fazer isso? O ensaio explora exercícios filosóficos para educadores da primeira infância em uma série de exemplos da literatura - memórias, autobiografias, ficção e obras que brincam entre elas. Ao pensar através desses exemplos literários, ele investiga na forma como os educadores podem se preparar para encontros filosóficos com crianças através de exercícios de leitura e pensamento. Ao fazer isso, o ensaio experimenta uma forma de escrita que por si só se torna um exercício filosófico. Através dos exemplos e exercícios, o ensaio sugere como os educadores da primeira infância podem se preparar para uma imediatez pedagógica que envolve a escuta do questionamento filosófico e existencial nas brincadeiras, birras e silêncios das crianças. As investigações e leituras dos exemplos não pretendem levar a conclusões que possam ser aplicadas diretamente nas práticas pedagógicas; nem funcionam como argumentos para ouvir ou escutar de uma forma particular as crianças. O que obtemos, e o que estou procurando, é antes a experiência de trabalhar e pensar através destes exemplos.

infância e alteridade: experiência e criação na relação entre crianças e adultos

PID: S1984-59872022000100210 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2022
Autores: arenhart guimarães
resumo o objetivo desse trabalho é dar visibilidade e refletir sobre as manifestações das crianças na perspectiva da alteridade, confrontando um olhar que, na concepção moderna, tem afirmado a infância na perspectiva da falta e negatividade. Desse modo, as experiências empíricas são destacadas, especialmente, nas relações das autoras com as crianças como pesquisadoras (em uma pesquisa de doutoramento) e como docentes na educação infantil. A pesquisa de doutorado se deu com dois grupos de crianças entre quatro a seis anos de idade, em espaços de educação infantil em dois contextos distintos e desiguais socialmente: um grupo de crianças moradoras em uma favela e outro de classe média/alta. Os registros foram produzidos a partir da interação com as crianças em situações de brincadeira, entrevistas individuais e coletivas, fotografias e trocas de fotografias. Na interlocução com a Filosofia, a Sociologia da Infância e a Geografia da Infância, buscamos refletir sobre como as crianças significam suas experiências e como anunciam novas possibilidades de se relacionar com a cultura escolar. A brincadeira é trazida como experiência que as une como grupo social, independente das condições desiguais que os contextos oferecem, pela qual é possível criar rotas de fuga, transver os limites institucionais, exercer a alteridade e produzir alegria. As expressões de alteridade das crianças ainda podem ser percebidas nas formas genuínas com que exercem suas relações com os espaços e tempos. Assim, os espaços se convertem em lugares e territórios de infância, a partir dos sentidos atribuídos que interrogam os convencionalmente instituídos pelos adultos; o tempo é vivido pelas crianças na perspectiva da experiência e da reiteração, o que confronta o tempo cronológico, linear, das rotinas rígidas e padronizadas. Enfim, olhar a infância a partir da perspectiva da alteridade, nos provoca a pensar e produzir outros modos de relação entre adultos-crianças, para além de uma perspectiva colonizadora e tutelar, mas como abertura e reinvenção.

infância e crianças: entre movimentos, limiares e fronteiras

PID: S1984-59872022000100200 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2022
Autores: Gomes Olarieta silva
resumo Apresentamos o dossiê “Estudos da infância: movimentos, limiares e fronteiras”, temática abordada no III Congresso de Estudos da Infância (CEI) organizado por integrantes do Departamento de Estudos da Infância (DEDI) e do Programa de Pós-graduação em Educação (ProPEd) da Faculdade de Educação na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Os artigos que compõem o dossiê resgatam os debates que ocorreram nos dias do evento fundamentados nos campos da educação, relações internacionais e questões étnico-raciais. Nesta apresentação, inspiradas pelo poema “A ponte” de Mario Benedetti, exploramos a potência de três palavras para pensar a infância e a relação que estabelecemos com ela: fronteiras, estrangeridade e movimentos. Quantas fronteiras a infância e as crianças atravessam na ordem da vida política, cultural, social e biológica? Que movimentos ou mudanças elas produzem, reproduzem e difundem? Como desestrangeirizar a infância, no sentido de tensionar as ações e produções discursivas que fomentam exclusões de diversas ordens? Que movimentos - no campo da pesquisa e na sociedade de forma geral - são instituídos de modo a potencializar a agência da infância? Partindo da ideia de que tanto nossa cultura quanto nossa subjetividade se constituem na relação entre um dentro e um fora que se colocam em tensão, recorremos à filosofia, à literatura, à psicanálise e aos estudos culturais para percorrer essas questões. Neste dossiê, os textos compõem um arranjo que dialoga com a filosofia da infância e se encaminha para além das fronteiras conceituais e metodológicas, no sentido de fazer movimentos para compreender as crianças e a infância por suas perspectivas, suas ações, suas linguagens e posições, em uma ordem tanto objetiva quanto subjetiva.

manifesto em movimento: a pé, de motoca, as crianças na Praça da República em São Paulo

PID: S1984-59872022000100209 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2022
Autores: gobbi
resumo este artigo tem como ponto de partida a existência de um projeto pedagógico que se faz cotidianamente com crianças na Praça da República, situada na cidade de São Paulo. Empreendeu-se como metodologia o uso de duas redes sociais, sendo elas, Instagram e WhatsApp, com as quais foi possível consultar imagens e realizar entrevistas e diálogos breves. Tem como objetivos responder a algumas questões: Que cidade se encontra dentro das experiências de crianças a circular com as motocas na Praça? O que podemos depreender dessa prática? O que ocorre e é possível ocorrer com o espaço público ao considerarmos a presença das crianças, e de modo concreto, como no projeto Motoca na Praça, quando elas ocupam os espaços? Há uma produção de espaço, ainda que efêmera, com a presença das crianças? Uma questão, talvez mais simples, é onde está localizada a infância nesta Praça? Historicamente é possível vê-la produzida, presente ou ausente, nas transformações do espaço concebido, mas sobretudo, vivido e percebido, numa acepção do filósofo Henri Lefebvre que será recuperada adiante? Levanta-se como hipótese que com a presença das crianças, desde as/os bebês, de todas elas sem exclusões, teremos uma produção plena dos espaços urbanos.

martin buber e donald wood winnicott: limiares e deslocamentos conceituais como aposta da pesquisa com bebês

PID: S1984-59872022000100203 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2022
Autores: Salutto
resumo Este artigo tem como objetivo articular as teorias de Martin Buber (Antropologia Filosófica) e Donald Wood Winnicott (Psicanálise), tendo os bebês - suas expressões e movimentos - como centralidade. Em cotejo e diálogo com os referidos autores, compreende-se que o princípio ontológico do ser humano é a relação como marca do existir. A partir desse princípio, são cunhados os conceitos relação, sutileza, reciprocidade e vínculo, que possibilitam a construção de um olhar sensível para a dimensão relacional entre bebês e adultos, em contextos educativos e de pesquisas. O texto desenvolve esses conceitos, revelando que no encontro entre adultos e bebês há um esforço para se reconhecerem como pessoas. Aos primeiros, impõem-se a generosidade da partilha. Aos últimos, faz-se o convite ao mundo. Convite ao qual os bebês se lançam com a tenacidade e o ímpeto dos movimentos inaugurais. O encontro entre a Psicanálise de Winnicott e Antropologia Filosófica de Buber revelou-se promissor na confirmação de que os bebês são pessoas de relação, contribuindo com estudos sobre bebês na Educação, de modo particular, e nas Ciências Humanas, de modo geral.

o encontro com o buriti: a árvore da vida e as crianças warao em nova iguaçu

PID: S1984-59872022000100206 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2022
Autores: motta dutra
resumo “Só existe a beleza se existir interlocutor. A beleza da lagoa é sempre alguém” (Mãe, 2017, p. 40). Valter Hugo Mãe expressa nosso desejo na feitura desse artigo: partilhar o encontro com as crianças refugiadas. Esse encontro faz parte do processo de pesquisa que busca mapear as crianças em condição de refúgio na Baixada Fluminense e desvelar a experiência de deslocamento de seu país de origem. Na dinâmica em mapear os sujeitos da pesquisa, fomos surpreendidas com um grupo de crianças, que fazem parte do grupo étnico Warao e que foram acolhidas pelo município de Nova Iguaçu - Baixada Fluminense. Os Warao são indígenas do norte da Venezuela e seu nome significa povo da canoa, dada sua relação profunda com as águas. Pelas águas turbulentas da vida, um grupo de crianças e suas famílias chegaram a Nova Iguaçu. Antes de serem lá acolhidas, as famílias “acamparam” no entorno do Terminal Rodoviário Novo Rio por algumas semanas. Inicialmente foram encaminhadas para um abrigo público, mas o mar agitado refratava diferenças de perfil entre eles e os integrantes que já faziam parte do abrigo. Por uma iniciativa religiosa, as famílias foram acolhidas pelo município de Japeri num sítio. Permaneceram por seis meses, porém, mais uma vez, foram navegar em outras águas, pois sofriam a iminência de um despejo. Na busca de águas mais tranquilas, os Warao foram acolhidos pelo município de Nova Iguaçu. As famílias (cinco núcleos interligados) tinham o desejo de permanecerem juntas, a Secretaria de Assistência Social (SEMAS) cedeu e adaptou, então, à moradia dos indígenas, uma escola desativada. Dentro de águas agitadas, em plena pandemia, o Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Linguagens, Infâncias e Diferenças (GEPELID), entrou em cena, acompanhando a rotina dessas crianças na escola de abrigo e no Centro de Ação Social de Marambaia. Nos encontros com os Warao fomos impactadas com a árvore Buriti, árvore da vida! Ah, o Buriti, palavra que causou afeto e aprendizagem, pois possui raízes profundas e uma ligação afetiva para os Warao. Durante o caminho do estudo comprovamos que a pesquisa em Ciências Humanas sempre é um encontro com o outro, assim como o sistema ideológico é de suma importância na formação de signos. A palavra Buriti também carrega um sentido ideológico e vivencial para o povo Warao. Cabe destacar que o aporte teórico dessa escrita possui arquitetônica em Bakhtin e na relação entre o pesquisador e os sujeitos do campo.

o fundo afetivo intersubjetivo na aquisição de conhecimento e confiança como atitude epistêmica

PID: S1984-59872022000100011 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2022
Autores: santamaría espitia
resumo Dentre a grande variedade de experiências vinculadas ao trabalho acadêmico, encontram-se algumas vivências afetivas intensas que estão mais diretamente relacionadas ao avanço conceitual que os alunos irão realizar por estarem intrinsecamente ligadas à atividade apresentada durante a aquisição do conhecimento, como é o caso de curiosidade, confusão e surpresa. Essas emoções epistêmicas que ocorrem durante as atividades de aprendizagem são direcionadas ao conteúdo conceitual das crenças do indivíduo. O objetivo deste trabalho é explorar teoricamente a ideia de que o desenvolvimento conceitual que ocorre em contextos educacionais depende do desenvolvimento de uma tendência afetiva de base intersubjetiva que serve de pano de fundo para o advento de emoções epistêmicas em situações de aprendizagem social. A confiança com que se depara uma situação de aprendizagem é uma tendência geral (atitude epistêmica) fruto da trajetória do indivíduo que funciona como pano de fundo para as atividades em que o conhecimento é adquirido. Uma compreensão adequada das relações entre emoções epistêmicas, confiança e conhecimento pode gerar ideias que promovam a consolidação dessa atitude como faceta da aprendizagem na escola. Como implicações pedagógicas deste modelo conceitual, alguns padrões emocionais epistêmicos comuns são apresentados em relações assimétricas entre professores e crianças.

o gesto cínico. Por uma filosofia da insolência

PID: S1984-59872022000100012 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2022
Autores: hurtado-alvarado vargas espinel-bernal
resumo A filosofia entregue ao saber sagrado de Atena sofreu uma inegável castração na modernidade, pois, seguindo Sloterdijk, passou a se relacionar com o cínico, subjugando-se à aparência. Por esta razão, a literatura alemã diferencia entre Kynismus e Zynismus. O kynismós com “k” refere-se aos cães sábios da ágora e o Zynismus ao papillon desdentado. Sob as chaves da modernidade, a filosofia camufla-se na moderação, no bom discurso e na etiqueta de salão, abandonando assim a estridência, o sarcasmo e o desafio que a escola de Diógenes praticava; mas o que foi essa insolência? Qual foi o seu discurso? Quais foram seus gestos? Estas são algumas das questões abordadas neste artigo; por isso, a reflexão sobre a figura do cínico, do autor da Crítica da Razão Cínica, tem sido central para elucidar algumas dessas questões e, por que não, obscurecê-las, afinal, os interstícios das palavras são mais profundos Por razões metodológicas, o texto está dividido em três seções: primeiro, Ressonâncias de um conceito suplantado, em que se investiga a ligação entre a insolência e o cínico; segundo, Gestos filosóficos, onde se traçam as caretas de um pensamento impertinente e terceiro, Conclusões.

o movimento de jovens pobres em direção a instituições renomadas de ensino superior: motivações e contradições.

PID: S1984-59872022000100204 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2022
Autores: grisolia castro
resumo Crianças e jovens são posicionados como sujeitos em aprendizagem. Quando se fala em crianças e jovens de classe popular, se faz comum a crença de que o deslocamento às instituições escolares se transladará em um deslocamento social. Isto é, crianças e jovens desse segmento econômico que investem no estudo poderiam ascender economicamente. É nesse contexto que podem ser entendidas políticas públicas recentes que visam à manutenção e à extensão da presença de crianças e jovens em instituições educacionais. Algumas dessas políticas visam garantir o acesso de negros e pobres, historicamente excluídos do ensino superior, a esse nível de ensino. O presente artigo realiza uma investigação de cunho qualitativo abordando as motivações que fazem com que jovens de classes populares se sintam chamados a se deslocar a centros de ensino superior de excelência e quais as consequências subjetivas desse movimento. Foi realizada uma pesquisa qualitativa com 23 estudantes universitários, beneficiários da Lei de Cotas ou do Programa Universidade para Todos, de duas instituições de ensino superior, de reconhecida qualidade, localizadas no Rio de Janeiro. Os resultados demonstram que o apoio da família e de figuras próximas; o gosto pelo estudo; a identificação com o curso e a expectativa de mobilidade social ascendente foram fatores que contribuíram para motivar os jovens em seu movimento ao ensino superior. No que compete à universidade, vimos que ela enseja práticas contraditórias aos jovens de camada popular. Assim, verificamos que a entrada em uma instituição historicamente destinada a outra classe social pode fazer com que os jovens não se sintam pertencentes à universidade, e que o jovem pobre tem incertezas sobre o futuro. Frente a esses desafios, o que se coloca para os jovens pobres é a aposta em si mesmo como forma de vencer as agruras do presente. Entretanto, também foi observado que os jovens almejam usar de seu conhecimento e seu status universitário para ensejar transformações na realidade. Conclui-se que a universidade no contexto neoliberal pode reforçar um modelo de subjetivação individualista, mas que, em contrapartida, também pode operar linhas de fuga a esse modelo, instrumentalizando o jovem pobre para a ação em direção ao outro.

philosophy for children as a form of spiritual education

PID: S1984-59872022000100017 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2022
Autores: michaud rollins Gregory
resumo Nas últimas duas décadas, alguns autores do movimento de filosofia para crianças têm teorizado que a comunidade de aprendizagem filosófica pode ser uma forma de prática espiritual, de cuidado de si, ou uma prática de sabedoria (De Marzio, 2009;Gregory, 2009, 2013, 2014; Gregory y Laverty, 2009). No entanto, não está claro se a filosofia para crianças é, em si mesma, uma forma de educação espiritual, ou se requer algum tipo de modificação para sê-lo. E, se é ou pode ser uma forma de educação espiritual, podemos nos interrogar de que maneira e em que medida. São estas perguntas as que este texto pretende explorar. Para isso, primeiro esclarecemos o significado de educação espiritual através da apresentação de dois autores que escreveram explicitamente sobre este tema. O primeiro é Parker J. Palmer, quem desenvolveu uma perspectiva sobre o que significa recuperar as raízes espirituais da educação, derivadas de seu estudo e prática da espiritualidade Quaker. O segundo é Pierre Hadot, que explorou como a prática da filosofia na antigüidade ocidental foi uma forma de exercício espiritual. De nossa apresentação destes autores surgirá uma perspectiva particular do que significa a educação espiritual. Na última seção do texto, usaremos esta apresentação para examinar de que maneira a filosofia para crianças pode ser uma forma de educação espiritual e se requer adaptações para sê-lo.

por um horizonte público na educação das crianças: um diálogo com Hannah Arendt

PID: S1984-59872022000100018 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2022
Autores: araújo auer
resumo Este artigo propõe discorrer sobre algumas questões que tratam da educação das crianças tangenciadas por Hannah Arendt em seu ensaio “A crise na educação”. O questionamento sobre “a obrigação que a existência de crianças impõe a toda a sociedade” é a chave de leitura para uma aposta ético-política na formação das novas gerações em um mundo desencantado pela estranheza do humano e pela flagrante negação de critérios que o passado - como autoridade - nos legou como apoio para a ação e julgamento sobre o mundo. Se à educação não deve recair toda a responsabilidade pelo mundo, ao menos deve ser capaz de inserir as crianças em uma cultura pública que as possibilitem voltar para o aspecto público do mundo para dele se apropriarem. As questões tematizadas por Arendt, ainda que eivadas de críticas e paradoxos, nos mobilizam a pensar que somente uma educação fundada em um horizonte público é capaz de formar as crianças de modo que tenham a oportunidade de agir no mundo e serem capazes de discernir a civilização da barbárie, o justo do injusto, a verdade da mentira, o bem do mal. Se suas reflexões revelam a utopia de seu pensamento, revelam também a esperança e a responsabilidade coletiva que a chegada das crianças em um mundo preexistente impõe a toda sociedade humana.

produções imagéticas: uma pesquisa no modo criança

PID: S1984-59872022000100213 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2022
Autores: oliveira chisté
resumo Este artigo parte de uma pesquisa guiada por uma metodologia de produção de imagens por crianças e desenvolvida na Zona da Mata, em Rondônia no cotidiano familiar de crianças de 2 a 6 anos. As produções imagéticas (fílmicas e fotográficas) infantis disparam esta escrita e expressam um plano de composição possível para pensarmos a criança, a infância e a pesquisa. Partindo das inquietações de isolamento social? As crianças pela infância o que nos apresentam em espaços para além da escola? Para tanto, no primeiro momento apresentamos o caminho que se fez por uma pesquisa experiência com traços cartográficos, no modo criança. No segundo trazemos as crianças pela infância se engendrando em um começo com cores e falas que atravessam essa escrita. No terceiro momento operamos com experiências, falas e produções imagéticas de crianças em um movimento que nos faz pensar no que podem crianças com uma câmera nas mãos? Esses movimentos nos permitem adentrar temporalidades e espacialidades contagiantes que mobilizam experiências sensíveis de pensamentos para outras formas de estar no mundo e na pesquisa em tempos de pandemia. O que as meninas e os meninos pequenos nos trazem a partir de suas imagens e filmagens é a potência das experiências, dos rastros, restos e retalhos, revelando, assim, uma grande capacidade de espanto com as coisas que para nós podem passar despercebidas. Elas nos convocam a experimentar outros modos de ver e de nos relacionar com o mundo, criando outros sentidos e sensações para a pesquisa ou mesmo para a vida em si.

protagonismo infantil em cenários latino-americanos: diálogos limiares com os estudos da infância

PID: S1984-59872022000100201 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2022
Autores: Voltarelli
resumo Estudar a infância na América Latina demanda considerar o contexto de desigualdade social em que está imersa, assim como a complexidade de pensar a pluralização da infância bem como a multiplicidade de modos e experiências de vida das crianças dessa região. As crianças cruzam com cenários de discriminação, subordinação e segregação social dentre outras situações que configuram ação das crianças na sociedade que se distanciam da compreensão universal e ideal de infância associada à escolarização e as brincadeiras, nem sempre sendo protegidas em espaços institucionais que garantam seu desenvolvimento integral. Nesse sentido, pensar o protagonismo e a participação infantil latino-americana requer compreensões acerca das distintas realidades sociais que não promovem tipos e estilos dados, prontos e acabados, mas que são construídos na dinamicidade das relações, espaços, lugares e tempos para que ocorra a participação. Para tanto, o presente estudo pretende abordar reflexões acerca do protagonismo infantil na América Latina a partir de um estudo exploratório sobre as publicações científicas sobre a temática nos países hispano-falantes do continente, nos últimos anos, a fim de identificar como o conceito vem sendo compreendido e discutido no meio acadêmico. As produções, além de elucidar as ações e contribuições sociais desta categoria geracional, que historicamente esteve à margem social e científica, também possibilitam compreender as diversas experiências de vivenciar a infância nesses países e dialogar com as questões e problemáticas que perpassam suas vidas e que demandam por olhares atentos às iniciativas e espaços de participação, a fim de ampliar a visibilidade social das crianças.

tchinguilile: infâncias da ganda. crianças “de lá”

PID: S1984-59872022000100212 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2022
Autores: souza
resumo Em diferentes lugares do mundo, pesquisadores vêm fortalecendo outra perspectiva de estudar infâncias a partir de um olhar que evidencie as crianças consideradas “periféricas” - distantes do modelo ideal associado aos países da Europa e Estados Unidos. Com a intenção de conhecer as crianças africanas de Angola e por acreditar que a preservação das línguas se mostra importante para manter conhecimentos e tradições das sociedades, esse texto conta sobre um estudo preliminar realizado em um local rico culturalmente e com fortes tradições, apesar de marcado por processos de negação e desvalorização. Segundo Ndombele e Timbane (2020), grande parte das crianças angolanas aprende português aos sete anos, quando ingressa na escola, especialmente nas zonas rurais. Este fato dificulta o processo de alfabetização na língua portuguesa e ainda potencializa o risco de desaparecimento de algumas línguas nativas já que muitas escolas alfabetizam as crianças somente na língua portuguesa. Ao visitarmos uma escola da Ganda, zona rural de Benguela, encontramos um grupo de crianças que, através de suas brincadeiras, mantêm viva a língua umbundu e, com isso, a identidade e cultura de seus antepassados. Assim foi criado, junto com os professores, um jogo de associação de sílabas a partir da música cantada na brincadeira. O jogo teve duas modalidades - na língua umbundu e na língua portuguesa - caracterizadas por ser um instrumento pedagógico bilingue. No momento inicial de oferecimento do jogo para testagem junto as crianças, foi identificado que, ao cantar a cantiga da brincadeira e discutirem sozinhas as possíveis soluções, conseguiram fazer associações corretas das silabas em umbundu, apesar da insegurança inicial dos adultos em relação ao desafio. E, em seguida, fizeram a tradução para a língua portuguesa. Assim, foi criado um recurso junto com os professores que, além de valorizar a língua originária da população, permitiu a utilização de um conhecimento das crianças para a criação de um recurso didático. Além disso, foi possível abranger o conceito de infância e ser criança no mundo atual, descontruindo a ideia de um modelo único e ideal. Falamos de crianças, que trazem hábitos de casa e que nem sempre comungam com o que há no cotidiano escolar. Vale ressaltar que a maioria das escolas no ocidente segue um modelo euro/ocidental, pautado na separação etária das classes estudantis como requisito principal para a garantia da aprendizagem, desvalorizando outras trocas, que ajudam as crianças a aprender.

tempos de infância: linguagem e experiência

PID: S1984-59872022000100019 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2022
Autores: habowski ratto
resumo Abordamos no ensaio os tempos de infância, tomando como horizonte a linguagem e a experiência. Walter Benjamin e Giorgio Agamben são os principais pensadores que nos ajudam a abordar sobre a frágil experiência na contemporaneidade, no sentido de que os modos de vida atuais estão repletos de vivências que não são transformados em experiência. Para restaurar a experiência é necessário compreender a infância enquanto condição de existência que acompanha toda a vida; é um sujeito que está exposto à historicidade e que faz história, história descontínua e de acontecimento singular. Para tanto, reacendemos pela potência poética de Manuel de Barros a relação entre tempos de infância, linguagem e experiência, pois apresenta-se aí a intensidade de um vivido que é destituído de um tempo sucessivo e cronológico. A potência criativa dessa linguagem possui no devir-criança o artífice para a criação de outra perspectiva na busca da fonte inaugural das palavras: avançar para o começo e chegar ao criançamento das palavras. A partir dessas abordagens construídas, compreendemos que juntos, Walter Benjamin, Giorgio Agamben e Manuel de Barros nos convidam para retomar a infância, na busca do sentido primeiro das palavras, que só o encontramos com a presença da infância. Trata-se, aqui, de não firmar uma verdade absoluta sobre as infâncias e seus tempos, mas de encontrar trilhas para pensar como constituir outras relações com e no tempo.

walter benjamin: “infância, uma experiência devastadora”

PID: S1984-59872022000100205 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2022
Autores: nascimento
resumo Construído no diálogo entre os processos de institucionalização da infância e as práticas educativas este artigo sistematiza dados de uma pesquisa que teve como objetivo conhecer a experiência de infância na Educação infantil. O campo empírico são cadernos de campo de observações realizadas em vinte e uma instituições públicas que atendem à Educação Infantil na cidade do Rio de Janeiro. Para compreender como infância e experiência se dão nesse contexto, o referencial teórico tem como suporte os estudos da filosofia de Walter Benjamin, a Sociologia e a Antropologia da Infância, e a análise do contexto político que envolve as práticas de institucionalização das crianças. O recorte adotado neste texto apresenta um exercício de aproximação entre as interações e as falas das crianças das escolas participantes da pesquisa e os fragmentos de Obras Escolhidas I e II de Walter Benjamin. A proposta é, a partir dos conceitos de infância e experiência presente na obra do filósofo, compor uma coleção composta de elementos que indiquem como as crianças vivem suas experiências de infância dentro do ambiente escolar. Ao pensar a infância pelo viés da experiência concordamos com o legado atribuído por Benjamin ao trabalho de Kant sobre o tema da experiência. Experiência - algo que experimentamos, mas também algo que nos une/aproxima pelo viés da geração, da história, da narrativa. Independentemente do formato da institucionalização das crianças, ou seja, se elas frequentam creches, escolas exclusivas de Educação Infantil ou escolas de Ensino Fundamental que têm turmas de pré-escola, com base na leitura dos cadernos de campo, podemos concluir que, a experiência de infância se dá na relação com os outros, com os objetos, com a cultura, com a sociedade e com a natureza. A pesquisa evidenciou que, assim como a criança presente na obra de Walter Benjamin, as crianças das nossas creches e escolas também são atraídas pelos detritos e pelo que eles lhes apresentam como possibilidade de atuação. Não reproduzem diretamente o mundo dos adultos, estabelecem uma nova e incoerente relação com o que o mundo lhes apresenta. O que as crianças produzem em suas interações é fruto de um refinado processo em que experiência coletiva e experiência individual se cruzam, tendo a cultura como ponto de encontro.

walter, georg e dora: a infância sob o olhar atento dos irmãos benjamin

PID: S1984-59872022000100208 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2022
Autores: pereira
resumo Este texto tem por objetivo apresentar uma história dos irmãos Walter, Georg e Dora Benjamin, três irmãos que tomaram a infância como tema de interesse, formação, atuação e produção teórica. Walter mira a infância como perspectiva filosófica para uma crítica da cultura, sensível ao agir e à linguagem das crianças; Georg, como pediatra, médico escolar e deputado, toma a infância como urgência sanitária para a formulação de políticas públicas; Dora, por sua vez, tece contundente análise sociológica do binômio mulheres e crianças atravessado pelas relações de trabalho que a indústria têxtil transferia para o ambiente doméstico. Estas são apenas algumas nuances da multifacetada relação dos irmãos Benjamin com a temática da infância. Nascidos na virada do Século XIX para o Século XX, viveram o oscilar da política e da economia alemãs, as agruras da Primeira Guerra Mundial, e a ascensão e a consolidação do nazismo, que os obrigou, pela condição judaica e intelectual, a deslocamentos forçados, prisão, adoecimento e morte. Parte significativa da produção de Walter salvou-se na medida em que ele depositava seus escritos em bibliotecas ou os enviava em cópia para alguns amigos. Georg e Dora, mais intensamente ligados ao partido comunista, não lograram o mesmo êxito e a maior parte de sua vasta produção fora destruída nas fogueiras de livros que anunciaram o nazismo. Resulta disso um silenciamento sobre a história dos irmãos e da sua vasta produção intelectual, hoje considerada visionária, silêncio que denuncia a gravidade das políticas de exceção dedicadas ao apagamento da história.

É tão estranho a gente sentir que existe: infância e cinema no curta alma

PID: S1984-59872022000100020 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2022
Autores: queiroz
resumo Esse artigo tem por objetivo apresentar uma discussão sobre infância a partir das questões suscitadas pelo curta-metragem intitulado Alma, dirigido, produzido e roteirizado pelo cineasta paraibano André Morais. Na obra, experienciamos um dia na vida de uma menina que vive com sua avó e que, ao longo de toda a trama, tece questionamentos sobre sua própria existência, os sentidos da vida e as dimensões das relações que vamos estabelecendo uns com os outros. Discute-se nesse texto, portanto, a potência do cinema e da infância como dimensões que convidam a um diálogo capaz de fazer convergir arte e vida, fertilizando também o campo da ciência, a partir das reflexões que são caras à dinâmica da experiência humana. Que concepções de infância são apresentadas na produção? De que formas a abordagem escolhida amplia a discussão sobre a infância e o cinema como potências? Em que medida as questões levantadas pela criança conectam sua experiência de infância às experiências de quem a assiste em tela? A fim de mobilizar a discussão, o texto é organizado a partir de cenas, que caracterizam a sequência dos acontecimentos que dão sentido ao que o filme quer expressar. Na primeira delas, apresenta-se a temática central; na segunda, as questões para as quais o curta nos desperta ao longo da narrativa; e na terceira, busca-se ampliar as possibilidades de leitura, no lugar de encerrá-las. Dão embasamento às discussões aqui levantadas Walter Benjamin, Mikhail Bakhtin, Antoine de Saint-Exupéry, Aristóteles e Hannah Arendt.

A Lua na sala de aula: investigando práticas epistêmicas no ensino de Astronomia

PID: S1516-73132022000100223 | Periódico: Ciência & Educação (1516-7313) | Ano: 2022
Autores: Menezes Sessa
Resumo: Alicerçado nos campos teóricos do ensino de astronomia e das práticas epistêmicas, o presente trabalho tem, por objetivos, identificar as práticas epistêmicas mobilizadas pelos estudantes em aulas sobre as fases da Lua e compreender a relação entre estas práticas e as atividades principais desenvolvidas nas aulas de Ciências. Para tanto, desenvolvemos e aplicamos uma sequência didática, cujo pressuposto teórico está na Alfabetização Científica, junto a treze estudantes do 8º ano de uma escola. A coleta de dados consiste nas interações entre os sujeitos, registradas por áudio e vídeo, e no registro das atividades realizadas pelos alunos. O estudo desses dados ocorreu a partir da análise de conteúdo e evidenciou um caráter dinâmico e relacional, tendo em vista que algumas atividades acabam estimulando e incentivando o trabalho de certas práticas epistêmicas em detrimento de outras, além das diferentes concepções dos estudantes sobre o fenômeno das fases da Lua.

A alienação escolar na perspectiva da teoria da objetivação: um olhar para o Ensino de Ciências

PID: S1516-73132022000100229 | Periódico: Ciência & Educação (1516-7313) | Ano: 2022
Autores: Brizueña Plaça Gobara
Resumo O presente estudo teórico tem como objetivo apresentar e discutir o conceito de alienação educacional na perspectiva da Teoria da Objetivação (TO), uma teoria de ensino e aprendizagem proposta nos anos 1990. Inspirada no materialismo dialético e na escola de pensamento de Vygotsky, busca romper com as concepções tradicionais e individualistas de ensino adotadas nas escolas. Para compreender o significado de alienação na perspectiva da TO discutem-se os conceitos centrais dessa teoria: saber, conhecimento e aprendizagem. Por meio da atividade, ou labor conjunto, o saber é colocado em movimento e o ser é transformado, superando as situações de alienação. O estudo contribui para a reflexão sobre a alienação educacional que ainda é muito comum no contexto escolar atual e sugere a TO como possibilidade para romper com os modelos racionalistas de educação que a sustentam.
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