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A participação das mulheres na pedagogia crítica de Paulo Freire: entre a alusão e o reconhecimento

PID: S2178-46122022000100406 | Periódico: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Ano: 2022
Autores: Dantas Antloga Silva
Resumo A produção de Paulo Freire ainda é atual e necessária. Sua obra é permeada pela defesa de uma ação libertadora da opressão social e dialógica (GASPARELLO, 2013). Freire reconheceu na sociedade brasileira o autoritarismo, o racismo e o machismo e passou a considerar a universalidade das opressões (ANDREOLA, 2016). Paulo Freire foi sensível ao reconhecimento das mulheres da sua convivência em sua obra, por meio de prefácios, dedicatórias e agradecimentos, de maneira oral ou escrita. Entretanto há uma invisibilização histórico-social do trabalho das mulheres, tanto do trabalho reprodutivo quanto do trabalho produtivo, e, com isso, o não reconhecimento simbólico e material. Nesse contexto, o objetivo deste artigo é realizar uma pesquisa documental para levantar a presença e a colaboração das companheiras de Freire e avaliar o tipo de reconhecimento delas realizado na vida e na obra do autor. Foi feita a análise das partes introdutórias de 17 produções do autor, e em mais da metade delas (11) menções à primeira esposa, à segunda esposa e às filhas foram identificadas. Apesar das referências, estas não reverberaram mudanças na vida dessas mulheres de modo simbólico ou material. Também não foram localizadas biografias em arquivos públicos ou institutos sobre as esposas ou as filhas, situação que caracteriza a ausência de reconhecimento público do trabalho direto e indireto das mulheres parceiras, cocriadoras, coautoras, colaboradoras. O esforço do reconhecimento se faz no resgate de algumas poucas outras mulheres pesquisadoras, condição comum a outros campos, apontando para uma estrutura e uma organização social invisibilizante da presença e da contribuição das mulheres no mundo.

A práxis pedagógica de José Carlos Mariátegui nas Universidades Populares González Prada: fonte para a Educação Popular latino-americana

PID: S2178-46122022000100302 | Periódico: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Ano: 2022
Autores: Santos
Resumo Este artigo objetiva apresentar e discutir a práxis pedagógica de José Carlos Mariátegui (1894-1930) como uma das fontes da Educação Popular latino-americana. Metodologicamente o estudo caracterizouse como um trabalho qualitativo desenvolvido por meio de técnicas das pesquisas bibliográfica e documental, valendo-se de fontes diretas e indiretas em torno das obras completas do intelectual peruano. O estudo evidenciou a práxis pedagógica de Mariátegui como uma das fontes da Educação Popular latino-americana por meio de suas ações educativas nas Universidades Populares González Prada. Constatou-se que a Pedagogia mariateguiana pode ser uma fonte para a classe popular, na perspectiva de uma Educação para a conscientização política, social e revolucionária. A Educação Popular de Mariátegui apontou um potente processo formativo baseado na relação horizontal entre sujeitos que aprendem por meio das trocas de saberes, considerando as circunstâncias reais em que as pessoas vivem. A práxis pedagógica mariateguiana revelou a importância do projeto de Educação Popular integral considerando a autonomia e a formação da identidade cultural, dinamizando os espaços de encontros e autoformação coletiva voltados para a classe trabalhadora. Uma práxis pedagógica ancorada no diálogo e na reflexão, para gerar contradições de saberes e desenvolver novos conhecimentos, potencializando a construção de espaços formativos, coletivos e de práticas libertadoras, impulsionando uma Educação Popular alternativa aos modelos hegemônicos, crítica do colonialismo, das lógicas eurocentradas e dos processos burocratizadores. Concluiu-se que a Pedagogia Popular mariateguiana contribui para o fortalecimento e a ampliação dos processos de sistematização das fontes históricas da Educação Popular na América Latina.

A questão política da Educação Popular: o que pode um livro 40 anos depois?

PID: S2178-46122022000100303 | Periódico: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Ano: 2022
Autores: Tavares
Resumo Nos percursos dos 40 anos da Educação Popular no Brasil aprendemos que o que fundamenta e dá sentido à universalidade da vida social é o sentimento de pertencimento e o direito à memória. Todos e todas devem ter o direito à memória. E esse é o singelo objetivo do presente artigo, tecido e urdido na dor do luto de pessoas próximas e dos inumeráveis que, no Brasil, já contabilizam mais de 667 mil óbitos, enlutando famílias do Oiapoque ao Chuí. O direito à memória é pensado aqui como um direito que se constitui na contramão de uma sociedade que se nutre de apagamentos e silenciamentos cotidianos, nos quais a memória dos vencidos não serve de dispositivos de contramemória e lembranças das lutas travadas em torno da democracia, da liberdade, dos enfrentamentos das desigualdades sociais e das lutas por justiça no campo e na cidade. E para reconstruir essa relação com a vida, em especial nesse contexto pandêmico, de tantas perdas e lutos, trago à memória um livro seminal, clássico, que há mais de 40 anos vem atravessando com sua potência epistêmica e política o campo da Educação Popular brasileira e latino-americana. Trata-se da obra A questão Política da Educação Popular (BRANDÃO, 1980), cujos impacto e reverberação ainda merecem ser discutidos e ampliados entre nós, principalmente por conta dos desafios que se (re)atualizam no campo da Educação Popular brasileira.

A representação na esfera do teatro segundo Jean-Jacques Rousseau

PID: S2178-46122022000100116 | Periódico: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Ano: 2022
Autores: Façanha Silva
Resumo Objetiva-se, com este artigo, uma explanação sobre a problemática da representação teatral e seus efeitos sobre os espectadores a partir do caráter etnológico e político por meio da crítica realizada pelo filósofo Jean-Jacques Rousseau. Fundamenta-se na obra Carta a D'Alembert sobre os espetáculos, na qual Rousseau apresenta uma crítica à representação social por meio das artes, com ênfase no teatro de classe francês do século XVIII. A Carta nasceu em resposta a um verbete geográfico, Genebra, escrito no tomo VII da Enciclopédia por D’Alembert, em que este exaltava as qualidades do teatro e sugeria inaugurar uma companhia de comediantes na cidade homônima, o que até então era proibido. Como resposta a esse verbete, o genebrino discorre na Carta toda sua crítica e desprezo ao teatro francês do século XVIII e expressa meticulosamente as razões para não fundar uma companhia de teatro na sua República de Genebra, atribuindo aos jogos e aos espetáculos cívicos uma importância pedagógica em oposição aos espetáculos teatrais produzidos na época. Rompe, assim, definitivamente com o Iluminismo e com os homens de letras de sua época. Partindo desse contexto, abordaremos no presente artigo a dualidade entre ser e parecer que se evidencia como um jogo de oposição entre uma sociedade corrompida pelos espetáculos teatrais (e outras formas de representação) e outra livre dos efeitos corruptores da cena teatral. Nessa última, o único espetáculo possível é aquele em que o próprio espectador é o espetáculo: as festas cívicas. Para Rousseau, a festa proporciona um espetáculo sem representação, pois tudo gira em torno da naturalidade, o contato com o outro surge na espontaneidade, nada pode ser mostrado, decorado e imposto. O luxo confunde-se com o brilho do olhar coletivo da festa.

Abordagem filosófica da política/gestão da formação de professores na perspectiva substantiva/ético-política

PID: S2178-46122022000100115 | Periódico: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Ano: 2022
Autores: Carvalho Lagares Carvalho
Resumo O texto aborda a política/gestão da formação de professores no Brasil na perspectiva da filosofia da práxis. Resulta de pesquisa sobre a formação de professores na tensão entre as dimensões econômico-corporativa e ético-política. A pesquisa em pauta investigou a política/gestão da formação de professores na perspectiva da filosofia da práxis, tendo a educação como arena de luta política. Tendo em vista a predominância da lógica capitalista que investe intensamente sobre a perspectiva social que vislumbra as possibilidades de humanização e desalienação, buscamos explicitar a viabilidade de efetivação da dimensão ético-política no processo de produção e reprodução da sociedade incluindo a escola, a formação de professores e o trabalho docente. No desenvolvimento do estudo indagamos, como ponto de partida, as possibilidades de uma educação ético-política/democrático-popular que extrapole a reprodução da ideologia econômico-corporativa/mercantil e possa ser vislumbrada no processo de formação de professores no Brasil. Partindo de tal indagação, o estudo tem por objetivo explicitar alguns dos fundamentos da política/gestão da formação dos professores na dimensão substantiva/ético-política. O estudo utiliza-se das pesquisas bibliográfica e empírico-documental e ancora-se na abordagem materialista e crítico-dialética para interpelar a existência teórico-prática da ótica formativa emancipadora fundamentada nos princípios ético-políticos e da filosofia da práxis e seus impactos para o trabalho docente. A pesquisa revelou que a formação de professores no Brasil, tendencialmente, relegou a segundo plano a dimensão político-cultural, no entanto, a instrumentalização da formação, predominante no país, não ocorreu de forma linear e sem a disputa por uma formação de professores em um prisma substantivo, libertário e emancipador, expresso no trabalho docente em espaço formativo.

As opiniões reputadas (endoxa) no contexto atual

PID: S2178-46122022000100118 | Periódico: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Ano: 2022
Autores: Sangalli
Resumo A proposta deste ensaio é somente indicar a presença e a possível contribuição da noção de endoxa de Aristóteles no debate ético-político contemporâneo. A definição de endoxa dada no início dos Tópicos permite compreender a natureza, a função e o seu valor na argumentação dialética, que é diferente da demonstração científica do silogismo teórico, e identificar as diferenças entre as meras opiniões (doxa) e as opiniões reputadas (endoxa). As endoxa funcionam como um primeiro princípio da demonstração e têm valor elevado de verdade, ainda que não sejam sempre verdadeiras, e se distinguem dos paradoxos. A concepção de endoxa em Tópicos I parece ser suficiente para perceber que Aristóteles fornece subsídios conceituais para melhor compreendermos os tipos de discurso e argumentos que podem contribuir para melhor orientar o debate e a tomada de decisão ético-política também em nosso contexto atual.

As sombras que a invisibilidade da pandemia projeta: quais alternativas para o porvir?

PID: S2178-46122022000100106 | Periódico: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Ano: 2022
Autores: Zuin Gomes
Resumo Há meses a população mundial enfrenta a pandemia causada pelo COVID-19, uma situação ímpar e talvez a mais desafiadora que rememoramos. Para a maioria dos sujeitos, essa crise junta-se às demais emergências e reforça injustiças, violências, discriminações e sofrimento, uma vez que são considerados invisíveis e sobrevivem em espaços desprovidos de higiene, saúde, educação e segurança e repletos de outras manifestações de renúncia e impossibilidade. Considerando que a própria estrutura social é a responsável por chegarmos onde estamos, precisamos nos contrapor à inconsciência de uma realidade que se mostra normativa e imutável, apreendendo-a em perspectivas críticas e transformadoras. Dessa forma, este texto parte da seguinte problematização: quais alternativas poderemos vislumbrar no pós-pandemia, visto que as desigualdades e as injustiças aumentam? Delineamos prognósticos do tempo presente a partir do diálogo entre Adorno e Horkheimer (2006) e Santos (2007), utilizando como categorias de análise a racionalidade instrumental, o pensamento abissal, o pensamento pós-abissal e a educação emancipatória. A racionalidade tornou-se o cânon da sociedade esclarecida, fundamentando as estruturas e as relações sociais em uma percepção universal, totalitária e homogênea que despreza e invisibiliza as diferenças. Defendemos uma educação para a contestação, a inquietude e a resistência que desvele e problematize as linhas abissais a fim de pensarmos e agirmos para além delas, vislumbrando alternativas, novas práticas e perspectivas solidárias e sustentáveis, pois quaisquer ideais de progresso e desenvolvimento serão ilusórios enquanto persistirem a invisibilidade “do outro lado da linha”. A reflexão da realidade, em suas estruturas históricas e sociais, efetiva-se como possibilidade de novos caminhos para a compreensão dos obstáculos e potencialidades emancipatórias.

Atualidade do pensamento freiriano em tempos de autoritarismo: retomando suas Primeiras Palavras

PID: S2178-46122022000100404 | Periódico: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Ano: 2022
Autores: Ferreira Cavaleiro
Resumo O presente ensaio retoma o texto introdutório da Pedagogia do Oprimido intitulado Primeiras Palavras. Um texto breve, apresentando seu clássico livro escrito a partir do exílio, em sete páginas, logo após o rico prefácio do professor Ernani Maria Fiori, ao qual Freire não poupou elogios. O contexto inspirador deste ensaio é o atual momento político do Brasil, em que Freire é atacado fortemente por sujeitos da sociedade civil juntamente com sujeitos de categorias políticas, na campanha por uma “escola sem partido” que luta “contra o abuso da liberdade de ensinar”. Paulo Freire continua incomodando mais pelo que se pretende desqualificar do seu pensamento do que necessariamente pelo que se compreende de sua obra. Por isso, ao retomar suas Primeiras Palavras, pretende-se explorar alguns dos principais conceitos trabalhados por ele para dialogar com todo e qualquer leitor, independentemente do espaço-tempo em que se encontre, apesar da inevitável datação de sua obra naquele momento. Radicalidade e revolução, contrapostos a sectarismo e reacionarismo, são conceitos trabalhados de forma esclarecedora para entendermos elementos contemporâneos da barbárie que continua pairando no horizonte, mesmo após décadas do término da ditadura no Brasil e do nazismo na Alemanha. Autoritarismo, dogmatismo e recrudescimento do conservadorismo na política atual demonstram que, mais do que nunca, é salutar retomar o pensamento crítico e divergente para nos emanciparmos e nos libertarmos do que tenta predominar sempre à luz dessas correntes: a usurpação do protagonismo dos existentes na construção da história humana.

Ação dialógica para formação crítica: pedagogias cidadãs e resistências democráticas ao eurocentrismo

PID: S2178-46122022000100300 | Periódico: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Ano: 2022
Autores: Mazuroski Jr Calgaro
Resumo Este artigo propõe uma discussão a respeito do pensamento ocidental eurocêntrico como o principal irradiador do conhecimento universal disseminado em escolas e espaços educacionais. Observa-se que o eurocentrismo constitui um projeto hegemônico que mantém os países tradicionalmente designados como “em desenvolvimento” presos a certas formas de pensar e fazer que convergem para um sistema capitalista predatório, direcionador de práticas pedagógicas que se distanciam do que constituiria o maior interesse da Educação nesses países: a formação crítica de cidadãos. Nesse sentido, propõe-se a ação dialógica de Paulo Freire como uma forma de combate à colonialização cultural, política e econômica. O artigo é constituído por uma revisão inicial sobre o imperativo eurocêntrico e o estabelecimento de um conhecimento hegemônico, engendrado não apenas nos conteúdos que são disseminados no modelo educacional vigente e nos currículos, mas também nas formas de aprender a pensar e nas maneiras de construção de novos conhecimentos. Propõe-se que a universalidade do conhecimento deveria ser, na verdade, uma pluriversalidade, dando conta de diferenças e riquezas regionais distribuídas pelas diversas nações não europeias. Em seguida, apresenta-se a decolonialização do conhecimento como forma de resistência à hegemonia e componente essencial para a construção de sociedades democráticas, diminuindo desigualdades e atenuando o poder colonizador. Por fim, apresentase o conceito da ação dialógica na perspectiva de Paulo Freire, expondo os pressupostos e as ações que compõem o diálogo como forma de interação e colaboração para a libertação. Conclui-se, com a discussão realizada, que a decolonialização possui, no mínimo, uma vertente cultural e uma epistêmica, alvos evidentes das práticas pedagógicas e educacionais que buscam contribuir para a formação crítica e democrática de cidadãos bem como para a formação da identidade latino-americana independente.

Cognizioni corporee: l’olfatto e l’esperienza del sapore

PID: S2178-46122022000100121 | Periódico: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Ano: 2022
Autores: Cavalieri
Resumo Há um longo tempo considerado um dos menores e mais fracos sentidos nos animais humanos, o olfato na realidade assume na nossa modalidade de existência uma função bem menos marginal, antes central, nos comportamentos socioemocionais, na evocação das memórias e na comunicação não verbal, não sendo o último na nossa vida quotidiana, especialmente pelo seu papel na percepção do sabor dos alimentos. Graças aos progressos que a pesquisa alcançou nas últimas décadas, a ponto de justificar, entre outras coisas, o nascimento de uma nova área científica chamada neurogastronomia, o olfato, especialmente o retronasal, configura-se como uma das nossas habilidades mais espécie-específicas, à qual devemos, inclusive, uma das maiores alegrias da vida: o prazer consciente de saborear e apreciar alimentos e bebidas. Partindo desse tema, o objetivo deste ensaio é, portanto, mostrar em que medida uma experiência radicada no corpo, como a percepção do sabor, remonta às características espécie-específicas desenvolvidas pelo olfato humano no curso da evolução, configurando-se como uma forma complexa de cognição encarnada, cujas possibilidades dependem tanto da estrutura biológica quanto do uso efetivo que fazemos desse extraordinário dispositivo corpóreo.

Comunitarismo: uma abordagem teórica e um estudo de caso

PID: S2178-46122022000100119 | Periódico: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Ano: 2022
Autores: Bresolin Sanches
Resumo Neste breve artigo voltamos nosso olhar ao debate filosófico entre comunitaristas e liberalistas. Escolhemos o filósofo norte-americano Michael J. Sandel (1953-) como principal voz dentro do comunitarismo por conta de poucos pensadores se ligarem abertamente a essa escola filosófica. Muitos sequer reconhecem sua validade como escola. Sandel é exceção. Obviamente, não reduzimos o debate comunitarista a Sandel, contudo sua voz reverberará mais alta ao longo deste artigo. Dada a pouca divulgação das teses comunitaristas, especialmente dentro do debate brasileiro, optamos por iniciar nossa obra traçando as raízes históricas e conceituais do pensamento comunitarista, suas principais críticas ao liberalismo, assim como suas fragilidades. Nisso se caracteriza a primeira parte de nosso texto. Na segunda parte voltamos nosso olhar para a realidade próxima, assim, analisando casos e dilemas específicos das comunidades pomeranas na zona sul do Rio Grande do Sul, buscamos abordá-los sob a ótica comunitarista. Fazemos isso com o intuito de perceber de que modo essa vertente filosófica pode auxiliar-nos. Na terceira parte damos voz ao pensamento liberalista, permitindo que este não só rebata os argumentos comunitaristas como também traga soluções aos problemas das comunidades estudadas. Por fim, na quarta parte, trazemos nossas considerações finais sobre os argumentos expostos, assim como nossa percepção acerca do embate “comunitarismo vs liberalismo”. Nesse ponto expomos nossa visão de que, apesar de ser bem-sucedido em levantar críticas pertinentes ao pensamento liberal, o comunitarismo falha em apresentar soluções aos problemas por ele levantados (ao menos soluções atraentes e definitivas a esses problemas), assim como em levantar críticas que não possam (ao menos em tese) ser sanadas dentro do próprio pensamento liberalista.

Diversidade, democracia e justiça: as minorias político-culturais e a Educação Básica pública

PID: S2178-46122022000100120 | Periódico: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Ano: 2022
Autores: Danner Dorrico Danner
Resumo O texto aborda a correlação de democracia, diversidade e educação a partir da condição própria às minorias político-culturais, que são efetivamente construídas desde a tríade racismo biológico, fundamentalismo religioso e eurocentrismo-colonialismo, revivida política e culturalmente pela ascensão do fascismo como eixo estruturante das instituições e da vida sociopolítica brasileira hodierna enquanto consequência e estágio último de nossa modernização conservadora. Nosso problema de investigação pode ser definido com a seguinte pergunta: como é possível desconstruir a tríade racismo, fundamentalismo e colonialismo, base de nossa modernização conservadora, a partir da condição, da história e dos valores próprios às minorias político-culturais? Nossa resposta, construída a partir de reflexões fundadas na teoria social e no pensamento negro, indígena e queer, é dupla: minorias político-culturais permitem a pluralização dos sujeitos, das histórias, das experiências, das práticas e dos valores constitutivos de nossa sociedade, desnaturalizando e politizando sua evolução e suas condições presentes; e é necessário que essa consolidação pública, política e cultural das e pelas minorias possa ser institucionalizada em termos de formulação de currículos, conteúdos, práticas e valores próprios à Educação Básica pública, uma vez que a militância social por elas assumida depende, para sua efetividade, tanto dessa institucionalização a ser assumida pela escola básica pública quanto, a partir daqui, da dinamização de processos educativos que, baseados exatamente na condição e no sentido dessas minorias político-culturais dentro do amplo processo de modernização conservadora brasileira, atinjam nossa coletividade como um todo, moldando uma nova cultura democrática, pluralista, equalizada e reflexiva.

Do cristão moralista ao budista niilista: reflexões sobre a moral contemporânea a partir da Genealogia da Moral de Nietzsche

PID: S2178-46122022000100122 | Periódico: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Ano: 2022
Autores: Portugal Beccari
Resumo Este artigo visa refletir sobre a moral contemporânea a partir da ética de Nietzsche, tendo como foco principal a sua Genealogia da Moral e, como contraponto a ser problematizado, o livro The weariness of the self, do sociólogo francês Alain Ehrenberg. De início, para analisar alguns tipos morais relevantes na primeira obra, revisamos o itinerário genealógico entre a “vontade de verdade” cristã e o niilismo budista (ou “ceticismo em matéria de moral”), destacando ainda alguns comentários de Nietzsche em torno de Kant e o utilitarismo inglês. A autocrítica kantiana do conhecimento, afinal, manteve intacta a valoração negativa (cristã) da vida ao não questionar o valor em si da verdade. Por sua vez, ao arrogar o Bem definitivo à felicidade, o utilitarismo inglês tornou a compaixão cristã compatível com o “ceticismo em matéria de moral”. A partir disso, argumentamos que a nova figura moralmente exemplar – não sendo mais a do cristão, alvo principal da genealogia nietzschiana – é a do budista, uma vez que este adere integralmente ao niilismo. Em um segundo momento deste estudo, problematizamos a tese de Ehrenberg, segundo a qual a figura do “indivíduo soberano” teria, hoje, se tornado hegemônica sob a égide da categoria da depressão. Não sendo concebível, sob o prisma nietzschiano, tal “indivíduo soberano” deprimido descrito por Ehrenberg, observamos, por fim, que é o niilismo que efetivamente se prolifera hoje: a partir da ilusão de superação total da moralidade, a moral contemporânea cultiva a fraqueza e o cansaço fisiológico por meio de um programa de combate irrestrito ao sofrimento.

Educação do campo como movimento educacional e modalidade educativa: notas a partir de Paulo Freire

PID: S2178-46122022000100407 | Periódico: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Ano: 2022
Autores: Medeiros Fortunato Araújo
Resumo Este ensaio ergue reflexões sobre a Educação do Campo tendo como arcabouço teórico principal o pensamento de Paulo Freire. Textualiza considerações que demarcam a Educação do Campo, nas dimensões histórica e conceitual, no Brasil a partir de dois enfoques, quais sejam: (i) como movimento educacional (o Movimento de Educação do Campo), protagonizado por diferentes organizações e movimentos sociais do campo; e (ii) como modalidade educativa, com características específicas, a exemplo de uma Educação, a nível de Estado, construída com a participação ativa dos sujeitos do campo. Entende-se que, de maneira geral, o pensamento de Paulo Freire se fez como parte constituinte de sua materialização. No texto, discorre-se sobre o diálogo, a conscientização, a contextualização e a formação humana como princípios da obra freiriana que inspiram o plano teórico-prático a Educação do Campo, seja na escola ou fora dela.

Educação e atualidade brasileira: o concurso de Paulo Freire na Universidade do Recife

PID: S2178-46122022000100304 | Periódico: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Ano: 2022
Autores: Beltrao
Resumo “Educação e Atualidade Brasileira”, que conhecemos como um dos livros de Paulo Freire, é, em sua origem, a tese de concurso que ele escreveu quando participou da disputa pela Cátedra de História e Filosofia da Educação, em 1960, na Universidade do Recife (UR), atual Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Freire dizia sobre o concurso que, apesar de ter perdido a cátedra, ganhou a vida! Que ele ganhou a vida todos sabemos: um dos autores mais citados do mundo, que recebeu mais de quarenta títulos Honoris Causa, Patrono da Educação Brasileira etc. Mas a forma como ele perdeu a cátedra é um assunto pouco estudado na História da Educação Popular, e é justamente sobre esse acontecimento que nos propomos a tratar neste artigo. Para realizar este estudo, utilizamos periódicos publicados na Universidade do Recife e em jornais da época bem como, sobretudo, as teses de concursos dos próprios candidatos: “Educação e Atualidade Brasileira”, defendida por Paulo Freire, e “Pedagogia do Tempo e da História”, defendida por Maria do Carmo Tavares de Miranda. Tentamos entender esses documentos para além do que está escrito, estando atentos às configurações de poder, pois, como orienta Foucault (2007), poder é aquilo que se quer, que se deseja, que se constrói por meio de relações, que exclui e inclui, que está relacionado ao saber e que não se explica só aspectos econômicos e de classe. Concluímos que existia uma tensão entre aqueles que defendiam a escola privada, em sua maioria confessional, e aqueles que defendiam a escola pública e laica (e o destino das verbas públicas). Esse fato provavelmente reverberou no resultado do concurso.

Educação para a humanização na perspectiva da ética da alteridade

PID: S2178-46122022000100111 | Periódico: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Ano: 2022
Autores: Tolovi Alves Figueiredo
Resumo Uma das questões que desafia educadores e educadoras envolvidos(as) nos processos de ensino e aprendizagem consiste no papel da Educação do ponto de vista da vida em sociedade. E uma resposta aceita de forma genérica aponta para a dimensão da humanização. Questiona-se: Até que ponto a relação educativa possui a capacidade e a potencialidade de humanizar? Como relacionar a construção do conhecimento à perspectiva de valoração que promova a sociabilidade humana? A partir desses questionamentos, este texto objetiva refletir sobre a Educação na perspectiva da ética da alteridade como uma das alternativas viáveis para o processo de humanização. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, com base nas obras de Martin Buber (1974; 1987) e Paulo Freire (1979; 1983) como principais referências teóricas, pensando o papel da Educação no enfrentamento desse problema. A partir das leituras, compreendemos o conceito de alteridade, que aponta para o caminho da desmitologização da realidade por meio dessa mesma dimensão, que pode ser compreendida no campo da Educação. Concluímos que somente na perspectiva da ética da alteridade, essa relação pode ser dialógica, e apenas assim, esse processo pode ser transformador e libertador, postura educativa que potencializa relações de solidariedade e, consequentemente, humaniza em seu significado mais pleno de ser com o(a) outro(a).

Educação popular como proposta políticopedagógica para a edução de jovens e adultos em Macapá/AP

PID: S2178-46122022000100308 | Periódico: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Ano: 2022
Autores: Custódio Guedes
Resumo O presente artigo tem por objetivo analisar a proposta política e pedagógica da Escola Estadual de Educação Popular Professor Paulo Freire (EEEPPPF), localizada na cidade de Macapá, estado do Amapá, à luz de indicadores de uma Educação Popular na escola pública, intencionando com isso um confronto entre teoria e prática para se verificar em que medida a proposta implementada afina-se ou distancia-se do modelo educacional de Educação Popular, numa tentativa de apontar avanços, limites e possibilidades. Trata-se de uma pesquisa qualitativa (pesquisa-ação) que se utilizou da pesquisa bibliográfica e documental, da observação direta, do questionário e da entrevista semiestruturada como forma de investigação. A metodologia adotada priorizou o contato direto com os diversos segmentos que constituem a comunidade escolar, como diretor, coordenação pedagógica, professores, funcionários e alunos. Os resultados apontam a implantação da EEEPPPF em Macapá/ AP foi um processo-piloto inovador. Sua criação, contudo, careceu em grande parte de uma ação política mais rigorosa pela Secretaria de Estado da Educação do Amapá (SEED) para efetivá-la com o êxito, pois na época muitos profissionais da SEED desconheciam a modalidade da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Na atualidade um agravante para limitação da referida proposta pedagógica é o desconhecimento de grande parte de seu quadro de pessoal, especialmente no que se refere ao setor técnicopedagógico, da filosofia/teoria/prática da Educação Popular no âmbito da escola pública e, ainda, dos preceitos da Educação Libertadora. Contudo, há méritos para alguns poucos e incansáveis educadores da escola que, por meio de sua prática pedagógica, lutam pela efetivação e materialização de uma Educação de qualidade baseada nos ensinamentos de Paulo Freire.

Educação popular e educação de pessoas jovens e adultas entre tempos de enlaces e travessias

PID: S2178-46122022000100309 | Periódico: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Ano: 2022
Autores: Alvarenga Vieira
Resumo Este artigo tem como objetivo abordar os entrelaçamentos entre o Grupo de Trabalho de Educação Popular (GT 06) e o Grupo de Trabalho de Educação de Pessoas Jovens e Adultas (GT 18), acentuando as condições que fizeram com que pesquisadores dedicados aos estudos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) postulassem um lugar de debates para discussões de pesquisas de interesses específicos na estrutura organizativa da Anped. O artigo ancora-se na teoria crítica formulada por Walter Benjamin, em especial o conceito materialista-dialético de história escovada a “contrapelo”, de modo a ressaltar as travessias e as passagens que repercutiram em aparentes dissonâncias em relação ao campo da Educação Popular. O artigo lança mão de análise bibliográfica e documental, tendo em vista abordar os 40 anos da criação do GT de Educação Popular, incluindo os acontecimentos que principiam o reposicionamento de pesquisadores para a definição de um campo de pesquisas sobre Educação de Jovens e Adultos, por meio do GT 18. Argumenta-se que, no contexto nacional, as condições produzidas pela transição democrática contribuíram para uma conjuntura favorável às travessias para se pensarem epistemologias e ressignificações de experiências tanto na Educação Popular quanto na Educação de Jovens e Adultos, na perspectiva escolar. Além de capturar dissonâncias que levaram a constituir esse grupo em suas especificidades, o texto mostra as interfaces entre esses grupos no campo acadêmico, por meio dos enfrentamentos contra ações impostas pelo desmonte da democracia e pelo cerco criminoso aos povos originários, aos povos quilombolas e aos trabalhadores do campo e da cidade. O texto indica que a criação do GT 18 não significou rupturas com princípios que orientam a EJA na perspectiva da Educação Popular, considerando que a modalidade traz consigo a marca social dos oprimidos, cujas histórias estão abertas a escritas rebeldes.

Educação popular e o campo das drogas: enfoques da literatura

PID: S2178-46122022000100311 | Periódico: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Ano: 2022
Autores: Silva Cruz
Resumo Este estudo resulta de uma pesquisa de Mestrado em Educação (SILVA, 2020) e tem por objetivo apresentar como a temática das drogas lícitas e ilícitas vem sendo abordada na literatura do campo da Educação Popular. O texto organiza-se em quatro seções que compreendem, respectivamente, aspectos introdutórios; procedimentos metodológicos; resultados e discussão; considerações finais. Metodologicamente foi necessário realizar uma revisão narrativa da literatura, atualizada para a elaboração deste trabalho. O recorte de pesquisa compreendeu os últimos nove anos (2014-2022). Para a coleta dos dados foi utilizado o Portal de Periódicos da CAPES. Alguns dos resultados são, por exemplo: 1) o fenômeno das drogas é compreendido a partir de uma perspectiva crítica, pois se busca problematizar as contradições que fazem parte do modo como essa temática vem sendo abordada na sociedade, e a própria política sobre drogas vai sendo questionada e criticada, além das abordagens de prevenção que são orientadas por ela; 2) a escolha pela Educação Popular como orientadora das ações de educação sobre drogas tem a ver com o entendimento de que essa concepção educativa representa uma alternativa contrária às abordagens hegemônicas, essencialmente repressoras; 3) as ações que objetivam discutir a questão das drogas de maneira educativa utilizam diferentes ferramentas didáticas e metodológicas, com todas tendo em comum a opção pela Educação Popular como concepção teórica orientadora de suas abordagens. Dentre as conclusões, afirma se que ao buscar o referencial da Educação Popular objetiva-se educar sobre as drogas, mas também sobre a realidade por meio da reflexão e da problematização dos fatores sócio-históricos, econômicos e políticos.

Educação popular na Pan-Amazônia: silêncios e lutas, história e atualidade

PID: S2178-46122022000100305 | Periódico: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Ano: 2022
Autores: Mota Neto
Resumo Busca-se realizar reflexões e análises sobre a Educação Popular na Pan-Amazônia, seus silêncios, suas lutas, sua história e sua atualidade. O artigo apresenta alguns resultados de pesquisa sobre experiências educacionais populares nessa região, tendo como objeto de estudo as especificidades da Educação Popular amazônica no contexto latinoamericano, além das reflexões próprias do autor como pesquisador e militante da Educação Popular na região. Metodologicamente, trata-se de um texto com caráter ensaístico, que parte de estudos bibliográficos e documentais sobre o tema. Apresentam-se alguns registros significativos de experiências históricas e atuais de Educação Popular nas Amazônias e, em seguida, constrói-se uma reflexão sobre os ensinamentos que emergem desses múltiplos processos educacionais populares. Conclui-se que as experiências aqui apontadas têm sido fundamentais para manter vivo o legado da Educação Popular, reiventando-o a partir da Pan-Amazônia, seus povos, suas culturas, seus territórios e suas lutas, apesar de carecer de espaço de articulação mais efetivo entre educadoras e educadores populares que atuam na região.
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