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a pergunta criança: dissonâncias entre a ordem explicativa e a afirmação vital

PID: S1984-59872024000100104 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2024
Autores: visaguirre Quiroz
resumo Este trabalho surge de um diálogo interdisciplinar entre duas teses de doutorado, uma em Educação e outra em Filosofia, que compartilham um interesse sobre as formas emancipatórias e democráticas de pensar com os outros nas escolas públicas latino-americanas. A partir de uma perspectiva crítica própria da filosofia da educação latino-americana, realizamos uma análise epistemológica das diferentes formas de habitar a pergunta dentro de uma prática de filosofia com crianças. Temos como objeto de estudo uma experiência específica de comunidade de investigação realizada em 2022 no sul de Mendoza, Argentina. Entrelaçamos ferramentas teóricas de Walter Kohan, Paulo Freire e Jacques Rancière com a intenção de tornar visíveis diversas formas de habitar a produção de saberes dentro dessa comunidade. Propomos duas problemáticas: a ordem explicativa/embrutecedora de Rancière e a pergunta como afirmação vital de Kohan e Freire. Trabalhamos em uma série de dissonâncias em torno da circulação e da potência da pergunta na escola e na educação pública. Por fim, propomos uma síntese dessas questões na postulação de uma "pergunta criança", como potência epistêmica emancipatória que supõe uma intimidade com o outro/a, com as coisas e com o mundo, aberta a partir de uma igualdade política e intelectual radical.

a política da skholé: repensando o caráter político da educação escolar a partir de jacques rancière

PID: S1984-59872024000100121 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2024
Autores: vargas-pellicer masschelein simons
resumo Neste artigo, nosso objetivo é mergulhar no caráter político da educação escolar a partir de uma discussão pedagógica-filosófica. Buscamos repensar as noções de política e skholé, nos distanciando das abordagens mais comuns da política em relação à educação escolar: não apenas evitando, por um lado, a redução da política a uma questão de dinâmicas de poder, uma arena para discutir e resolver problemas sociais ou uma questão de governamentalidade; mas também evitando a redução da escola a um instrumento a favor delas. Acreditamos que uma leitura meticulosa do trabalho político do filósofo francês Jacques Rancière oferece um caminho para articular as relações entre política e educação escolar sem cair nessas reduções. Sugerimos que, a partir dessa abordagem rancèriana, se torna possível explorar o aspecto transformador e emancipatório da educação escolar sem negar seu caráter político e sem reduzi-la a um mero instrumento de política governamental. Portanto, depois de revisar o que acreditamos serem algumas noções-chave do conceito de política de Rancière, propomos discutir o caráter político da educação escolar abordando dois aspectos pedagógicos cruciais: a formalização da skholé (ou seja, a maneira pela qual a skholé toma forma) e a formação escolar (o tipo de formação possibilitada pela educação escolar). Nosso objetivo é contribuir para os debates pedagógicos sobre a educação escolar, possibilitando um diálogo com uma leitura de Ranciére que vá além de O mestre ignorante.

atitudes dos professores face à filosofia com e para crianças

PID: S1984-59872024000100115 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2024
Autores: vila raposo-rivas
resumo O programa de filosofia com e para crianças "FiloHilo” surgiu da possibilidade de transferir do Practicum para a sala de aula processos de inovação e renovação pedagógica baseados no diálogo e na prática filosófica. São muitos os estudos que nos permitem afirmar que a filosofia para crianças se tornou uma atividade eficaz, possível e necessária para todas as idades, uma vez que responde às necessidades do ser humano: questionar, interrogar e duvidar. Mas esses processos estabelecem-se se houver uma atitude de abertura e disponibilidade por parte dos professores: esta primeira condição, a atitude de abertura e disponibilidade, é o foco deste artigo. Em sua gênese, estiveram questões-chave: como os professores percebem essas práticas, se as conhecem, se já as utilizaram, se estão predispostos à sua implementação, e se estão preparados para desenvolver um pensamento ético, reflexivo, solidário e crítico na sala de aula?? Com o objetivo de responder a essas questões, foi elaborado um questionário composto por 31 itens e 4 dimensões, que apresenta elevados níveis de fiabilidade (α=0,949). Em seguida, foi enviado a todas as escolas galegas e respondido por 167 professores. Os resultados mostram uma elevada predisposição para a prática filosófica, principalmente porque apoia o raciocínio crítico e a consciencialização. Por fim, concluiu apelando a uma abordagem diferente do ensino da filosofia, tendo em conta as necessidades e interesses dos professores, e introduzindo a necessidade de formação no domínio da prática filosófica, entendendo a filosofia como algo que se pratica e que pode transformar a vida dos alunos: autoconhecimento e autorrealização.

colonialidade da educação infantil: análise crítica das práticas pedagógicas em uma instituição em contexto periférico

PID: S1984-59872024000100209 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2024
Autores: silva
resumo Busca-se neste artigo problematizar a manifestação da colonialidade nas práticas pedagógicas de uma instituição de educação infantil situada em contexto periférico a partir da percepção de professoras e famílias. A argumentação e análise teórica adotada partem dos estudos da infância e teoria decolonial/contracolonial. Serão analisadas as conversas estabelecidas com adultos participantes da pesquisa, sendo quatro entrevistas realizadas com professoras e mães de crianças de uma instituição de educação infantil de contexto periférico e negro, localizada no município de Betim - MG. A partir dos sujeitos da pesquisa são apresentadas denúncias que configuram o que chamamos de colonialidade da educação infantil. A alimentação das crianças foi destacada, pelas professoras e mães, como um dos momentos da rotina pedagógica que gerava grande incômodo devido a práticas de violência com as crianças. Esta violência compõe o que se denomina como adultocentrismo, que existe para posicionar as crianças às margens do projeto civilizatório ocidental, sendo que nestes termos o adultocentrismo pode ser também compreendido como a peste branca produzida pela matriz eurocêntrica e colonial. Atuar contra a colonialidade e contra o adultocentrismo é defender uma experiência concreta e histórica para a educação infantil e não apenas teórica. Cada vez mais é preciso avançar na formação das professoras de forma conscientizadora quanto a emergência da contracolonização da educação infantil em articulação com o projeto de sociedade emancipatória para todos e todas.

conceitualizando a pedagogia do pensamento crítico na formação de professores

PID: S1984-59872024000100111 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2024
Autores: moodley chetty
resumo As instituições de ensino superior desempenham um papel fundamental na criação e distribuição do conhecimento. A formação de professores está na linha de frente desse trabalho. O papel da formação de professores é significativo no que diz respeito à mobilização do conhecimento dos professores para moldar e informar as formas de estar e atuar no mundo. Nos últimos anos, o ensino superior sofreu uma transformação considerável. Na África do Sul, há um apelo para uma transformação real das práticas pedagógicas, a fim de abordar a inclusão e a emancipação acadêmica, socioeconômica e cultural. Sendo um direito humano que dá voz aos estudantes, o pensamento crítico é uma condição essencial para a adoção de práticas pedagógicas relevantes e justas. O pensamento crítico é um conceito rico e um atributo de consciência necessário em todas as atividades humanas. Ele é exercido através do raciocínio sólido e do diálogo. O pensamento crítico está também associado à compreensão e ao envolvimento em questões profundas relacionadas a domínios socioculturais e políticos de poder e justiça. No entanto, mobilizar e possibilitar a pedagogia do pensamento crítico na educação é complexo e contraditório por natureza. É conveniente, num primeiro momento, conceitualizar o pensamento crítico. O objetivo deste artigo, parte de um estudo maior, é conceitualizar a pedagogia do pensamento crítico para abordar: de que forma a pedagogia do pensamento crítico está envolvida na formação de professores na África do Sul? Então, este artigo pretende responder a questão: o que é pensamento crítico e pedagogia do pensamento crítico? Metodologicamente, foi usado um desenho documental educacional-filosófico-psicossocial interdisciplinar baseado em uma seleção dos principais proponentes do pensamento crítico. Além disso, é apresentada uma conceitualização da pedagogia do pensamento crítico baseada na teoria crítica, especialmente a de Freire e Foucault. Este artigo tem como objetivo destacar a necessidade de mobilização do pensamento crítico por meio da conceitualização da pedagogia do pensamento crítico na formação de professores, necessária para pensar novos modos de ensinar nos dias de hoje.

confrontando o adultocentrismo: intervenções criancistas e decoloniais em filosofias e instituições educativas

PID: S1984-59872024000100200 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2024
Autores: biswas rollo
resumo “Confrontando o Adultocentrismo: Intervenções Criancistas e Decoloniais em Filosofias e Instituições Educacionais” explora o potencial transformador do criancismo (childism) como uma orientação para criticar e transformar o adultismo e a colonialidade na educação. Editado por Tanu Biswas e Toby Rollo, o dossiê especial baseia-se nas discussões do Childism Institute para destacar as crianças como agentes epistêmicos e desafiar a marginalização estrutural da infância nas esferas sociopolíticas e filosóficas. O criancismo desconstrói e critica vieses adultocêntricos, propondo uma mudança profunda no que diz respeito ao reconhecimento da interdependência da infância e da idade adulta e das perspectivas relacionais como vitais para a justiça intergeracional. Os artigos investigam como sistemas educacionais tradicionais (eurocêntricos) reforçam hierarquias adultocêntricas, considerando as crianças como seres incompletos em um estágio preparatório chamado “infância”. Eles defendem a reimaginação dos sistemas educacionais com relações pedagógicas que incluam todas as idades, nas quais as crianças participem como contribuidoras ativas. Entre os principais temas estão a educação democrática e a libertação como um projeto intergeneracional, as críticas decoloniais às filosofias da infância subjacentes às práticas educacionais e o papel das crianças como agentes epistêmicos e ativistas. Algumas contribuições defendem o desmantelamento das estruturas adultistas e a integração das crianças e da infância em estruturas democráticas e libertárias. Outros vinculam explicitamente o adultismo à colonialidade, mostrando como os projetos coloniais eurocêntricos infantilizaram os povos colonizados. Os artigos estendem o alcance do criancismo para abordar os legados históricos da opressão racializada e epistêmica, incluindo explorações de imagens racializadas da infância. Coletivamente, o dossiê apresenta o criancismo como uma intervenção oportuna para remodelar a educação, a filosofia e a política, abrangendo as contribuições atuais das crianças e promovendo a igualdade entre as gerações.

devir-violão: um desafio (à filosofia e à educação) da infância

PID: S1984-59872024000100113 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2024
Autores: barreira paiva
resumo Este artigo busca ressoar um percurso de sensibilização vivido por um professor que descobre a força desestabilizadora e inspiradora da infância das crianças durante as aulas de filosofia. Ao investigar a (im)possibilidade das crianças fazerem filosofia, vemos semelhanças com a experiência de tocar violão, o qual transformamos em um personagem conceitual para nos ajudar a (re)pensar o ensino de filosofia para crianças. Ensaiamos, neste texto, formas de explorar os sentidos que se desprendem de experiências vividas entre a infância e a filosofia a partir de encontros vividos em salas de aula, para encontrarmos/criarmos possibilidades de alimentarmos essa investigação ao invés de pôr fim a ela. Um exercício que nos possibilita encontrar/construir formas mais acolhedoras, sensíveis e inventivas de fazer, viver e habitar a educação entre a infância e a filosofia na escola. Deparamo-nos, assim, com ideia (conceito-corpo) de devir-violão, a qual trabalhamos a partir dos encontros com Gilles Deleuze e Jean-Luc Nancy. Vida. É disso que se trata este texto; e pesquisa, pois, no que diz respeito à educação, essas duas coisas se confundem, acontecem juntas, co-partilham percursos, são inseparáveis; do mesmo modo que não podemos separar o som do arrepio que causam em nossa pele. O texto é, antes de tudo, um convite a nos colocarmos à escuta daquilo que nos toca, não para explicar ou fundamentar nossas práticas, mas sim para descobrir e inventar sentidos: ser em-com-outros, entre educação, filosofia, infâncias e escolas.

exercer, exercitar e reparar: a filosofia com infâncias como prática extramuros, como direito, como exercício espiritual, como crítica ao adultocentrismo e ao androcentrismo

PID: S1984-59872024000100213 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2024
Autores: victoria
resumo Neste artigo recuperamos alguns sentidos de filosofar e de filosofia que consideramos frutíferos para a compreensão da prática da filosofia com infâncias (FcI). Defendemos a necessidade de revisitar a questão da própria filosofia, bem como retomar a história desta disciplina para nos ajudar a identificar quais versões dela são, ou poderão ser, postas em jogo na prática da FcI. Assim, surgiu a necessidade de dar conta da proposta de filosofia extramuros (Ferraro, 2018), a qual tentaremos conectar com uma ideia de Jacques Derrida sobre o direito humano à filosofia ou ao filosofar. Em seguida, recuperaremos a hipótese foucaultiana do “momento cartesiano” como uma bifurcação entre o caminho da filosofia e o da espiritualidade (Foucault, 2006) e a complementaremos com o estudo realizado por Pierre Hadot (2006) sobre os exercícios espirituais das escolas filosóficas da antiguidade greco-latina. Em terceiro lugar, problematizaremos o caráter androcêntrico da disciplina filosófica (Alvarado, 2017) em relação ao seu adultocentrismo. De uma perspetiva feminista, a luta consiste em tornar visível o preconceito androcêntrico do discurso acadêmico. A Filosofia como disciplina não é exceção, uma vez que, à medida que se foi estabelecendo como disciplina acadêmica, gerou - como contrapartida - alteridade e exclusão. Para além disso, poderíamos tentar perceber o preconceito adultocêntrico que a nossa disciplina tem tido desde os seus primórdios e contra o qual se poderia dizer que a FcI se inscreve. Tendo em conta estas abordagens teóricas, tentaremos pensar se o FcI pode ser um espaço-tempo extramuros que repare as exclusões geradas pela disciplina filosófica.

fazendo nuvens com docentes e estudantes em meio à pandemia

PID: S1984-59872024000100301 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2024
Autores: corrêa costa
resumo O presente ensaio apresenta os resultados de uma dissertação de mestrado defendida no programa de pós-graduação em Psicologia Social e Institucional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Realizada entre os anos de 2020 e 2022, em meio à eclosão da pandemia de Covid-19, a pesquisa acompanhou a realização do projeto de extensão Carta ao mundo de que vem, que visou a construção de uma carta coletiva, envolvendo estudantes e docentes de escolas de educação infantil e ensino fundamental do Rio Grande do Sul, Bahia e Portugal. A estratégia de aproximação dos estudantes e instituições se deu de forma remota, sendo a nuvem uma figura importante, a nuvem como repositório digital (armazena-se dados na nuvem) e como habitante do céu (disponível a quem se dispuser a olhar para cima). Este ensaio é situado a partir de duas perguntas: 1) “como pesquisar em tempos de pandemia?”; 2) “como produzir em coletivo com pessoas que não se conhecem?”. Na tentativa de responder a estas questões, busca-se mostrar alguns movimentos cartográficos da pesquisa, resultando em seis pistas anuviadas: 1) o que queremos salvar na nuvem?; 2) qual o sabor de uma nuvem?; 3) o que se passa numa nuvem?; 4) o que você está vendo nesta nuvem?; 5) como era o mundo antes da pandemia?; 6) como foi viver na escola durante a pandemia? Para além das respostas, interessa-nos o potencial de cada uma destas pistas, perguntas que, como nuvens, ainda pairam no ar.

infantismo e culturas minoritárias na escola

PID: S1984-59872024000100215 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2024
Autores: snir
resumo Enquanto a desigualdade entre crianças e adultos caracteriza praticamente todos os aspectos da sociedade contemporânea, a escola é considerada um lugar paradigmático de dominação adulta. Críticas de estudiosos da infância tendem a apontar a escola como um lugar onde o adultismo é não apenas evidente, como também (re)produzido. Neste artigo, no entanto, argumento que a escola pública, obviamente criada por adultos para propósitos de adultos, tem uma importante dimensão infantista. Embora se baseie em uma clara distinção entre professores adultos e estudantes crianças, a escola pode problematizar as principais normas adultistas e promover uma sociedade mais igualitária em termos de idade. Isso não significa que as escolas existentes sejam necessariamente infantes, mas sim que uma certa compreensão da escola, que enfatize seu significado social-democrático, pode revelar seus aspectos infantis e basear-se neles ao reimaginar a educação pública. A concepção de escola na qual me debruço neste artigo é apresentada no livro de Jan Masschelein e Maarten Simons, de 2013, Em defesa da escola: uma questão pública. Embora os autores não façam referência direta ao infantismo (ou igualdade infantil) e escrevam, claramente, sob uma perspectiva adultista, acredito que a escola pública que eles descrevem tem, de fato, uma dimensão infantil - ela desafia uma das causas fundamentais do adultismo: considerar as crianças como propriedade de seus pais. No entanto, a concepção de escola de Masschelein e Simons suscita um outro problema, que também tem um aspecto infante: a preocupação de que a escolarização uniforme supervisionada pelo Estado seja prejudicial aos grupos minoritários e indígenas, impondo uma cultura e uma identidade determinadas pelos adultos. A segunda parte deste artigo aborda essa preocupação, defendendo que a educação escolar genuína pode ser fundamental não apenas para preservar, mas também para revitalizar as culturas e identidades das minorias, permitindo que os alunos tragam a “novidade” ao encontro das culturas e identidades de suas famílias.

infâncias, identidades digitais e escola: da inclusão de tecnologias à colocá-las sobre a mesa

PID: S1984-59872024000100108 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2024
Autores: brailovsky menchón
resumo A ideia social de infância e a própria experiência de ser criança são interpeladas nos dias de hoje pelas mediações digitais nas relações. É comum referir-se às novas gerações como “nativos digitais”, destacando como elas lidam com a tecnologia. Isso leva à noção de “novas infâncias”, sugerindo uma mudança na dinâmica entre as gerações adulta e jovem, particularmente na chamada “era digital”. O discurso pedagógico enfatiza a necessidade de “incluir” ou “incorporar” tecnologia na educação. No entanto, este artigo tem como objetivo aprofundar a relação entre infância e tecnologia para além dos limites dos discursos instrumentalistas e do determinismo tecnológico. Desafiamos essas noções com base em resultados preliminares de um estudo em andamento. Nossas perguntas orientadoras são: como a experiência de ser criança muda em uma cultura fortemente influenciada pelas tecnologias digitais? Como deve ser concebido o papel das escolas dentro dessas transformações? Concluímos destacando algumas formas de resistência aos aspectos alienantes da cultura digital, que podem ser considerados como um dos desafios pedagógicos e políticos que se apresentam para a escola nos dias atuais.

infâncias, juventudes e sexualidades na escola em tempos de neoconservadorismo e pós-fascismo

PID: S1984-59872024000100105 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2024
Autores: acosta gallo
resumo Este trabalho busca analisar os desdobramentos da relação entre infâncias, juventudes e sexualidades que se apresentam nas escolas em tempos de cerceamentos e perseguições presentes na última década à escola. Falar de infância é discorrer sobre corpos e, justamente por isso, é indissociável da sexualidade. As relações interpessoais que ocorrem nos espaços escolares são imprescindíveis para socializações com vidas outras. No entanto, após a censura da temática de gênero e sexualidades nos planos educacionais recentes, bem como na Base Nacional Comum Curricular, e frente às sistemáticas perseguições aos professores interessados em sua discussão, nosso intuito é indagar o lugar do corpo e da sexualidade na escola, sobretudo em tempos de neoconservadorismo e pós-fascismo. Enquanto definição, entendemos por neoconservadorismo os novos agenciamentos que a matiz conservadora se utilizou para a sua consolidação na população brasileira; e, por pós-fascismo, as novas esferas de sociabilidades a partir de pragmatismos à identificação de valores comum na sociedade na promoção do pânico moral. Para sustentarmos nossa análise, utilizaremos três cenas escolares de educação para a sexualidade, entendidas aqui como práticas de resistências. Estas, muito embora recentemente vistas na sociedade como responsáveis pela destruição da família tradicional brasileira (de base heteronormativa), são valorizadas para a promoção de infâncias seguras.

interrogações sobre as materialidades e objetivos político-pedagógicos do escolar, nascidas na prática do filosofar com crianças

PID: S1984-59872024000100107 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2024
Autores: shapiro
resumo As práticas educacionais escolarizadas são desenvolvidas com base em uma série de diretrizes que consolidaram o formato escolar como o conhecemos hoje. As materialidades que utilizamos para implementar as atividades escolares e os fins ou objetivos político-pedagógicos com os quais as orientamos fazem parte das diretrizes mencionadas. Neste artigo, com base nas experiências cultivadas em escolas em Ronda de Palabras (Argentina), uma formação baseada na Filosofia com Crianças, queremos propor uma discussão com esses dois grandes pressupostos educacionais que parecem inflexíveis quando pensamos na escolarização convencional. Na primeira parte, apresentaremos uma análise crítica dos romances filosóficos escritos por Matthew Lipman para a implementação de seu projeto Filosofia para Crianças (FpC). Embora essa seja uma discussão específica do campo do ensino da filosofia, acreditamos que alguns de seus pontos podem ser generalizados para pensarmos nas relações pedagógicas que construímos com as materialidades nas quais baseamos nossas práticas educacionais, e as suas implicações políticas. Na segunda parte, analisaremos algumas das contribuições feitas pelas leituras mais críticas da FpC de Lipman para pensar os objetivos político-pedagógicos nela implícitos e em que medida desafiam, ou aceitam tacitamente, os pressupostos da escolarização convencional. O nosso objetivo geral é colocar em tensão as ideias que orientam e organizam as intervenções pedagógicas em um determinado sentido, atentando para as relações inescapáveis que entrelaçam política e educação.

medindo a qualidade do diálogo filosófico: um instrumento de avaliação de alta inferência para a pesquisa e a formação de professores

PID: S1984-59872024000100109 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2024
Autores: Bernhard helbling
resumo: Diversos estudos têm demonstrado que filosofar com crianças nas escolas pode ter um efeito positivo nas habilidades cognitivas, linguísticas e sociais. No entanto, estudos anteriores não consideraram como a qualidade do diálogo influencia esses resultados. Abordando essa lacuna, nosso artigo introduz um instrumento de avaliação de alta inferência para averiguar a qualidade do diálogo filosófico. Esse instrumento apresenta quatro dimensões de qualidade: Riqueza Filosófica, Co-construção, Enfoque e Facilitação Restringida. Ele foi aplicado na avaliação de 63 diálogos de classe de um estudo suíço realizado com estudantes do ensino médio. O artigo apresenta o instrumento utilizando extratos desse estudo, junto com informações de validação inicial, mostrando sua confiabilidade na medição da qualidade do diálogo filosófico. A importância dessa pesquisa reside em seu foco na qualidade do diálogo filosófico, um aspecto frequentemente negligenciado nos ambientes educacionais. Ao oferecer uma ferramenta para avaliar essa qualidade, abrimos novos caminhos para a análise da efetividade dos diálogos filosóficos nas escolas. Isso é especialmente relevante à medida que os sistemas educacionais reconhecem cada vez mais a importância de desenvolver o pensamento crítico e as habilidades de discussão dos alunos. Os resultados destacam o potencial que os diálogos filosóficos de alta qualidade têm de enriquecer as experiências educacionais dos estudantes e oferecer novas ideias e percepções aos professores e pesquisadores sobre como melhorar essas interações. Este estudo contribui para uma compreensão mais profunda de como o diálogo filosófico pode ser utilizado como uma ferramenta educativa poderosa, não apenas para engajar os estudantes, mas também para promover um aprendizado significativo e impactante.

movimentos e efeitos da palavra: uma reflexão sobre as narrativas de/sobre crianças no contexto escolar

PID: S1984-59872024000100118 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2024
Autores: silva Cavalcante
resumo A escola é um lugar onde as crianças compartilham o espaço-tempo com seus pares, outros sujeitos que compõem seu cotidiano e, por vezes, pesquisadoras que vão a campo com suas inquietações. Para a produção deste artigo, foi utilizado como material-base o relatório de campo desenvolvido durante uma oficina realizada com crianças do 1º ano do ensino fundamental, matriculadas em uma escola municipal localizada na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. A partir das falas, não falas e outras formas de expressão protagonizadas por estudantes, professora e pesquisadoras, buscamos entender o lugar da palavra na elaboração de narrativas por e sobre as crianças no contexto escolar. Além dos/as autores/as do campo dos estudos da infância, apoiamo-nos em textos literários e poéticos, por fornecerem elementos que nos permitem situarmo-nos no mundo a partir de perspectivas diversas. Como exercício de reflexão sobre os movimentos e efeitos da palavra, traçamos três linhas de análise: a palavra que anseia brecha e escuta; as palavras impostas, mal endereçadas, limitantes; e, por último, as narrativas inventadas que viram de ponta-cabeça. Além de provocar educadores/as a olharem para suas práticas pedagógicas e mediações, desafiamo-nos a pensar se há espaço na escola para a expressão livre e criadora, formadora de leituras de si e da vida.

o adultocentrismo e as salas de aula das crianças: se você quer ensiná-los, precisa saber quem são

PID: S1984-59872024000100217 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2024
Autores: eslava
resumo O artigo aborda o adultocentrismo acadêmico a partir da perspectiva da instrução e da prática de alunos em treinamento para se tornarem professores de filosofia, com base na experiência que adquirimos ao conduzir um seminário sobre a Didática da Filosofia para um programa acadêmico em Filosofia e Letras, no qual os alunos estão envolvidos na concepção, implementação e avaliação do material de aulas acadêmicas para instituições de ensino fundamental e médio. Após uma breve apresentação do contexto em que ocorre o ensino de filosofia e uma descrição da lógica e do horizonte que formam a base de nosso seminário, definimos e discutimos quatro maneiras específicas pelas quais o adultocentrismo permeia a preparação e o desempenho das aulas de filosofia para salas de aula com alunos entre 8 e 15 anos de idade: o adultocentrismo cognitivo, epistêmico, pedagógico e disciplinar, bem como algumas das maneiras que, como parte do seminário, os alunos e o instrutor desenvolveram para abordar e superar os problemas gerados pelo adultocentrismo. Ao final da discussão, uma nota autocrítica é incluída para mostrar os limites de nossas próprias práticas e fundamentos, assim como uma maneira de definir as novas abordagens e perspectivas necessárias para tratar tanto dos problemas que encontramos na base das práticas de ensino atuais, quanto de nossas próprias expectativas, métodos e maneiras de lidar com esses problemas junto dos nossos jovens colegas em treinamento.

o ideal de cidadania democrática no projeto de filosofia para crianças de matthew lipman

PID: S1984-59872024000100199 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2024
Autores: rivera alonso
resumo: Um dos pilares do projeto Filosofia para Crianças de Matthew Lipman é a sua concepção de cidadania democrática, responsável por promover e preservar o estabelecimento de uma democracia de alta qualidade, que representa muito mais do que a simples ideia de um sistema de governo ou regime político. Na verdade, a cidadania democrática adota essa forma de organização da sociedade como um modo de vida, o que deve traduzir-se em ações solidárias e transformadoras por parte das pessoas, algo que resulta do desenvolvimento das habilidades superiores de pensamento. Por esse motivo, não é coincidência que esta proposta de educação filosófica para a infância vise formar cidadãos razoáveis, já que essa tarefa requer a criação de certas condições que favoreçam o desenvolvimento da multidimensionalidade do pensamento nas salas de aula. Nesse sentido, a transição para uma democracia plena e reconstrutiva exige uma preparação abrangente nas comunidades de investigação, voltada para o efetivo exercício da cidadania democrática. Portanto, o objetivo deste artigo é destacar o lugar privilegiado que essa cidadania ocupa na obra do filósofo e pedagogo norte-americano.

o lugar dos bebês no confronto com o adultocentrismo: possibilidades a partir da cartografia e da filosofia da diferença

PID: S1984-59872024000100210 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2024
Autores: chaves vicenzi
resumo Este artigo constitui-se como um ensaio para pensar práticas pedagógicas com bebês a partir de uma filosofia da infância que não esteja moldada por discursos adultocêntricos. O debate em torno do enfrentamento do adultocentrismo tem historicamente se concentrado mais sobre as crianças do que sobre os bebês. O presente artigo busca lançar questões a respeito de se pensar os bebês não a partir da visibilidade dos seus rótulos, marcados por uma visão cronológica, mas a partir de uma concepção que permita perceber as suas ações e os seus desenvolvimentos desde a sua diferença imanente. Subdividido em seções que envolvem a perspectiva do devir-criança de Gilles Deleuze e a concepção de cartografia de Gabriela Tebet, também nos permite imaginar outros cenários para a infância e uma possibilidade de perceber os bebês como protagonistas. Buscamos, assim, a compreensão de novas percepções com os bebês, buscando repensar a relação que travamos com eles. Pensar os bebês a partir de um discurso devir-criança é estudar as redes que constituem a infância a fim de compreender os movimentos entre os planos de imanência e de organização dos bebês. Não é estudar o indivíduo, assim como não é estudar nenhuma verdade objetiva dada a priori. Desse modo, o pesquisador processa os novos espaços e percorre caminhos em busca de conhecer quem são esses sujeitos que surgem como forma de ruptura. Propomos colocar em questão as ideias que envolvem a infância explorando os ideais pedagógicos modernos que a marcaram, na busca de vivenciar a infância e na compreensão de uma prática pedagógica com bebês capaz de ser um tempo de alegria e de intensidade da vida.

oficina de música para crianças e adolescentes, clínica ético-política e formação: relatos de experiências discentes

PID: S1984-59872024000100302 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2024
Autores: oliveira carvalho silva melo jacques santos
resumo Buscamos, com o presente artigo, investigar o impacto da práxis de um Projeto de Extensão Universitária, que consiste em oficinas de música para crianças e adolescentes com o que designamos autismo ou outras neurodivergências, sobre a formação discente, levando em consideração as dimensões clínica e ético-política da ação extensionista. Dividimos a metodologia em duas partes: a primeira corresponde à revisão bibliográfica tipo narrativa, por meio da qual abordamos textos da fenomenologia da vida e das éticas da alteridade, comunitária e da libertação; a segunda parte diz respeito aos relatos de experiência feitos pelas/os discentes participantes do Projeto e coautoras/es do presente artigo. Os/as discentes responderam a questões relacionadas a dois eixos temáticos construídos a priori: o impacto da Oficina de Música sobre sua formação e a percepção sobre as dimensões clínica e ética do Projeto. Avaliamos as narrativas por meio da análise de conteúdo, a partir da qual construímos as seguintes categorias de análise: impacto transformador da práxis da Oficina; e modelo biomédico e pensamento crítico, referentes ao eixo 1; arte, acolhimento e potencial terapêutico; pessoas que não cabem em um diagnóstico; e uma clínica ético-política, referentes ao eixo 2. Concluímos que a ação extensionista tem tido um impacto positivo sobre a formação discente, contribuindo para uma clínica estética, ética e política não normalizadora, que possibilita a liberação das forças da vida, a afirmação da vida em sua multiplicidade, sobretudo daquelas pessoas que tiveram e continuam tendo suas vidas negadas e invisibilizadas pelo sistema de produção (econômico e discursivo) dominante.

olhando os dentes de um cavalo de Tróia: problematizando a esperança de reforma social da filosofia com/para crianças através da história da raça e da educação nos eua

PID: S1984-59872024000100106 | Periódico: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Ano: 2024
Autores: wurtz
resumo Muitos praticantes e teóricos da Fp/cC privilegiam a escola como um espaço para pensar e praticar filosofia para/com crianças. Apesar de sua natureza coercitiva, pensadores como Jana Mohr Lone, David Kennedy e Nancy Vansieleghem argumentam que a Filosofia para Crianças é um cavalo de Troia que pretende reformar o sistema educacional de dentro para fora. Acredito, no entanto, que argumento do cavalo de Troia exige que internalizemos um entendimento incompleto e historicamente descontextualizado das escolas públicas que, por sua vez, pode reafirmar histórias de supremacia branca nas nossas Comunidades de Investigação Filosóficas - uma consequência que pode ser particularmente nociva quando praticamos FPC com jovens minorias. Para definir com exatidão a importância das salas de aula das escolas públicas para a FPC - especialmente para as CIFs cujos membros são majoritariamente negros, latinos, indígenas ou outros jovens de cor - contextualizo o argumento do cavalo de Troia na história da raça e da educação nos Estados Unidos. Através dessa análise histórica, concluo que a posição reformista se torna cada vez mais insustentável e que a história material da raça e da educação sustenta, de fato, um entendimento pessimista sobre a FPC na educação. Encerro refletindo a necessidade da FPC repensar o privilégio que dá às escolas como lugar primário de investigação filosófica e alertar os seus praticantes contra o uso do "progresso social" como justificativa para como e onde eles praticam seus trabalhos. Em vez disso, os encorajo a repensar como e onde praticam a FPC, baseado nas condições históricas, locais e materiais dos participantes.
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