Introdução
Tradicionalmente, o Maranhão traz no arcabouço de sua história o mar, a ventania, um litoral de mar batido e agitado, pescadores, barcos a vela com seus lindos e diferentes coloridos a velejar pelo litoral. Tais embarcações tradicionais, segundo Soares (2015), têm ligações diretas com a origem e a história de ocupação do Maranhão e sua cultura construtiva, originária da tradição portuguesa, indígena e negra que formaram a população do Estado, passaram a sofrer transformações, sofisticações e adaptações ao longo dos séculos para velejar pelos mares e rios que banham as terras maranhenses.
Foram as embarcações artesanais, “beleza rústica, de aparência simples, mimetizadas no horizonte e no arvoredo manguezal, tesouro escondido”4, que despertaram o interesse do mineiro, engenheiro, artista plástico e professor Luiz Phelipe de Carvalho Castro Andrès ao chegar a São Luís (MA), em março de 1977.
Inicialmente, Luiz Phelipe buscou realizar uma série de pinturas a óleo, com o intuito de produzir uma espécie de acervo pessoal, documentando os barcos típicos do Maranhão. No entanto, ao percorrer aos finais de semana as praias da ilha de São Luís, auxiliado por uma câmera fotográfica, coletando imagens das diversas canoas que encontrava pelo caminho e conversando com mestres carpinteiros navais que trabalhavam nos estaleiros da ilha, Luiz Phelipe descobriu que não havia projetos ou qualquer registro documental que preservasse a arte e a cultura de construir embarcações. Constatou, portanto, que os saberes e as técnicas construtivas encontravam-se apenas “na cabeça” dos mestres operários navais. (Andrès, 1998).
Diante dessa realidade, Luiz Phelipe se propôs a desenvolver o Projeto Embarcações do Maranhão (PEM), no início da década de 1990, junto a uma equipe composta por quinze profissionais – abrangendo arquiteto, desenhista industrial, historiadores, bibliotecário, datilógrafa, entre outros – com o objetivo de “recuperar e registrar as técnicas tradicionais e populares utilizadas na construção de embarcações de madeira na região Norte do país” (Andrès, 1985, p. 15).
Com os resultados obtidos com o PEM, em que os mestres carpinteiros navais revelaram desânimo e abatimento, encontrando-se “desmotivados a encorajar seus filhos a seguirem um ofício que lhes houvera dado tanto sacrifício e quase nada de recompensa” (Andrès, 2018, p. 235), Luiz Phelipe decidiu apostar na educação e construir uma escola “[...] onde o conhecimento dos velhos mestres carpinteiros navais e mestres artesãos pudesse ser aliado aos conhecimentos transmitidos pelos professores e doutores da academia universitária” (Andrès, 2018, p. 236).

Fonte: (O Imparcial, 2017).
Figura 1 – Centro Vocacional Tecnológico Estaleiro Escola em São Luís - MA
Após a implementação do Estaleiro Escola, criou-se o curso técnico de construção de embarcações artesanais maranhenses, com matriz aprovada, em 2008, no Conselho Estadual de Educação do Maranhão. Com a oferta da primeira turma, mestres carpinteiros navais passaram a ensinar aos novos aprendizes seus saberes e as técnicas construtivas de uma embarcação artesanal ao lado de professores da academia universitária, sendo considerados verdadeiros doutores.
É importante ressaltar que os mestres carpinteiros navais que atuam como professores-formadores no Estaleiro Escola não frequentaram nenhum curso superior para desempenhar a função e aprenderam o ofício a partir dos ensinamentos dos antigos mestres carpinteiros nos estaleiros artesanais do Maranhão. Segundo Soares (2015), eles têm formas específicas de sistematização dos conhecimentos, não operam a partir das esferas científicas, seus saberes não passam necessariamente pela lógica e instrumentos das engenharias e seus projetos estão vinculados à necessidade de antever a vida da embarcação em operação.
Na prática diária do carpinteiro naval, o saber de experiência é evidente. É um saber adquirido ao longo da vida, na prática do seu ofício, transmitido de pai para filho e que os possibilitam construir os tradicionais barcos a vela do estado do Maranhão, que com seus lindos coloridos adornam e encantam o litoral maranhense.
Com base no exposto, este artigo busca responder à seguinte questão norteadora: como podemos reconhecer um mestre carpinteiro naval como professor-formador do curso técnico de construção de embarcações artesanais maranhenses? Para respondê-la, traçamos como objetivo geral: identificar saberes da prática educativa revelados durante atuação docente de um mestre carpinteiro naval e que possibilitam o reconhecer como professor-formador. Para isso, seguimos os pressupostos teórico-metodológicos da pesquisa narrativa (Clandinin; Connelly, 2011).
Neste estudo, compreendemos saberes da prática educativa a partir da concepção de Tardif (2018), Pimenta (1996), Gauthier et al. (2006) e Freire (2015). Segundo esses autores, a prática docente exige o emprego de saberes plurais e diversificados cuja construção é feita a partir de fontes diversas que levam em conta o sujeito professor nas suas variadas formas de ser e estar no mundo, suas experiências de vida, entre outros aspectos que lhe conferem um caráter de subjetividade.
Assim como os autores supracitados, compreendemos que um professor-formador, neste caso, um mestre carpinteiro naval, que ensina um ofício de tradição local e/ou regional, mesmo que não tenha frequentado um curso de licenciatura, precisa ter saberes plurais e diversificados da prática educativa que o possibilitará desenvolver o ato de ensinar e perceber as peculiaridades de sua atividade profissional para, em constante processo de reflexão, reconfigurar sua forma de saber-fazer docente de modo sistemático, dinâmico e contínuo.
Partindo desse entendimento, aproximamo-nos das categorizações de saberes docentes e saberes da prática educativa apresentadas por Tardif (2018), Pimenta (1996), Gauthier et al. (2006) e Freire (2015), para identificar saberes revelados por um mestre carpinteiro naval que permitem reconhecê-lo como professor-formador do curso de construção de embarcações artesanais no âmbito do Estaleiro Escola.
Saberes necessários à prática educativa
Autores como Tardif (2018), Pimenta (1996), Gauthier et al. (2006) e Freire (2015) esclarecem que os saberes docentes não advêm somente da formação inicial, tampouco ali se encerram. Porém, é no processo de formação que os saberes docentes requerem um intenso investimento, contribuindo para preparar o futuro professor, de modo que consiga começar a atuar, ampliando gradativamente seu grau de autonomia para lidar com as situações que permeiam a escola de modo geral.
Nas palavras de Tardif (2018, p. 36):
[...] pode-se definir saberes docentes como um saber plural, formado pela amálgama, mais ou menos coerente, de saberes oriundos da formação profissional e de saberes disciplinares, curriculares e experienciais. (grifos do autor).
O saber da formação profissional (das ciências da educação e da ideologia pedagógica) é o “conjunto de saberes transmitidos pelas instituições de formação de professores (escolas normais ou faculdades de ciências da educação” (Tardif, 2018, p. 36). Os saberes disciplinares são:
[...] aqueles que correspondem aos diversos campos do conhecimento, aos saberes que dispõe a nossa sociedade, tais como se encontram hoje integrados nas universidades, sob a forma de disciplinas, no interior das faculdades e de cursos distintos. (Tardif, 2018, p. 38).
Quanto aos saberes curriculares, o autor explica:
[...] correspondem aos discursos, objetivos, conteúdos e métodos a partir das quais a instituição escolar caracteriza e apresenta os saberes sociais por ela definidos e selecionados como modelo da cultura erudita e de formação para a cultura erudita. Apresentam-se concretamente sob a forma de programas escolares (objetivos, conteúdos, métodos) que os professores devem aprender a aplicar (Tardif, 2018, p. 38).
E, por fim, Tardif (2018, p. 39) esclarece que os saberes experienciais “brotam da experiência e são por ela validados. Eles incorporam-se à experiência individual e coletiva sob a forma de habitus e de habilidades, de saber-fazer e de saber-ser.”. Ainda segundo o autor, podemos chamá-lo também de saber prático.
Em suma, Tardif (2018, p. 39) ressalta que o professor:
[...] é alguém que deve conhecer sua matéria, sua disciplina e seu programa, além de possuir certos conhecimentos relativos às ciências da educação e da pedagogia e desenvolver um saber prático baseado em sua experiência cotidiana com os alunos.
Na concepção de Pimenta (1996), é por meio de um movimento de articulação entre diferentes saberes que os professores podem se tornar capazes de perceber as peculiaridades de sua atividade profissional e com base nisso reconfigurarem suas formas de saber-fazer docente de modo sistemático, dinâmico e contínuo. A autora reforça ainda que é durante a ação didático pedagógica que a identidade e a profissionalização docente vão se consolidando. Pimenta (1996) utiliza como referência a expressão saberes da docência definindo três categorias: a experiência, o conhecimento e os saberes pedagógicos.
Os saberes da experiência são, conforme Pimenta (1996), construídos pelos professores a partir da sua própria trajetória como aluno, em seu processo formativo, assim como aqueles que os professores produzem em seu cotidiano docente num processo permanente de reflexão sobre sua prática.
Os saberes do conhecimento dizem respeito aos conhecimentos específicos de uma determinada área com a qual o professor irá atuar, como por exemplo: conhecimentos específicos da física, da matemática, entre outros (Pimenta, 1996).
Já os saberes pedagógicos referem-se ao saber ensinar, à didática. Tais saberes são apreendidos mediante os processos didático-pedagógicos repassados pela universidade, onde aprendemos as técnicas necessárias para proceder metodologias adequadas ao ensino (Pimenta, 1996).
Para Gauthier et al. (2006), os professores utilizam e mobilizam um vasto repertório de conhecimentos próprios do ensino e revelam a existência de seis categorias de saberes dos professores: 1) os saberes disciplinares; 2) os saberes curriculares; 3) os saberes das ciências da educação; 4) os saberes de tradição pedagógica; 5) os saberes experienciais e, por fim, 6) os saberes da ação pedagógica. São esses saberes necessários ao ensino que formalizam o repertório no qual o professor se abasteceria para responder às exigências específicas da situação concreta de ensino. Para compreender cada um deles, apresentamos a concepção dos autores no quadro 1.
Quadro 1 – Concepção de Gauthier et al. (2006) acerca dos saberes dos professores
| Saberes disciplinares | São concebidos como a matéria a ser ensinada, são saberes produzidos pelos cientistas e pesquisadores, e não pelo professor. Geralmente são adquiridos pelos professores nas universidades, mas não estão relacionados à formação pedagógica. |
| Saberes curriculares | São referentes aos programas de ensino e formam o conjunto de conhecimentos que deverão ser ensinados. |
| Saberes das ciências da educação | São saberes que se referem à organização escolar, às aprendizagens, à didática e, geralmente, são os conhecimentos que são adquiridos no processo de formação de professor |
| Saberes de tradição pedagógica | São saberes que estão ligados às concepções de ordem metodológica, relacionados à maneira de ensinar em sala de aula, mas que estão para além dos conhecimentos adquiridos na formação profissional, como o próprio nome aponta, são da tradição. |
| Saberes experienciais | São saberes que representam a própria experiência do docente e que, ao longo do tempo, acabam se transformando em hábito. Todavia, tais saberes, segundo o autor, por falta de fundamentação, estudo, pesquisa e aprofundamento, e, por assim dizer, validade científica, podem acabar gerando concepções equivocadas da própria prática. |
| Saberes da ação pedagógica | São os saberes experienciais que foram publicamente testados e validados pelas pesquisas, e assim constituem-se como saberes importantes para a fundamentação da educação e do ensino. |
Fonte: (Barbosa Neto; Costa, 2016, p. 92-93).
Freire (2015), por sua vez, explicita uma série de saberes necessários à prática educativa e defende que o professor deve trabalhar em prol da autonomia do aluno, de sua libertação da sociedade que oprime, destacando que o processo de formação docente ocorre também no processo de aprendizagem do aluno. Por isso, o autor ressalta que:
[...] não há docência sem discência, as duas se explicam, e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto, um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar, e quem aprende ensina ao aprender (Freire, 2015, p. 25).
No quadro 2, apresentamos a categorização dos saberes docentes apresentado por Freire (2015), em seu livro Pedagogia da autonomia.
Quadro 2 – Categorização dos saberes docentes apresentada por Paulo Freire
| Saberes necessários à prática educativa | |||
|---|---|---|---|
| Não há docência sem discência | Ensinar não é transferir conhecimento | Ensinar é uma especificidade humana | |
| Ensinar exige | Rigorosidade metódica | Consciência do inacabamento | Segurança, competência e generosidade |
| Pesquisa | Reconhecimento de ser condicionado | Comprometimento | |
| Respeito aos saberes dos educandos | Respeito à autonomia do ser do educando | Compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo | |
| Criticidade | Bom senso | Liberdade e autoridade | |
| Estética e ética | Humildade, tolerância e luta em defesa dos direitos dos educadores | Tomada consciente de decisões | |
| Corporificação das palavras pelo exemplo | Apreensão da realidade | Saber escutar | |
| Risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer tipo de discriminação | Alegria e esperança | Saber que a educação é ideológica | |
| Crítica sobre a prática | Convicção de que a mudança é possível | Disponibilidade para o diálogo | |
| Reconhecimento da assunção da identidade cultural | Curiosidade | ||
Fonte: (Block; Rausch, 2014, p. 253).
Segundo Block e Rausch (2014, p. 253), os saberes elencados na primeira categoria “Não há docência sem discência” apresentada por Paulo Freire:
[...] atribuem à formação docente um caráter experiencial de onde se originam saberes, onde se torna imprescindível a percepção de que a relação do professor como sujeito do conhecimento e do aluno como seu objeto não se justifica. Muito contrário, professor e aluno não se limitam a uma relação que os tornem sujeitos um do outro (Block; Rausch, 2014, p. 253).
Na segunda categoria “Ensinar não é transferir conhecimento”, Block e Rausch (2014) salientam que Paulo Freire elenca saberes marcantes e essenciais para primar por uma prática educativa que respeite e dê, de fato, autonomia ao aluno. Nas próprias palavras de Freire (2015, p. 47-48), conseguimos compreender isso:
Quando entro em uma sala de aula devo estar sendo aberto a indagações, à curiosidade, às perguntas dos alunos, as suas inibições; um ser crítico e inquiridor, inquieto em face da tarefa que tenho – a de ensinar e não de transferir conhecimento. É preciso insistir: este saber necessário ao professor – ensinar não é transferir conhecimento – não apenas precisa ser apreendido por ele e pelos educandos nas suas razões de ser – ontológica, política, ética, epistemológica, pedagógica, mas também precisa ser constantemente testemunhado, vivido.
Na terceira e última categorização “Ensinar é uma especificidade humana”, Freire (2015) revela a necessidade de o professor deter segurança, conhecimento, afetividade e generosidade para com os alunos, para que tenha competência, autoridade e liberdade durante a condução de suas aulas. O autor defende ainda a necessidade de o professor exercer sua autoridade docente com a segurança fundada na competência profissional, aliada à generosidade, e demonstra que a disciplina pode não ser o silêncio, mas o alvoroço que demonstra a empolgação em aprender.
Conforme podemos observar, cada um dos autores supracitados, embora apresentem categorizações diferenciadas para os saberes docentes, aproximam-se nas concepções e dialogam acerca do que cada um dos saberes representa e influencia na ação da prática educativa. Para sintetizar o que foi exposto e as categorizações de saberes elencadas, apresentamos o quadro 3.
Quadro 3 – Categorização dos saberes necessários a prática educativa
Fonte: Elaborado pelas autoras.
Conforme podemos observar, os estudos e pesquisas desenvolvidos pelos autores que sustentam teoricamente esta pesquisa estão relacionados à formação inicial e continuada de professores que ocorrem em instituições de ensino. Desse modo, decidimos nos aproximar de suas categorizações, ora usando as nomenclaturas, ora apoiando-nos em suas ideias, e elencar uma nova categorização de saberes necessários à prática educativa a partir da narrativa do mestre carpinteiro naval que nos possibilitará reconhecê-lo como professor-formador do curso de construção de embarcações artesanais no âmbito do Estaleiro Escola.
Composição dos textos de campo e texto de pesquisa
Para o desenvolvimento deste estudo, compreendemos que seria necessário encontrar um tipo de pesquisa que nos permitisse identificar saberes da prática educativa de um mestre carpinteiro naval, a partir das experiências vividas por ele ao longo da sua trajetória e da sua atuação como professor-formador no curso de construção de embarcações artesanais ofertado pelo Estaleiro Escola, ou seja, precisávamos de um tipo de pesquisa que nos permitisse representar, entender e teorizar experiências, transformando-as em conhecimento acadêmico (Rodrigues; Prado, 2015).
Desse modo, optamos por seguir os pressupostos da pesquisa narrativa, ancorados em Clandinin e Connelly (2011), ao compreendermos que ela está alicerçada em experiências humanas, corporificadas e que não podem ser interpretadas sem que se leve em conta o contexto social, espacial e temporal em que foram vividas, considerando que é nisso que consiste a análise narrativa: contar experiências e, ao mesmo tempo, construir os sentidos dessas experiências levando-se em conta a temporalidade, a sociabilidade e a localidade do fenômeno analisado.
Para composição dos textos de campo, a primeira autora deste artigo matriculou-se, no segundo semestre de 2020, no curso de curta duração de construção de embarcações artesanais ofertado pelo Estaleiro Escola, com carga-horária de 100h, com o objetivo de observar e registrar a atuação docente do participante desta pesquisa, o senhor Otavionilson Nogueira dos Santos, mais conhecido como mestre Otávio, sendo esse um dos mestres carpinteiros navais que atuam como professor-formador das aulas práticas nesse curso.

Fonte: Arquivo pessoal das pesquisadoras.
Figura 2 Mestre carpinteiro naval Otavionilson Nogueira dos Santos
A decisão de viver experiências ao lado do mestre Otávio no Estaleiro Escola durante as aulas do referido curso foi orientada pela concepção de Clandinin e Connelly (2011) quando defendem que os pesquisadores narrativos devem tentar “se familiarizar ao máximo com as tantas e multifacetadas narrativas presentes no campo de pesquisa” (p. 107) e se inserir no contexto:
[...] por um bom tempo, prestar atenção e questionar as situações para compreender os eventos e histórias, as muitas narrativas que se inter-relacionam a cada instante e que apontam, frente a seu olhar ainda inexperiente, caminhos na compreensão de mistérios (Clandinin; Connelly, 2011, p. 115).
As experiências vividas durante o curso foram registradas pela primeira autora a partir de gravações em áudio, fotografias e anotações num diário, os quais constituem textos de campo desta investigação. Segundo Clandinin e Connelly (2011, p. 119), “os textos de campo ajudam a memória a suprir as falhas, as nuances e as complexidades das paisagens e das histórias vividas” e são elaborados com a finalidade de registrar aspectos da experiência vivida durante a construção dos dados da pesquisa.
Outro método utilizado para constituição dos textos de campo foi a entrevista narrativa (EN) realizada com o mestre Otávio, seguindo os pressupostos de Jovchelovitch e Bauer (2008). A escolha pela EN deu-se por compreender que nela “o sujeito se expressa, trazendo em sua voz o tom de outras, pensando no contexto de seu grupo, gênero, etnia, classe social, momento histórico, social e cultural” (Moura; Nacarato, 2017, p. 16) e porque ela possibilita “reconstruir acontecimentos sociais a partir da perspectiva dos informantes, tão diretamente quanto possível” (Jovchelovitch; Bauer, 2008, p. 93).
A entrevista foi realizada no dia 16 de fevereiro de 2022, às 14h, no Estaleiro Escola, e teve início com uma questão narrativa orientada autobiograficamente: conte-me sobre sua trajetória de vida até aqui. Após a entrevista, o conteúdo da mesma foi transcrito integralmente, dando origem a uma das modalidades de textos de campo adotadas na elaboração desta investigação (Clandinin; Connelly, 2011).
Mestre Otávio nasceu no dia 11 de dezembro de 1981, na ilha de Caçacueira, Arquipélago de Maiaú, pertencente ao município de Cururupu, estado do Maranhão. É filho de um pescador e de uma marisqueira. Concluiu apenas o Ensino Fundamental; aprendeu o ofício de carpinteiro naval com seu pai de criação, trabalhando inicialmente como aprendiz, e teve a oportunidade de construir sozinho a sua primeira embarcação aos 16 anos de idade. Seguiu ao longo da sua vida atuando como carpinteiro naval e, em 2008, a convite de Luiz Phelipe Andrès, tornou-se funcionário do Estaleiro Escola, para ministrar as aulas prática do curso técnico de construção de embarcações artesanais. Atualmente, é reconhecido em seu meio como um mestre carpinteiro naval pelo seu vasto saber da arte de construir embarcações.
Para análise dos dados foi utilizado o método da análise narrativa seguindo os pressupostos de Schütze (1983, apudJovchelovitch; Bauer, 2008, p. 106) e, posteriormente, constituiu-se o texto de pesquisa, cuja “a tarefa [...] foi encontrar um modo de selecionar e colocar juntos estes textos de campo dentro de um texto narrativo global e único” (Clandinin; Connelly, 2011, p. 187).
Desse modo, debruçamo-nos sobre os textos de campo e a partir do processo analítico e interpretativo deles, realizamos o entrelaçamento dos dados, de modo a identificar saberes da prática educativa presentes na atuação docente de mestre Otávio e que nos permitem o reconhecer como professor-formador. É importante ressaltar que a identidade do participante da pesquisa é revelada por considerarmos que o anonimato comprometeria o estudo. O participante foi informado dessa condição e concordou com o formato da pesquisa, assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE)5.
Saberes da prática educativa de um mestre carpinteiro naval
A partir da narrativa de mestre Otávio obtida por meio da entrevista e das observações e registros que foram realizados pela primeira autora desta pesquisa, elaboramos três categorias de saberes observados na prática educativa do mestre carpinteiro naval que permitem o reconhecer como professor-formador: saberes do ofício; saberes da experiência; e saberes da tradição pedagógica.
A partir de agora, explicaremos nossa compreensão referente a cada uma dessas categorias e apresentaremos trechos da entrevista narrativa de mestre Otávio, que confirmam a existência desses saberes na prática educativa que ele desenvolve no Estaleiro Escola.
Saberes do ofício
Conforme apresentado pelos autores estudados, para desenvolver a prática educativa, o professor precisa ter conhecimentos específicos da área que irá atuar, denominados saberes do conhecimento (Pimenta, 1996) ou saberes disciplinares (Tardif, 2018; Gauthier et al., 2006). Os conhecimentos específicos são, na concepção desses autores, produzidos por cientistas e pesquisadores, por grupos sociais produtores de saberes, e “integram-se à prática docente através da formação (inicial e contínua) dos professores nas diversas disciplinas oferecidas pela universidade” (Tardif, 2018, p. 38).
No entanto, na narrativa de mestre Otávio, observamos que o saber que ele tem foi adquirido por meio dos ensinamentos do seu pai e tios, conforme conta: “Eu aprendi o ofício da carpintaria naval com meu pai de criação e adquiri também muito conhecimento com os irmãos dele que também eram carpinteiros”; e na prática diária do ofício. Trata-se de um saber transmitido de geração em geração e desenvolvido por mestres carpinteiros navais a partir de experiências vividas em diversas situações para as quais foi necessário para dar sentido, significado e respostas ao que acontecia.

Fonte: Arquivo pessoal das pesquisadoras.
Figura 3 – Mestre Otávio construindo uma caverna com a enxó
Mestre Otávio narra ainda que os seus saberes também foram adquiridos por meio da escuta atenta das experiências dos mais antigos mestres carpinteiros que muito tinham a dizer e compartilhar:
[...] eu gostava de acompanhar os mais velhos, porque sempre acreditei que os mais antigos possuem muito conhecimento e tem muito a nos ensinar. E eu sempre tive isso na minha cabeça. Se eu me aproximar dos mais antigos, eu vou ter uma experiência melhor (Mestre Otávio – entrevista da pesquisa).
Durante as suas aulas, mestre Otávio ensina aos seus alunos os saberes acerca da construção naval e das técnicas construtivas, utilizando a linguagem própria da carpintaria naval e transmitindo aquilo que aprendeu durante sua vida de aprendiz e que continua ainda a aprender, conforme narra:
Nas aulas, eu também explicava para os alunos como chegar ao desenho de uma embarcação, como desenhar o formato de uma caverna6 e de uma canoa, como colocar a quilha7 no picadeiro, como colocar as cavernas mestras, a proa8 e a popa9 que dependem do modelo da canoa. Por exemplo, se for proa de risco, a quilha é reta, se for a biana a quilha do meio para frente vai curvando e para colocar lançador de proa e popa com as cavernas no meio a gente coloca duas ripas qualquer do lado, que chamamos de fasquia10. No conhecimento científico são conhecidas como falcas. No nosso dia a dia, a gente não conhece esses palavreados, é uma enrolada doida. Tem um livro guia que diz os nomes das peças, mas a gente fala diferente mesmo, até as medidas são diferentes. Porém, no final encaixa certinho o formato da canoa, apesar das nossas dimensões serem diferentes (Mestre Otávio – entrevista da pesquisa).
Mestre Otávio é reconhecido em meio aos outros operários navais como mestre, porque consegue construir qualquer embarcação de cabeça, sem precisar de ajuda ou recorrer a qualquer material de consulta, e tem o respeito e o reconhecimento dos mestres mais antigos. Então, podemos dizer que ele tem um vasto saber a ensinar, na qual denominamos aqui de saberes do ofício.
Em síntese, podemos definir saberes do ofício como os saberes constituídos nas experiências diárias da vida, que buscam dar sentido, significado e respostas para diferentes situações vivenciadas no exercício da profissão. São saberes transmitidos de geração em geração que possibilitam ao detentor desse saber exercer a profissão, transmitir às novas gerações e ter o reconhecimento dos demais profissionais, principalmente daqueles que podem ser considerados os mestres do ofício.
Saberes da experiência
Para Pimenta (1996), os saberes da experiência se referem aos saberes produzidos pelos professores no trabalho cotidiano, como também aos saberes que eles possuem antes de chegar a um curso de formação inicial. Para Tardif (2018, p. 38-39), são saberes que são desenvolvidos pelos “próprios professores, no exercício de suas funções e na prática de sua profissão, [...] baseados em seu trabalho cotidiano e no conhecimento de seu meio”.
Gauthier et al. (2006) se aproximam da concepção de Tardif (2018) sobre os saberes da experiência, porém afirmam que esse saber próprio da experiência do professor, que acaba se transformando em hábito, pode, por falta de validade científica, gerar concepções equivocadas da própria prática. Já Freire (2015), apesar de não apresentar uma categoria específica sobre saberes da experiência, discorre em quase toda sua obra sobre a importância da experiência e da reflexão crítica na/da prática educativa para a formação e constituição profissional do professor. Segundo ele,
[...] na formação permanente dos professores, o momento fundamental é o da reflexão crítica sobre a prática. É pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática. [...] Quanto melhor faço esta operação, tanto mais inteligência ganha da prática em análise e maior comunicabilidade exerce em torno da superação da ingenuidade pela rigorosidade (Freire, 2015, p. 40).
Quando analisamos a narrativa de mestre Otávio, observamos que foram os saberes das experiências vividas durante a sua trajetória enquanto aprendiz do ofício e durante as aulas do curso de construção de embarcações artesanais que o possibilitaram e ainda possibilitam aprender a desenvolver sua prática educativa e o seu ser-fazer docente.
Mestre Otávio narra que nunca teve um preparo para dar aulas: “Eu não tive um preparo para ser professor. Quem realmente me preparou foi a vida”. E acrescenta: “Nunca tive um preparo para passar o meu conhecimento, tudo foi acontecendo naturalmente, no dia a dia, conversando com os alunos e adquirindo conhecimento com eles também.
Mestre Otávio explica que nunca passou pela sua cabeça ser professor, porém, quando chegou ao Estaleiro Escola foi logo introduzido para dar aulas, apesar de não ter recebido nenhuma formação para ensinar os seus saberes aos alunos do curso.
Quando cheguei no Estaleiro Escola, em meados de 2007, eu não tinha experiência em dar aulas, nunca passou pela minha cabeça isso. Eu trabalhava só fazendo barco e fui pra lá com esse objetivo. No entanto, assim que cheguei, fui logo introduzido para dar aulas. Nessa época, o curso já estava montado, os professores já estavam ministrando aulas teóricas e minha função na escola era ficar responsável pelas aulas práticas no galpão do Estaleiro e implantar meu conhecimento para somar com os deles. Nesse momento, pensei: - Se é para mostrar o que sei fazer, não tem dificuldade. Foi aí que percebi que fazer explicando é diferente (Mestre Otávio – entrevista da pesquisa - grifos nossos).
Ao longo das suas primeiras experiências como professor-formador, observamos que mestre Otávio foi refletindo sobre sua prática e o ato de ensinar, e conforme narrou, foi percebendo que “fazer explicando é diferente”. Essas reflexões iniciais o possibilitaram interpretar, compreender e orientar a profissão do professor e a prática educativa, assim como adquirir saberes acerca de como poderia ensinar aos seus alunos durante as aulas práticas do curso de construção de embarcações artesanais.
Mestre Otávio relembra também a forma como aprendeu o ofício da carpintaria naval e afirma que buscou ensinar seus alunos seguindo o mesmo método dos seus antigos mestres.
Lembro que no meu processo de aprendizagem, os meus antigos mestres diziam: - “Tem uma canoa ali. Vai lá, encosta aquela tábua ali, fecha aquela canoa.”. E continuavam: - “Tem aquela madeira ali. Arma aquele barco”. [...] Então, eu ministrava aula fazendo alguma coisa, mostrando como fazer e construindo a embarcação (Mestre Otávio – entrevista da pesquisa).
Nos registros realizados pela primeira autora deste artigo durante as aulas do curso de construção de embarcações artesanais, ofertado em 2020, percebemos com bastante nitidez a influência da prática de ensino dos seus antigos mestres na sua atuação profissional no âmbito do Estaleiro Escola. Durante as aulas, mestre Otávio apresentava os elementos constituintes de uma embarcação, construía uma peça para visualização e colocava os alunos do curso para manusear, construir, cortar e colocar no lugar como deveria ser. Isso acontecia em todas as aulas. Então, sua prática educativa sofre influência também das experiências vividas antes de se tornar professor-formador.

Fonte: Arquivo pessoal das pesquisadoras.
Figura 4 – Registros das aulas do curso de construção de embarcações artesanais
Ainda em sua narrativa, mestre Otávio conta que costumava conversar com os demais professores da instituição e trocar experiências: “[...] durante os intervalos das aulas, eu e os demais professores da instituição conversávamos, dividíamos experiências sobre como eram as aulas de um e de outro”, o que nos leva a concordar com Tardif (2018, p. 49) quando afirma que “o professor nunca atua sozinho. Ele se encontra em interação com outras pessoas [...]”. Ainda segundo o autor, a atividade docente é realizada concretamente numa rede de interações com outras pessoas, assim, os saberes experienciais, sendo as interações um dos seus objetos, “fornecem aos professores certezas relativas a seu contexto de trabalho na escola de modo a facilitar sua integração” (Tardif, 2018, p. 50).
Com base na narrativa de mestre Otávio, observamos que as experiências vividas com seus antigos mestres durante seu processo de aprendizagem, com os seus alunos durante as aulas do curso de construção de embarcações artesanais e com os professores do Estaleiro Escola permitiram-lhe construir saberes da prática educativa e ressignificar a sua atuação enquanto professor-formador e o seu ato de ensinar. Denominamos esses saberes de saberes da experiência.
Em síntese, podemos definir saberes da experiência como o conjunto de saberes que são constituídos individual e cotidianamente durante a prática educativa exercida pelo professor e em interação com outras pessoas do contexto – alunos e demais atores no campo de sua prática –, a partir de um processo permanente de reflexão do ato de ensinar. São também saberes adquiridos enquanto aprendiz do ofício por meio das práticas de ensino desenvolvidas pelos antigos mestres e que são utilizadas e ressignificadas durante a atuação profissional do professor.
Saberes da tradição pedagógica
Essa categoria segue a nomenclatura utilizada por Gauthier et al. (2006) e se aproxima de suas concepções quando esses revelam que correspondem ao conjunto de saberes relacionados às concepções de ordem metodológica, a maneira de ensinar em sala de aula, de escola, do professor, dos alunos, do processo de aprender e ensinar. Essas representações foram construídas, segundo argumentação dos autores, em etapas anteriores ao ingresso na carreira, ou seja, antes mesmo de o professor decidir ser professor e ingressar num curso de formação inicial.
Quando analisamos a narrativa de mestre Otávio, observamos que para desenvolver sua prática educativa, ele construiu uma maneira de ensinar, ou podemos dizer, concebeu uma ordem metodológica para os saberes que deveria ensinar aos seus alunos, que pode ter influências da maneira como aprendeu, de orientações dadas pelo professor Luiz Phelipe e da maneira como concebe o processo de aprendizagem das etapas construtivas de uma embarcação.
Em sua narrativa, ele explicita a ordem metodológica que utiliza para ensinar os alunos do curso de construção de embarcações artesanais:
Quando os alunos chegavam, eu mostrava as ferramentas logo no início. Em cima de uma bancada, eu explicava o que era uma enxó11, um formão12, um martelo, um serrote, uma plaina13, uma furadeira, falava de cada uma, para que serviam e qual sua importância no trabalho da carpintaria naval, pois sem essas ferramentas, não seria possível construir uma embarcação (Mestre Otávio – entrevista da pesquisa).
Observamos que o ponto de partida das aulas de mestre Otávio é a apresentação das ferramentas utilizadas pelos carpinteiros navais nas etapas da construção de uma embarcação. Sem conhecer as ferramentas e a finalidade de cada uma, conforme ele dizia nas aulas, seria impossível desenvolver as atividades do ofício. Além de conhecer, o aprendiz precisava aprender a manuseá-las, então, mestre Otávio sempre colocava seus alunos para utilizar o martelo, a enxó, o graminho14 e ao mesmo tempo ensinava as melhores formas de trabalhar com elas. Conforme conta, essa aula “[...] levava o dia todo”.
A aula seguinte acontecia no galpão do Estaleiro Escola, onde encontravam-se as máquinas que poderiam ser utilizadas para facilitar o trabalho do carpinteiro naval. Nas suas palavras: “Eu falava das máquinas, explicava para que serviam e quais eram suas importâncias”.
Durante uma das aulas do curso de construção de embarcação artesanal, essa prática foi perceptível. Além disso, ao apresentar as máquinas, mestre Otávio afirmou aos seus alunos:
O carpinteiro naval não pode se tornar refém dessas máquinas, é preciso saber também manusear as ferramentas artesanais. Ainda existem estaleiros artesanais espalhados pelo Maranhão que não possuem máquinas elétricas. Então, caso vocês atuem nesses estaleiros, saberão se desenrolar com as ferramentas que possuem (Mestre Otávio – entrevista da pesquisa).
Posteriormente, mestre Otávio revelou o passo seguinte:
Eu explicava para os alunos como chegar ao desenho de uma embarcação, como desenhar o formato de uma caverna e de uma canoa, como colocar a quilha no picadeiro, como colocar as cavernas mestras, a proa e a popa que dependem do modelo da canoa. (Mestre Otávio – entrevista da pesquisa).
Nas aulas de 2020, mestre Otávio apresentou aos alunos o desenho de uma embarcação feito num quadro branco e a partir dele foi explicando a estrutura e a definição de cada peça que a compõe, a citar: a proa, a popa, as cavernas, a quilha, o costado, entre outras. Durante essa aula, os alunos foram conduzidos à biblioteca do Estaleiro Escola para que pudessem conhecer os desenhos de todos os tipos de embarcações catalogadas durante a pesquisa do PEM. A cada desenho observado, mestre Otávio explicava sua origem, características, localidade, estrutura e métodos construtivos.
Somente então, após essas aulas introdutórias, afirma Mestre Otávio, “[...] eu partia para o campo de trabalho apresentando para os alunos cada peça da embarcação [...]. Eu ia encavernando e mostrando para os alunos”. Durante as aulas, ele ensinava a seus alunos por meio do exercício prático, ou seja, ele construía, manuseava as ferramentas e colocava os alunos para também o fazer, sempre sob a sua supervisão.

Fonte: Arquivo pessoal das pesquisadoras.
Figura 6 Registros das aulas do curso de construção de embarcações artesanais
Sempre que possível e que tem material disponível, mestre Otávio conta que inicia com seus alunos uma embarcação do zero, definindo a quilha, a proa e a polpa, para que os alunos compreendam todas as etapas construtivas. Posteriormente, define as duas cavernas mestras e depois as demais cavernas, constrói o costado e segue com as outras etapas construtivas. No entanto, quando o curso é de curta duração, sempre diz aos seus alunos:
“Em três meses, você não vai aprender carpintaria, você vai ter noção de como armar uma embarcação pequena” e os aconselha a “[...] ir renovando a matrícula de três em três meses e continuar fazendo o curso”.
Como podemos observar, mestre Otávio tem uma maneira de ensinar, uma ordem metodológica para transmitir os saberes da construção naval aos seus alunos e uma concepção sobre o processo de aprender. Esses saberes desenvolvidos pelo mestre carpinteiro, denominamos, portanto, de saberes de tradição pedagógica, aproximando-nos da concepção de Gauthier et al. (2006).
Em síntese, podemos definir saberes de tradição pedagógica como um conjunto de saberes relacionados à concepção acerca da maneira de ensinar, de ordem metodológica e do processo de aprender, com base em suas experiências de aprendiz, da sua atuação profissional e do constante processo de reflexão na/da prática educativa.
Últimas considerações
Diante de tudo que foi exposto neste artigo, retomamos a nossa questão norteadora: como podemos reconhecer um mestre carpinteiro naval como professor-formador do curso técnico de construção de embarcações artesanais maranhenses?; e ao nosso objetivo geral: identificar saberes da prática educativa revelados durante atuação docente de um mestre carpinteiro naval e que possibilitam o reconhecer como professor-formador.
De antemão, ressaltamos que a pesquisa narrativa foi sem dúvida o melhor pressuposto teórico-metodológico para o desenvolvimento desta investigação, uma vez que norteou os nossos passos para compreender as experiências vividas pelo mestre Otávio e nos revelou saberes da prática educativa que permitem o reconhecer como professor-formador. Desse modo, ao final deste estudo, pudemos constar que a pesquisa narrativa é “o melhor modo de representar e entender a experiência”, “é uma forma-chave de experiência” e “um modo de escrever e pensar sobre ela” (Clandinin; Connelly, 2011, p. 48).
Conforme apresentamos, foi possível identificar na narrativa de mestre Otávio saberes presentes em sua prática educativa que se aproximam das concepções e categorizações de saberes docentes de Tardif (2018), Gauthier et al. (2006), Pimenta (1996) e Freire (2015), quais sejam:
Saberes do ofício: saberes constituídos nas experiências diárias da vida, que buscam dar sentido, significado e respostas para diferentes situações vivenciadas no exercício da profissão. São saberes transmitidos de geração em geração que possibilitam ao detentor desse saber exercer a profissão, transmitir as novas gerações e ter o reconhecimento dos demais profissionais, principalmente daqueles que podem ser considerados os mestres do ofício.
Saberes da experiência: conjunto de saberes que são constituídos individual e cotidianamente durante a prática educativa exercida pelo professor e em interação com outras pessoas do contexto – alunos e demais atores no campo de sua prática –, a partir de um processo permanente de reflexão do ato de ensinar. São também saberes adquiridos enquanto aprendiz do ofício por meio das práticas de ensino desenvolvidas pelos antigos mestres e que são utilizadas e ressignificadas durante a atuação profissional do professor.
Saberes de tradição pedagógica: conjunto de saberes relacionados à concepção sobre a maneira de ensinar, a ordem metodológica e ao processo de aprender, com base em suas experiências de aprendiz, da sua atuação profissional e do constante processo de reflexão na/da prática educativa.
Os saberes que mestre Otávio apresenta possibilita-nos reconhecê-lo como professor-formador à medida que, ao se aproximar dos saberes elencados pelos autores estudados, revela que tem um vasto saber sobre o universo da carpintaria naval, desenvolveu um saber prático baseado em suas vivências e experiências cotidianas com seus antigos mestres, alunos e demais professores e tem uma concepção sobre a maneira de ensinar e uma ordem metodológica para transmitir os seus saberes.
Os saberes do ofício, da experiência e de tradição pedagógica possibilitam que mestre Otávio ensine os saberes da construção naval aos aprendizes do curso técnico, contribuindo para que a missão do Estaleiro Escola de preservar, valorizar e transmitir a cultura e a arte maranhense de construção de embarcações artesanais às novas gerações seja alcançada.
Portanto, acreditamos, assim como Luiz Phelipe, que a presença dos mestres carpinteiros navais dentro do Estaleiro Escola é de extrema importância. Eles são peças-chave para que, de fato, seja possível transmitir e preservar a cultura das embarcações artesanais.










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