Apreciei a leitura do interessante estudo de Santos et al. sobre iniciação científica1. Os autores aplicaram um questionário relevante a uma amostra representativa de estudantes de sete escolas de medicina de Salvador. Eles tiveram como objetivo verificar os múltiplos fatores envolvidos na exposição à pesquisa dos estudantes de medicina1.
Dentre os achados, os autores confirmaram a alta prevalência de interesse (e motivação para) o envolvimento em pesquisas em amostras de estudantes de medicina brasileiros, como relatado em estudos anteriores2),(3. Eles também não notaram nenhuma variação na motivação para a pesquisa entre estudantes pré-clínicos e clínicos e ofereceram evidências desejáveis da produtividade do programa em termos de publicações de coautoria dos alunos1. Novamente, este estudo registrou os obstáculos, percebidos pelos estudantes de medicina, na disponibilidade de tempo, orientação do corpo docente e oportunidades e recursos institucionais para seu engajamento em pesquisas adequadas e produtivas1)-(3.
Minhas observações adicionais dizem respeito à diferenciação entre exposição à pesquisa de início precoce (pré-clínica) e início tardio (clínica) com base na motivação e expectativas dos alunos. Essa distinção não foi revelada naquele estudo1.
Em contraste, ofereço abaixo achados sobre antecedentes, experiências e resultados da exposição à iniciação científica em um programa médico de uma universidade pública. Esses achados decorrem da compilação de dados envolvendo as 55 turmas semestrais em três décadas do currículo intermediário do programa médico.
Assim, referente à iniciação científica, 112 alunos ingressantes iniciais − em comparação com 572 alunos ingressantes tardios − apresentaram as seguintes diferenças, expressas em porcentagens, odds ratio (OR) e intervalos de confiança (IC):
Maior frequência de tutoria por pares no segundo semestre em cursos de ciências básicas (28,2% vs. 12,5%, OR = 2,8, IC 95% = 1,8; 4,2).
Maior atração pela carreira de pesquisador (27,0% vs. 15,3%, OR = 2,0, IC 95% = 1,1; 3,7), após o primeiro ano de estudos médicos.
Maior duração (dois anos ou mais) de iniciação científica (28,0% vs. 10,7%, OR = 3,3, IC 95% = 2,1; 3,9).
Maior produtividade, em termos de publicações em coautoria (20,6% vs. 13,6%; OR = 1,6, IC 95% = 1,1; 2,6).
Maior aceitação (e conclusão de) um programa de doutorado nas melhores universidades (11,5% vs. 4,4%, OR = 2,8, IC 95% = 1,1; 7,6).
Da mesma forma, a análise de um estrato (N = 1307) com dados da Escala de Motivação Acadêmica4, revelou que os alunos com início precoce − em comparação com os alunos de início tardio − mostraram um índice mais baixo de motivação controlada (M = 3,65 DP = 1,31 vs. M = 4,01 DP = 1,34; d = 0,266, IC 95% = 0,040; 0,492). No entanto, eles mostraram um índice igualmente superior de motivação autônoma. Além disso, os participantes de início precoce foram a maioria no grupo de alunos (minoritários) com níveis mais altos de motivação autônoma, combinados com níveis mais baixos de motivação controlada. Em contraste, não houve distinções notáveis na idade de admissão, distribuição por sexo e média de notas entre alunos de início precoce e tardio (todos p > 0,14).
Em conclusão, ao contrário do que sugere Santos et al.1, os resultados acima denotam diferenças notáveis entre os participantes com início precoce e tardio da exposição à pesquisa, que podem estar relacionadas a diversas origens, mentalidades ou influências de mentoria.









texto em 



