Introdução
Bem aí ela faz a gente fazer fila de quatro e vai tudo que nem carneirinho para dentro da aula. A gente se senta numa carteira que tem uma tampa que abre e fecha e guarda tudo dentro (Vasconcelos, 1968, p.72).
A sala de aula está no imaginário coletivo da sociedade escolarizada e suas descrições podem diferir, geração após geração, dependendo da idade e do lugar onde se vivenciou o cotidiano escolar. Escolano Benito (2017) afirma que:
Desde que a escola se tornou obrigatória - fato generalizado hoje na maior parte dos países socialmente avançados -, a experiência escolar passou a fazer parte de nossa memória como um componente essencial de nossa identidade narrativa (Escolano Benito, 2017, p. 179).
Alguns elementos, como a carteira escolar, a lousa, os murais e cartazes nas paredes, os mapas e globos terrestres, as letras do alfabeto, os numerais, a mesa dos professores, dentre outros, povoam lembranças de estudantes e docentes. O pesquisador afirma que:
O primeiro aspecto que os sujeitos tendem a recordar, em relação à sua passagem pela escola, são os cenários nos quais esse processo se desenvolveu. O papel que os espaços escolares exerceram na formação dos primeiros padrões do esquema corporal das pessoas e nas primeiras experiências de sociabilidade é essencial na construção da memória biográfica (Escolano Benito, 2017, p. 186).
Julia (2001), ao tratar da cultura escolar como objeto histórico reflete que por meio das disciplinas escolares é possível:
identificar, tanto através das práticas de ensino utilizadas na sala de aula como através dos grandes objetivos que presidiram a constituição das disciplinas, o núcleo duro que pode constituir uma história renovada da educação. Ela, abre, em todo caso, para retomar uma metáfora aeronáutica, a ‘caixa preta’ da escola, ao buscar compreender o que ocorre nesse espaço particular (Julia, 2001, p. 13).
Organizando uma linha do tempo, compreendida entre os séculos XVI e XIX, em relação à padronização e modelos da cultura escolar, o autor apresenta informações sobre como foram sendo constituídos os estabelecimentos escolares, equipamentos específicos para esse espaço, a formação dos professores, os conteúdos e as práticas no contexto europeu (Julia, 2001). A sala de aula é parte relevante dessa organização. Impossível pensar na escola sem visualizar uma imagem da mesma. Esse espaço físico instiga investigações e interpretações. Para Escolano Benito (2017), em relação ao universo da educação, “[...] no essencial, a cultura resultante se codifica nas práticas observáveis no cotidiano das escolas, aquelas que se manifestam nas atividades dos alunos e no comportamento dos docentes” (p. 25). O espaço físico, em sua materialidade, dedicado ao ensino e aprendizagem:
A história cultural da educação desembocou -- como uma das vias ou derivas das diversas aproximações da escola, ensaiadas ao longo das últimas décadas -- na atenção aos objetos, às imagens, aos textos e às vozes, que são expoentes da realidade da vida cotidiana das instituições. Esses testemunhos das coisas e das pessoas compõem, precisamente, o patrimônio material e imaterial que o passado da escola legou. A conservação e a organização desse patrimônio conduziram à socialização dos conteúdos que o integram na memória educativa individual e coletiva (Escolano Benito, 2017, p.26).
Na literatura brasileira, há muitos autores que escreveram sobre suas memórias escolares, importantes para a compreensão dos seus processos formativos, mas também válidas como documentos que retratam uma determinada época e contexto social. De acordo com Burke (1992) “se os historiadores estão mais preocupados que seus antecessores com uma maior variedade de atividades humanas, devem examinar uma maior variedade de evidências (Burke, 1992, p.14). Entre os autores, temos: Raul Pompéia em O Ateneu (1888), Viriato Correa em Cazuza (1938), Helena de Morley em Minha vida de menina (1942), Gilberto Amado em História da minha infância (1958) e José Mauro de Vasconcelos em Meu pé de laranja lima (1968). Tais obras nos remetem a espaços temporais e geográficos diversos, mas com descrições de salas de aula muito semelhantes. Como os mencionados escritores, J. B. de Mello e Souza publicou livros nos quais suas memórias escolares ora influenciam, ora protagonizam em suas narrativas que compreendem, geograficamente, desde sua cidade natal, Queluz, situada no estado de São Paulo e que esteve no contexto da produção cafeeira no Império brasileiro (1822-1889), passando pelo Rio de Janeiro, Distrito Federal, do início do século XX e, ainda, por demais cidades do Vale do Paraíba Paulista, já no contexto da Revolução Constitucionalista de 1932. Conforme Amparo, Cândido, Lima (2022), em artigo sobre obras literárias, que remetem à escola e ao ensino, publicadas na primeira metade do século XX, aquelas:
expressam tanto as deficiências percebidas no sistema de ensino e nas práticas escolares ditas tradicionais, consideradas pelos educadores escolanovistas como ultrapassadas, quanto apresentam algumas das ideias disseminadas no campo educacional à época acerca de como as escolas deveriam ser transformadas para favorecer o desenvolvimento dos alunos (Amparo, Cândido, Lima, 2023, p.3).
As fontes analisadas, neste artigo, são duas obras literárias nas quais o autor, professor e escritor, narra suas trajetórias de quando era estudante e filho de uma família ligada ao magistério, e, uma obra ficcional onde a narrativa se constrói, nitidamente, inspirada em suas memórias, considerando as paisagens e personagens ligados à escola. Em relação às obras literárias como fontes, Moraes (1996) assinala sua importância “Não só pelos conteúdos veiculados, mas pela própria disposição em escrevê-los, os professores parecem atribuir aos seus romances um poder mágico de intervenção e modificação da realidade” (Moraes, 1996, p. 10). Ainda com relação aos usos de outras fontes e textos bibliográficos, compreende-se que a construção da narrativa histórica é favorecida pelos usos de fontes distintas, mas também pela escolha de conceitos capazes de estruturar os argumentos apresentados.
J. B. de Mello e Souza nasceu em 28 de maio de 1888, na cidade de Queluz, interior do estado de São Paulo. Seu pai, João de Deus de Mello e Souza (1863-1911), era proprietário do Colégio João de Deus que atendia os filhos dos fazendeiros da região, e sua mãe Carolina Carlos de Toledo Mello e Souza (1866-1925) era professora em uma sala de aula, da rede pública, que funcionava em sua casa. O casal teve nove filhos que conviveram cotidianamente com a rotina escolar, inclusive auxiliando a mãe.
J. B. de Mello e Souza foi escritor, tradutor, funcionário público do gabinete do Ministério da Justiça e Interiores, jornalista, bacharel em Humanidades e em Ciências Jurídicas, professor do Instituto de Educação do Rio de Janeiro e catedrático do Colégio Pedro II (Gabriel, 2020).
Dentre suas inúmeras obras, Majupira (1949) com o subtítulo Romance Brasileiro da Atualidade (1930 - 1934) é uma narrativa ficcional que conduz o leitor por uma viagem bucólica através do expresso da Rede Sul Mineira, trem de passageiros e cargas muito citado em suas obras, chegando ao povoado do Pequiri, descrito com paisagens da região vale-paraibana. A narrativa centra-se nas aventuras dos meninos do interior que criam um grupo nos moldes do escotismo1 e o batizam com as sílabas iniciais do nome da sua professora, formando um acrônimo -- Maria Julia Pimentel Ramos (MAJUPIRA) --, e diversificam-se entre as peraltices de antanho e a rotina escolar na sala de aula na casa da professora na zona rural.
Meninos de Queluz (1949), que tem como subtítulo Crônica de Saudade é um livro memorialista que foi premiado pela Academia Brasileira de Letras, Prêmio “Joaquim Nabuco”, em 1948. No ano seguinte, foram publicados pela Editora Aurora, no Rio de Janeiro, mil exemplares numerados e rubricados pelo autor. A obra narra as rotinas escolares inseridas no cotidiano da família no final do século XIX e início do século XX, pondo em relevo o contato dos irmãos do autor e dele próprio com as práticas escolares executadas pela mãe professora.
Estudantes do meu tempo (1958) oferece informações sobre o cotidiano escolar dos internos do então Ginásio Nacional, denominação da instituição de ensino no princípio da República. A obra também apresenta um subtítulo Crônicas do antigo Colégio Pedro II. Os relatos das irreverentes brincadeiras e traquinagens suavizam o aspecto de formalidade e rigidez do reverenciado Colégio Pedro II. Algumas passagens descrevem elementos das salas de aula frequentadas pelo autor nos primeiros anos do século XX, inclusive apresentando uma fotografia.
A análise das obras, a partir de elementos da História da Educação, tem os objetivos de identificar mudanças e permanências nas características da sala de aula, considerando espaços geográficos e recortes temporais entre o final do século XIX e meados do século XX, nos registros do escritor e professor. Para isso, aparece como relevante discutir sobre as diferenças que estão na obra ficcional e nas memorialistas no tocante à sala de aula e considerar as características apresentadas sobre as salas de aula das escolas isoladas do Vale do Paraíba Paulista e as do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Para tal, são referenciais os conceitos de cultura escolar (Escolano Benito, 2017; Julia, 2001), de cultura material escolar (Paulilo, 2019; Souza, 2013) e de grupo escolar (Souza, 1998), na medida em que permitem tratar dos elementos que, ao longo do tempo, foram conformando espaços, tempos, práticas e objetos para a constituição da sala de aula.
A sala de aula como objeto de estudos na História da Educação
Ao abordar a constituição da sala de aula como espaço de ensino, remetendo aos Estados Nacionais, Arriada, Nogueira e Vahe (2012) discutem que:
O espaço da sala de aula espelha essa dura realidade, ali na presença constante do professor, sob seu olhar, sob o seu controle, pouco resta aos alunos. Nesse espaço, uma relação permeada de disciplina, a distribuição do tempo é medida, as atividades escolares são executadas com uma regularidade assustadora e em etapas bem-delimitadas (Arriada, Nogueira e Vahe, 2012, p. 53).
A escola, em sua forma, compõe o imaginário coletivo com tal intensidade que “[...] a memória escolar ficou incorporada em alguns padrões de nosso comportamento, muitas vezes até mesmo sob a forma de respostas corporais” (Escolano Benito, 2017, p.178), sendo que “ [...] a funcionalidade dos elementos que compõem a cultura material das escolas chegaram a sobredeterminar práticas corporais, gestualidades, formas de escrita e grafismos, modos de oralidade, técnicas de cálculo e topologia” (Escolano Benito, 2017, p. 178). O aumento de interesse em seu estudo, na contemporaneidade, pode ser associado à:
A atual sensibilidade à materialidade dos suportes que dão um texto à leitura e aos artifícios de construção das fontes, quer elas sejam textos escritos, depoimentos orais, imagens ou artefatos, tem contribuído para a desnaturalização da instituição escolar. As pesquisas que se podem reunir nesse sentido respondem de muitos modos, aos desafios dos procedimentos de análise da denominada nova história cultural. (Paulilo, 2019, p. 03).
A partir de 1895, J. B. de Mello e Souza teve as primeiras experiências escolares, momento em que, de acordo com Souza (1998), a graduação da escola começava a se constituir como paradigma para organização da escola primária:
[No] final do século XIX e início do XX, a educação popular encontrava-se difundida em nível mundial e seguia os moldes da escola graduada baseada na classificação homogênea dos alunos, na existência de várias salas aula e vários professores (Souza, 1998, p.15).
No estado de São Paulo surgiam os grupos escolares, mas a escola de Meninos de Queluz (1949) é uma escola isolada2 também como em Majupira (1949) que, segundo o autor, foi escrito no contexto da Revolução Constitucionalista de 1932. Ambas as obras retratam cidades paulistas do interior, para as quais as escolas isoladas constituíam modelos perenes de organização escolar: “[...] a necessidade de escolas isoladas era um fato incontestável. Durante as primeiras décadas deste século elas sobreviveram à sombra dos grupos escolares nas cidades, nos bairros e no campo” (Souza, 1998, p.51).
Ao comparar as três obras aqui apresentadas, as salas de aula diferem em relação ao Colégio Pedro II quanto à estrutura física e a disposição dos estudantes em séries, sendo nas escolas isoladas turmas mistas com idades e séries diferentes estudando na mesma sala. Em uma ou outra, no entanto, a organização dos alunos sempre sentados, exceto quando respondendo chamadas orais, chamadas para presença, uso de livros, leituras em voz alta, realização de exercícios, declamações, eventos festivos e patrióticos são semelhantes. Souza (1998) afirma que:
O modelo de sala de aula para as escolas primárias predominante na maioria dos países, inclusive no Brasil, atendeu ao princípio da racionalidade funcional e a critérios disciplinares. Um apartamento retangular consolidou-se como a figura mais apropriada para a aula. A questão mereceu a atenção não só de arquitetos, mas de educadores, médicos e higienistas que recorreram a sua missão civilizadora de prescrever critérios e condições ideais de ar, luz, mobiliário e postura dos alunos (Souza, 1998, p.139).
Ao longo do tempo, alguns objetos foram sendo incorporados, outros transformados, mas alguns permaneceram. Atualmente, as salas de aula são equipadas com televisores, computadores, lousas digitais, quadros brancos para serem preenchidos com canetas próprias, mas resiste com função do quadro-negro. As carteiras individuais podem ser agrupadas quando necessário, no entanto, ainda podem ser encontradas enfileiradas. Estudantes têm à disposição uma variedade de materiais, para uso em sala de aula, permanecendo cadernos, canetas, lápis, borrachas, réguas e livros. As salas de aula com seus objetos, com o passar dos anos, podem revelar muito sobre a escolarização da sociedade. Paulilo (2019), ao escrever sobre material museológico e pesquisa, discute que:
Como os edifícios e a sua arquitetura, os objetos escolares têm provocado questionamentos em relação à compreensão da história da escolarização e da constituição de uma memória social desse processo. A forma como objetos tão simples quanto a mesa de areia, a ardósia, o lápis de pedra, a pena metálica, o lápis de grafite, o papel e o caderno recriaram a aprendizagem do escrever já tem seus estudos. Assim, também o mobiliário escolar provocou uma oportuna reflexão sobre os dispositivos disciplinares e os seus procedimentos corretores e de higienização. Mesmo os objetos mais pessoais como os cadernos escolares, os materiais de estudo e uniformes geraram pesquisas capazes de articular o uso destes aos rituais, às rotinas e às modalidades da memória social e institucional da escola. A presença do relógio de parede e a profusão dos materiais pedagógicos como os quadros parietais ou os sólidos geométricos, igualmente, importaram ao entendimento histórico da formulação das estratégias de ensino (Paulilo, 2019, p. 6).
Os livros de J. B. de Mello e Souza foram publicados entre 1938 e 1949. Não é possível afirmar que tenham sido escritos na ordem em que foram publicados, porém, nas descrições das salas de aula em suas memórias e na ficção apresentam materiais e recursos utilizados que remetem, inclusive, ao fim do século XIX em relação à escola que funcionava na casa dos Mello e Souza. A partir do objetivo sobre as mudanças e as permanências em relação à constituição da sala de aula e seus objetos o texto de Souza (2013) é esclarecedor. Ao abordar sobre tecnologia educacional nas décadas de 1960 e 1970, a pesquisadora elenca métodos, técnicas e objetos seguintes:
tecnologias sofisticadas, como os programas de teleducação e rádio educativo, e aos objetos didáticos mais simplificados: álbum-seriado, folhetos, flanelógrafos, gráficos, cartazes, diafilmes, diapositivos, filmes, exposições, rádio, imprensa, quadro-negro, fantoches, jornal de parede, dioramas, modelos, espécimes, sistema de alto-falante, jornal, revistas, dobradura, retroprojetor, mapas-relevo, fotografia, livro, hectógrafo, entelagem, pantógrafo, desenho, mural didático, figuras e ilustrações (Souza, 2013, p. 116).
Verifica-se que quadro-negro, desenho, figuras e ilustrações são os que constam nas obras. No século XX, surgem novos recursos mesmo que não acessíveis a todas as escolas.
Em A Escola como cultura: experiência, memória e arqueologia (Escolano Benito, 2017), há uma interessante seleção de fotografias que apresentam diversas escolas em diferentes recortes no tempo, espaço e condições arquitetônicas. Prédios escolares, mobiliário das salas de aula, cadernetas escolares e de professores, cadernos de atividades, livros didáticos, livros de leitura e tantos outros objetos do cotidiano da escola são muito importantes para arqueologia da escola tratada na obra de Escolano Benito (2017):
A arqueologia das materialidades da escola é uma via segura e confiável de imersão no mundo das práticas de formação, ou seja, um modo de aproximação real à exploração dos elementos ou das situações em que se ‘materializou’ o universo do escolar ou das representações que o registraram. Nos sítios arqueológicos que conservam esses restos de história material da escola, em geral já obsoletos, estão depositados muitos dos silêncios do passado educativo que nos interessa desvendar (Escolano Benito, 2017, p. 226).
Considerando tais aspectos, a literatura é uma aliada nesse processo arqueológico voltado para as salas de aula. Narrativas evidenciando o cotidiano escolar com suas práticas, seus conteúdos, seus objetos são fontes relevantes. Cândido (2011) reflete que:
a literatura tem sido um instrumento poderoso de instrução e educação, entrando nos currículos, sendo proposta a cada um como equipamento intelectual e afetivo. Os valores que a sociedade preconiza ou os que considera prejudiciais estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas (Cândido, 2011, p. 177).
As obras literárias do professor e escritor J. B. de Mello e Souza, assim como dos demais autores citados, oferecem pistas importantes que, junto da arqueologia da escola, desvendam as histórias das salas de aula em seus aspectos do ensino, da socialização, das relações e aprendizagens em diferentes contextos de tempo, espaço e materialidades.
Três narrativas sobre salas de aula entre a memória e a ficção
O crítico Antônio Cândido (2011), ao se referir à literatura, define que assim denomina “de maneira mais ampla possível, todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura” (Cândido, 2011, p. 176), listando de folclore, lendas até formas, consideradas por ele, mais complexas de escritas das grandes civilizações, o que nos leva a inferir a relevância desses registros para a história. As obras literárias como fontes suscitam reflexões importantes. Lopes (2005) afirma que:
A literatura pode oferecer para a história uma representação do estado da humanidade num determinado tempo, num determinado lugar. Costumes, opiniões, afetos, desavenças, homens e mulheres, crianças, um ou outro sexo ou gênero; efeitos privados dos acontecimentos públicos (que com mais propriedade se dizem históricos) (Lopes, 2005, p. 157).
Denice Catani (2023) reflete que “a ideia de procurar entender, mediante a literatura, dimensões variadas de nossas experiências, inclusive as que se dão na escola e pela escola, ou ainda, nos processos de formação em geral, ancora-se em diversos estudos (Catani, 2023, p.19). Relacionando às fontes aqui dispostas, a análise se ancora na consideração de “[...] que as descrições de experiências vividas pelos outros, sob a forma de autobiografias, relatos memorialísticos e de formação, podem também ser especialmente férteis no domínio educacional (Catani, 2023, p.19). Assim sendo, é uma contribuição importante, em sua diversidade de gêneros, que ao longo do tempo registra características, inclusive físicas, desse espaço constituído para o ensino. Para o pesquisador Escolano Benito (2017):
Para entender a escola, para compreender e interpretar o que ocorreu e ocorre entre seus muros, bem como a cultura que nela se inventou e recriou, é necessário inserir-se, obrigatoriamente, na vida cotidiana das instituições, mergulhar na observação sistemática do que se passar realmente dentro dos espaços que denominamos salas de aula e dos elementos que estruturam o cenário no qual se pratica a educação formal e não formal (Escolano Benito, 2017, p. 35).
O autor compartilha com seu leitor uma carta que recebeu do professor e pesquisador Santiago Petschen juntamente com um ensaio do mesmo intitulado El arte de dar clases, apresentando o fato de se escrever muito sobre educação:
Mas não da sala de aula, ‘sendo que a sala de aula é a cozinha de todo o edifício docente’. A título de exemplo, faz referência a um volume de quase mil páginas, publicado há pouco tempo na Espanha, que reúne mais de 60 trabalhos sobre diversos temas educativos, em que a ‘sala de aula somente figura como uma exceção’. Pois bem, o ensaio do professor Petschen busca resgatar essa inexplicável ausência, uma vez que a sala de aula, que ele considera uma ‘obra de arte menor’ - mescla de ‘lógica, magia, drama e retórica’ (Escolano Benito, 2017, p. 33).
Considerando a reflexão acima, contraditoriamente, são muitas as obras literárias memorialistas ou ficcionais em que seus autores trazem às linhas salas de aula. Conforme anotado no texto de apresentação dos livros da Coleção Saraiva, organizada pela editora homônima, em novembro de 1949, sob o volume número 17, foi publicado, em segunda edição, o livro Majupira (1949). A primeira edição foi publicada pela Editora Pongeti, em 1938. A Coleção Saraiva publicava títulos nacionais e estrangeiros, divulgando que o interesse era o de estimular os nomes brasileiros que difundissem obras com espírito nacional. Estão entre os autores: Pedro Calmon, Paulo Setúbal, Ciro dos Anjos, Galeão Coutinho, Menotti Del Picchia, Lucia Miguel Pereira, Malba Tahan e Orígenes Lessa.
Na apresentação da obra, o editor anuncia que se trata “[...] de um livro maravilhoso, que descreve rincões montanhosos e aprazíveis, as culminâncias da Serra da Mantiqueira no setor do famoso túnel”.3 Majupira (1949) conduz o leitor pelas aventuras das crianças do interior: escalar o Pico dos Marins, na cidade de Piquete, e defender a honra da professora, noiva do jovem doutor, vindo do Rio de Janeiro, Osvaldo Luna Moreira. Liderados por Pedro Luiz, descrito pelo autor como reservado e desconfiado -- J. B. de Mello e Souza o relaciona ao sertanejo nato, caracterizando-o como dominado pelos impulsos do coração.
A narrativa é emaranhada pelo embate do MAJUPIRA, o grupo de escoteiros mirins, contra o antiético inspetor de ensino Altino Soares, advogado, burocrata na Diretoria de Instrução do Estado, desvendando o cotidiano das cidades paulistas de Cruzeiro, Lorena, Cachoeira Paulista, Guaratinguetá, Queluz, Silveiras, Lavrinhas, Aparecida, Taubaté, Tremembé e Jacareí, no Vale do rio Paraíba do Sul até a serrania da Bocaina. Personagens estereotipados compõem a narrativa: Coronel José Alves, chefe político da região, um tipo ignorante e retrógrado; a professora rival da jovem Maria Julia, Elvira; o agente de correio Jarbas Feitosa; o agente da estação Genelício; Lucinha Freire; Afonso; Guaraciaba; Carlota Silvino; Marcelo e Glorinha, entre outros, desenrolam o enredo construído nos idos da década de 1930 (Gabriel, 2020).
A “sétima escola mista da zona rural do Cruzeiro [...] funciona na própria residência da professôra” (Mello e Souza, 1949, p. 95) e é apresentada ao leitor quando o doutor, vindo do Rio de Janeiro, é hospedado pelo pai dela na casa da família: “Minha filha que é professora estadual, está dando aula na sala vizinha à saleta de visitas, mas o senhor não perturba em nada” (Mello e Souza, 1949, p.13). Enquanto aguardava, o jovem doutor escutou o encerramento da aula:
-- Guaraciaba, dizia a professora, -- recolha os cadernos de linguagem do segundo ano. Vocês ai, já acabaram de copiar êstes exercícios? Vamos depressa, que eu preciso do quadro negro. Sebastiana, escreva direito, minha filha. Já lhe tenho dito que não é assim que se pega na caneta. Que barulho é êsse, Pedro Luiz? Maria Augusta, já passou sua dor de dentes? (Mello e Souza, 1949, p. 13).
Nas páginas seguintes, sabemos que uma das atividades do dia é a descrição do quadro dos bandeirantes, os “desbravadores do sertão”, e da execução de Tiradentes na aula de História. A professora encerra a aula com um tímpano sendo tocado três vezes. Entre os materiais disponíveis estavam: uma bandeira do Brasil confeccionada pela professora e algumas alunas; o livro de termos preenchido pelos inspetores de ensino, médicos e demais visitantes à sala de aula da escola isolada; um piano; um quadro escolar; cartilhas; e, cadernos de exercícios.
Dentre as atividades na sala de aula, era cotidiano fazer a chamada, cantar canções escolares e atenção à saúde das crianças. Diante das visitas à turma, as crianças se levantavam em saudação. Era também recorrente a declamação de poesias. A visita do inspetor de ensino ocorria com o objetivo de verificar os livros, o material escolar, o adiantamento da classe, os livros de matrícula e frequência (Mello e Souza, 1949). De acordo com Souza (2013):
A expansão contínua da rede de escolas primárias no estado de São Paulo nas primeiras décadas do século XX ocorreu por um processo de múltiplas diferenciações. Além dos diferentes tipos de escolas existentes -- escolas isoladas, grupos escolares, escolas modelos, escolas reunidas --, as condições de instalações e material se diferenciaram pela localidade onde elas estavam instaladas, se na zona urbana ou rural, dependendo ainda do desenvolvimento econômico e social regional (Souza, 2013, p. 107).
A autora segue anotando os materiais utilizados de forma sistemática: “[...] cartilhas e livros de leitura e as lições rotineiras empregando o quadro negro e giz, cadernos e lápis. [...] mapas e cartazes” (Souza, 2013, p. 107). Ao observar-se as ilustrações nas obras analisadas são esses os materiais mais citados.
Em Estudantes do meu tempo (1958), J. B. de Mello e Souza narra suas memórias de estudante do Ginásio Nacional, como era chamado o Colégio Pedro II4 no início do período republicano. Na sequência cronológica dessas publicações do professor, este foi o segundo. Seguindo esta ordem de leitura, as diferenças observadas em relação às salas de aula ficam em relevo. Trata-se de um colégio no Rio de Janeiro, capital do Brasil. Escola de ensino secundário frequentada por membros da elite brasileira e a narrativa ocorre na tinta do ex-aluno, agora catedrático da instituição. O livro nasceu, segundo o autor, a partir de um convite dos seus alunos:
Um dia, (já lá se vão alguns anos) fui procurado pelos dirigentes do “Grêmio Literário Mello e Souza”, do Internato do Colégio Pedro II.
-- Professor -- disse-me um deles -- nós fomos convidados a ocupar semanalmente o microfone da rádio emissora PRA-2, do Ministério da Educação, na ‘Hora do Estudante’. Contamos com o concurso de alunas do Externato, e até de outros estabelecimentos, para os números de música e canto. Queremos agora que o senhor tome parte em nossos programas (Mello e Souza, 1958, p. 07).
A apresentação do professor na rádio foi para contar as histórias do seu tempo de estudante no colégio no qual se ambienta a obra. A capa do livro (figura 01) traz a ilustração de um estudante com semblante aborrecido, entristecido, sentado em uma carteira antiga e com o braço apoiado à mesa da carteira, a mão apoia o rosto. Nas narrativas não há uma descrição focada na sala de aula, mas as atividades que lá acontecem oferecem informações importantes, por exemplo:
As aulas eram encantadoras palestras; com a vênia dos mestres, nós trazíamos suas cadeiras para bem perto do semi-círculo formado por nossas seis carteiras, e ali, em cordial e sereno convívio, na sala da frente, que era também o gabinete de História Natural [...], fazíamos nossas viagens pelos domínios da ciência, da arte, da fantasia (Mello e Souza, 1958, p. 185).
Elogios predominam nas referências aos mestres do secundário, com destaque para o conhecimento que possuíam, bem como para o tratamento exigente que dispensavam aos estudantes. De acordo com Cândido (2012), sobre os saberes profissionais dos docentes:
Estes devem ser, ainda, compreendidos em relação ao seu trabalho na sala de aula; a utilização que cada professor faz dos seus saberes acontece em função do seu trabalho e das situações que se apresentam cotidianamente, além dos recursos físicos e materiais que têm à disposição e condicionam esse trabalho (Cândido, 2012, p.147).
Alguns estudantes desenvolviam proximidade com seus mestres fossem por pendores intelectuais, fossem por relações de amizades das famílias, a ponto de serem convidados para frequentar suas residências em dias de folga (Mello e Souza, 1958). Também não faltam críticas aos professores mais sisudos, autoritários e, dentre eles, aqueles que cometiam “[...] injustiças flagrantes e caprichos incríveis” (Mello e Souza, 1958, p. 2016).
Numa página e outra, como cenário, apenas alguns elementos das salas de aula do Antigo Colégio de São Cristóvão, como chamavam a escola: corredores longos, refeitório, gabinetes dos professores e administradores, sala de estudo, todos citados sem detalhamentos. Numa das passagens sobre as visitas que seriam recebidas no prédio por conta do 3º Congresso Científico Latino Americano, em 1905, ao realizar-se a limpeza do prédio em que todos da escola tiveram que ajudar, o autor lhe descreve como “[...] remendando suas velhas taperas, na ansiosa expectativa dos novos edifícios que lhe prometem, para sua instalação condigna” (Mello e Souza, 1958, p. 210).
Ao relatar que auxiliaria numa aula do professor João Ribeiro, J. B. de Mello e Souza menciona o quadro-negro. Mais adiante, relata que a “sala de física, não obstante ser um pouco escura, é a maior que dispomos” (Mello e Souza, 1958, p.211) e havia a “[...] janela emperrada pela velhice” (Mello e Souza, 1958, p. 212). O quadro-negro é um elemento presente nas memórias escolares; como instrumento do trabalho docente faz parte do mobiliário escolar e, também, um espaço nas brincadeiras dos alunos que nele se expressavam (Bastos, 2005). Como pode-se observar na figura 2, o quadro-negro também é notado em fotografias escolares. A autora explica que:
Está presente nas famosas fotos de fim-de-ano escolar: aluno/aluna sentado na mesa da professora, tendo o quadro-negro ao fundo, a bandeira e o globo terrestre. Enfim, o cotidiano escolar passava e passa ainda hoje através desse dispositivo de escrita e de disciplina do emprego do tempo e do fazer escolar, da escola infantil à Universidade (Bastos, 2005, p. 135).
À página 51, há uma ilustração de uma das salas de aula: duas janelas altas, uma fechada e a outra aberta; duas fileiras de carteiras, sendo cada carteira ocupada por três estudantes; um dos estudantes tem um livro ou caderno aberto. À frente deles, o professor sentado, atrás de uma grande mesa sobre um tablado. Sobre a mesa um livro. Na parede atrás do professor, um mapa e ao lado de um estudante, sendo avaliado, o quadro-negro no cavalete (Figura 02). Nas páginas seguintes, observa-se alguns materiais e funções de algumas salas, como a tábua de logaritmos, os livros, o mata-borrão, os professores vestindo ternos, os estudantes de fardas e a sala dos explicadores:

Fonte: Acervo particular da pesquisadora.
Figura 02 Ilustração à página 51 do livro Estudantes do meu tempo (1958)
Nesta sala é que o Quintino
Com ar grave e doutoral,
Passa um pito no menino
Que não acha, em desatino
Uma oração principal! (Mello e Souza, 1958, p. 67)
À página 223, o autor reproduziu a imagem acima (Figura 03), foto esta que consta no álbum de fotografias de J. B. de Mello e Souza, disponível para a pesquisa5. J. B. de Mello e Souza é o estudante em frente ao quadro-negro, no qual está escrita a data de 1904. Ao observar a sala, vemos livros empilhados na cadeira, carteiras individuais, armários com portas de vidro com objetos diversos entre globo, busto e outros não identificáveis até o momento. Os três estudantes centralizados na sala usam farda, um uniforme escolar que remete às fardas das forças armadas. A sala em questão destoa das salas de aula ilustradas do livro em que se evidenciam um grande número de carteiras e estudantes. Infere-se, por não haver identificação no álbum, ser um dos gabinetes de leitura, estudos ou específicos das diversas disciplinas do Colégio Pedro II.

Fonte: Acervo particular da pesquisadora.
Figura 03 Fotografia no interior de uma das salas do Colégio Pedro II, 1904. A imagem foi reproduzida no livro Estudantes do meu tempo (1958).
Ao comparar estas informações com as de Majupira (1949), identificamos dois públicos distintos: um na escola primária na zona rural do interior de São Paulo e o outro numa escola secundária pertencente às elites do Distrito Federal. No primeiro, temos uma sala de aula que é, por si mesma, a escola. No segundo, temos uma escola na zona urbana, em uma construção ampla, repleta de salas para as diversas disciplinas. A presença de materiais também contrasta as duas salas: na primeira, predomina a voz da professora; na segunda, saltam aos olhos conjuntos materiais abundantes.
Em Meninos de Queluz (1949), temos uma sala de aula para ensino primário, como da escola em Majupira (1949), mas na zona urbana de uma cidade paulista produtora de café, Queluz, que está vivenciando os primeiros anos republicanos. Esta obra memorialista trata da família Mello e Souza. A mãe professora e sua escola são personagens importantes na composição do texto a ponto de o título preterido ser Os filhos da professora conforme original datilografado. A escola pública da professora Dona Carolina funcionava na sala de visitas da sua casa, “[...] tinha quatro janelas envidraçadas, abertas para a rua” (Mello e Souza, 1949, p. 21). Recebia as visitas dos inspetores de ensino para fiscalizarem seu trabalho e era frequentada, inicialmente, por meninas. Era composta por quadro-negro, livros, móveis escolares. Ainda, são citados os usos de lápis e carteiras. O recreio, geralmente, ocorria no quintal da casa.
Em uma ilustração encartada entre as páginas 40 e 41 do livro vê-se uma cena da sala da professora Dona Carolina com um quadro-negro, mesa, mapa na parede e livros, cena idealizada, pois não há as alunas da professora representadas, mas seus filhos estudando enquanto a professora faz anotações para a aula do dia seguinte. À página 86, outra gravura em que aparece novamente o quadro-negro, o globo e nesta um cavalete grande com folhas, nas quais estão desenhos servindo de ilustração para um garoto contando histórias para várias meninas, a maioria, sentadas no chão (Mello e Souza, 1949). Na sala de aula de Meninos de Queluz (1949) é recorrente a poesia, declamações, desenhos, cantigas e muitos livros. O autor reforça na narrativa que foi esse cotidiano da mãe professora e sua sala de aula que influenciaram os filhos para a escolha do magistério.
Considerações finais
Em suma, as três obras analisadas apresentam elementos que nos possibilitam perceber as mudanças pelas quais passaram as salas de aula. Antes instaladas nas casas dos mestres, conforme a graduação do ensino se afirma como modelo de organização escolar (Souza, 1998), passam a contar com prédio próprio. A divisão espacial considera salas específicas para as diversas disciplinas, o que evidencia a relação bastante aproximada entre os saberes que a escola tem como intuito transmitir e a organização dos edifícios (Julia, 2001).
No entanto, vemos também, nas linhas de J. B. de Mello e Souza, reminiscências que insistem em permanecer, mesmo diante das mudanças. O controle dos corpos é visível em descrições que remetem tanto ao fim do século XIX quanto às primeiras décadas do século XX. A perspectiva disciplinar aciona tecnologias diferentes à medida que as escolas passam a contar com mais recursos, no entanto, permanece como uma prática a ser inculcada pela escola (Julia, 2001).
Nas narrativas literárias de J. B. de Mello e Souza, publicadas, inicialmente, entre 1938 e 1949, encontram-se aspectos das salas de aula e os movimentos entre os discentes e os docentes ocorridos no recorte temporal de aproximadamente 1895 a 1949, que corroboram inferências sobre como a escola manteve tradicionalismos ao longo do tempo, assim como abriu-se para as mudanças.
É relevante considerar que o escritor e professor lecionou para estudantes do antigo primário, secundário, formação de normalistas e universitários, desde 1914 até a década de 1960, em instituições públicas e privadas do Rio de Janeiro. Verifica-se nos textos uma constância de objetos e organização da sala de aula nas três obras: professoras ministram as aulas nas escolas isoladas para o ensino primário e professores no Colégio Pedro II para o ensino secundário. Evidencia-se na obra Estudantes do meu tempo (1958) que os mestres são oriundos de diversas formações como engenharia, medicina, direito e também muitos formados na própria instituição. Em Majupira (1949), a professora formou-se em uma escola normal.6 Apesar da distância cronológica na narrativa das memórias da escola da mãe do autor em Meninos de Queluz (1949) e da obra de ficção Majupira (1949), as duas escolas são semelhantes, mesmo a obra sendo situada em 1932.
A despeito da constatação de Escolano Benito (2017), para o qual a sala de aula figura como pouco atrativa para muitos dos trabalhos que se dedicam a compreender a escola, as obras ora analisadas abundam em descrições e em reflexões sobre esse espaço do ensino. Nesse sentido, argumenta-se pela relevância que as obras literárias têm para uma história da educação atenta à cultura escolar em suas práticas, espaços, tempos e materialidades (Lopes, 2005). O potencial da literatura está justamente em fornecer um material de análise que mescla descrição e relato, evidenciando o quanto a sala de aula está presente nas rememorações daqueles e daquelas que tiveram parte significativa da sua infância engolfada pela escola.










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