Este texto, como os demais que integram este número especial dos Cadernos de pesquisa, surge de uma proposta encaminhada pela editora da revista, solicitando, a diferentes pesquisadores, uma análise crítica dos estudos e ensaios publicados nos CP sobre um determinado tema. Coube-me o da alfabetização.
Este texto analisa os mecanismos de financiamento de programas educacionais para a faixa etária dos 0 aos 6 anos adotados na década de 80, no contexto mais amplo do financiamento das políticas sociais no país, e considerando a pulverização dos programas voltados à infância, disseminados pelas áreas de previdência social, saúde, trabalho, educação etc. O quadro esboçado revela grande instabilidade nos financiamentos, gerando desperdício de esforços e recursos, onerando freqüentemente a própria população caracterizada como carente e permitindo apontar entraves a serem superados, para alcançar formas de financiamento compatíveis com um sistema educacional mais democrático.
A avaliação muitas vezes é confundida com aplicação de testes ou provas, mesmo por pessoas que integram o contexto educacional e que nem sempre consideram a complexidade apresentada pelo quadro avaliativo em Educação. O assunto costuma ser objeto de controvérsias, sobretudo pela carência de uma teoria geral da avaliação. Sua primeira dimensão, centrada no estudante, procura verificar aspectos diversos: cognitivo (formativo e somativo) e não cognitivo (atitudes, interesses e aptidões), usando instrumentos vários (norma e critério), com formatos os mais variados. Essa avaliação, as vezes realizadas com extremas ligeireza, tem as suas implicações: aprovação, reprovação e evasão escolar.
A partir de uma abordagem epistemológica, o artigo discute a problemática da divulgação científica escrita. Com base em exemplos extraídos de textos destinados aos jovens e ao público leigo em geral, aponta a existência de três tendências no tratamento da informação científica: a dramatização ou sensacionalismo, a mistificação e a banalização. Considerando-as tipos genéricos, busca avaliar os reflexos negativos que estas distorções conferem à viculação de conhecimentos científicos, comprometendo gravemente a função educativa que tal divulgação atualmente cumpre.
O presente artigo busca definir um campo de pesquisa sobre a "fronteira moral da intimidade", na interseção do estudo das condutas humanas a respeito do falar-de-si ou calar-sobre-si com o do juízo moral que regula essas condutas. O texto apóia-se em pesquisa sobre o tema da confissão do delito, uma das formas normatizadas do falar-de-si. Foram feitas entrevistas clínicas com 70 crianças, de 6 a 14 anos, sobre um dilema envolvendo punição em situação escolar. Os dados mostram que, a partir dos 8 anos de idade, a confissão pública polariza os juízos das crianças, que a consideram a punição mais penosa; as opiniões se dividem no que tange à correção moral desta forma de castigo. Discutem-se também decorrências pedagógicas, mostrando que causar vergonha é um efeito inevitável em toda punição, mas que sua prática, através de humilhação explícita ou pública, pode trazer efeitos danosos ao desenvolvimento das crianças menores.
Examina-se a associação entre desenvolvimento motor amplo de uma amostra de crianças pelotenses com 4 anos de idade e a renda mensal de suas famílias. Entre as 305 crianças testadas através das Escalas de Desenvolvimento Mental de Griffiths, as pertencentes ao grupo de renda mais baixa (até 1,5 salário mínimo) apresentaram uma pequena defasagem na área de motricidade ampla, quando comparadas com o restante da amostra. Embora se reconheça o viés sócio-econômico da maioria dos testes psicológicos, argumenta-se que a escala utilizada seria menos afetada por esse viés e que os resultados da investigação refletem o processo de dominação sofrido pelas classes desfavorecidas.
No cotidiano da sala de aula, o erro é geralmente encarado de forma demasiado limitada, apenas como avaliador do desempenho acadêmico de alunos. Este artigo relata uma pesquisa em que o diagnóstico e análise de erros em Matemática atuam na identificação de níveis de dificuldade da aprendizagem, na avaliação e orientação do processo ensino-aprendizagem. Em torno da operação de subtração, aplicou-se um teste para identificar níveis de dificuldade a alunos de 3ª a 6ª séries de 11 escolas públicas em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro. A análise dos erros revela que uma boa compreensão da estrutura de nosso sistema de numeração implica bom desempenho nas contas, mas a recíproca não é verdadeira, permitindo avançar sugestões para o ensino em sala de aula.
Para quem viveu o dentro e o fora da revista durante muitos anos, como é o caso de uma das autoras deste artigo, revisitar os textos publicados talvez tenha um sentido bastante especial: recordações sobre a história não escrita de cada número e de trabalho retornam devagar, vão se avolumando e impregnando a leitura atual dos artigos, confundindo-se com seu conteúdo. O diálogo entre as autoras deste ensaio foi assim fundamental, no sentido de explicitar um olhar mais crítico sobre as matérias, interrogar os lugares e as ausências dos vários temas e buscar uma análise mais isenta.
A temática das relações entre educação e trabalho freqüenta os Cadernos de Pesquisa a partir do segundo ano de sua existência, mas o faz sob diferentes configurações, que ora explicitam a preocupação em abordá-la, ora a ela se referem implicitamente, no bojo da discussão sobre outros temas que com este se articulam em maior ou menor grau. Tal situação decorre não só de caráter extremamente abrangente da temática, que torna seus limites pouco precisos, como também das inúmeras inter-relações que enseja entre áreas do conhecimento e objetos de estudo.
Este estudo examina as condições de consolidação do ensino de 1º grau a partir da reforma dos anos 70, no Estado de São Paulo, onde a participação dos municípios em sua manutenção direta é a menor do país. Com base em dados secundários e estudos de caso, analisa a participação do estado e municípios quanto à oferta de vagas, contratação de pessoal operacional e serviços de apoio ao educando. A análise das formas de relacionamento entre estado e municípios, assim como da complexidade na alocação de recursos aos vários níveis de ensino nas diferentes esferas, permite avançar sugestões para o processo de descentralização visando a melhoria da qualidade do ensino fundamental no estado.
Este texto discute a contribuição da noção de família patriarcal, a partir da forma como Gilberto Freyre a construiu, para pensar a questão da moralidade familiar entre pobres urbanos. Dialogando com a produção recente sobre a família (e embora estudos empíricos refutem a prática deste tipo de organização familiar nas camadas de baixa renda), argumenta com a atualidade e operacionalidade da noção de família patriarcal como modelo ideológico na análise das relações internas à família.
O artigo analisa o processo histórico e o padrão de estruturação da administração da educação no Brasil, a partir de dois elementos socialmente objetivados: a formação e os decorrentes títulos que sancionam o exercício profissional, e as regras ou procedimentos de introdução no mundo profissional. Através do exame da legislação pertinente, e da análise de dados e informações obtidos em 1990, diretamente junto à 6ª DEMEC e às instituições de ensino superior no Rio Grande do Sul, propõe-se uma periodização tentativa para a história da formação do administrador escolar no país.
A tecnologia em si, ou a introdução de novas tecnologias, não podem ser tomadas como variáveis independentes, provocando mudanças no perfil do emprego e da mão-de-obra. À luz dos exemplos da indústria automobilística, metal-mecânica e micro-eletrônica brasileiras, este artigo analisa os impactos de novas tecnologias sobre o trabalho e a qualificação profissional, mostrando como intervêm as estratégias e a organização adotadas pelas empresas, e como incidem diferentemente sobre mulheres e homens na indústria.
Do total de mais de seiscentos artigos publicados em toda a coleção dos CP até o presente, há dois artigos de autoria feminina para cada artigo de autoria masculina, excluindo os que foram produzidos coletivamente por integrantes de ambos os sexos. (De fato, não só na produção sobre educação, mas no sistema de ensino e na socialização das crianças em geral, a presença feminina é majoritária e notória) No entanto, pouquíssimos artigos integram a perspectiva de análise das relações de gênero ao discutirem a educação. Este texto reflete sobre as relações entre a produção publicada nos CP sobre mulher e educação e a presença feminina nas questões educacionais.
As transformações sócio-econômicas que afetaram a França nas últimas décadas, em especial a mudança na composição étnica da população, repercutiram em mudanças no sistema educacional, abalando os princípios sobre os quais se erigiu a escola da República. Este artigo faz uma breve retrospectiva dessas mudanças, apresentando as atuais propostas e projetos em implantação, num oportuno contraponto à encruzilhada em que se encontra a educação em nosso continente.
O maior desafio da educação brasileira parece residir ainda no ensino fundamental. Nele deságuam os problemas do curso secundário que forma os professores de 1° a 4º série e da universidade, responsável não apenas pela produção dos docentes de 5º a 8º série, mas também por pesquisas que subsidiem as políticas públicas para aquele setor. Ao longo de todo o século XX, muitos já tentaram desatar este nó. A revista Cadernos de Pesquisa também.
O embate sobre o papel do Estado na educação brasileira atravessa toda nossa história republicana. Buscando a genealogia das diversas argumentações em torno da laicidade ou da gratuidade do ensino, à luz dos textos constitucionais e das LDBs, este artigo analisa os vários discursos de defesa do ensino privado, identificando as principais tendências aí presentes.
O debate que se trava nos anos 50 sobre a municipalização do ensino primário, e conta com Anísio Teixeira como o seu principal defensor, tem como pano de fundo as condições objetivas criadas pela descentralização decorrente da Constituição de 1946 que, propugnado a autonomia dos municípios, chega a designar-lhes o maior montante de recursos até então a eles atribuídos. Inspirado no federalismo norte-americano, esse autor pleiteia a implantação do ensino fundamental de regime único: o municipal, tendo como pressuposto uma real transferência de poderes e recursos à instância local (Paiva e Paiva, 1986).
A partir da identificação das principais tendências nas abordagens adotadas pela pesquisa educacional no continente desde a década de 60 até os dias atuais, discutem-se os desafios conceituais a serem enfrentados pelos esforços de pesquisa nos anos vindouros, enfatizando e ilustrando a necessidade de superar a defasagem entre as abordagens macro e micro no estudo de fenômenos educacionais. Examinando questões como a formação de pesquisadores, o financiamento, as relações entre redes, pesquisa educacional e elaboração de políticas públicas, apontam-se relevantes melhorias necessárias no quadro institucional para aumentar a capacidade de a pesquisa educacional lidar com aqueles desafios, tendo sempre em mira a preocupação com as oportunidades dos setores desprivilegiados e com a construção da ordem democrática na região.
Análises e discussões sobre questões ligadas diretamente a pesquisa educacional tem sido constantes nesses 20 anos de publicação dos Cadernos de Pesquisa. São 42 artigos, nos 78 números editados até aqui, que tratam especificamente essa temática. Boa parte dos trabalhos (39%) faz discussões sobre questões de teoria e de métodos e, de 1984 para cá, alguns artigos tratam o que poderíamos chamar de crise, quanto a qualidade da pesquisa produzida e seu impacto.Nessa trajetória de 20 anos, poderíamos destacar alguns momentos em que análises ai publicada serviram de verdadeiras balizas para compreensão da problemática da pesquisa educacional no país.