A complexidade de ensinar ciências em salas de aulas inclusivas é evidenciada pela falta de preparo dos professores e das escolas em transpor a linguagem científica para as pessoas com diferentes necessidades de aprendizagem. Dialogar com professores formadores é uma iniciativa que tem por intuito incentivar essa discussão em um espaço em que ela não acontecia. Nosso objetivo consistiu em analisar concepções sobre alfabetização científica e temas em educação inclusiva nos discursos de professores formadores de ciências (Biologia, Física, Matemática e Química), em uma instituição de Ensino Superior em Jataí, Goiás. Foram realizadas entrevistas, gravadas em áudio, transcritas e analisadas a partir da Análise de Conteúdo. Os professores compreendem a alfabetização científica como fundamental para os cidadãos, e interpretam que todos os cidadãos têm direito a aprender ciência. Portanto, devem existir soluções para que essa alfabetização científica aconteça de modo eficiente, e que professores devem ser formados para isso.
O presente texto apresenta uma reflexão sobre os significados atribuídos à expressão alfabetização científica. Nele retomamos a origem histórica das expressões letramento e alfabetização, seus respectivos significados na área de linguagem e os desdobramentos desses significados para o ensino da língua portuguesa no contexto escolar. Em seguida, analisamos as implicações da apropriação do conceito de alfabetização no âmbito do ensino das ciências, e apresentamos proposta delimitando os usos do termo alfabetização científica, além de esclarecimentos sobre em que ele consiste. Argumentamos que alfabetização científica diz respeito a tudo aquilo que envolve a escrita e a leitura de texto científico, como a construção de entendimento e a análise das informações. Advogamos que a alfabetização científica está atrelada à alfabetização na própria língua, e que o ensino de ciências deve ser concebido à luz de objetivos educacionais mais amplos que o aprendizado de ciências per si (conhecimentos e procedimentos).
As analogias no âmbito da educação, em particular nas ciências da natureza, podem ser consideradas um recurso com grande potencial didático no processo ensino-aprendizagem, já que têm a função de auxiliar o aluno na compreensão de conceitos e fenômenos desconhecidos, por meio de comparações de atributos de similaridade com outros já conhecidos. Tendo em vista que os livros didáticos são, em muitos casos, o principal material utilizado, esta pesquisa teve como objetivo identificar e analisar as analogias do Livro Didático Público de Química do Estado do Paraná. Como resultados, foram encontradas vinte e cinco analogias, abrangendo diferentes tópicos de Química do livro. Os tópicos que apresentaram predominância de analogias foram os de ligações químicas e estrutura atômica. De acordo com o critério nível de enriquecimento, vinte e duas das analogias encontradas são simples, ou seja, compartilham um único atributo.
Este artigo apresenta resultados de uma pesquisa relacionada com a utilização de recursos digitais para a aprendizagem dos conceitos de proporcionalidade. A principal base teórica para esta análise é a Teoria dos Campos Conceituais, de Gérard Vergnaud, e a metodologia escolhida é a Engenharia Didática. Os sujeitos da pesquisa são alunos de uma oitava série de uma escola municipal situada no interior do Rio Grande do Sul. Tem-se o relato de uma das atividades com a análise das construções conceituais dos alunos utilizando o software geoplano virtual. Observou-se que, na resolução das situações, nem sempre o campo conceitual pôde ser construído de forma abrangente, evidenciando um processo de construção de conhecimentos que não se dá de forma linear.
Este artigo relata resultados de uma pesquisa de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Uberlândia, na qual se buscou compreender a possibilidade de desenvolvimento profissional, por meio da análise de uma proposta coletiva de formação continuada de professores de Ciências, que se configurou em uma ação de caráter colaborativo entre universidade e escola. Analisou-se, ainda, o potencial do envolvimento entre professores da Educação Básica e pesquisadores da Universidade, na transformação da prática docente. A opção metodológica situou-se nos domínios da abordagem qualitativa, na sua modalidade de Estudo de Caso do tipo etnográfico. A análise dos dados apontou que a profissão docente e o seu desenvolvimento profissional constituem elemento fundamental para assegurar a qualidade do processo ensino-aprendizagem, e a necessidade de que o desenvolvimento profissional seja concebido como um processo coletivo e colaborativo, consistindo em possibilitar, aos professores, a construção de novas teorias e práticas pedagógicas.
Identificando a ruptura no desenvolvimento da ciência entre o contexto de descoberta e o contexto de justificação, julgamos poder entender melhor a dominação do ensino transmissivo da ciência em contexto escolar e melhor argumentar para a sua superação. Por outro lado, o argumento que aqui defendemos para recuperar, para o contexto de sala de aula, a fortíssima chama cultural que a ciência transporta nos seus conceitos, leis e teorias, bem como no seu próprio processo de desenvolvimento, tem uma tradição enraizada na cultura portuguesa que exploramos.
Discutimos a identidade do Ensino Fundamental II a partir de consultas a documentos oficiais e a algumas pesquisas sobre o tema, e apontamos a tarefa da alfabetização - ainda que com enfoque diferente daquele empreendido no Ensino Fundamental I - como um possível elemento definidor dessa identidade. Como o conceito de alfabetização não é consensual, utilizamos a proposição do domínio dos signos e dos códigos proposto pelo semiólogo e filósofo francês Roland Barthes, o qual prevê forte dose de emoção e subjetivação nesta tarefa; além de levarmos em consideração as características da sociedade pós-industrial que afetam a todos nós, sobretudo os nossos alunos. Com isso, realizamos um exercício teórico acerca de como o Ensino de Ciências, em suas especificidades, pode contribuir tanto para a própria sedimentação dessa identidade, quanto para a ação alfabetizadora nesse nível de ensino.
O presente estudo tem como objetivo analisar como os licenciandos lidam com temas controversos que poderiam ser discutidos com seus futuros alunos, sobretudo a metodologia a ser utilizada em sala de aula. O percurso metodológico consistiu na aplicação e análise de um questionário com questões abertas, relacionadas a quatro casos com conteúdos dilemáticos aplicados a 32 licenciandos de Ciências e Biologia, pertencentes a três Instituições de Ensino Superior do município de São Paulo. Os dados apontaram que os licenciandos conseguem perceber conflitos éticos nos casos, porém não explicitam as estratégias de como abordá-los. Para os licenciandos, o professor tem um papel central, como expositor dos temas. Assim, a formação inicial pouco tem contribuído na instrumentalização dos futuros professores no exercício de tomada de posição e o convívio com a divergência. Destaca-se a importância da Bioética na socialização do debate científico e como um valioso instrumento metodológico no ensino de Ciências.
Quando se fala em usar ficção científica em aulas de física, o filme 2001: uma odisseia no espaço, dirigido por Stanley Kubrick, aparece como referência mais ou menos obrigatória. Nosso objetivo é argumentar que o interesse da comunidade de educadores em física por esse filme é consequência de uma escolha narrativa de Kubrick e de Arthur Clarke, o prestigiado escritor de ficção científica que, junto com o diretor, elaborou o roteiro. Mostramos, empregando instrumentos teóricos derivados da semiótica greimasiana, que, nesse particular segmento da obra, a opção foi expressar uma determinada visão sobre o ser humano e sua relação com o mundo físico por meio da ciência. Concluímos que uma obra como a de Kubrick vai muito além de um recurso didático atraente, sendo uma referência cultural importante, uma narrativa sobre a ciência e os desejos humanos, expressos na ideologia de uma sociedade que se sustenta no conhecimento científico.
O rápido avanço das pesquisas científicas tem possibilitado que novos conhecimentos sejam assimilados, e que antigas teorias e hipóteses reformuladas. É inquestionável a importância dos livros didáticos enquanto objeto pedagógico na formação do cidadão. Por conta disso, torna-se imprescindível que estes sejam constantemente reavaliados, no que tange a seu conteúdo. No presente estudo, foram avaliadas as diferentes formas pelas quais os livros didáticos de Biologia abordam o tema biodiversidade. Para realizar esta pesquisa, foram utilizados livros didáticos, os quais fazem parte do catálogo do Programa Nacional do Livro do Ensino Médio (PNLEM). Observamos que alguns tópicos relacionados ao estudo da biodiversidade são apresentados de maneira superficial e, por vezes, equivocada. Também ficou evidente que os livros didáticos analisados neste estudo tratam de um mesmo assunto com abordagem e profundidade diferentes. Isto sugere que adoção de um único livro didático nas escolas pode comprometer o processo de aprendizado do aluno.
El propósito de esta investigación fue identificar y caracterizar las concepciones del professorado sobre ciencia y género. Para lograr este objetivo se realizo un estudio de casos colectivo a través de un Curso Taller de Formación Docente en la ciudad de Santiago de Chile. La información recolectada incluyó las respuestas a dos cuestionarios, el discurso del profesorado en los talleres de reflexión docente y la observación directa de la interacción en el aula. El análisis descriptivo interpretativo, permitió identificar perfiles conceptuales de cada caso participante y evidenciar cómo dichos perfiles cambiaban a través del desarrollo de la investigación. Sí bien se encontró que aún persiste una visión androcentrica de la ciencia en el profesorado, al parecer la incorporación de sesiones de reflexión teórica sobre el tema pueden contribuir favorablemente tanto en el cambio de las concepciones como a las práctica pedagógicas.
Este trabalho apresenta parte dos resultados de uma pesquisa desenvolvida com alunos de graduação de diferentes regiões do Estado de São Paulo, que buscou entender melhor as relações entre a sociedade e as concepções e atitudes frente ao desenvolvimento tecnológico. Constatando que mídia, academia e documentos oficiais que regulamentam a educação entendem e apresentam a tecnologia de forma distinta e, muitas vezes, contraditórias, este trabalho busca fazer uma revisão bibliográfica sobre as diferentes formas de conceituar este termo, para, a partir de então, desenvolver uma escala de Likert para o mapeamento das concepções de estudantes. Utilizando a análise confirmatória da Modelagem de Equações Estruturais, este trabalho conclui que a amostra pesquisada apresenta uma visão clássica, mas ultrapassada, do que venha a ser a tecnologia, associando ciência e técnica sem distinções ou pontos de vistas críticos.
Os temas ligados ao ofidismo são bastante enfatizados entre os assuntos da saúde pública. Partindo da premissa de que biólogos devem possuir conhecimento básico sobre identificação de serpentes, e noções sobre sintomatologia e tratamento de acidentes com estes animais, verificamos os conhecimentos teóricos e práticos sobre ofidismo entre alunos dos cursos de Ciências Biológicas do Estado do Ceará. Foi aplicado um questionário com questões teóricas e práticas, abordando a temática do ofidismo, a 67 alunos de três Instituições de Ensino Superior, que haviam cursado as disciplinas curriculares que abordavam serpentes. Os dados obtidos demonstraram pouco conhecimento do tema pela maioria dos entrevistados, que apresentaram conceitos obsoletos e incorretos, desconhecendo conceitos básicos sobre a biologia destes animais, e dificuldades para diferenciá-los de outros animais serpentiformes. Sugere-se inclusão mais efetiva do tema no Ensino Superior, uma vez que o ofidismo é um problema presente em todas as regiões do Brasil.
Discutem-se as aplicações pedagógicas do computador no ensino de geometria por meio de um software de representações dinâmicas. Trata-se do relato de uma investigação voltada para fazer emergir contratos e destratos entre informática e educação matemática, por meio de observações e entrevistas realizadas com alunos e uma professora em uma escola de Educação Fundamental na cidade de Brasília, DF, Brasil. Os resultados da investigação indicam diferentes possibilidades de trabalho pedagógico na área, suscetíveis de fazerem com que os contratos sobrepujem os destratos.
Nos últimos anos, muitos autores têm discorrido sobre o papel dos valores nas atividades científicas. Ao se buscar por novas maneiras de se compreenderem os motivos, processos e resultados dessas atividades, considerável relevância é atribuída ao fato de que as práticas científicas devem ser compreendidas segundo seu contexto histórico-social. Pautando-se na pertinência de pesquisas comprometidas com o estudo das influências axiológicas na dinâmica da Ciência, apresenta-se, neste artigo, uma discussão acerca do papel que os valores cognitivos podem desempenhar na compreensão de uma teoria biológica - seleção natural - mediante uma síntese histórico-epistemológica e demais aportes histórico-filosóficos, com o objetivo de investigar o desenvolvimento de uma nova estratégia de abordagem para o ensino dos conteúdos evolutivos no ensino de Biologia.
Este artigo situa-se no âmbito da discussão sobre a contribuição da teoria sócio-histórica na análise dos processos de ensino-aprendizagem com o público de jovens e adultos, enfatizando a formação de conceitos e a importância da palavra nesse processo. As reflexões originam-se de um trabalho desenvolvido em um curso técnico integrado ao Ensino Médio na modalidade de Jovens e Adultos na disciplina de Química. Uma proposta didática estruturada no tema vivencial A Química dos Alimentos foi elaborada e implementada, criando um diálogo entre os conteúdos abordados e a vivência dos alunos. Utilizou-se, como principal referencial, a teoria sócio-histórica de Vigotski e a análise de discurso proposta por Bakhtin. A análise das interações discursivas mostra as dificuldades desse público em lidar com o pensamento abstrato, do que se depreende a necessidade de uma profunda reflexão teórica acerca de propostas didáticas e curriculares para a Educação de Jovens e Adultos.
A atual crise ambiental planetária sinaliza a tendência de que a humanidade deverá conviver, cada vez mais, com as catástrofes ecológicas. Assim como as diversas esferas da sociedade precisam estar preparadas para lidar com essas situações, a mídia deve estar pronta para contribuir na ampliação do debate público e na busca por soluções. Nessas circunstâncias, o grande desafio dos meios de comunicação de massa tem sido abordar os conceitos ligados à ciência ambiental, por se tratar de uma área de conhecimento nova e complexa. Para contribuir com o tema, a pesquisa estudou a cobertura jornalística, realizada pela mídia impressa, de um evento que envolveu a mortandade de peixes num estuário de Natal-RN. A análise de conteúdo jornalístico identificou o tratamento um tanto precário dos conceitos científicos capazes de fundamentar os reais motivos relacionados à mortandade de toneladas de fauna aquática, contribuindo pouco para a formação e educação ambiental dos leitores.
Apesar da associação entre investigação e Ensino de Ciências ser idealizada desde o início do século XX, não necessariamente consiste em uma prática amplamente utilizada nas escolas, nem aplicada com os mesmos objetivos. Desse modo, considera-se relevante que pesquisadores se debrucem sobre o contexto brasileiro e verifiquem como essa união ocorre. Este trabalho investigou quais são os desafios enfrentados e as estratégias utilizadas, por dois professores diferentes, durante a implementação de um único projeto investigativo, para se adequarem à realidade da escola, nível de ensino e ao contexto cultural existente. Os dados que subsidiaram esta pesquisa foram obtidos através de fontes primárias (entrevistas, questionários) e secundárias (portfólios, produções dos alunos, fichas, relatórios e observações). Percebeu-se que o mesmo projeto foi implementado de maneira bastante distinta entre um professor e outro, que realizaram adaptações de acordo com sua experiência profissional e com o nível de ensino de seus alunos.
O atendimento escolar hospitalar foi instituído enquanto política no Brasil através do Estatuto da Criança e do Adolescente. Em Santa Catarina, há classes hospitalares desde o ano de 1999. A Classe Hospitalar do Hospital Infantil Joana de Gusmão, em Florianópolis, foi pioneira em instituir um atendimento escolar, tendo como princípio o desenvolvimento de atividades curriculares. O texto apresenta e discute o ensino de Ciências desenvolvido na classe hospitalar, em uma experiência pioneira de um grupo de pesquisa em integração com equipe pedagógica do hospital. A pesquisa foi qualitativa do tipo estudo de caso e desenvolveu-se com o objetivo de caracterizar a atividade docente neste espaço educacional. Apresentamos resultados referentes a estratégias de ensino e atividades didáticas utilizadas. Na análise, apontamos problemas e possíveis caminhos para o desenvolvimento de práticas pedagógicas neste tipo de ambiente escolar. Ao final do trabalho, apontamos temáticas e recursos com maior sucesso de uso neste contexto.
A visão reducionista, implícita no ensino tradicional de Física - o mundo reduzido a partículas -, repercute e embasa uma percepção reducionista da sociedade, como simples soma de indivíduos. Desse modo, podemos entender o significado social e político do currículo e de que forma a escola e as práticas educativas interferem na sociedade. Neste trabalho, faremos a crítica ao atual modelo hegemônico de Ensino de Física e, em particular, ao reducionismo mecanicista, com base em uma compreensão histórica e dialética da relação do simples com o complexo, como o ponto de partida para o conhecimento inter e transdisciplinar; e discutiremos o ensino baseado no dialogismo e na consequente democracia real em sala de aula como caminho para sua conscientização e emancipação dos alunos e do professor. Partiremos da teoria Dialógica de Bakhtin para repensar o ensino de Física, do currículo à prática pedagógica.