Chauí, no livro Convite à Filosofia, lança uma questão instigante para os educadores: não seria a educação ética uma forma de violência contra o ser humano? Primeiramente, porque visa transformar-nos de seres passivos em ativos; se nossa natureza é passional, impulsionada por nossos instintos, forçar-nos à racionalidade ativa não seria violência contra a natureza espontânea? Se a educação ética se propõe a colocar-nos em conexão com os valores da sociedade, não seria isso submissão ao poder externo e, nesse caso, em vez de sujeitos autônomos, não seríamos escravos das normas e valores impostos pela sociedade? Este texto se propõe, a partir das contribuições de Kant, Durkheim e Adorno, analisar os questionamentos de Chauí e trazer contribuições para a formação ética de nossos educandos e educadores.
Esse artigo tem por objetivo apresentar e discutir episódio ocorrido no ensino superior em que estudante, tendo estudado a Pedagogia do Oprimido (Freire, 1987), demanda explicitamente a condição de ser oprimida pelo professor. O episódio registrado em diário de campo é analisado sob a ótica dos conceitos de situação-limite, inédito-viável, ambos de Paulo Freire (1992), e o de habitus, este último conceito de Bourdieu (1983). O conceito de habitus é posicionado no texto em perspectiva heurística, sendo denominado habitus professoral, nos termos de Silva (2003). O texto conclui que o pensamento freireano deve ser assumido como utopia sustentada no habitus professoral, expressando a negação do fugaz ou insatisfação momentânea e associado a movimento coletivo pela superação do estado das coisas e condições de existência desumanizadoras.
O presente texto propõe-se a revisitar Aristóteles, Kant e Piaget com o propósito de identificar, em tais autores, contribuições para tematizar uma problemática central à esfera da educação moral, a saber, o “tornar-se mestre de si”. Apesar da distância temporal e das diferenças teóricas existentes entre os três autores, defende-se a posição de que as suas abordagens convergem na defesa da necessidade do desenvolvimento, no indivíduo, da capacidade de domínio de si. Tal domínio possibilita ao sujeito fazer frente à imediatez dos desejos e constituise como condição para alcançar um nível satisfatório de coerência entre o juízo moral e a ação. Em última instância, quando vinculada ao campo da formação moral, essa problemática indica a necessidade de educar os sujeitos de modo a criar condições para se autorregularem moralmente.
É notável que a longa história do livro didático como um recurso educacional não afetou sua validade; pelo contrário, após a primeira década do século, o seu papel nos processos pedagógicos tende a aumentar, como acontece no sistema educacional chileno. Portanto, sua relevância como um recurso educacional e as complexas dimensões que envolvem a sua presença na sala de aula fazem com que seja um fenômeno de pesquisa e de reflexão de interesse renovado. Existem várias possíveis relações estabelecidas entre este recurso e o currículo, enquanto artefato cultural e pedagógico. Vê-se, à luz deste artigo, a partir de uma perspectiva crítica, o seu papel como um dispositivo que traduz o currículo oficial, como material didático para professores e uma fonte de aprendizagem para os alunos.
O presente trabalho discute a formação de professores a partir dos pressupostos da educação emancipadora em Marx e Gramsci. Baseia-se na necessidade de se pensar a formação docente como esfera privilegiada de concretização de uma educação para a emancipação e autonomia do ser humano. Como concretização desta proposta, argumenta em favor da superação de um modelo de formação pautado na racionalidade técnica e na epistemologia da prática. Busca, ainda, investigar e compreender as concepções e práticas propostas nos projetos de formação desde a década de 1990, com a intencionalidade de, a partir daí, estruturar uma contraproposta na perspectiva da emancipação. O trabalho é fruto de reflexões de diferentes pesquisas que têm como objeto a relação teoria e prática na formação de professores.
Este artigo apresenta a experiência do curso de pedagogia da Universidade de Brasília, cuja estrutura oportuniza aos alunos e alunas espaços curriculares para aprofundamento de estudos na área da pedagogia hospitalar e o atendimento a crianças e jovens hospitalizados. Aborda questões relacionadas às competências e habilidades necessárias aos professores de classes hospitalares bem como a necessidade de formação técnico-científica para a prática pedagógico-educacional enquanto membro da equipe multidisciplinar no hospital. Conclui que existem conhecimentos específicos indispensáveis ao trabalho pedagógico no hospital, que devem ser considerados nos cursos de formação de professores em nível de graduação e pós-graduação. Por fim, considera a universidade como o ambiente apropriado para a formação desses profissionais.
Analisaremos, neste artigo, o uso da imagem como recurso educativo à sensibilização humana. Nós nos fundamentaremos em Hegel, em Aumont e Morin. Nossa construção teórico-metodológica será tecida com os fios da história social, pois ela nos permite compreender que as relações sociais constituem o fundamento da expressão artística. Por considerar a arte como parte constitutiva do fazer humano na sua totalidade - o sensível, o ético e o cognitivo-, observamos que a análise de imagens artísticas tornam o olhar da pessoa mais atento às representações e aos seus significados. É, pois, por acreditarmos que a imagem pode sensibilizar e possibilitar a conscientização do sujeito que a apontamos como fonte para a História e a História da Educação.
Este trabalho apresenta os resultados de uma pesquisa destinada a melhor estruturar os cursos sobre Juventude e Direitos Humanos aos membros do Batalhão Escolar da Polícia Militar do Distrito Federal, Brasil. O estudo, fundamentado na literatura sobre o comportamento policial e suas relações com a juventude, se baseia num questionário respondido por uma amostra não probabilística de 132 policiais militares, correspondente a 18,5% do citado Batalhão. Na visão dos policiais, o jovem é melhor caracterizado pela moda e aparência, assim como por características predominantemente negativas, entre outras a insegurança pessoal e social; a falta de perspectivas; ser transgressor/ousado; ser instável emocionalmente e egoísta. Estas percepções tenderam a ser mais ocorrentes em policiais de menor escolaridade e idade.
O texto apresenta resultados de uma pesquisa que busca identificar as possíveis relações entre a nova regulação educacional e o trabalho docente na pós-graduação stricto sensu no Brasil. O Sistema CAPES de avaliação é central na pesquisa, buscando-se por meio da análise de documentos dessa agência e de revisão bibliográfica dos trabalhos apresentados nas últimas reuniões nacionais da ANPEd identificar as repercussões que o atual sistema de avaliação da pós-graduação está trazendo para o trabalho dos professores na pós-graduação. A intensificação do trabalho, o adoecimento e a disseminação do produtivismo acadêmico são algumas tendências que se consolidam em termos de mudanças na materialidade e subjetividade do trabalho docente.
Uma experiência de trabalho pedagógico é utilizada para descrição da construção de acessibilidade em Ambiente Virtual de Aprendizagem-AVA para pessoas com deficiência visual. Três aspectos são priorizados: descrição textual das imagens e tabelas; organização das informações; configuração específica do editor de textos do MOODLE para utilização de softwares leitores de tela. Concluímos indicando que o valor da experiência educacional, tanto em seu aspecto inclusivo quanto no uso de tecnologias na educação, está nos desafios que nos permitiram fazer avançar nossa compreensão sobre a relação sujeito/ensino-aprendizagem/conhecimento em novas formas de vivências educacionais.
As inovações tecnológicas facilitam a comunicação, conectando as pessoas com os parceiros de um extremo a outro do planeta. Esta realidade oferece possibilidades que nos levam à adoção de novos padrões de colaboração em ambientes de ensino, pesquisa ou de interação social. Aliado a isso, é necessário atentar para o fato de que a tecnologia pode se tornar uma ferramenta pedagógica de formação e integração, mas, ao mesmo tempo, corre risco de ser um elemento de exclusão de um importante grupo: as pessoas que, por várias razões, têm necessidades diferentes de usá-los. Para evitar que isso aconteça, deve-se defender um design acessível e unir esforços para informar, educar e investigar, a fim de dispor de recursos que permitam e incentivem o uso das tecnologias da informação e comunicação por pessoas com deficiência ou capacidades diferenciadas.
A proposta complexa e transdisciplinar abre novas perspectivas para o campo educacional. Essas perspectivas procuraram religar o conhecimento à vida, reorientando os processos de formação para que se valorize a constituição de um sujeito sensível e afetivo. A vocação transdisciplinar institui novas práticas pedagógicas formadoras de uma razão-afetivo-sensível, capaz de promover uma visão mais integrada do ser humano. Nesta concepção de educação, o processo ensino-aprendizagem supera o processo lógico e intelectual, torna-se um processo dinâmico, coerente, dialógico e criativo. Promover a proposta transdisciplinar na formação docente passa pela vivência de formar pessoas que tornarão nossa experiência no mundo mais cooperativa, amorosa e solidariamente compreendida.
O objetivo deste artigo consiste em investigar as comunidades virtuais da Internet dedicadas à educação escolar. Assim, analisamos manifestações escritas de professores e alunos a fim de apreendermos as maneiras como os sujeitos envolvidos no processo ensino-aprendizagem percebem uns aos outros. As lucubrações são iluminadas por autores da Teoria Crítica como Theodor Adorno e Walter Benjamin, por meio da confluência do material coletado nas comunidades virtuais com temas como desorientação, fragmentação e semiformação na contemporaneidade e os seus reflexos na educação escolar brasileira.
Apesar das críticas ao sistema Capes, não se registram movimentos com potencial de abalá-lo. Manifestações diversas e pesquisa evidenciam que, a despeito de discordâncias, os envolvidos com a pós-graduação (PG) tudo fazem para (re)ingressar ou manter-se no sistema. Constatam-se prejuízos à produção e veiculação do conhecimento e às condições de vida/trabalho daqueles que atuam na PG. No entanto, uma espécie de naturalização parece estar garantindo a manutenção do modelo de avaliação e financiamento, caracterizado mais como uma política de estado do que de governo. Neste texto, além de tratar de algumas destas questões, destacamos avanços decorrentes da implementação desse sistema, bem como o aprofundamento de aspectos que deixam a desejar, em especial nas Ciências Humanas e Sociais.
Este trabalho registra aspectos de uma pesquisa que objetivou analisar o currículo de uma escola municipal, situada na cidade de Natal/RN, com vistas à inclusão de alunos com deficiência intelectual. Com base num estudo de caso, apresentamos algumas reflexões acerca das concepções de currículo escolar, sob a ótica da inclusão escolar. Assim, destacamos a compreensão das professoras, coordenadoras e gestora sobre a inserção dessa temática no projeto político-pedagógico, a concepção de currículo, bem como as diretrizes curriculares expressas no projeto político pedagógico. Constatamos que as diretrizes curriculares expressam uma visão ampla de currículo e são desconhecidas pelos profissionais da instituição de ensino.
Este artigo discute o processo de democratização da gestão em Mossoró/RN, com evidência nas mudanças ocorridas na prática do diretor escolar após processo seletivo para assumir o cargo. Trata-se de uma pesquisa qualitativa com aplicação de questionários aos profissionais atuantes nos estabelecimentos de ensino: diretores, vice-diretores, supervisores e professores. Os resultados revelam que os diretores são bem avaliados nos seguintes quesitos: permanência e presença na escola, comprometimento com as questões pedagógicas, responsabilidade pela educação pública. Contudo, a democratização da gestão permanece insuficiente para desenvolver a independência e a autonomia dos diretores frente ao sistema, demonstrando que a gestão democratizada precisa ser aperfeiçoada em suas bases teóricas e práticas.
Este artigo visa analisar os desafios pedagógicos fundantes para a educação numa sociedade cindida em classes. Embora o Professor Saviani indique que a ausência de um sistema de educação, a necessidade de reorganização das escolas e as descontinuidades de políticas educacionais sejam os desafios para a educação brasileira, acreditamos que os desafios estão para além destas indicações. Essa percepção nos deixa em estado de alerta às possibilidades reais de continuidade de políticas educacionais que possam favorecer, predominantemente, os filhos da classe trabalhadora, haja vista que as soluções formais não são capazes de enfrentar a lógica destrutiva do capital. Entendemos que as políticas educacionais sejam soluções formais, e, embora elas possam preconizar pequenas mudanças e indicar alguma melhoria local, não são capazes de romper com a substância histórica em que o acúmulo do capital impõe o acúmulo de miséria.
O artigo analisa as pesquisas e produções sobre didática desenvolvidas nos programas de pós-graduação em Educação em Minas Gerais pela identificação das dimensões e dos campos nos quais estão concentradas; e qualifica as publicações, mediante a identificação dos veículos utilizados para sua divulgação. Os resultados indicam que: a didática ocupa, em média, um terço das pesquisas e produções realizadas; as publicações em periódicos representam pouco mais de um sexto do total; os veículos de divulgação dessa produção são pouco expressivos; e há uma concentração de estudos teóricos sobre profissionalização e formação docente, em detrimento de indagações sobre as condições e os modos de intervenção e de efetivação das práticas pedagógicas.
Educação e profissão docente se encontram em crise neste início do século XXI. Da educação, a humanidade espera a redenção de todos os males. Consequentemente, da profissão docente se espera a solução de todos os problemas que envolvem a complexa tarefa de educar as novas gerações, que nascem e crescem em situações e realidades marcadas, de um lado, por uma competição voraz, e, de outro, por uma vaziez de sentido. Diante disso, o presente texto destaca a importância da interdisciplinaridade entre a pedagogia e outras ciências, estabelecendo um diálogo daquela com a teologia, e apresentando uma reflexão sobre a dimensão da esperança para a formação docente, à qual o encontro de pedagogia e teologia pode fornecer subsídios para uma ressignificação de sentidos.
Esse artigo se propõe a discutir possíveis formas de articulação da Educação em Direitos Humanos no Brasil com políticas de promoção de igualdade étnico-racial. Para tal, discute pontos específicos do PNEDH, articulando com outras normativas importantes, em alguns casos o PNDH em suas diferentes versões, em outros com normativas específicas de promoção de igualdade racial, como o artigo 26A da LDB e a Carta de Durban. Conclui pela implantação de uma educação aberta para o diálogo constante sobre e com as diferenças e exercitando o diálogo permanente com movimentos sociais.