PID: S1982-596x2011000300063 |
Revista: Educação e Filosofia (1982-596x) |
Año: 2011
Autores: Renault
RESUMO O que é o eu segundo Descartes? Para responder a esta questão é preciso levar em conta não somente as análises a respeito do ego no desenvolvimento da metafísica cartesiana, mas também as referentes a uma segunda consideração sobre o eu que se encontra nos escritos de Descartes, a qual reside nas análises consagradas à generosidade. Se a primeira consideração deriva da metafísica e se atém ao ego enquanto substancialmente distinto do corpo, a segunda consideração deriva do que se poderia chamar de a antropologia cartesiana, que Descartes anuncia no momento da redação dos Princípios da Filosofia, e da qual se observa o desenvolvimento nas Paixões da Alma. Trata-se, nesse caso, de um eu que experimenta a si mesmo através de uma paixão, isto é, não como puro ego, mas no horizonte de sua união bem estreita com o corpo. Esta união não repõe em causa a distinção, como se diz, pois, por mais estreita que ela seja, a alma e o corpo estão unidos por unidade de composição e não por unidade de essência. Em vez disso, ela coloca esta distinção à prova, uma vez que o eu se vê por ela ameaçado de ser inserido no determinismo material, isto é, em certo sentido, ele se vê ameaçado de “materialização”. Ora, é à generosidade que cabe precisamente afirmar a distinção substancial entre a alma e o corpo na relação que a alma mantém com o corpo, pois é ela que preserva a vontade de uma tal inserção no determinismo material. Tal é a ótica que adotaremos aqui na análise da noção de generosidade. Tratar-se-á aí de estudar a maneira pela qual a antropologia cartesiana renova o tratamento da substancialidade do eu, no seio do pensamento cartesiano.