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dar voz àqueles que não têm: montaigne e rancière, por uma emancipação pedagógica e filosófica

PID: S1984-59872025000100102 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2025
Autores: gasparov
resumo O ensino é muitas vezes concebido em termos de distribuição de posições, papéis e status: beneficiando-se da legitimidade e do reconhecimento da estrutura institucional, o professor se afirma na postura do erudito, enquanto o aluno se torna o ignorante, e os excluídos permanecem fora dos locais de saber. “Liberar o palco real do discurso” não significa simplesmente dar voz a eles, mas borrar a divisão de lugares, liberando a fala e os corpos daqueles que não tinham voz na questão. A emancipação consiste em trabalhar o desenvolvimento das habilidades práticas de cada indivíduo para envolver sua inteligência e colocá-la em ação. Essa é a premissa que foi experimentada e confirmada em meu trabalho docente. É em termos de igualdade de inteligências, de acordo com a expressão de Rancière, que temos de pensar na integração daqueles que não são ouvidos, não porque não tenham nada a dizer, mas porque nunca lhes foi dado um lugar adequado para falar. Os campos restritos de experiência, que são os workshops ou projetos colaborativos, têm a virtude de abrir gradualmente o espaço de uma comunidade de iguais.

improvisar na comunidade de investigação filosófica: uma forma de aprender a habitar a incerteza

PID: S1984-59872025000100105 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2025
Autores: zorzi
resumo Esta reflexão teórica propõe uma discussão aberta sobre a incerteza, tão presente nos debates sociais e educacionais contemporâneos, e sobre o valor que aprender a conviver com essas “incertezas” pode ter para o bem-estar de indivíduos e comunidades. Perceber diferentes alternativas antes de fazer uma escolha, sentir-se perdido diante da ambiguidade de certas informações e experimentar desorientação ao lidar com a complexidade são características dessa “incerteza” tão difícil de definir (Barreneche & Santi, 2022). A incerteza pode ser vista de forma negativa se provocar medo, preocupação, ansiedade ou sensação de vulnerabilidade (Hillen et al., 2017), ou pode ser encarada de maneira construtiva quando funciona como um impulso vital para a investigação (Tauritz, 2019). A Comunidade de Investigação Filosófica (CIF) - tal como concebida e promovida no currículo de Filosofia para Crianças (FpC) - torna-se um “ambiente seguro para a criatividade” (Weinstein, 2016), onde se aprende a habitar as incertezas. Uma CIF que improvisa (Zorzi & Santi, 2023), desenvolve e conscientiza atitudes diante da incerteza, aprendendo a enxergar alternativas como recursos, ambiguidades como horizontes criativos de significado e complexidade como uma experiência coletiva a ser vivida. Seis dimensões da improvisação - (1) respeito às diversidades; (2) confiança nas possibilidades; (3) construção de um senso de comunidade; (4) abertura às mudanças; (5) atitude exploratória; (6) paixão criativa, identificadas em pesquisas anteriores (Zorzi et al., 2019) - são propostas para orientar a formação de facilitadores e das próprias CIFs, dialogando com os “nove momentos recorrentes de desequilíbrio” sugeridos por Karin Murris (2008).

moldando a inclusão: a possibilidade de “comunidade de investigação” com pessoas com deficiência intelectual

PID: S1984-59872025000100104 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2025
Autores: kado
resumo Este estudo teve como objetivo fornecer informações sobre a Filosofia para/com Crianças (FpcC) em jovens com deficiências intelectuais (DIs). Tomar consciência do lado social construtivo da deficiência é fundamental para qualquer consideração sobre a possibilidade de um diálogo filosófico com pessoas com DIs. Usando um estudo de caso e adotando a etnometodologia e a análise de conversação (EMCA), esta pesquisa se concentrou nas interações entre pessoas com DIs para esclarecer o que o pesquisador sem deficiência não estava percebendo no diálogo entre eles. A pesquisa foi conduzida no Programa de Inclusão da Universidade de Kobe (KUPI), onde jovens adultos com deficiência intelectual aprendem de forma inclusiva na universidade. O FpcC Hawaii'i (p4cHI) é usado como parte do programa. O caso analisado é um diálogo sobre um aluno que não consegue falar devido a uma deficiência grave. Os estudantes da KUPI cooperaram para expandir o objetivo do diálogo, deixando de apenas falar sobre o colega e passando a gerar conjuntamente ambientes inclusivos de diálogo. O objetivo do diálogo foi alcançado de maneira que demonstrou o potencial da investigação inclusiva. Eles apresentaram abordagens diversas e exclusivas de cuidado. Isso incorpora a “comunidade de investigação” que envolve pessoas com DIs.

pensar com habilidades perceptivas na filosofia para e com crianças (fpcc)

PID: S1984-59872025000100100 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2025
Autores: Fournel Dascălu
resumo Partindo do interesse de Lipman por alcançar um equilíbrio entre o cognitivo e o afetivo, o conceitual e o perceptivo na prática de FpC, exploramos algumas possibilidades de integrar a estrutura de Betty Edward para o treinamento de habilidades perceptivas como meio de enriquecer a construção tradicional de problemas na comunidade de investigação filosófica (CIF). Para isso, criamos um paralelo entre os pontos de vista de Lipman e Sharp sobre o pensamento multidimensional e as percepções sobre a aprendizagem e o filosofar incorporado, desde o uso de gestos, ilustrações artísticas e teatro, até o desenho no currículo, a fim de sugerir caminhos de enriquecer os planos de discussão na CIF. Geralmente, a compatibilidade entre a abordagem do pensamento multidimensional na FpC e uma aprendizagem mais experimental e incorporada é natural: por exemplo, o pensamento afetivo, que implica o desenvolvimento de atitudes morais e de uma consciência relacional, pode exigir mais atenção à expressão das emoções pelas crianças e mobilizar mais estímulos para complementar o diálogo tradicional. A interdependência entre a problematização, a criatividade e a afetividade também pode ser ilustrada com ideias do método de Betty Edwards de formação de habilidades perceptivas: nosso objetivo é utilizar o método como recurso para o desenvolvimento de problemas filosóficos na CIF. Argumentamos que, além de construir uma melhor relação com a própria criatividade, aprender a ver melhor pode se traduzir em uma compreensão mais aprofundada do processo de construção de problemas filosóficos e, inspirados pelas habilidades específicas de percepção desenvolvidas pelo método, podemos criar um quadro mais relacional e propício para o questionamento filosófico.

re-cuperando a infância: abraçando dimensões temporais alternativas através da filosofia para crianças

PID: S1984-59872025000100103 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2025
Autores: boz
resumo Essa proposta nasceu de uma experiência em uma escola de ensino médio e destaca as influências geradoras da Filosofia para Crianças (P4C) em jovens adultos. Primeiramente, discuto e dou exemplos de como o sistema escolar tradicionalmente não valoriza o aprendizado e o pensamento filosófico, reduzindo o processo à distribuição pré-embalada de respostas prontas. Essas formas de aprendizado, também conhecidas como modelo “bancário” de educação, desvalorizam as formas que as crianças têm de conhecer e estar no mundo. Essa postura pedagógica, entre outros problemas, resulta em um foco na dimensão quantitativa-cronológica do tempo, deixando pouco ou nenhum espaço para a importância do momento presente, que pertence e é natural à maioria das experiências infantis. A parte central do artigo é uma tentativa de explicar melhor, por meio de conceitos derivados da antropologia e da pedagogia, em quê consiste essa dimensão alternativa do tempo e que possibilidades ela abre nos ambientes educacionais. Na seção final, defendo que participar de uma comunidade de investigação como a de Filosofia para Crianças como um jovem adulto representa uma complexidade maior, pois é mais difícil romper com certezas consolidadas. No entanto, também envolve a oportunidade de entrar em uma máquina do tempo metafórica que nos permite recuperar o tempo da infância. Essa máquina do tempo metafórica abre possibilidades para que alunos e professores reorientem seu relacionamento consigo mesmos, uns com os outros e com o mundo.

uma conversa espiralada entre o terreiro e a ancestralidade: infância, comunidade e pertencimento

PID: S1984-59872025000100300 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2025
Autores: cunha nascimento
resumo O texto apresenta uma conversa entre a professora Edna Olimpia da Cunha e o professor Wanderson Flor do Nascimento, realizada na histórica Pedra do Sal, no Rio de Janeiro, que discute a infância a partir das tradições africanas e dos modos de pensar dos terreiros. O diálogo aborda o tempo espiral e a figura de Exu, que, representado como uma criança, carrega a memória coletiva e brinca com o tempo, conectando passado e presente. Essa perspectiva rompe com visões lineares e ocidentais de infância, reconhecendo as crianças como manifestações vivas da ancestralidade. A noção de comunidade é central na conversa, sendo descrita como uma entidade histórica e relacional que antecede e sustenta o indivíduo. A educação, por sua vez, é abordada como um processo contínuo, relacional e coletivo, enraizado nas práticas comunitárias, na oralidade e na ética. Nos terreiros, a ancestralidade é vivida no presente, desafiando lógicas neoliberais e coloniais que fragmentam a coletividade e priorizam o individualismo. A professora e o professor destacam o papel político dos terreiros como espaços de resistência e formação, os quais integram tradição, pertencimento e transformação. As práticas valorizam a interdependência entre os membros da comunidade, criando modos alternativos de existir e educar. A continuidade desse modelo formativo, que questiona paradigmas hegemônicos, depende de um engajamento político e comunitário capaz de sustentar essas formas ancestrais de convivência, memória e formação.

uma conversa on-line no youtube sobre paternidade e adoção

PID: S1984-59872025000100301 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2025
Autores: amorim filho couto junior maddalena
resumo Saulo Xavier de Brito Amorim e Luiz Schettini Filho, engajados no movimento dos Grupos de Apoio à Adoção (GAA), conversam no YouTube sobre a gestação das paternidades, os processos de habilitação e adoção e a produção do conhecimento no campo da adoção de crianças e adolescentes. Dilton Ribeiro Couto Junior e Tania Lucía Maddalena, pesquisadores do campo de estudos em cibercultura, abrem e encerram o texto com a intenção de apresentar as potencialidades da conversa on-line como modo de aprender-ensinar-pesquisar com o outro. Perseguimos boas perguntas porque também buscamos boas respostas, capazes de enriquecer a reflexão coletiva. Entendemos a conversa como fruto de uma relação dialógica em que todas/os as/os conversantes são incentivadas/os a perguntar; consequentemente, apostamos no dinamismo comunicacional da conversa como um modo de pesquisar em parceria com o outro. Com o digital em rede, temos a oportunidade de compartilhar nossas produções com o mundo e oportunizar que internautas possam atribuir novos sentidos sobre o que inicialmente foi discutido, ampliando ainda mais a discussão sobre o tema da paternidade e da adoção. Não há roteiro predeterminado para ser pai, mas constantes aprendizagens-ensinamentos decorrentes da relação afetiva estabelecida com a criança. Adotar é se abrir para o outro, é sair do lugar de conforto e adentrar o campo do inesperado e do irrepetível, pelo desejo de constituir em família.

uma filosofia com crianças para a venezuela

PID: S1984-59872025000100101 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2025
Autores: rodríguez-toro
resumo Na Alegoria da caverna de Platão, os prisioneiros só veem e conhecem as sombras projetadas perante eles. Esse texto é frequentemente utilizado para entender o idealismo platônico e para ilustrar as dificuldades que um prisioneiro liberto enfrenta ao se mover em direção à luz do sol fora da caverna, que o permite ver a realidade de um mundo que ele nem sequer podia imaginar. A Filosofia se apresenta como uma ferramenta de conhecimento e libertação, a qual permite ao homem libertar-se das correntes da ignorância e opressão; mas, paradoxalmente, os benefícios dessa disciplina foram pensados para poucas pessoas; apenas um prisioneiro é capaz de se libertar, e, se ele retorna à caverna para contar tudo que viveu fora dela, os outros prisioneiros podem até matá-lo, caso se atreva a tirá-los de suas correntes. Séculos depois, em tempos de modernidade, n’O Conflito das Faculdades, Immanuel Kant (1798) limita o alcance da filosofia ao domínio dos especialistas que trabalham nas universidades, apresentando objeções severas à possibilidade da disciplina ser expressada além dos muros de tais instituições. A República Bolivariana da Venezuela se uniu ao objetivo da Cátedra UNESCO da Universidade de Nantes, visando contribuir ao desenvolvimento de práticas filosóficas com crianças. Então, este artigo busca apresentar como, em um país latino-americano, nas atuais condições atravessadas pela sociedade venezuelana, é possível pensar em formar a liberdade cívica das novas gerações de venezuelanos, completando a rota platônica de sair da sombra da opinião à luz da verdade. Investigação alinhada com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 10 e 16, por destacar a necessidade de reduzir as desigualdades no campo de estudo da filosofia e a urgência de formar uma nova geração de cidadãos comprometidos com a paz e a participação, típicas de uma democracia sustentável ao longo do tempo.

"a antropologia da infância chegou para ficar": entrevista com david lancy

PID: S1984-59872024000100500 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2024
Autores: lancy medaets tebet pires
Resumo O texto discute a consolidação do campo da antropologia da infância a partir de um diálogo com David Lancy, professor emérito de antropologia na Universidade do Estado de Utah, Estados Unidos, e uma das figuras-chave da institucionalização do campo naquele país. A partir de uma entrevista com Lancy na ocasião do lançamento da terceira edição de seu livro The Anthropology of Childhood, apresentamos as principais contribuições deste autor a um público lusófono e discutimos temas chave para os estudos da infância, como os usos da noção de agência, bebês, a variabilidade cultural das categorias de idade, além da contribuição da antropologia para as pesquisas sobre infância, parentalidade e educação. Para Lancy, a antropologia da infância dá visibilidade a compreensões alternativas, em relação à psicologia do desenvolvimento infantil, sobre a infância e sobre processos de aprendizagem, trazendo novas questões e novas perspectivas. Com base num amplo levantamento de pesquisas etnográficas, o autor afirma a significativa quantidade de registros feitos por antropólogos sobre as vidas de crianças em diferentes culturas, enfatizando as distinções entre, de um lado, as infâncias de povos originários e tradicionais e, de um outro lado, infâncias ocidentais e urbanas, que ele sugere agrupar, seguindo uma denominação cada vez mais frequente nos Estados Unidos, como sociedades “WEIRD” [extraño], um acrônimo para “Western, Educated, Industrialized, Rich and Democratic Societies”. Nesta entrevista, Lancy ressalta que os trabalhos antropológicos sobre infância em povos originários ou povos tradicionais, quando bem conduzidos, possuem o potencial de produzir um efeito de grande respeito e legitimidade às formas de pensar sobre a infância e educação desses povos.

Afeto e investigação filosófica com crianças

PID: S1984-59872024000100100 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2024
Autores: wolf
Resumo Thinking in Education, de Matthew Lipman, apresenta uma abordagem para a investigação filosófica com crianças (FcC) que busca desenvolver o pensamento crítico, criativo e cuidadoso. Para Lipman, esses tipos de pensamentos estão ligados principalmente a compromissos analítico-lógicos e, como tal, sua abordagem se preocupa apenas com um modo de conceitualizar o pensar. Para direcionar esse problema e criar espaço para outros entendimentos, apresento o conceito de afeto baseado na obra do filósofo francês Gilles Deleuze. A partir de uma perspectiva teórica, o afeto ajuda a aprofundar as relações entre o pensar, o corpo e a experiência na FcC; além disso, de um ponto de vista prático, ele expande e enriquece as práticas facilitadoras e a concepção curricular. Para explorar o afeto, primeiro mostro porque a FcC se beneficiaria de tal expansão teórica, enquanto examino as conexões já existentes na literatura sobre FcC. Após um breve resumo sobre a teoria do afeto e algumas de suas aplicações iniciais para a educação, proponho a leitura do afeto deleuziano ampliada por pensadores como Claire Colebrook e Brian Massumi. Por fim, exploro a investigação filosófica através do afeto e sugiro como as práticas facilitadoras e a concepção curricular podem responder no lugar dessa conceitualização. Essa resposta examina diversas áreas: a investigação, os conceitos, a comunidade e o compromisso ético-político.

Escola desinteressada: poesia como um caminho libertador e transformador na escola pública

PID: S1984-59872024000100300 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2024
Autores: ferreira
resumo Este texto oferece uma reflexão nascida de uma experiência com literatura, poesia e também filosofia na escola, com turmas do ensino fundamental nos anos iniciais. A experiência foi iniciada em 2011 e deu origem a um projeto de pesquisa, ensino e extensão, hoje em curso em escolas públicas. O projeto tem como fundamentação teórico-metodológica pensamentos críticos à escola voltada para a formação compreendida como utilitarista. Concepção esta que segue dominante, a despeito das inúmeras mudanças na base curricular, ao longo do tempo. Não parece razoável que a preocupação que promove as mudanças na organização curricular tome por base aspectos como o baixo rendimento na aprendizagem refletido em reprovações e “fracassos” ou no próprio abandono e evasão precoce da escola, sem que se questione as razões inerentes à experiência escolar. Diante desse fato, a reflexão aponta para a defesa de uma escola que possa ser compreendida como desinteressada na perspectiva de Gramsci e recorre à literatura e poesia como dispositivos para impulsionar o fazer pedagógico transformador. O estudo da literatura sobre poesia, assim como os resultados obtidos pela experiência em questão, permitem pensar uma concepção de escola revolucionária no sentido gramsciano e libertadora como propugnava Paulo Freire. Nesse sentido, propõe conexões com a felicidade, que conjuga o propósito da escola desinteressada com a filosofia de Epicuro. Na pesquisa, a poesia é compreendida como um caminho para se contemplar a valorização do lúdico, que é um aspecto dos mais relevantes para a aprendizagem nas infâncias.

Filosofia para crianças: semente ético-política para uma cultura de paz a partir de um pensamento polivalente

PID: S1984-59872024000100102 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2024
Autores: Moreno
resumo Depois de ensinar a disciplina de Ética e aplicar as regras tradicionais da família escolar, os alunos não se apropriam de elementos éticos por vários motivos: não os consideram úteis, não entendem o contexto ou simplesmente não os afetam, anulando qualquer interesse por eles. Isso os impede de agir de forma tolerante no ambiente escolar, dificultando a mediação dos professores em relação a comportamentos que se opõem a uma cultura de paz. Diante disso, a Filosofia para Crianças (FpC) é proposta como uma aposta ético-política que permite fortalecer o pensamento crítico, criativo e cuidadoso, a fim de buscar uma cultura de paz. Diego Pineda, fundador da FpC na Colômbia, defende que é preciso desenvolver nos alunos habilidades de pensamento que, além do conhecimento ético-cidadão, os levem a tomar decisões acertadas na abordagem pacífica do conflito. O desenvolvimento gradual do pensamento, a proximidade com as comunidades de investigação, a incursão em habilidades cognitivas e éticas, produto das ferramentas pedagógicas do programa FpC, constituem uma preparação para assumir posições argumentativas diante de dilemas que ocorrem no interior dos conflitos escolares, o que ajudará o aluno a se estruturar e a alcançar decisões iluminadas pela razão.

Malditas invasões curriculares!

PID: S1984-59872024000100103 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2024
Autores: roseiro gonçalves delboni
resumo O artigo dialoga sobre imagens curriculares utópicas que, expressas na escola, representam os feitos ideais de condutas, comportamentos almejados para exaustão da vida nos currículos que insistem no enquadramento. Logo, o objetivo é questionar a lógica quase imperial de veiculação de imagens das práticas curriculares. O processo de captura imagética das práticas curriculares lança professoras e professores nesse meio de produtores-consumidores da sociedade do hiperespetáculo, de facilitadores da sociedade da transparência, propondo uma falsa eliminação das assimetrias das forças e tornando tudo uma espécie de entretenimento que visa a incessante renovação dos prazeres e das emoções. Para tanto, são fabuladas cenas de escola que brincam com a lógica das estabilidades curriculares. Se a escola e a professora se veem, nesse contexto, obrigadas a registrar os currículos em imagens quase midiáticas, interessa-nos produzir imagens no limite do aceitável. Afinal, o que se entende por currículos? Quais sentidos são produzidos a partir dessas invasões imagéticas? Uma escola que prolifera as imagens-perfeitas de sala de aula, de aluno, de professora etc. mais enlutam a vida que realmente a produzem. Na contramão, como produzir imagens para além do governo da vida? É possível afirmar a escola como uma potência do infinito?

a escrita e a oralidade na escola como potência na formação humana: conversações entre kopenawa, sêneca e filosofia com crianças

PID: S1984-59872024000100112 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2024
Autores: schuler campesato
resumo Este texto trata de uma experimentação na formação de professoras da educação infantil e dos anos iniciais do ensino fundamental de uma escola pública da região metropolitana de Porto Alegre (RS), por meio de práticas de leitura, escrita e conversação, as quais se desdobram em experimentações com as crianças. Tal processo é pensado nas companhias de Sêneca (2018), com seu conceito de leitura e escrita, de Kopenawa (Kopenawa; Albert, 2015), a partir do conceito de palavra, e de Foucault (2004, 2011), considerando-se o conceito de subjetivação. Tal experimentação, que se deu no encontro entre a escrita e a oralidade, foi tomada para pensar nas contribuições para os estudos que compõem a filosofia com crianças. Nesse sentido, a leitura, a escrita e a contação de histórias teriam menos a ver com informações, e mais com o que estamos nos tornando, com a agilidade do nosso pensamento, com nossa sabedoria. Desse modo, conceitos da antiguidade greco-romana e das comunidades ameríndias brasileiras são tomados como ferramentas potentes para pensar a escola contemporânea como possibilidade, ainda, de formação humana. Para tanto, defende-se a conversação entre os vivos e os mortos via texto na escola, espaço público e coletivo, o que poderia ser tomado como uma perspectiva de subjetivação para um pensamento e uma vida mais afirmativos em tempos de tanta pobreza narrativa.

a filosofia da libertação para/com crianças: em busca da libertação e a criação de um povo sem idade

PID: S1984-59872024000100218 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2024
Autores: rosas
resumo Desde sua origem, a filosofia da libertação tem tido um aspecto tanto crítico quanto criativo. O primeiro busca examinar criticamente a dominação, a dependência e os efeitos permanentes da colonização. O segundo busca criar e recriar a libertação dos povos, desenvolvendo e reconstituindo modos de existir, imaginar, pensar e filosofar que superem os modos coloniais de existir, imaginar, pensar e filosofar. Logo, para a filosofia da libertação, a libertação dos povos se distingue das noções de emancipação e liberdade que escondem a realidade sob processos de ideologização. Um exemplo desse último é a noção moderna de emancipação. Neste trabalho, proponho abordar a função crítica e criativa da filosofia da libertação a partir de uma ótica infantilista, que não só considere as vozes das crianças, mas que também supere a visão moderna e adultista de emancipação. Isso será particularmente importante para continuar o legado da filosofia da libertação e sua missão de criticar e criar a partir da participação política e filosófica das vítimas dos processos de ideologização. Desse legado fazem parte as crianças, que, ao se envolverem em práticas pedagógicas de libertação, atuam como um povo, um ator político coletivo sem idade.

a mudança pós-moderna nos estudos da infância e suas implicações pedagógicas

PID: S1984-59872024000100216 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2024
Autores: luo
resumo Este artigo reflete sobre a mudança pós-moderna nos estudos da infância e o seu impacto na educação. À medida que os estudiosos questionam a noção moderna de infância, o discurso do pós-modernismo tem entrado no domínio dos estudos da infância, dando origem a várias novas perspectivas. As principais caraterísticas da mudança pós-moderna nos estudos da infância incluem: 1) a rejeição do essencialismo em relação à infância e o reconhecimento da diversidade inerente a ela; 2) a desconstrução de oposições binárias e a defesa da natureza heterogênea da infância e do conceito de “devir-criança”; 3) a dissolução do sujeito moderno associado à infância e à reconstrução do sujeito pós-moderno. Os estudos pós-modernos da infância trarão alguns impactos positivos para o campo da educação, como focar nas diferenças entre as crianças em vez de condensá-las num mapa unificado, além de remover o adultismo da educação e enfatizar a construção de novas formas de subjetividade infantil na educação. Contudo, isso também trará muitos desafios à educação, como o questionamento da essência da infância e da boa educação, o abalo dos alicerces da existência educativa devido à dissolução da infância, e a perda de significado educativo devido à construção fluida e mutável da subjetividade infantil. Isso destaca a importância de reconhecer que, à medida que a educação abraça o discurso da infância pós-moderna, tanto as suas promessas como os seus perigos irão permear o domínio educativo.

a pergunta criança: dissonâncias entre a ordem explicativa e a afirmação vital

PID: S1984-59872024000100104 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2024
Autores: visaguirre Quiroz
resumo Este trabalho surge de um diálogo interdisciplinar entre duas teses de doutorado, uma em Educação e outra em Filosofia, que compartilham um interesse sobre as formas emancipatórias e democráticas de pensar com os outros nas escolas públicas latino-americanas. A partir de uma perspectiva crítica própria da filosofia da educação latino-americana, realizamos uma análise epistemológica das diferentes formas de habitar a pergunta dentro de uma prática de filosofia com crianças. Temos como objeto de estudo uma experiência específica de comunidade de investigação realizada em 2022 no sul de Mendoza, Argentina. Entrelaçamos ferramentas teóricas de Walter Kohan, Paulo Freire e Jacques Rancière com a intenção de tornar visíveis diversas formas de habitar a produção de saberes dentro dessa comunidade. Propomos duas problemáticas: a ordem explicativa/embrutecedora de Rancière e a pergunta como afirmação vital de Kohan e Freire. Trabalhamos em uma série de dissonâncias em torno da circulação e da potência da pergunta na escola e na educação pública. Por fim, propomos uma síntese dessas questões na postulação de uma "pergunta criança", como potência epistêmica emancipatória que supõe uma intimidade com o outro/a, com as coisas e com o mundo, aberta a partir de uma igualdade política e intelectual radical.

a política da skholé: repensando o caráter político da educação escolar a partir de jacques rancière

PID: S1984-59872024000100121 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2024
Autores: vargas-pellicer masschelein simons
resumo Neste artigo, nosso objetivo é mergulhar no caráter político da educação escolar a partir de uma discussão pedagógica-filosófica. Buscamos repensar as noções de política e skholé, nos distanciando das abordagens mais comuns da política em relação à educação escolar: não apenas evitando, por um lado, a redução da política a uma questão de dinâmicas de poder, uma arena para discutir e resolver problemas sociais ou uma questão de governamentalidade; mas também evitando a redução da escola a um instrumento a favor delas. Acreditamos que uma leitura meticulosa do trabalho político do filósofo francês Jacques Rancière oferece um caminho para articular as relações entre política e educação escolar sem cair nessas reduções. Sugerimos que, a partir dessa abordagem rancèriana, se torna possível explorar o aspecto transformador e emancipatório da educação escolar sem negar seu caráter político e sem reduzi-la a um mero instrumento de política governamental. Portanto, depois de revisar o que acreditamos serem algumas noções-chave do conceito de política de Rancière, propomos discutir o caráter político da educação escolar abordando dois aspectos pedagógicos cruciais: a formalização da skholé (ou seja, a maneira pela qual a skholé toma forma) e a formação escolar (o tipo de formação possibilitada pela educação escolar). Nosso objetivo é contribuir para os debates pedagógicos sobre a educação escolar, possibilitando um diálogo com uma leitura de Ranciére que vá além de O mestre ignorante.

atitudes dos professores face à filosofia com e para crianças

PID: S1984-59872024000100115 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2024
Autores: vila raposo-rivas
resumo O programa de filosofia com e para crianças "FiloHilo” surgiu da possibilidade de transferir do Practicum para a sala de aula processos de inovação e renovação pedagógica baseados no diálogo e na prática filosófica. São muitos os estudos que nos permitem afirmar que a filosofia para crianças se tornou uma atividade eficaz, possível e necessária para todas as idades, uma vez que responde às necessidades do ser humano: questionar, interrogar e duvidar. Mas esses processos estabelecem-se se houver uma atitude de abertura e disponibilidade por parte dos professores: esta primeira condição, a atitude de abertura e disponibilidade, é o foco deste artigo. Em sua gênese, estiveram questões-chave: como os professores percebem essas práticas, se as conhecem, se já as utilizaram, se estão predispostos à sua implementação, e se estão preparados para desenvolver um pensamento ético, reflexivo, solidário e crítico na sala de aula?? Com o objetivo de responder a essas questões, foi elaborado um questionário composto por 31 itens e 4 dimensões, que apresenta elevados níveis de fiabilidade (α=0,949). Em seguida, foi enviado a todas as escolas galegas e respondido por 167 professores. Os resultados mostram uma elevada predisposição para a prática filosófica, principalmente porque apoia o raciocínio crítico e a consciencialização. Por fim, concluiu apelando a uma abordagem diferente do ensino da filosofia, tendo em conta as necessidades e interesses dos professores, e introduzindo a necessidade de formação no domínio da prática filosófica, entendendo a filosofia como algo que se pratica e que pode transformar a vida dos alunos: autoconhecimento e autorrealização.

colonialidade da educação infantil: análise crítica das práticas pedagógicas em uma instituição em contexto periférico

PID: S1984-59872024000100209 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2024
Autores: silva
resumo Busca-se neste artigo problematizar a manifestação da colonialidade nas práticas pedagógicas de uma instituição de educação infantil situada em contexto periférico a partir da percepção de professoras e famílias. A argumentação e análise teórica adotada partem dos estudos da infância e teoria decolonial/contracolonial. Serão analisadas as conversas estabelecidas com adultos participantes da pesquisa, sendo quatro entrevistas realizadas com professoras e mães de crianças de uma instituição de educação infantil de contexto periférico e negro, localizada no município de Betim - MG. A partir dos sujeitos da pesquisa são apresentadas denúncias que configuram o que chamamos de colonialidade da educação infantil. A alimentação das crianças foi destacada, pelas professoras e mães, como um dos momentos da rotina pedagógica que gerava grande incômodo devido a práticas de violência com as crianças. Esta violência compõe o que se denomina como adultocentrismo, que existe para posicionar as crianças às margens do projeto civilizatório ocidental, sendo que nestes termos o adultocentrismo pode ser também compreendido como a peste branca produzida pela matriz eurocêntrica e colonial. Atuar contra a colonialidade e contra o adultocentrismo é defender uma experiência concreta e histórica para a educação infantil e não apenas teórica. Cada vez mais é preciso avançar na formação das professoras de forma conscientizadora quanto a emergência da contracolonização da educação infantil em articulação com o projeto de sociedade emancipatória para todos e todas.
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