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A infância imunizada uma interpretação de o flautista de hamelin

PID: S1984-59872019000102208 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2019
Autores: Rodriguez
resumo Nas últimas décadas, os estudos sobre a história da vida privada tem considerado a infância uma construção histórica e social onde intervêm elementos culturais, econômicos e filosóficos. A partir de uma interpretação de O Flautista de Hamelin (Browning 2003; Browning e Pisu, 1980; Grimm e Grimm, 2000, 1816) nosso trabalho tentará analisar as características fundantes de dita construção moderna, utilizando como chave interpretativa o conceito de communitas do filósofo italiano Roberto Espósito (2003). Valendo-nos de alguns de seus conceitos fundamentais, também de diversas fontes modernas e contemporâneas da lenda recopilada pelos irmãos Grimm, nosso trabalho mostrará até que ponto o relato encontra-se ligado às transformações políticas que deram origem à pedagogia moderna e constituem o que Esposito considera o “processo imunitário moderno” (Esposito, 2005): um processo pelo qual os indivíduos têm-se desligado dos compromissos e deveres comunitários que constituíam os laços sociais anteriores ao surgimento dos estados modernos. Esse processo afetaria também a meninice, que a partir do século XIX foi alterada, isolada e excluída do nexo social, o qual a unia aos adultos até transformar-se no que conhecemos com o nome de infância. É possível uma relação diferente com a infância que não marginalize as crianças da comunidade? O seguinte trabalho abre o caminho a essa possibilidade.

A riqueza das perguntas na filosofia para crianças

PID: S1984-59872019000101107 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2019
Autores: Mendonça Costa-Carvalho
resumo Este artigo defende que as variadas abordagens dentro da filosofia para crianças ganhariam em integrar, de forma intencional, a exploração do questionamento, em vez de apenas apresentar às crianças perguntas já preparadas como pontos de partida da investigação. Esta ideia torna-se particularmente relevante uma vez que a filosofia para crianças é um dos poucos ambientes educativos que oferecem às crianças um espaço para que elas possam questionar e explorar as variações das suas perguntas, assim como o impacto que essas perguntas podem ter nas suas vidas. Desta forma, defendemos que a integração intencional, numa sessão de filosofia para crianças, de perguntas feitas pelas próprias crianças faz justiça à herança das diferentes tradições filosóficas e reforça que as perguntas são formas privilegiadas de os seres humanos se relacionarem com o mundo. Mais do que um simples passo metodológico no encadeamento de uma sessão de filosofia para crianças, as perguntas representam um recurso educativo fundamental. As perguntas são também uma parte central do pensamento e da investigação que se produzem numa sessão de filosofia com crianças. O artigo propõe, então, uma forma inovadora de lidar com esta ferramenta que são as perguntas, defendendo que a definição da filosofia como uma obsessão para ultrapassar a opacidade e uma obsessão pela transparência (Caeiro, 2015) pode ajudar os participantes numa comunidade de investigação a identificarem perguntas que poderão potenciar o diálogo de uma forma filosófica.

Comunidade filosófica de responsáveis: quando pais e mães vão à escola!

PID: S1984-59872019000102209 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2019
Autores: Papathanasiou
resumo As pesquisas parecem ser explícitas no que toca o benefício da participação dos/das responsáveis na escolarização das crianças. As maneiras pelas quais os pais e mães podem ser envolvidos/as, entretanto, ainda não são evidentes. Uma variedade de abordagens e programas vêm sido testados de forma global com o objetivo de aumentar a colaboração da escola para com as famílias. Através de Pesquisa-Ação, o efeito de uma iniciativa de comprometimento entre pais e mães e a escola foi explorado em uma escola de educação infantil em Atenas durante os anos escolares de 2014-15 e 2015-16. O bem-sucedido compromisso com práticas filosóficas para os/as estudantes em anos passados demonstrou a necessidade de adotar a ferramenta específica da Filosofia para Crianças para a comunidade de pais, mães e responsáveis. Histórias cuidadosamente selecionadas foram utilizadas como estímulo para levantar questões filosóficas, que foram analisadas profundamente por responsáveis e professores/as. A criação de uma comunidade de investigação filosófica com os/as responsáveis na escola revelou um novo horizonte de comunicação e cooperação ao mesmo tempo também aumentando o respeito e a empatia entre todos os participantes. Essa pesquisa mostra que quando se formulam comunidades de investigação filosófica com crianças e adultos em igualdade e dentro do mesmo ambiente, diálogos significativos podem emergir e se fortalecer em todas as partes do triângulo comunitário da escola (alunos/as, professores/as, responsáveis). Como resultado, uma abordagem educacional alternativa que fortalece os laços escola-família pôde ser revelada.

Conhecer os jovens “onde eles estão": demonstrando suas vantagens.

PID: S1984-59872019000102212 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2019
Autores: Newby Gardner
Resumo Quando Matthew Lipman introduziu a Filosofia para Crianças (P4C) no mundo, seu objetivo não era introduzir um pouco de filosofia acadêmica no currículo escolar típico, como seria de esperar dos títulos de seus primeiros livros: Philosophy in the Classroom (Lipman et al. al., 1980) e Philosophy Goes to School (Lipman, 1988). Seu objetivo, antes, era criar uma mudança de paradigma no próprio campo da educação: transformar o modelo hierárquico típico em um modelo em que o professor/facilitador solicitasse respostas dos alunos e, nesse sentido, encontrasse-os onde eles “estão”. Este modelo não hierárquico, no entanto, tropeçou em criar raízes, o que talvez não seja surpreendente, uma vez que o modelo hierárquico, seja na escola, no esporte ou em casa, parece ser muito mais fácil e muito mais eficiente. Cabe aos que apoiamos um modelo não hierárquico em todas essas arenas e levamos a sério essa abordagem articularmos precisamente de que maneira um modelo hierárquico fica aquém. Ao fazer isso, forneceremos não apenas uma estrutura precisa para defender a importância de adotar uma abordagem não hierárquica, mas também forneceremos uma medida pela qual poderemos medir se nossa própria prática não hierárquica é fiel à sua justificativa; e que a abordagem não é simplesmente não hierárquica por não ser hierárquica, nem quase autoritária para ter uma aceitação mais ampla. É a articulação das falhas de um modelo hierárquico que o modelo não hierárquico pode (e deve) corrigir o foco da nossa análise.

Corpo, técnica e jogo na infância: notas da teoria crítica de theodor w. Adorno

PID: S1984-59872019000102205 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2019
Autores: Salgado
Resumo O artigo apresenta considerações acerca da infância na Teoria Crítica de Theodor Adorno, com foco nas reflexões acerca do corpo, da técnica e do jogo que marcam a infância comoum outroda razão. A infância é retratada por Adorno como um lugar das primeiras utopias, a pátria ansiada e, desde sempre inabitada, que se torna falsa a qualquer tentativa de resgate, mas ilumina o desejo outrora experimentado num jogo com o corpo e o pensamento, o sonho e a realidade, a experiência de outra ordem da razão que alimenta a memória da natureza animal do humano, sem, contudo, estar isenta das forças históricas dominantes que incidem sobre os processos de subjetivação. Tais reflexões partem de escritos de Adorno e daquilo que seus diálogos com interlocutores, como Walter Benjamin, Freud e Huizinga, podem suscitar na análise do tema. Num segundo movimento do texto, para a compreensão dos limites e potencialidades da dinâmica atual da brincadeira mediada pela tecnologia, tomou-se como exemplo alguns estudos acerca da realidade virtual, em especial, dos jogos eletrônicos em contraposição com a teoria de Huizinga sobre o caráter sagrado no jogo. Conjecturas sobre como o contato com a realidade está danificado já na infância pela relação com a tecnologia, estabelecendo a busca por satisfação imediata, podem revelar a qualidade da atenção que as crianças recebem nos processos educativos e dar pistas sobre a crescente manifestação de transtornos sócio afetivos, que culminam na preferência por dispor o tempo e o corpo às brincadeiras eletrônicas em detrimento do contato real com as outras crianças.

Discussões filosóficas com crianças: uma oportunidade para experimentar abrir a mente

PID: S1984-59872019000101108 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2019
Autores: Hawken
resumo As crianças desenvolvem e experimentam inúmeras habilidades de pensamento no decorrer de um diálogo filosófico, que é o meio didático para a prática da filosofia com crianças, desde o seu nascimento. Uma delas desempenha um papel primordial na possibilidade de um verdadeiro diálogo, já que se baseia no encontro de mentes: ter a mente aberta. Além disso, este conceito é onipresente na literatura sobre filosofia para crianças (Lipman, 2003: 172-179; Tozzi, 2001, 2002) e, portanto, requer uma exploração e uma análise precisa, que é o objetivo deste artigo. Mais precisamente, há três objetivos: definir a natureza e as características da mente aberta, analisar sua emergência nas discussões filosóficas e, além disso, estudar seu papel na prática da filosofia. Nossa pesquisa (conduzida na Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne) mostrou que certos indicadores presentes no discurso das crianças manifestam a ocorrência de abertura da mente: reformulação das palavras umas das outras, complementaridade de enunciados, explicação das ideias um do outro, estabelecimento de nuances, desacordo em termos e pensamento crítico. Esses atos cognitivos revelam uma relação intelectual entre as crianças, a ponto de que a abertura da mente pode ser definida como uma atitude bidimensional: tanto como uma disposição cognitiva que possibilita a compreensão da ideia de outra pessoa como uma disposição ética que permite a aceitação da alteridade. Além disso, sinaliza uma postura ética: a capacidade de assumir abraçar as palavras dos outros, sem necessariamente concordar, a capacidade de levar em conta uma visão alternativa sobre o mundo. A hipótese de pesquisa, que é o resultado de sete anos de pesquisa na cidade francesa de Romainville (leste de Paris) é, portanto, a seguinte: discussões filosóficas constituem uma oportunidade para as crianças experimentarem ter a mente aberta como uma habilidade de pensamento crucial e como uma postura ética.

Em um mundo para gente grande, o que podem os corpos pequenos?

PID: S1984-59872019000102215 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2019
Autores: Braga Zamboni RodriguesIII
resumo O texto parte de uma pesquisa de mestrado apresentada ao Programa de Pós Graduação em Psicologia Institucional, da Universidade Federal do Espírito Santo, apresentada no ano de 2019 e que se propôs a trabalhar, junto às crianças, as relações e negociações feitas com as normas de gênero e sexualidade. As crianças apareceram em situações e lugares diversos, com destaque para duas pracinhas de bairro, onde se deu a maior parte da pesquisa. A dissertação não tinha como objetivo fazer uso de teorias desenvolvimentistas, descrever e enquadrar as crianças em categorias, pois entendeu-se que isso também seria a reprodução das lógicas adultocêntricas. Movimentos crianceiros foram considerados em sua potência de existir por si e, por essa autonomia, foi possível visualizar como eles conseguem fazer questão sobre os lugares e identidades que os adultos insistem em reafirmar sobre os corpos através da diferença sexual. Os resultados da pesquisa apontaram que as crianças conseguem agir taticamente dentro das questões de gênero, subvertendo a lógica das estratégias que incidem sobre seus corpos e os colocam constantemente na posição de projetos de adultos. A partir da pesquisa, pensamos como as crianças podem indicar, nos diversos campos de experiência humana, outros modos de se relacionar e estar no mundo.

Ensino de pensamento crítico e habilidades meta-cognitivas através da investigação filosófica. Relatório de um praticante sobre experimentos em sala de aula.

PID: S1984-59872019000102213 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2019
Autores: Worley Worley
resumo Embora o consenso de especialistas afirme que o pensamento crítico (PC) é essencial para a investigação, isso não significa necessariamente que, praticando a investigação, as crianças estejam desenvolvendo habilidades de PC. Os programas de filosofia com crianças em todo o mundo visam desenvolver disposições e habilidades de PC por meio de uma comunidade de investigação, e este estudo comparou o impacto do ensino explícito de habilidades de PC durante uma pesquisa, apenas com o método de investigação filosófica (IF) da The Philosophy Foundation (PhF) (que não possuía ensino explícito de habilidades de PC). Diz-se também que a filosofia com crianças melhora as habilidades meta-cognitivas (MC), mas há pouca pesquisa sobre essa afirmação. Após problemas observáveis para garantir uma meta-cognição genuína nas sessões de IF - com uma compreensão razoavelmente forte do que é meta-cognição - um método foi desenvolvido e testado neste estudo para reunir, em apoio mútuo, o desenvolvimento do pensamento crítico e das habilidades meta-cognitivas. Com base no trabalho de Peter Worley e Ellen Fridland (KCL), a Philosophy Foundation realizou um estudo experimental com o King's College London no outono de 2017 e outono de 2018 para comparar o impacto do ensino de habilidades de PC e habilidades de MC em relação às classes que apenas têm investigação filosófica. A abordagem desenvolvida e usada para o estudo emprega o ensino explícito de algumas habilidades de PC e MC no contexto de uma investigação filosófica (em oposição ao ensino separado dessas habilidades) e produz algumas descobertas positivas, tanto qualitativas quanto quantitativas. Ambos os estudos foram realizados em um período de 12 semanas e um grupo de controle e intervenção foi usado em cada estudo. Este relatório se concentra no segundo ano do estudo, com 220 crianças de dez e onze anos envolvidas em oito turmas em três escolas estaduais no sudeste de Londres. Embora existam limitações do estudo, os resultados indicam que o ensino explícito dessas habilidades durante uma investigação filosófica pode ajudar as crianças a usar as habilidades de PC e MC com mais êxito do que apenas a investigação filosófica.

Estar à escuta: música e docência na educação infantil

PID: S1984-59872019000102210 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2019
Autores: Richter Lino
resumo O ensaio aproxima estudos em torno da dimensão poética da linguagem para abordar a relação entre docência na educação infantil e experiência de estar à escuta como modo estésico de coexistir no mundo. A aproximação entre filosofia, artes e educação infantil, desde o encontro entre e música e educação, sublinha que a escuta é o som do sentido e não o sentido do som a ser interpretado. A interlocução com o pensamento de Jean-Luc Nancy, ao permitir afirmar que o sentido sensível suscita o sentido sensato ou inteligível e o faz num movimento constante que não se completa ou finaliza produzindo uma significação ou uma informação, emerge como resistência filosófica ao privilégio do registro teórico fundado na primazia ocidental do modelo óptico. Estar à escuta implica a ressonância como o som do sentido, como profundidade primeira ou última do corpo. A música como jogo entre som e ruído, como produção poética de ordenação de sentidos sonoros provocados pela ressonância - como gesto de escutar a escuta, contribui para interrogar a educação de bebês e crianças pequenas a partir de um corpo que pode brincar com a sonoridade do mundo para viver a poética do barulhar como potência musical de jogar com sons e ruídos. O apetite sonoro das crianças as convocam a barulhar pela estesia de escutar o mundo na pluralidade da coexistência. O gesto de estar à escuta na docência com bebês e crianças pequenas aponta para ações educativas que consideram a experiência constituinte de ressonâncias e reverberações de sentidos imbricamos no som, um sentir se sentir (aisthesis), como partição e partilha das vozes, dos signos, dos gestos, das formas, do sentido sentido e do sentido sensato que nos situam sendo-uns-com-os-outros na coexistência mundana.

Fazer um círculo: construir uma comunidade de investigação filosófica numa escola do governo pós-apartheid na áfrica do sul

PID: S1984-59872019000101110 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2019
Autores: Reynolds
resumo Neste artigo, pretendo traçar alguns agenciamentos de um evento documentado em minha pesquisa de doutorado, que contesta formas dominantes de investigação. Esta pesquisa se realiza com um grupo de estudantes de segunda série numa escola pública na Cidade do Cabo, na África do Sul. É a pesquisa experimental que mantém o sujeito humano como sendo o aspecto mais importante da observação, o único aspecto dela que possui ação ou intencionalidade. Particularmente, a presente análise tem como foco o processo de fazer o círculo, e quão integral ele é em sua contribuição para a construção da Comunidade de Investigação, a pedagogia da Filosofia com Crianças. É oferecida aqui uma análise pós-humanista crítica que se relaciona com os agenciamentos material-discursivos do processo de fazer o círculo. Além disso, como este fazer um círculo pode ser uma prática democratizante, incluindo no conceito de democracia o mais-que-humano. A análise também foca no ato de posicionar as cadeiras pelas crianças, como uma prática pedagógica deliberada, e em como isto funciona interrompendo o binarismo adulto/criança. Há um movimento para além da virada linguística ao prestar atenção não somente no âmbito discursivo nas transcrições, mas também nas intra-ações entre humanos e o mais-que-humano, o círculo, as cadeiras e a materialidade do lugar.

Filosofar com crianças pequenas como princípio de promoção de línguas ou linguagem

PID: S1984-59872019000101111 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2019
Autores: alt
resumo Crianças desenvolvem habilidades de comunicação e linguagem através de sua interação com adultos e outras crianças. Este estudo, assim sendo, se debruça sobre duas questões independentes: os efeitos da filosofia com crianças em seu desenvolvimento linguístico e os atos discursivos de professorxs e crianças em investigações filosóficas. Como parte de um teste comparativo do tipo “antes-depois” com o “Hamburger Verfahren zur Analyse des Sprachstandes Fünfjähriger” (Reich & Roth, 2004, Procedimento de Hamburgo para Análise de Nível Linguístico de Crianças de Cinco Anos), discussões filosóficas semanais foram realizadas com uma turma de teste por um período de seis meses. As descobertas centrais foram de que as crianças que filosofavam desenvolveram habilidades linguísticas significativamente mais avançadas comparadas a um grupo de controle que não trabalhou com a filosofia, em duas áreas, a saber: desempenho geral em discussões e o uso de conectores mais sofisticados. Uma parte subsequente do estudo comparou os atos discursivos das crianças e seus/suas professorxs no contexto das discussões filosóficas com seus atos discursivos numa situação dialógica diferente (diálogo sobre livros de ilustrações). Isto mostrou que as questões filosóficas que partiram dx professorx da pré-escola levaram à produção de uma linguagem particularmente complexa pelas crianças. Atos discursivos complexos envolvem o uso de estruturas verbais e conectores de alto nível linguístico. Estes são necessários para racionalizar e atuar na realidade como cidadão, e este estudo mostra como seu desenvolvimento está aliado à filosofia com crianças.

Formação inventiva de professores por entre tessituras ética, estética e política de escritas acadêmicas

PID: S1984-59872019000102214 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2019
Autores: dias
resumo O propósito deste trabalho é pensar sobre as temáticas da formação inventiva de professores atravessadas pela atividade estética de uma escrita de si. Para tanto, fazemos ressoar a questão feita por Maurice Blanchot para enfrentar a linguagem da pesquisa em educação ligada à exigência de sua descontinuidade, de modo que a palavra escrita seja plural e implicada com o próprio movimento de uma experiência estética: “Como escrever de tal maneira que a continuidade do movimento da escrita possa deixar intervir fundamentalmente a interrupção como sentido e a ruptura como forma?” Trabalha-se com dois eixos de análise e de intervenção: a noção de escrita de si de Michel Foucault e a ideia de texto e fora do texto de René Lourau. Há círculos com o intuito de guiar o leitor nas trajetórias das pesquisas sobre formação inventiva de professores e seus fragmentos diarísticos. Os círculos não estão separados, mas se encontram e ressoam entre si com os eixos da escrita de si, do texto e do fora texto, são eles: escrita de si e pesquisar com; diário de pesquisa e restituição escrita; devir texto e tessituras do pesquisar e do escrever na formação. Existem ressonâncias inventivas, em que cada fragmento de diário, mais do que ser um fragmento, é a expressão de uma ação que se constitui em práticas efetivas abertas às intensidades e às diferenças. Contudo, reverte-se o trabalho do diário tomando-o longe do padrão para se poder tratá-lo mais próximo à alteridade, aos processos de subjetivação ético, estético e políticos de uma formação inventiva de professores.

Identidade e populismo, fora! O papel da filosofia na restauração de um mundo fragmentado e dividido

PID: S1984-59872019000101103 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2019
Autores: Splitter
resumo Populismo e tribalismo são, cada vez mais, características predominantes das assim chamadas sociedades democráticas. Neste artigo, pretendo explorar algumas das razões deste aumento, incluindo confusões conceituais acerca da natureza da identidade e a dicotomia coletivista/individualista; o declínio dos canais midiáticos legítimos e sua substituição pelas mídias sociais e suas narrativas pouco preocupadas com uma consistência, com normas morais ou com a afirmação da verdade; e o fracasso dos eleitores em sustentar suas responsabilidades como cidadãos de uma democracia. Pretendo demonstrar que enquanto o populismo pressupõe uma estrutura democrática formal, na verdade ele é incompatível com - e na verdade representa uma genuína ameaça para - a democracia. Pretendo propor uma estrutura ética e epistemológica baseada na unificação do conceito de pessoalidade, que substitua as variadas tribos, grupos, coletivos e associações com as quais nós nos identificamos, e que são, erroneamente, tomadas como constituintes de nossas identidades. Pretendo ainda justapor as noções de narrativa e de diálogo para propor caminhos em que tribalismo e polarização possam ser contestados. Talvez não surpreendentemente, a melhor forma de fazer essa contestação seja a prevenção, ressaltando a importância de ensinar as crianças, desde cedo, a serem potentes pensadoras. Um pensamento potente não é meramente uma importante ferramenta educacional; é a chave para tornarem-se pessoas que são autoconscientes, conscientes sobre os outros como elas e mutuamente conscientes do próprio mundo. Nossas identidades como pessoas podem ser consideradas as condições prévias para que possamos perguntar e responder o que chamo de “as Grandes Questões” (incluindo “Como devo viver?”, “Quais são minhas responsabilidades e obrigações para com os outros?” e “Como posso contribuir para fazer do mundo um lugar melhor?”). E é ai que a filosofia para crianças e a comunidade de investigação têm papeis importantes a desempenhar.

Infância e invisibilidade: por uma pedagogia do oculto

PID: S1984-59872019000101114 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2019
Autores: Gaivota Contage
resumo Em oposição à pergunta mais tradicionalmente feita em educação - o que a escola revela? - esta pesquisa encontra caminhos mais obscuros para pensar as potências presentes nos tempos e espaços escolares ao se perguntar o que se oculta na escola. A partir da tentativa de criação de conceitos filosóficos no campo da educação, este texto tateia cegamente as possibilidades de uma escola que, ao invés de trazer à luz, atenta mais para aquilo que está invisível, escondido, oculto. Através da leitura de pensadores da filosofia da diferença, como Deleuze e Foucault, tenta situar a escola em uma disputa imanente entre o caos e a ordem, onde as estruturas de poder trabalham através da visibilização e permissão, por um lado, e pela interdição e ocultamento, pelo outro. Ao compreender o aparelhamento institucional inserido na lógica da visibilidade/ocultamento, explora a possibilidade de que as forças de resistência que habitam a escola não possam estar à mostra - pois tudo o que é aparente foi de alguma forma capturado e, por isso, permitido. Através de um olhar filosófico e genealógico da escola e com a ajuda de Heráclito, este texto cego tenta afirmar a potência revolucionária dessas forças invisibilizadas, e, neste percurso, assumir a infância não como uma fase a ser superada, mas justamente como uma destas potências que permitem manter o mundo oculto, encriptado, e não sujeito à forçosa lógica do visível - ou seja, afirmar a infância como uma potência subversiva e revolucionária, e opor-se aos discursos “visibilizadores” que expõem a infância à cristalização dos aparelhos discursivos. Assim, tateia com a ponta dos dedos escola e infância, para constatar sem precisar ver que elas, invisíveis, estiveram e estão lá.

Intersubjetividade: um olhar sobre a comunidade de investigação filosófica

PID: S1984-59872019000101112 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2019
Autores: Vieira
resumo O paradigma da intersubjetividade preconizado por Jürgen Habermas fundou uma forma de chegar a consensos racionalmente fundamentados. A sua obra aponta para a ideia de que o que mantém as pessoas numa atitude de ação comunicativa são as forças da fundamentação racional e da motivação racional. Ao analisarmos a dimensão intersubjetiva da prática da comunidade de investigação filosófica, demo-nos conta de que é possível verificar a passagem de uma autonomia da razão centrada no sujeito (um pensar por si mesmo), para a prática de uma racionalidade comunicativa (centrada num pensamento em comunidade). Os pressupostos inevitáveis da comunicação fundam e mantêm as comunidades e permitem o clima de confiança e de cuidado que possibilita que os membros da comunidade pensem livremente e se deixem guiar pela força do we, do nós, do nos-otros. Não é somente em contexto de comunidades de investigação filosófica que se verificam as potencialidades do paradigma da intersubjetividade de Habermas. Também na discussão entre especialistas podemos encontrar essas potencialidades. Foi, em certa medida, este o rasto que conseguimos traçar ao investigarmos as diferentes abordagens de Ann Sharp, David Kennedy e Giuseppe Ferraro sobre a noção de comunidade de investigação filosófica. O diálogo estabelecido entre estes filósofos e o conceito de comunidade de investigação filosófica, os seus argumentos e as formas de concretização do diálogo filosófico em comunidade, dão conta da fecundidade da racionalidade comunicativa. Sabemos que o conceito de comunidade de investigação filosófica, tal como é pensado e vivido por Ann Sharp, é distinto do conceito de comunidade de investigação filosófica de David Kennedy. Percebemos que o círculo do pensar de Giuseppe Ferraro é uma outra abordagem ao pensamento filosófico em comunidade. No entanto, na nossa investigação estas abordagens entraram em diálogo e, em boa medida, devido ao que é permitido pelo próprio movimento de uma racionalidade comunicativa. Estas possibilidades de diálogo dão-se no pressuposto de uma relação intersubjetiva também entre conceitos, experiências e pensamento sobre os conceitos e as experiências. O caminho percorrido entre a comunidade de investigação filosófica entendida como espaço de intersubjetividade (Sharp, 1987), passando pela abertura da comunidade de investigação filosófica a outras dimensões não discursivas da comunicação (Kennedy, 1994) e avançando para o círculo do pensar que enche o espaço de tempo e o torna num lugar (Ferraro, 2018) revela como a comunidade de investigação filosófica é um conceito e uma experiência abertos e fecundos: um conceito em ação.

Partir da infância ou a arché do pensamento

PID: S1984-59872019000102202 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2019
Autores: Silva
resumo Desde o lugar de nascimento da infância, este texto busca, através de Giorgio Agamben (2005), Heráclito (fragmento B52) e Paulo Freire (1982; 1986; 2001; 2015), elucidar a coexistência entre infância e tempo. Esses autores contribuem em pensar que a infância, seja ela cronológica ou não, é uma inspiração sem a qual impossibilita-nos a inventividade seja em relação à historia, à filosofia e à educação. Desse modo, trabalha com a hipótese de que infância e tempo são indefiníveis conceitualmente e diluidoras da ideia de estabilidade, a qual escapa à compreensão de continuidade, uma vez que ela não é um acontecimento absoluto. É nesse sentido que o presente texto parte da leitura de que a infância é, fundamentalmente, condição de existência da história da humanidade, o que torna possível a passagem da língua ao pensamento e, com isso, provoca inventividade para todo estado de coisas. Para pensar a infância que está em questão neste texto, consideramos uma certa experiência do tempo diferente da experiência tradicional, fruto de uma compreensão concebida como cronologia e acabamento, presente nas diversas leituras feitas da infância. Ao colocarmos esses apontamentos, algumas perguntas impõem-se: existe algo como uma infância do pensamento? A insistência com a infância é uma forma de não renunciar a um novo conceito de experiência infantil com o tempo?

Pedagogias queer e feminismos rapsódicos em/a partir de valeria flores

PID: S1984-59872019000102207 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2019
Autores: Alvarado
resumo Uma premissa feminista anima a (des)nomear onde é aqui? Um onde que não se limita em predicar(lhe) a/de um sujeito uma lista de adjetivos, modificadores ou etiquetas de pertencimento; mais que de uma identidade carente de reconhecimento se trata do acontecer de uma localização política. Possibilidades do dizer que fazem que o fazer escola, o percurso de uma investigação ou as derivações da militância se encontrem radicalmente trocadas entre elas. Apresentamos as formas nas quais o subscrever e o enunciar se enrolam com os modos de fazer audíveis e visíveis como posicionamento político, individual e coletivo por dentro/fora da escola. Estas linhas perseguem a posição nômade - de val flores -, a localização limitada e específica de um conhecimento situado, precário, itinerante que se desdobra em uma pedagogia antinormativa, animada por uma epistemologia feminista descentrada do não saber e do não fazer; parte de um feminismo under, microfeminismo oufeminismo rapsódico desloca os regimes de luz, da modernidade em sua encarnação cartesiana, aos que pretendemos abrir(lhes) a porta para jogar e tentar. Expulsas da zona de concentração iluminada, as ignorâncias constituem o incognoscível, o ininteligível, o inominado, para as quais vemos ao menos três rotas: a memoria, a linguagem, a afetividade.

Perspectivas do ensinante e do aprendiz sobre a discussão filosófica - incerteza como desafio e oportunidade

PID: S1984-59872019000101106 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2019
Autores: Michalik
resumo Investigamos as experiências de professorxs e crianças com a filosofia com crianças através da análise do conteúdo de entrevistas com professorxs da educação infantil e de discussões com grupos de alunos deste mesmo segmento. Os resultados mostram que sessões periódicas de filosofia com crianças podem impactar a visão dxs professorxs de si próprixs como educadores, sua abordagem de ensino e seu desenvolvimento pessoal. Do ponto de vista das crianças, o aspecto mais importante e significativo, além do conteúdo da discussão filosófica, era a oportunidade de pensarem juntas de forma não-definitiva. Um componente essencial da construção de sentido coletiva foi a incerteza, que é um aspecto integral da discussão filosófica. Essas descobertas se relacionam com a ideia de um “cidadão agente” de diversas maneiras. Filosofar com as crianças leva a um estilo de ensino mais colaborativo e democrático, que dá a elas espaço para trazerem para a discussão seus próprios interesses e atividades. Isto se alinha com a satisfação dos alunos em relação à abertura da incerteza das questões filosóficas, a valorização da oportunidade de se envolver com diferentes ideias e pontos de vista e seu desejo de enfrentar o desafio de rever suas próprias posições e mudar seu pensamento.

Por que as crenças e valores de professores e professoras são importantes na pesquisa em filosofia para crianças (fpc): uma perspectiva australiana

PID: S1984-59872019000102204 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2019
Autores: Kilby
resumo Este artigo argumenta que há uma lacuna nas recentes pesquisas em Filosofia para Crianças (P4C) que focam nas perspectivas dos professores e professoras, particularmente em relação a suas crenças e valores. Este artigo debruça-se brevemente sobre o que FpC é e sobre seu atual estatuto na esfera da educação mais amplamente concebida, incluindo estudos empíricos que identificam benefícios específicos e mensuráveis para a inclusão de FpC nas escolas. Este artigo discutirá recentes reformas educacionais sistêmicas no Estado de Victoria, Austrália, que visam a inclusão da FpC em escolas públicas de Victoria. Em seguida, o artigo explora como as perspectivas de professores e professoras, através de análises de suas crenças e valores, acrescentam valor significativo na educação comparando estudos semelhantes em outras áreas da educação que usaram pesquisas sobre crenças e valores dos professores e das professoras para informar suas práticas e a implementação de políticas públicas. O artigo também explora a importância das crenças e valores das professoras e professores, especialmente no contexto da FpC, identificando a contribuição que uma análise dessas crenças e valores pode ter. Ele conclui, então, analisando recentes pesquisa em FpC que começaram a explorar as perspectivas de professoras e professores antes de encerrar com direções futuras de pesquisa que se apoiam nestes estudos anteriores que estabelecem importantes bases para estender o alcance da FpC nos sistemas de educação.

Por que piaget não filosofa? Discussão crítica de gareth b. Matthews com o conceito de desenvolvimento cognitivo de piaget

PID: S1984-59872019000102201 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2019
Autores: Walczak
resumo Este artigo é direcionado a criticar a teoria piagetiana do desenvolvimento intelectual elaborada por Gareth B. Matthews (1929-2011). Este filósofo americano analisa as ideias de Piaget (1896-1980) de uma perspectiva da questão sobre o significado e a possibilidade de filosofar com crianças. A discussão entre Matthews e Piaget pode parecer interessante hoje porque a teoria do desenvolvimento cognitivo tem moldado a educação moderna e pode ser vista como um fator de perpetuação de posturas céticas diante da filosofia para crianças. Neste artigo, os argumentos de Matthews foram reconstituídos e interpretados, provando consistente e sistematicamente que Piaget não compreendeu o fenômeno da filosofia das crianças. Falando do filosofar das crianças, Matthews está se referindo à tendência das crianças de perguntar questões filosoficamente significativas, à habilidade de problematizar a experiência, à atitude específica das crianças para com o mundo e a notar os problemas que grandes filósofos têm lidado por séculos. Todas essas capacidades observáveis do pensamento das crianças foram interpretadas por Piaget como déficit intelectual. Matthews argumenta contra esta interpretação. A discussão enquadra estas questões como sendo um problema de determinação do critério de maturidade intelectual, de importância da criatividade e da fantasia no pensamento, de desenvolvimento de conceitos e de habilidades linguísticas e de diferenças entre o uso da linguagem entre crianças e adultos. A análise das críticas da teoria piagetiana do desenvolvimento cognitivo leva à conclusão que a psicologia infantil precisa de abertura a este aspecto do pensamento das crianças que Piaget ignora. Há ainda uma importante tarefa para psicólogos/as e filósofos/as em melhor entender o fenômeno do filosofar por parte de crianças.
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