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Autobiografia: infância, memória e esquecimento a partir de uma perspectiva filosófica

PID: S1984-59872018000300659 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2018
Autores: Medina
Resumo A infância, com o passar do tempo, se volta para um passado obscuro de nossa vida. Nosso principal aliado para chegar a ela, a memória, geralmente nos falha e, ao olhar para trás, encontramos uma vida com histórias das quais não estamos certos sobre em que momento situá-las, ou mesmo às vezes, não estamos seguros se as vivemos ou não; podem perfeitamente ser pensamentos inventados, algo que alguém nos contou ou que outra pessoa viveu, ou ainda, algo que vimos na televisão ou lemos. Parece, à primeira vista, que o que podemos dizer de nossa própria infância é pouco, pois aparentemente nada pode acessar essas lembranças; nem nós mesmos podemos pretender nada mais do que um par de imagens fugazes. Ainda com toda essa dificuldade, nos enfrentamos com nosso passado constantemente e vivemos em uma permanente relação com nossas recordações, as quais sendo ou não difusas, lutamos para conservá-las de diversas maneiras, existindo inclusive quem se aventura a capturar no papel aquilo sobre o que tão pouco sabe. Este trabalho procura falar da infância a partir da infância mesma, tendo como objeto as autobiografias e procurando entrar nos objetivos e nas razões que motivam a escrever uma autobiografia da infância, bem como os sentidos que esta adquire devido à tensão da recordação com a ficção. Para levar a cabo tal objetivo, navegaremos entre as vozes de diferentes filósofos que tem se referido à autobiografia e à ficção. Além disso, para concluir, traremos três textos autobiográficos como objetivo desse estudo.

Colocando a filosofia à serviço das escolas para dar às vozes das crianças um valor real

PID: S1984-59872018000200453 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2018
Autores: Albert
Resumo Este artigo explora uma abordagem moderna da infância, que vai além da tradicional abordagem da criança das sociedades ocidentais; baseada principalmente na sua inferioridade e vulnerabilidade. A abordagem moderna explorada neste artigo toma uma perspectiva pluralista na concepção das crianças como pessoas capazes de pensar por si mesmas e que têm direito de participar nas questões que as afetam, a partir de seus pontos de vista, enquanto crianças. Esta abordagem moderna é relacionada neste estudo à tese "free-rangers", onde a infância é interpretada como um processo de maturação e não como um estágio da vida, que é a concepção ligada à percepção tradicional da infância nas sociedades ocidentais. Na estrutura de uma educação formal, esta abordagem moderna da infância está relacionada à educação libertadora de Freire e às propostas da escola da filosofia com crianças, onde as práticas filosóficas são encorajadas desde uma idade tenra, estimulando assim um papel muito mais ativo às crianças nas escolas e dando às suas vozes o devido reconhecimento. Assim, este estudo destaca a importância da promoção da educação libertadora nas escolas, com o intuito de subverter os papéis tradicionais dos professores e dos alunos na educação formal, dando às crianças um papel mais ativo. Nesse sentido, o artigo clama pela atividade da filosofia com as crianças e encoraja a ideia de se colocar a filosofia à serviço das escolas para dar às vozes das crianças um maior valor.

Concepções de infância e a educação das crianças da classe trabalhadora: uma crítica benjaminiana ao projeto escola sem partido

PID: S1984-59872018000300609 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2018
Autores: Monsores Aquino
Resumo No presente artigo procuramos sistematizar algumas contribuições do filósofo Walter Benjamin na intenção de nos ajudar a pensar as infâncias e a educação da classe trabalhadora no contexto em que se formulam projetos de lei como o Escola Sem Partido, no Brasil. São projetos elaborados nos últimos anos, de forte cunho conservador e de controle ideológico. Buscamos em Benjamin a noção de experiência e como ela se situa na infância e na área da educação, bem como as suas contribuições no que se refere à educação popular ou proletária. A partir de tais noções e referencial benjaminiano, visamos analisar propostas educativas e projetos de lei, como o acima mencionado, indagando sobre as concepções de infância, história, experiência e política que atravessam esse debate. A intenção aqui é pensar sob uma ótica benjaminiana o crescimento das ideias que norteiam o projeto Escola Sem Partido e a sua influência na educação das crianças pequenas, em especial, das crianças da classe trabalhadora. Para tanto, consideramos escritos do autor como: Experiência e Pobreza, A vida dos estudantes, Teatro Infantil Proletário, Pedagogia Comunista, O narrador e suas narrativas radiofônicas apresentadas em rádios de Berlim e Frankfurt, nas quais a cultura e o cotidiano das crianças berlinenses têm destaque. Para começarmos a trilhar os caminhos desse estudo que se inscreve numa pesquisa de doutorado, em curso, além de Walter Benjamin, também recorremos a publicações de Gaudêncio Frigotto e de Jorge Larrosa Bondía, tendo ainda o projeto de lei federal nº 193/2016 (Escola Sem Partido) como documento legal analisado.

Corpos leitores: infância e escola

PID: S1984-59872018000300595 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2018
Autores: Trindade Richter
Resumo A escrita aproxima leitura literária e infância escolarizada para destacar a literatura integrada às artes, como arte da palavra na Educação Básica. A abordagem filosófica da leitura enquanto experiência tecida no vínculo entre texto e leitor, corpo e alma, silêncio e escuta, contribui para estreitar relações entre corpo e leitura literária para confabular sentidos outros de leitura espreitando experiências de infâncias, de arte e de dimensão educativa da estesia da leitura literária. A interlocução entre Jean- Luc Nancy, Maurice Merleau- Ponty, Ricardo Piglia e Walter Kohan permite pensar a relação das crianças com a dimensão educativa da leitura e como esta pode ser vivida/experienciada. Considerar a leitura como experiência, como distintos modos de encarnar a palavra, exige detenção para repensarmos como a educação se coloca frente às infâncias. Essa detenção implica considerar o potencial que a leitura literária pode guardar como experiência afetiva nas infâncias e de que forma uma prática fundamentalmente intelectual como a leitura pode afetar nossos sentidos e ressoar em nossos corpos, além de provocar nosso pensamento. As artes, e entre elas, a literatura, configuram o acontecimento da dimensão estésica privilegiada de um corpo irredutivelmente diverso em seus acessos sensíveis - sensorial, sentimental, sensual, sensato. A presença de cada arte é única e heterogênea, o que as faz se comunicarem, colocando-as em contato e afetando-as. Talvez o exercício da leitura literária seja menos um exercício de escolarizar sensibilidades e padronizar singularidades e mais um modo de acolher a estesia da alteridade na experiência de sentir sentidos de mundo.

Crianças inventando mundos e a si mesmas: ideias para pensar a autoria narrativa infantil

PID: S1984-59872018000100071 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2018
Autores: Girardello
Resumo : O artigo discute a importância e as possibilidades de valorização da autoria narrativa infantil no cenário contemporâneo, considerando o papel que nela desempenham a imaginação e as experiências vividas pelas crianças. Entre os pressupostos do trabalho está a potência geradora que a narrativa exerce sobre o imaginário, retomada aqui a partir de Paul Ricoeur, Richard Kearney e Maxine Greene. A discussão, de caráter ensaístico, leva em conta a crítica à noção de autoria como fundação ou propriedade, mas concentra-se na dimensão ético-poética da autoria, entendida como um fazer discursivo no qual as crianças explorem a linguagem mais precisa e singular para a invenção de histórias e ao mesmo tempo para sua própria construção como sujeitos. Reflete-se também sobre algumas propostas de criação narrativa com crianças, a partir de uma concepção lúdica e dialógica de autoria, na qual entram em livre jogo a imaginação individual, a memória e a apropriação cultural, a abertura à historicidade e o compartilhamento social. Por fim, a discussão sobre autoria narrativa infantil é ampliada por lembranças de infância de escritores, sobre o que os animou a criar histórias quando crianças, destacando-se a necessidade de um tempo, de um espaço, da escuta do outro e de textos culturais inspiradores para uma criação de histórias que possa significar para as crianças a experiência de uma grande aventura interior.

Da necessidade de interrogar o pensamento: gestos sobre a infância no tempo escolar

PID: S1984-59872018000200341 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2018
Autores: Marques Oliveira Santos
Resumo: Apresentamos neste artigo uma discussão sobre gestos produzidos a partir do verbete infância na interface com a experiência do tempo escolar. Trata-se de uma discussão tecida no interior do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Educação, em especial, do Grupo Tempos da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora/MG. Ao longo da história, o tempo foi discutido de diversas formas e ainda o é, bem como a infância, conceitualmente construída em decorrência das influências sociais, políticas, religiosas, culturais. No intento de "iniciar-se no pensar", interrogamo-nos sobre quais formulações teóricas têm assentado o verbete infância na interface com o tempo escolar no campo da educação? Defendemos a tese central de que a infância, em um recorte ocidental, tem sido apresentada nas produções ainda como tempo social. é recente o movimento de considerar a infância como acontecimento, experiência, contrapondo-se à ideia da infância como etapa da vida. Em decorrência disso, considerar a infância relacionada à tensão entre o tempo social e o tempo como intensidade do presente, imprime a necessidade de gestos pedagógicos que pensem esta tensão e, assim, considerem as crianças da/na atualidade, estreitando as suas relações com a escola, com o conhecimento e com a vida. Para iluminar as questões costuradas de nossas inquietações, elegemos autores como Agamben, Leal, Bakhtin/Volochinov, Kohan, Vieira, Bento e Meneghel, Kramer, Borba, que se debruçaram na díade infância e educação. Para problematizar a categoria tempo, dialogamos com Santo Agostinho, Oliveira, Marques C. e Marques L, Skliar. A leitura dos nossos interlocutores e a nossa escuta com/para a escola puderam subsidiar o pensamento de que podemos inventar caminhos não somente imaginados como possíveis na perspectiva de refletir tempo, infância, experiência e escola sobre outras bases. A interrogação e não a convicção possibilita o sentido do conhecimento na materialidade das nossas práticas, produzidas dentro/fora da universidade. Estes são assuntos pouco privilegiados nas matrizes curriculares e disciplinas que abordam a questão das crianças, suas infâncias e temporalidades.

Desenvolver o raciocínio e a investigação de crianças, a análise de conceitos e as habilidades de criação de significado por meio da comunidade de investigação

PID: S1984-59872018000200427 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2018
Autores: Canuto
Resumo: Este artigo apresenta os resultados de uma pesquisa feita com vistas à investigar a eficácia da Filosofia para Crianças (FpC), uma pedagogia que emprega o diálogo filosófico em uma comunidade de investigação, em uma escola primária das Filipinas. A análise quantitativa das habilidades de pensamento crítico identificadas por Sharp e Splitter (1995) como (1) raciocínio; (2) análise conceitual e (3) criação de significado revelaram que houve um aumento considerável na frequência do uso de tais habilidades de pensamento crítico pelas crianças através do curso de quinze (15) sessões de investigação dialogada. Além disso, a análise quantitativa dos excertos dos diálogos transcritos colaboraram ao refinamento do uso pelas crianças das habilidades de pensamento crítico. Assim, este estudo pioneiro clama por uma investigação adicional, que implemente a FpC em outros níveis de classe e que explore outros indicadores de desenvolvimento no pensamento infantil. Ademais, ele recomenda que as escolas primárias adotem a FpC no currículo da educação básica das Filipinas, e que os instituições de formação continuada ofereçam treinamento aos professores e incluam a FpC também para o treinamento de formação dos professores.

Deslocamentos crianceiros, conversas transviadas: coisas da educação e de afirmação de uma vida que importa

PID: S1984-59872018000200407 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2018
Autores: Rodrigues Brasileiro Zamboni Ferreira Roseiro
Resumo: A partir da premissa que a criança é um outro perigoso que precisa ser controlado, esse artigo propõe acompanhar - e, em dada medida, inventar - as infâncias errantes, desviadas e transviadas como campo de possibilidades para afirmar uma vida que difere de si mesma. Compreendendo a partir de René Schérer, Guy Hocquenghem e Michel Foucault que as infâncias são relegadas a uma ordem de instituições que as sequestram sem parar, isto é, que veementemente se lançam sobre elas para lhes ceifar o campo das possibilidades, esse texto tenta se aliar às crianças e as suas travessuras. Assim, essa escrita busca afirmar a criança enquanto categoria analítica, enquanto ficção de processos de rememoração. Nessa aventura, é o processo de invenção que se alia à memória e põe para trabalhar os conceitos e as afecções da racialidade, de gênero e de sexualidade. Aqui, é a criança que borra os limites dessas categorias, que faz sumir as estabilidades da existência. Porque malditas, as crianças (des)viadas não se satisfazem com as infâncias sequestradas que lhes imprimem. Riem e zombam das histórias da infância tão confortavelmente contadas no mundo dos adultos. As crianças aqui presentes são potentes justamente por estabelecerem linhas de resistência frente às violências, ao racismo, à heterossexualidade compulsória, à misoginia. Travessas, as crianças apenas riem e convidam aos outros com seus rastros de traquinagem.

Escutando os adultos sobre proteção da infância e crianças em situação de rua no brasil urbano

PID: S1984-59872018000100163 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2018
Autores: Libardi Ursin
Resumo: Esse trabalho se localiza na área dos estudos da infância, que concebe a criança como sujeito ativo na sociedade e que é, entre outros fatores, marcado pela sua posição geracional perante outras gerações. Nessa oportunidade, refletimos sobre como são percebidas as crianças brasileiras que vivem no espaço urbano e em um contexto de adversidades muito específico: a rua. O objetivo foi conhecer de que forma os adultos percebem as crianças que estão em situação de rua, e como veem o dever de proteção da infância aplicado a essas crianças. Para isso, apresentamos os resultados de duas pesquisas qualitativas, realizadas separadamente pelas autoras, em três cidades diferentes do Brasil, das regiões Nordeste e Sudeste, contando com o total de 77 adultos. Eles participaram por meio de entrevistas individuais ou em grupo. Os registros dos trabalhos de campo foram analisados e geraram categorias que contemplam a questão de quem é a responsabilidade sobre crianças em situação de rua, e a proteção das infâncias marginalizadas. Baseado no trabalho empírico das duas pesquisas, percebemos que os adultos diferenciaram bastante as crianças em situação de rua das outras crianças que não fazem da rua a sua morada. Os participantes elegeram o Estado como o maior responsável pelas crianças em situação de rua. Para essa infância marginalizada, parte dos adultos elencou instituições estatais como as únicas responsáveis por prover algum trato às crianças em situação de rua; o qual não necessariamente se configurou como uma medida de proteção. A responsabilização e a punição foram mais evocadas pelos adultos do que a proteção. Como conclusão, vimos que os adultos não se sentiram convocados a proteger infâncias marginalizadas, por isso pensaram prioritariamente em sua própria proteção e beiraram a negligência para com essas crianças. O reconhecimento aos "pivetes" foi dado somente por vias negativas, pois a criança em situação de rua foi vista por alguns como um mal que age e sabe por que age - sendo este o único momento no qual essas crianças foram vistas de forma ativa.

Estudo da infância e desafios da pesquisa: estranhamento e interdependência, complexidade e interdisciplinaridade

PID: S1984-59872018000100011 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2018
Autores: Nascimento
Resumo: Considerar as crianças sujeitos históricos e de direitos, atores sociais, produtores de cultura é resultado de uma construção social, fundamentada em pesquisas realizadas pelo campo da sociologia da infância. O reconhecimento de que crianças constroem cultura vai se configurar a partir dos estudos desenvolvidos principalmente na década de 1990, sob a ótica de sua dinâmica histórica, cultural e social (QVORTRUP, 2002). Esses estudos têm defendido que a infância seja reconhecida como grupo específico que produz e reproduz a vida social, ou seja, que as crianças são seres históricos, sociais, que estabelecem relações com outras crianças e com adultos, como pessoas que participam da sociedade, ainda que de forma limitada, e são influenciadas por eventos políticos, econômicos, culturais, tecnológicos, dentre outros. Essa concepção, contudo, tem convivido com outros paradigmas, como o paternalismo, ou com concepções que fragilizam a condição de ser criança e mantém a ideia de passividade e, assim, de subordinação ao poder dos adultos. A infância, contudo, não pode ser abordada apenas pelo que as instituições adultas esperam, mas reconhecida como grupo específico que produz e reproduz a vida social. Pesquisar a infância, assim, significa lidar com relações e conteúdos complexos, que tanto podem focalizar a interdependência entre crianças e adultos quanto evidenciar as relações de poder estabelecidas nas relações geracionais. Ainda que sejam os adultos a estudar a infância, investigá-la a partir das crianças significa não ignorar que suas ações provêm da mesma multiplicidade de fatores presentes nas relações sociais. Além disso, admitir que forças econômicas e políticas interferem em seu cotidiano, assim como estabelecem fronteiras entre diferentes grupos de meninos e meninas, desafia e define caminhos interdisciplinares de investigação.

Fazendo filosofia com crianças. Um caminho utópico desde sócrates até hannah arendt

PID: S1984-59872018000200471 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2018
Autores: Iiritano
Resumo: A análise do Sócrates de Hannah Arendt abre a possibilidade de uma fértil reinterpretação do sentido e do modo de conceber a filosofia com crianças. Um modo que dentro da presente proposta é definido como "utópico", dado que pretende retomar, com a lição socrática, o quanto permanece nele aberto, indeterminado, passível de renascimento do encanto na viva oralidade de um diálogo filosófico - absolutamente sem precedentes e imprevisível - como o que é travado com uma criança. O espaço dado ao inesperado, à escuta, à livre divergência, se torna então radical, passa a se tornar uma fundação paradoxal de uma "metodologia" que não pode ser captada por esquemas e caminhos estruturados, dado que permanece aberta ao espaço "utópico" do filosofar. A comparação com Arendt é então oferecida, por referências à outras leituras que são contemporâneas à lição socrática, com a experiência vivenciada pela autora, que liderou por anos laboratórios de filosofia com crianças de escolas primárias. De fato, Sócrates nunca foi e nunca pretendeu atuar como "mestre": sua condução do diálogo, mesmo sendo sempre assimétrica, teve sempre como objetivo explorar no interlocutor a sua própria linha de raciocínio, e nunca o oposto (evidente e quase que paradoxal em Platão), nunca tendo como fim o ensinamento de uma doutrina. Mais vale, ao invés, levar o interlocutor da suposta certeza até uma radical incerteza, da opinião até a dúvida, da afirmação à aporia. Disso temos que autenticamente experimentar, antes de tudo, quando nos colocamos a ouvir as questões das crianças, quando tentamos dialogar com elas, "fazer filosofia", "pensar junto".

Gêneros, sexualidades e infâncias: cenas de crianças na contramão da inocência

PID: S1984-59872018000100241 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2018
Autores: Salgado Souza
Resumo: A aura sagrada e secular da inocência em torno da infância mantém ainda, nos dias de hoje, sua força nos discursos sociais de proteção, cuidado e educação das crianças. Conjugado a essa aura de inocência está o discurso do desenvolvimento infantil, muito caro à psicologia e à educação, que se esforça em descrever e caracterizar minuciosamente a infância como uma "etapa da vida", como forma de afirmar "verdades" sobre os sujeitos que a vivem e como "devem" vivê-la. Desse modo, nosso propósito, com este trabalho, é problematizar a produção discursiva da criança inocente, no campo da psicologia e da educação, pelo viés da crítica feminista e dos estudos da infância. Para tanto, assumimos como principais interrogantes o gênero e a sexualidade como possibilidades de construir outros olhares sobre a infância ao nos debruçarmos sobre as experiências, os conhecimentos e os sentidos que as crianças compartilham em suas produções culturais lúdicas. As cenas que trazemos à baila como suportes de nossas reflexões advêm de pesquisas com crianças em instituições de Educação Infantil, da rede pública municipal de ensino de Rondonópolis, Mato Grosso, Brasil, desenvolvidas no âmbito do grupo de pesquisa "Infância, Juventude e Cultura Contemporânea" (GEIJC). As principais questões que levantamos com os marcadores de gênero e sexualidade, quando os levamos para o contexto escolar, são: (1) o lugar das crianças no direito de expressarem seus gêneros e sexualidades nesse contexto; (2) a possibilidade de essas expressões serem reconhecidas e terem existências despatologizadas e viáveis em contextos de aprendizagem, bem como a sua desvinculação de valores moralistas e excludentes; e (3) a possibilidade de reconhecimento, pela escola e pelas políticas cognitivas gestadas nesse contexto, de trajetórias distintas das expressões de gênero e sexuais de crianças. Em suma, nossas indagações vão no sentido de problematizar a ideia de desenvolvimento como progresso a um "dever ser" orientado pela linearidade e universalidade das expressões de gêneros e sexuais, que desemboca com força nos discursos pedagógicos por uma identidade falocêntrica, masculinista, heteronormativa, binária e burguesa.

Infancialização, ubuntu e teko porã: elementos gerais para educação e ética afroperspectivistas

PID: S1984-59872018000300625 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2018
Autores: Noguera Barreto
Resumo Este artigo propõe uma abordagem pouco comum sobre a infância e as dinâmicas das ações do cotidiano escolar. Partindo do pressuposto que a infância é um conceito polissêmico, convidamos à reflexão do conceito de infancialização como possibilidade de rompimento com as práticas atuais de experimentação da realidade, a partir de orientações filosóficas africanas e indígenas. Para tal, será estabelecido o diálogo com a filosofia africana Ubuntu e indígena Teko Porã com objetivo de trazer - ao âmbito educacional - as relações de construção do indivíduo na coletividade, reconhecendo e respeitando a diversidade numa visão planificada, onde os seres vivos vivem numa relação de interdependência. Tais conceitos abandonam a perspectiva colonizadora de que somos preparados para dominar, enfatizando que seres humanos, animais não-humanos e o meio ambiente não estão à disposição e devemos tratar os seres vivos sem utilitarismo, ou seja, como parte de nós.

Infância, alteridade e formação docente: encontro com as crianças como potência de transformação

PID: S1984-59872018000200261 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2018
Autores: Ribeiro Souza Guedes
Resumo: O presente trabalho busca compartilhar reflexões produzidas no bojo de uma ação investigativa desenvolvida no cotidiano de uma escola pública localizada na cidade do Rio de Janeiro, com o objetivo de pensar o processo de formação docente e a potencialidade da criança nele. Por meio de uma investigação na perspectiva da pesquisa com o cotidiano, lançando mão de narrativas produzidas no caderno de campo e de impressões e sentidos criados ao longo da investigação, traz duas cenas vivenciadas no dia a dia da escola citada e, com elas, discute concepções de formação e de criança, defendendo esta última como um outro legítimo na formação do professor e a formação como um processo singular e, ao mesmo tempo, coletivo e polifônico. Finalmente, a partir da problematização proposta, o texto convida a pensar a formação com a infância na qualidade de uma formação como experiência: aquela que dá a pensar e a pensar-se, ou seja, uma formação que nos desloca e provoca a indagar nossas certezas e verdades cristalizadas, nos invita a ser já outros de nós mesmos, a repensar nossos modos de ser, estar e viver a docência com as crianças. Portanto, trata-se de um convite a que possamos pensar nosso lugar e o lugar das crianças, em outras palavras, nossa relação no educativo e na formação.

Infância, experiência e educação: apontamentos a partir de reflexões sobre a pequena infância

PID: S1984-59872018000100027 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2018
Autores: Rocha Buss-Simão
Resumo: O presente artigo traz reflexões que envolvem a infância e a experiência a partir da área da educação e, particularmente, das ponderações em torno das pesquisas com crianças pequenas de educação infantil. Os apontamentos impõem limites relativos a este lugar de estudo e delimitam estes como parte de uma crítica e autocrítica da educação e das possibilidades de consolidação de uma Pedagogia da Infância. Nesta direção, no artigo se toma para esta reflexão a análise do sentido da experiência para as principais teorias educacionais ou projetos educativos para a educação na infância, a fim de levar a uma demarcação dos contornos da experiência educativa na/da infância institucionalizada. Para tal, apresenta alguns elementos relativos à experiência educativa como experiência social a partir de estudos empíricos que dão visibilidade às ações das crianças como parte de suas vidas nos coletivos infantis. Por fim, indica como desafios para a possível consolidação de uma Pedagogia da Infância uma aproximação da Pedagogia às manifestações infantis, a criança em situação e as possibilidades de os processos educativos se pautarem na escuta, na dialogicidade e nas relações, possibilitando incluir, nas práticas educativas, as significações produzidas pelas próprias crianças em seus contextos de vida e suas manifestações culturais e expressivas.

Infância, imagem e formação docente: Entre experiências, saberes e poderes na educação infantil

PID: S1984-59872018000200277 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2018
Autores: Leite Camargo
Resumo: As reflexões acerca da formação docente e os modos pelos quais elas são trabalhadas nos contextos educacionais têm grande importância tanto pela urgência do tema como também pela multiplicidade de modos de ser tratada pelos professores. A partir de pesquisas de produção de imagens desenvolvidas com crianças e professoras no âmbito da Educação Infantil, o presente texto irá refletir sobre os processos formativos da docência na Educação Infantil. Nesse cenário algumas perguntas são relevantes: O que pode a imagem nos processos formativos? Em que pode a formação de professores ajudar a pensar acerca da infância e das práticas educativas com crianças pequenas? Em que pode a infância ajudar a refletir sobre os trabalhos de formação de professores? Este texto objetiva realizar uma experiência de pensamento, operando com as imagens produzidas, com palavras (linguagem), infância, imagem e formação docente; possibilitar aberturas para pensar a criança, os educadores e as educadoras, a escola, os saberes, os fazeres, os poderes, os protocolos de ações, o que e como fazer com as crianças; compor possibilidades que extrapolam o determinado e legalizado. Tomam-se como pressupostos teóricos autores como Giorgio Agamben, Gilles Deleuze e Michel Foucault.

Infância: vozes a partir da diversidade

PID: S1984-59872018000100149 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2018
Autores: Suárez López
Resumo: O artigo trata dos avanços; reflexões e posturas do Projeto "Vozes e pensamentos: a produção da comunicação a partir da diversidade" (SGI 2195, UPTC, Tunja, Boyacá - Colombia). Apresenta, inicialmente, uma introdução que trata do contexto colombiano contemporâneo contextualizado no sétimo processo de paz vivido na Colômbia. Ressalta como o trabalho com oficinas de comunicação, na escola, como parte do Programa Nacional "Escuelas Taller de Colombia Herramientas de Paz" surgem como um tempo e espaço de esperança. Em seguida, são trazidas algumas posturas e descentramentos feitos após uma semana de trabalho com os meninos, um tempo de contextualização que se constitui de aprendizagens vitais para investigadores e investigadoras, primeiramente no que se refere às dificuldades comunicativas, pois era considerado que esses jovens não tinham capacidades comunicativas. Porém, desde o primeiro encontro, compreende-se que a incapacidade não é deles, mas é nossa, é do mundo, para escutar sua voz. Aqui se contempla a construção de relações intersubjetivas entre eles, entre nós, entre eles e nós, tendo a diferença como potência e a visão de estrangeiridade, que se divide entre a liberdade e o desejo de integração. O segundo descentramento refere-se á intenção formadora para "construir seu futuro". Frente a isso, a pesquisa assume uma postura de renúncia, isto é, não se propõe objetivos relacionados ao seu desenvolvimento ou estimular habilidades, pois não se pretende cumprir uma função educadora. Apenas se busca viver experiências dialógicas que impactem seu presente. O terceiro descentramento está em compreender o encontro das diversidades para além das implicações externas que focam diferenças cognitivas e, com isso, os colocam em lugares de desvantagem e de impossibilidades. Para isso, os pesquisadores evitam conhecer os diagnósticos psicológicos do grupo de participantes, não considerado vital para o desenvolvimento do projeto. No avesso de uma "naturalização da normalidade", foca-se no valor e no poder do conversar como expressão da singularidade humana.

Infâncias da linguagem, infâncias da infância, memórias de infâncias: depois é tarde demais

PID: S1984-59872018000200245 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2018
Autores: Skliar
Resumo: O presente ensaio dedica-se a pensar poeticamente infância, filosofia e solidão. Por meio de algumas imagens literárias, provoca-nos a pensar a infância para além da cronologia, do tempo linear, das fases da vida, investindo na potencialidade do mínimo, do ínfimo, da minúcia como uma força que pode nos deslocar dos lugares comuns do pensamento, espichar ou inquietar nossos modos de ver, compreender, pensar. Infância, literatura, filosofia e solidão mantém acesa a chama do inacabamento, da incompletude, fazendo a roda da vida girar: a poesia é feita de tudo aquilo que se quebra por nada, o inservível, o que dura pouco menos que um instante, que, por sua vez, é mínimo, o que desfaz a civilização do ouro, a mercadoria da blasfêmia, inclusive o que demasiadamente não se pode lembrar, o mínimo, o ímpar, o insuficiente. Assim, o ensaio é um convite a que possamos olhar com atenção, com calma, para as coisas inservíveis, para as palavras quase silentes, para os gestos mínimos e aí poder escutar e enxergar, quiçá, uma poética outra da infância e da filosofia, uma relação outra entre infância, literatura, filosofia e solidão, de tal modo que possamos dizer: sim, a infância tem voz; sim, a infância sem voz é uma desgraça.

Infâncias e formação docente: gestos, sentidos e começos

PID: S1984-59872018000200297 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2018
Autores: Lima
Resumo O presente texto é um ensaio sobre infância e formação docente, tecendo aproximações e encontros que coloquem em questão a escola, a educação, a docência, o tempo. A infância não é considerada categoria de tempo cronológico, mas uma força instauradora de possíveis, impossíveis, perguntas, interrupções. A infância é afirmada para além de uma fase etária, compreendida como existência, vida, encarnada em qualquer corpo e em outra temporalidade. Interessa perguntar pelas infâncias que atravessam a formação docente e, quiçá, pensar não apenas como formamos a infância, mas como as infâncias nos formam. O que elas provocam no fazer docente? Em que condições estas infâncias surgem? Seria o formar-se docente um amadurecimento da infância, na infância ou pela infância? Que gestos rasgam e explodem com os modos que nos habituamos a estar com as crianças e com os modos que estamos habituamos a nos formar docentes? Essas perguntas vêm me acompanhando no desafio de dedicar sensibilidade, atenção e escuta aos sentidos que emanam da infância, e a infância que emana dos sentidos, no exercício de ser professora de Educação Infantil. Portanto, este trabalho se inspira em infâncias de crianças da Educação Infantil do Colégio Pedro II, em infâncias da minha docência com estes sujeitos, em inícios, aberturas e começos que potencializam habitar a escola e fazer-se docente de um jeito infantil.

Infâncias no campo: brinquedo, brincadeira e cultura

PID: S1984-59872018000100189 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2018
Autores: Carvalho Silva
Resumo: neste artigo, de contornos ensaísticos, busca-se discutir a brincadeira como prática cultural e sua presença nas infâncias vividas em contextos do campo ou das chamadas comunidades tradicionais no Brasil. No diálogo com os Estudos da Infância, pretende-se analisar as imagens que construímos sobre quem são essas crianças e o que suas brincadeiras informam sobre suas vidas e formas de sociabilidade. Analisaremos como artefatos culturais um pequeno repertório de brinquedos produzidos por crianças, problematizando as culturas infantis e suas formas de produção simbólica. Buscamos aqui, na relação com nossas experiências de pesquisa e formação de professores, apreender o significado cultural da brincadeira na tensão entre universalidade das formas e expressões da diversidade do brincar, produto do universo sócio-cultural onde se situa e ainda analisar os significados dessas experiências para as crianças. Ensaiamos ainda um pequeno diálogo com pesquisas que tiveram como foco as infâncias de diferentes povos do campo e suas contribuições para a compreensão da brincadeira como prática cultural. Por fim, aponta-se a dimensão do território como elemento central nos processos de apreensão do mundo, criação e participação da criança na cena social e anunciam-se desafios de pesquisa suscitados pela discussão aqui empreendida e que poderão instigar futuros exercícios de escrita.
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