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A criança e o currículo de filosofia para crianças (fpc)

PID: S1984-59872020000100104 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2020
Autores: Oliverio
resumo Neste artigo, tomo minha sugestão do que sugiro chamar de "modernidade adamítica". Nesta frase, busco capturar uma "remoção" específica da infância que ocorre no gesto cartesiano da entronização da razão. Ao recorrer a uma leitura das principais obras filosóficas de Descartes, argumentarei que um dos principais impulsos de seu dispositivo conceitual é uma desconfiança profundamente arraigada, e até angustiada, da infância e de seus erros. Para resumir: na modernidade cartesiana, filosofia / ciência e infância estão em desacordo. No segundo passo do meu argumento, mostrarei em que sentido Dewey reabilita a infância e sua forma de experiência, curando assim a brecha entre a infância e a ciência (como provam suas noções de investigação e pensamento qualitativo). Não obstante, Dewey não estava pronto para dar o passo decisivo de pensar uma filosofia para as crianças. Precisamente, ativando e desenvolvendo o significado do pensamento qualitativo, Matthew Lipman conseguiu, em vez disso, progredir além de Dewey. Nesta perspectiva, mostrarei como Lipman e Ann Sharp, enquanto seguem os passos de Dewey no que diz respeito à sua interpretação não cartesiana da infância, fazem parte dele na sua abordagem educacional da filosofia e de como isso resulta em uma reformulação da maneira de interpretar a relação deweyana entre a criança e o currículo.

A experiência de pensar conceitos e o filosofar na infância na perspectiva de matthew lipman

PID: S1984-59872020000100214 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2020
Autores: Alves Muraro
resumo Esta pesquisa busca compreender a relação entre a filosofia e a formação de conceitos na infância na perspectiva de Matthew Lipman. Como pesquisa própria da área de filosofia da educação, colocamos como problemática a ser analisada a seguinte questão: como a filosofia pode contribuir no processo de formação de conceitos na infância segundo Lipman? O desenvolvimento desta problemática foi organizada em cinco etapas. Uma primeira visa compreender e aprofundar a concepção de Filosofia para Crianças de Lipman, especialmente a ideia de habilidades de pensamento e diálogo filosófico na Comunidade de Investigação; a segunda etapa consistiu no planejamento da prática filosófica com as crianças na escola, em uma turma com 32 alunos do 3º ano do Ensino Fundamental I de uma escola pública da cidade de Londrina/PR, no período de um semestre; a terceira foi realização da experiência em sala de aula com os alunos e a professora a partir das etapas anteriores; a quarta etapa foi a avaliação da prática e o planejamento das aulas seguintes após cada encontro; e a quinta etapa ocupou-se com o registro, análise e sistematização do observado. Com o objetivo investigar a contribuição da filosofia no processo de formação de conceitos na infância segundo Lipman, uma parte da metodologia da pesquisa foi de caráter qualitativo, analisando os conceitos de filosofia, pensar e Comunidade de Investigação deste filósofo. Para isso, foram consultadas suas obras principais e de seus comentadores. Foram empregados também os procedimentos da pesquisa-ação por meio da realização de práticas com alunos do Ensino Fundamental I, a fim de realizar uma experiência das concepções analisadas. Como resultado da pesquisa é possível destacar o papel fundamental da Filosofia para Crianças de Lipman para a formação de conceitos, pois, mediante as práticas filosóficas as crianças se mostraram mais reflexivas na abordagem de conceitos que no seu cotidiano poderiam passar desapercebidos. O trabalho de questionamento e diálogo em Comunidade de Investigação permitiu evidenciar a dificuldade de conceituar no início do trabalho, o progresso ao longo da abordagem dos mesmos e a necessidade de buscar respostas mais aprofundadas. Com isso, pode-se destacar que as aulas de filosofia contribuíram para tais avanços, e que sem elas as habilidades continuariam estagnadas. Este estudo vem se somar ao movimento filosófico-educacional de ensino de filosofia desde a infância como imprescindível para a formação de sujeitos mais razoáveis, e o mais importante, com habilidades que facilitarão sua vida intra e extraescolar.

A formação continuada e a experiência ética do corpo na produção do currículo da educação infantil

PID: S1984-59872020000100301 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2020
Autores: Lopes
resumo O trabalho aborda o problema da formação continuada das professoras na educação infantil na contemporaneidade, perguntando como elaborar percursos formativos que não se pautem exclusivamente nos modelos/padrões de profissionalização predeterminados pela produção acadêmica, e posteriormente adotados pelas políticas de governo. Se organiza a partir do movimento investigativo traçado com as professoras que participam do projeto de extensão e pesquisa UERJ-EDU-DEDI, coordenado pelo autor. Analisa criticamente as principais causas que justificam o fracasso dos projetos de formação instituídos com base nos citados modelos de profissionalização e aponta possibilidades conceituais para se pensar processos formativos mais imanentes, isto é, produzidos a partir das experiências que se desenrolam no próprio movimento curricular, experiências nas quais as professoras tentam construir relações educadoras mais éticas com a infância. Conclui que o movimento formador precisa se configurar como espaço-tempo para a expressão e avaliação coletiva das potencialidades ético-educativas engendradas nessas experiências. O trabalho se alinha conceitualmente à filosofia da diferença de Gilles Deleuze, sobretudo à leitura que realiza da “Ética” de Baruch Spinoza. Orienta-se metodologicamente pelo acompanhamento das cartografias dos modos de subjetivação traçados pelas professoras no processo de produção dos currículos para educação infantil, segundo o norteamento teórico fornecido por Suely Rolnik e Felix Guattari.

A infância de ensinar e aprender: inventando com e como criança a arte de ser professor

PID: S1984-59872020000100208 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2020
Autores: Cunha Paiva
resumo o artigo busca aproximar o desafio de inventar-se professor (a) ao olhar da infância, dimensão habitada por tempos intensos, cheios de possíveis, conectando esse movimento de invenção aos desafios encontrados no dia a dia do aprender e ensinar nos espaços escolares. Cria a partir desse encontro novas perspectivas e pistas que possam contribuir com o desenvolvimento de olhos capazes de ver, de “desver”, de “transver” o mundo, isto é, de vê-lo por ângulos ainda não explorados, novos, inéditos, infantis... Potente o suficiente para dar vida a fazeres educativos que provoquem o (a) professor (a) na complexa arte de construir-se, de inventar-se e, acima de tudo, que preserve a capacidade criadora, própria das “crianças de todas as idades”, possibilitando, dessa forma, que o pensar seja experimentado de infinitas e inimagináveis maneiras, enriquecendo e transformando os fazeres e os saberes que habitam o tempo da busca, do vir a ser, do devir-professor, do devir-aprendiz, do devir-escola... Este escrito não busca dar respostas aos desafios e às inquietações apresentadas, mas, sobretudo, pretende ser um exercício cuidadoso de lançar o olhar sobre as questões que afetam diretamente ou indiretamente a caminhada de todos e todas que se aventuram e se desafiam a construir experiências educacionais comprometidas com a transformação e a criação de outras maneiras de relacionar-se com a infância, com as crianças, com a escola, enfim, com a própria invenção de si, como uma arte de percorrer percursos para fazer-se educador, educadora.

A “pluma”: corporalidades que desafiam a normatividade no ambiente escolar

PID: S1984-59872020000100207 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2020
Autores: Contreras-Salinas Pavelic
resumo este artigo tem como objetivo expor alguns achados da atividade hermenêutica a partir das narrativas de sujeitos LGBT (lésbicas, gays, transexuais e bissexuais) localizadas no passado / presente, em relação à corporalidade expressa no ambiente escolar. Narrativas que foram produzidas em uma investigação desenvolvida entre 2012-2013. É reconhecido que este tropo questiona os regulamentos que anunciam não disparar a “caneta” e seus vários significados. Esse tropeço referido nas histórias permite revelar tanto as construções de gênero dos sujeitos LGBT quanto as próprias experiências que explodem em circunstâncias em que a diferença e a visibilidade são reprimidas e subalternizadas a partir de uma prática pedagógica normalizada. A "caneta" é uma irrupção indesejada ou esperada, que obtém como resposta práticas homo / lesbo / bi / trans fóbicas que surgem para ferir quem se atreve a aparecer na frente dos outros na sua diferença ou de uma posição divergente. Esse tropo seria um dos muitos que aludem à classificação e separação binária de sexo-gênero, homem / mulher, homem / mulher, neste caso, reproduzidos por sujeitos cujas formas e desejos não estão de acordo com o estabelecido. Juntos, percebe-se nos discursos que a presença da caneta não é totalmente transparente; caso contrário, ela cria vazios e contradições, além da resistência persistente que nega a diversidade de materializações corporais.

Ação de desenhar na infância como iniciação aos segredos do mundo

PID: S1984-59872020000100302 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2020
Autores: Richter Murillo
resumo Para destacar a íntima relação entre imaginar, desenhar e produzir mundos este ensaio interroga o sentido educacional das crianças iniciarem-se na ação de desenhar diante da crescente tendência cultural de ser o corpo cada vez menos exigido a produzir sentidos. A ação encarnada de desenhar, como ação estésica de tocar e ser tocado pelo mundo ao transpor os limites visíveis e adentrar na intimidade da invisibilidade mundana, constitui experiência tão recorrente e banalizada no cotidiano escolar quanto existencialmente complexa pela sua potência poética de adentrar o invisível e inaugurar visões de mundos. A histórica desqualificação da imagem e da imaginação no pensamento ocidental, dada pela cisão entre subjetividade do corpo e objetividade do mundo, não permite ao pensamento educacional considerar o fenômeno da imaginação poética como experiência existencial de inserção linguageira no mundo a partir do gesto de desenhar. Gesto que encontra sua especificidade no instante realizador da mão que traça e inscreve linhas na superfície dos suportes como escritura infinitamente inventável. O gesto estésico de desenhar, temporalizado pelo ritmo do corpo na emergência da fabulação que acompanha a repetição das marcas, implica uma experiência poética de linguagem que envolve a fusão de dois sentidos: o do gesto na materialidade e o da marca nela configurada, cicatrizada na superfície do suporte pela ação do corpo que a realizou. A aproximação entre educação, artes e infância permite destacar as tensões filosóficas e pedagógicas que envolvem a questão da imaginação poética e lançar outro olhar à ação de desenhar no âmbito da educação das crianças. O que emerge, a partir da interlocução entre Gaston Bachelard, Maurice Merleau-Ponty e Jean-Luc Nancy, é a relevância da intenção educativa do cuidado com a função vital da linguagem como experiência estésica e poética que se constitui na processualidade do corpo fazer aparecer algo que produza e contenha presença, aquela que promove e amplia a densidade existencial do real.

Corpo, presença e distância no ensino da filosofia. Exploração educativa durante o distanciamento social.

PID: S1984-59872020000100502 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2020
Autores: Manchini
resumo Várias abordagens filosóficas e científicas apontam para a importância do corpo para processos educacionais e cognição em geral. A suspensão das aulas e a virtualização de disciplinas oferecem uma janela para investigar essas alegações no campo específico do ensino de filosofia. Este trabalho apresenta os resultados de uma exploração educacional dupla realizada com 99 professores de filosofia durante as primeiras semanas de distanciamento social no Uruguai. Entre outras variáveis, são analisadas as práticas educacionais usuais desses professores, o nível e as estratégias de trabalho durante o distanciamento, bem como suas posições em relação à educação a distância e a importância da dimensão corporal. Embora a maioria desse grupo tenha trabalhado durante o distanciamento social, há ceticismo quanto à possibilidade de ensinar filosofia de maneira virtual e vários consideram que eles não poderiam se adaptar. Em geral, a dimensão corporal é considerada importante no ensino da filosofia. Alguns elementos que justificam essa importância são a riqueza que ela traz ao encontro nos níveis emocional, de comunicação, de interação e de contato com os níveis de alteridade. Esses dados nos permitem pensar nas possibilidades e limitações da virtualização do ensino de filosofia. Em profundidade, eles sugerem que o ensino da filosofia (mesmo nas classes mais tradicionais e menos incorporadas) tem como pano de fundo uma dinâmica corporal complexa, raramente explícito.

Costurando tapetes de histórias - quando as crianças assumem os enredos, um fazer artesanal

PID: S1984-59872020000100310 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2020
Autores: Fossaluza
resumo O intuito desse texto é pensar como o fazer artesanal se apresenta na linguagem de tapetes tridimensionais de histórias, criados e confeccionados a partir de livros, técnica e iniciativa de fomento à leitura que teve origem na França e são desenvolvidas no Brasil desde 1997, refletindo sobre sua sobrevivência em tempos tecnológicos e acelerados. Para melhor estudar essa questão, foi realizada uma experiência no contexto específico do Solar Meninos de Luz (instituição escolar filantrópica) com crianças de 9 a 11 anos. O objetivo da pesquisa (da qual algumas considerações são aqui apresentadas) foi observar como as crianças se apropriavam especificamente dos materiais e da linguagem, elaborando discursos narrativos próprios. Entre os achados dessa trajetória compartilhada com as crianças estão a elaboração do conceito metodológico de pesquisa-ateliê e a prática artesanal de criar e costurar tapetes como sugestão de desenvolvimento e fortalecimento do eu-narrador. Busca-se, também, refletir sobre como as crianças relacionam-se com as dimensões artesanais e tecnológicas ao experienciarem a contação de histórias com tapetes. As observações foram tecidas como um relato de experiência, um texto construído de modo autobiográfico, memorialístico, e tendo a narrativa como método. Para melhor embasar as ideias desenvolvidas, arriscou-se uma conversa com o autor Walter Benjamin. Os conceitos benjaminianos servem como nutriente e convite para melhor pensar a prática em questão, um fazer que encontra ecos nos seus pensamentos e escritos sobre a infância e sobre o ato de narrar.

Crianças e guerra: as balas perdidas!

PID: S1984-59872020000100307 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2020
Autores: Abramowicz
resumo Este artigo constitui-se em um ensaio que busca responder quais crianças na contemporaneidade têm sido alvo e mortas “sem querer”, “ao acaso”, pelo Estado brasileiro. Para buscar entender o lugar das crianças nesta “guerra”, este estudo apoia-se, entre outros autores, em Achille Mbembe, Maurizio Lazzarato e Peter Pál Pelbart. O texto, organizado em seis partes, utilizou-se dos conceitos de biopolítica, biopoder e necropolítica em um primeiro momento, procurando mostrar o tipo específico de poder exercido na contemporaneidade. Compreende-se o biopoder não somente como um conceito militar, da guerra ou da política, mas também vinculado a uma guerra “biológica”, como sugere Lazzarato, contra os negros, contra algumas sexualidades, contra algumas mulheres e contra algumas crianças. Buscou-se mostrar de que maneira a construção da ideia universal de criança exclui as que não pertencem a esta representação - em geral, difundida incessantemente como sendo uma imagem única de criança. Esta difusão de criança única, universal faz-se por meio de inúmeras formas discursivas, audiovisuais, imagéticas etc. e, dessa forma, exclui as crianças negras e todas aquelas que fazem desviar, ou “fugir” à maneira hegemônica de representar, pensar e escrever sobre o que é uma criança. Por fim, constatou-se que as crianças mortas são negras e pobres, e busca-se mostrar a importância da participação política das crianças nas cenas sociais.

Crianças e música: educação musical e estudos da infância em diálogo

PID: S1984-59872020000100306 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2020
Autores: Cunha
resumo A relação entre crianças e música é a temática sobre a qual se debruça este artigo concebido em caráter de ensaio, com o objetivo de pensar uma educação musical da infância. Seus fundamentos teóricos se encontram nas conversações entre a educação musical e os estudos da infância e nortearam a oficina-palestra realizada no II Congresso de Estudos da Infância, em setembro de 2019, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. O texto aborda as aberturas presentes em abordagens criativas que adotam currículos que irão se constituir no decorrer dos processos de ensino e aprendizagem musical, como os que têm o formato em rede e círculos. Improvisações e composições feitas por crianças, orientadas por professores-artistas que conhecem seu ofício, emergem dessas dinâmicas experimentais. Ao mesmo tempo, a participação das crianças e a atuação colaborativa junto a seus professores conferem novos sentidos ao papel docente com o exercício da dupla escuta: das crianças e de suas expressões musicais, no que chamo de músicas das crianças. O desenvolvimento de pesquisas com crianças em contextos nos quais as abordagens musicais criativas são a marca de aulas e cursos nessa área reafirma também a importância das divulgações e discussões acerca dos seus contributos, que se voltam tanto para a educação musical como para o campo da educação, e também para os estudos da infância, visto que ouvir o fazer musical das crianças possibilita saber mais sobre o que pensam, sentem e fazem quando criam suas músicas. Uma maior visibilidade e audibilidade para as músicas inventadas por elas e o reconhecimento da importância da educação musical na escola podem vir como resultados alvissareiros.

Cultivando a ética e a consciência da dívida de oposição: filosofia para / com crianças como contra-conduta na economia da dívida neoliberal

PID: S1984-59872020000100211 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2020
Autores: Wozniak
Resumo Neste artigo, examino quais são as implicações éticas e políticas de conceituar e praticar filosofia para/com crianças (FpcC) na economia da dívida neoliberal. Embora a FpcC não possa, por si só, trazer qualquer transformação significativa das realidades político-econômicas da dívida, ela pode desempenhar um papel importante no cultivo da ética e da consciência da dívida oposicionista. A primeira metade deste artigo situa a FpcC dentro da atual economia global da dívida. Aqui, somam-se as análises feitas por teóricos críticos sobre as maneiras como a dívida impacta as instituições públicas (incluindo escolas) e molda a subjetividade individual. A segunda metade deste artigo se baseia na conceituação de "contra-conduta" de Michel Foucault. Para Foucault, a contra-conduta é um ato ético/político de resistência à governamentalidade, que viabiliza relações sociais alternativas e modos de estar no mundo. Defendo nesta seção que FpcC deve ser conceituada e praticada como uma forma de contra-conduta que desafia o poder na economia da dívida. Tanto a forma da pedagogia do FpcC quanto o conteúdo que pode ser abordado de maneira coletiva nas comunidades de investigação tornam o FpcC um local potencial para práticas de contra-dívida. Pensado como contra-conduta, o FpcC é uma prática educacional com promessa libertadora. Concluo este artigo com breves reflexões sobre a prática do FpcC na época do COVID e durante as revoltas ao redor do mundo contra o capitalismo racial. Sugere-se aqui que a FpcC não seja praticada apenas em ambientes de educação formal, mas também nos movimentos sociais que lutam para fazer nascer um mundo mais justo para todos nós.

Da proteção à instrução: mobilizações prático-discursivas em torno da infância nos debates sobre gênero e sexualidade na educação

PID: S1984-59872020000100305 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2020
Autores: Mattos Cavalheiro
resumo Este artigo discute como alguns sentidos de infância têm sido acionados nos enfrentamentos sobre a legitimidade das temáticas de gênero e sexualidade na educação, considerando-se o cenário contemporâneo no país. Para isso, analisaremos duas armadilhas prático-discursivas que têm se consolidado. A primeira, forjada pelos atores da ofensiva antigênero, consiste na construção narrativa da infância vulnerável, a ser protegida, e aciona o pânico moral contra as discussões sobre gênero e sexualidade nas escolas. A segunda armadilha, mais sutil, diz do lugar de passividade em que são tomados as e os estudantes no contexto escolar, enquanto objeto da instrução pedagógica - inclusive quando são abordados os temas de gênero e sexualidade em sala de aula. A imagem de uma criança-presa dos “ideólogos de gênero”, passiva e em perigo, povoa as falas analisadas na primeira sessão, e permite-nos discutir os usos políticos mitigados pela hiperinflação dessa ideia de vulnerabilidade infantil. Entretanto, mesmo em práticas educativas que apostam no trabalho com questões de gênero e sexualidade nos contextos escolares, observamos que a menoridade pode ser pensada em perspectivas conservadoras e sem agência, como discutido na segunda sessão. Para tensionar essas lógicas, pontuamos a dimensão do lúdico e da brincadeira como ferramentas conceituais e metodológicas que podem contribuir com uma abordagem não pedagogizante da sexualidade e do gênero no campo da educação.

De silenciar a literatura infantil à tentativa de aprender com ela: mudando as visões dos livros ilustrados no movimento de fpc

PID: S1984-59872020000100202 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2020
Autores: Khosronejad Shokrollahzadeh
resumo Este artigo investiga criticamente as abordagens dos livros de figuras usadas na história do movimento de filosofia para crianças (FpC). Nossa preocupação com os livros ilustrados baseia-se principalmente nas críticas mais amplas de Morteza Khosronejad de que a literatura infantil foi tratada de maneira instrumental pelos primeiros fundadores do FpC, que, com isso, está abolindo a voz independente dessa literatura (2007). Como tal, exige que examinemos a posição da literatura infantil na história deste programa educacional, bem como outros gêneros e formas, incluindo os livros ilustrados como uma forma artístico-literária altamente valorizada para os educadores. Em nossa investigação, pesquisamos, portanto, a transição de abordagens de livros ilustrados concomitantemente com a transição de abordagens da literatura infantil. Esta pesquisa demonstra que alguns estudiosos e praticantes posteriores do FpC se afastaram significativamente não apenas da abordagem de Lipman sobre a literatura e os livros ilustrados, mas também de sua conceituação de infância e filosofia para crianças. Enquanto isso, demonstra que, apesar dos estudiosos do P4C tomarem medidas efetivas para abordar a literatura infantil em geral e os livros ilustrados em particular, existem algumas etapas a serem seguidas para reconhecer plenamente essa literatura como um ramo independente do conhecimento e os livros ilustrados como obras artísticas e literárias singulares. Embora revele as limitações e paradoxos com que os estudiosos do FpC continuam lidando, neste artigo, vemos a ideia anterior de Khosronejad (2007) como uma sugestão para superar a instrumentalização da literatura infantil e dos livros ilustrados em FpC. O diálogo fundamental com os teóricos da literatura infantil, particularmente os dos livros ilustrados, abrirá novos horizontes para a realização de nossa sugestão.

Denúncias e pronúncias: estudos afroperspectivistas sobre infâncias e educação das relações étnico-raciais

PID: S1984-59872020000100303 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2020
Autores: Noguera
resumo O horizonte dos desafios deste breve estudo afroperspectivista está na articulação entre educação das relações étnico-raciais e os estudos da infância. As questões geracionais da infância não estão dissociadas da racialização. Portanto, o racismo é um fenômeno que precisa ser enfrentado nos contextos infantis. Este ensaio faz algumas denúncias acerca de situações de racismo que afligem crianças no Brasil. Para além das denúncias que se fazem necessárias e incontornáveis. Este artigo-ensaio destaca o que aqui denominamos de pronúncias. Através das pronúncias postulamos que é importante propor caminhos antirracistas. A filosofia afroperspectivista opera através de uma trama na qual a Infância - enquanto conceito filosófico - é a chave existencial e política para promoção da afrotopia. Levando em conta o debate feito pelo economista senegalês Felwine Sarr, a afrotopia é tomada como possibilidade real. Numa abordagem afroperspectivista, a conjectura é de que precisamos denegrir e infancializar a vida para construir um afrotopos. Um aspecto que merece destaque é a ideia de que o projeto Ocidental promove a adultidade, o que implica na colonização da vida e do mundo. A nossa hipótese é de que através da promoção da infância podemos ter as condições necessárias para sociedades antirracistas. No final do artigo-ensaio sugerimos um estatuto afroperspectivista da infância como indicador pró-ativo de promoção de outras realidades.

Deontologia educacional na comunidade de investigação filosófica

PID: S1984-59872020000100100 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2020
Autores: Demozzi Ilardo
resumo O artigo tem como objetivo oferecer uma perspectiva pedagógica como parte do debate sobre práticas filosóficas com crianças, referindo-se particularmente a questões de deontologia educacional que surgem quando ocorrem perguntas "desconfortáveis" (mas não apenas). Muitas das perguntas que surgem durante as sessões filosóficas (ou às vezes individualmente, no final da sessão e “fora da fronteira da comunidade”) são deixadas sem resposta, sendo percebidas como desconfortáveis. Nossa reflexão é sobre o que a deontologia educacional exige para lidar com o desafio que esse tipo de questão traz. Partindo do conceito de deontologia proposto pela pedagoga Mariagrazia Contini e adotando a ideia de Jana Mohr Lone de conforto das crianças com a incerteza, o artigo oferece uma discussão sobre o que entendemos por responsabilidade educacional ao assumir a tarefa de facilitar uma comunidade de investigação filosófica com crianças. O artigo conclui que o facilitador deve estar presente, atento, capaz de ouvir bem. Ela/ele deve ser um modelo, um bom exemplo para a comunidade: disponível para ouvir e responder, respeitoso, sensível, capaz de mudar de ideia e humilde. Além disso, um facilitador deve ser treinado para um pensamento flexibilizado: ele/ela precisa estar bem ciente de seus esquemas cognitivos, das premissas de seu conhecimento, dos paradigmas sociais e culturais a que se refere. Todo esse “plano de fundo tangível” precisa ser explicitado para estar ciente dos quadros que moldam cada ação educativa.

Diálogo filosófico com crianças sobre questões sociais complexas: um debate sobre textos e práticas

PID: S1984-59872020000100203 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2020
Autores: Williams
resumo Neste artigo, me refiro à leitura que faço de um debate entre dois estudiosos e praticantes de filosofia com crianças - Karin Murris e Darren Chetty. Os pontos da discussão entre eles que escolhi para focar remontam a um livro infantil chamado Tusk Tusk, de David McKee. Os argumentos dos dois, para mim, levantam questões sobre a relação entre o texto inicial (ou estímulo) e temas relevantes para pensar o mundo de forma ampla. Embora Chetty veja benefícios no uso de livros ilustrados, ele parece acreditar que há um uso excessivo de fábulas e contos mágicos e que outros pontos de partida possam fazer mais sentido para explorar questões sociais complexas com dimensões históricas. Murris, por outro lado, parece achar interessante a falta de perspectiva histórica evidentes naqueles livros de que mais gosta. Ela valoriza os aspectos ‘universais’ e ‘mágicos’ na medida em que estes estimulam diálogos ‘rizomáticos’, espontâneos e não-hierárquicos. Neste texto eu comento aquelas que, para mim, são as linhas argumentativas mais significativas nas perspectivas de Chetty e Murris. A partir dai, sugiro algumas ideias práticas para a escolha de textos e para ‘ler contra o texto’ - um termo que ambos autores usam. Ademais, pergunto e respondo a seguinte questão: ‘Em sessões de diálogo filosófico, devem os adultos trazer para as crianças questões que eles consideram importantes ou é melhor evitar fazê-lo?’

Ensino a filosofia Um olhar a partir da perspectiva do aprender

PID: S1984-59872020000100209 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2020
Autores: Espinel
resumo a pergunta pelo ensino de filosofia implica dois tipos de interrogações, a sabar: que significa ensinar? Que se entende por filosofia? Este artigo, produto do projeto de pesquisa Avaliação das formas de ensino da filosofia na Colômbia, toma como ponto de partida a primeira daquelas interrogações acerca do ensino e do ensinar. Entretanto, em meio às indagações acerca de noções como tradução, "plágio", repetição e criação, emerge a potência metodológica de se estudar o ensinar a partir do que se propicia o aprender. Que tipo de relações vinculam o ensinar com o aprender e o aprender com o ensinar? Em outros termos: quanto requer o aprender do ensinar? Quanto do aprender há no ensinar? Pode-se pensar o ensinar e o aprender de modo independente? O que sucede em uma aula de filosofia? Em suma: o que significa pensar a relação entre filosofia e ensino, a partir da perspectiva do aprender? Dessa maneira, como se pode ver, a posição do interrogante no eixo do aprender situa a discussão na esfera da experiência, do exercício e das práticas de si; uma dimensão distinta daquela marcada pela emulação, a explicação e o monólogo.

Entre cercas, brincadeiras e feitiços: os conflitos e as apropriações do território por crianças e jovens quilombolas

PID: S1984-59872020000100313 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2020
Autores: Perez
resumo o Brasil passou por um longo processo de colonização que ainda deixa marcas violentas nas formas de se relacionar com os povos quilombolas, produzindo a desvalorização de seus conhecimentos e culturas. As vidas de crianças e jovens quilombolas ficaram invisibilizadas diante de um saber científico que usou referências de autores europeus e as classes médias urbanas como modelo. Neste texto, apresentamos os resultados de uma pesquisa-intervenção realizada entre 2017 e 2019, com cerca de trinta crianças e jovens moradores da comunidade quilombola de Cafuringa, em Campos dos Goytacazes - RJ. Buscamos compreender como as experiências de infância e juventude se constituem a partir das relações que crianças e jovens estabelecem com o território, seus usos e apropriações, e os modos de subjetivação diante dos conflitos vivenciados na comunidade. As crianças se apropriam do território através das brincadeiras coletivas realizadas ao ar livre, em que exploram os espaços, interagem com a terra, bichos, plantas e árvores. Para elas, estes elementos podem ser “enfeitiçados”, “assombrados” e guardar algo de “sagrado” e, ao mesmo tempo em que fascinam, também geram medo. Essas formas de se relacionar com o território entram em conflito com a “fazenda” e o haras, que fazem fronteira com o quilombo, que consideram a terra como um negócio, os animais e as plantas como mercadorias. Os estranhamentos de crianças e jovens diante da cerca elétrica colocada pelo haras, simbolizando o uso privado da terra, as desigualdades sociais e as discriminações raciais vividas em seus cotidianos nos fazem questionar sobre o projeto de civilização construído na modernidade.

Filosofia (e argumentação) para crianças: algumas reflexões para o ensino fundamental

PID: S1984-59872020000100107 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2020
Autores: Scipione
resumo O currículo de Filosofia para Crianças e outras experiências de Filosofia com Crianças de todo o mundo estão promovendo contextos dialógicos na escola com o objetivo de fomentar um pensamento de ordem superior. Com um modelo de pensamento complexo e um marco de comunidade de investigação, Lipman (2003) sustenta a ideia de que o pensamento não consiste simplesmente no raciocínio ou a lógica em si, mas que se realiza por meio de diferentes dimensões de pensamento, tanto intrapessoais como interpessoais. O espaço de pensamento que pode abrir-se em uma discussão filosófica apoia o exercício do raciocínio nas comunidades de investigação; isto, por sua vez, promove a competência cognitiva, social e cívica. Reconhecendo o papel crucial das dimensões racional e social do pensamento, a investigação atual sobre a argumentação na infância e no entorno escolar está crescendo de forma coerente com os estudos em Educação. Neste texto nos referiremos a "argumentação" como uma forma fundamental de raciocínio/pensamento e uma prática social, que encontra seu contexto ideal de desenvolvimento no exercício da discussão (Muller-Mirza, Perret-Clermont, 2009). Com a intenção de contribuir com o campo da educação, o objetivo deste texto é destacar as perspectivas e críticas sobre a argumentação relevante para FpC e FcC no ensino fundamental. Argumentar é mais que raciocinar, justificar, negociar e explicar. No entanto, pode ser todas estas coisas, como é evidente quando as crianças participam de uma interação dialógica. Os aspectos racionais e sociais da competência argumentativa poderiam fomentar-se em um contexto filosófico na idade da escola inicial. A filosofia parece ser uma ferramenta privilegiada para construir uma comunidade de investigação na qual as crianças dão e aceitam argumentos como participantes ativos de eventos argumentativos. Entre a pré-escola, quando a argumentação se manifesta através das necessidades comunicativas e raciocínio argumentativo, e o ensino médio, quando se busca a argumentação para desenvolver as habilidades do discurso argumentativo, está o ensino fundamental. É nesta etapa quando o exercício das habilidades racionais e sociais através do ensino da filosofia e o diálogo se converte em algo crucial para desenvolver e alimentar uma experiência mais complexa de argumentação.

Filosofia (não apenas) com crianças: ouvindo, cuidando, escrevendo, transmitindo

PID: S1984-59872020000100210 | Revista: Childhood & Philosophy (1984-5987) | Año: 2020
Autores: Farrán
resumo Neste artigo, pretendo dar um nó em quatro tópicos ou atos essenciais da prática filosófica: ouvir, cuidar, escrever, transmitir, com atenção especial às crianças, o que elas inspiram e ensinam sobre os processos de treinamento e enfatizam essa situação anômala confinamento devido à pandemia de covid-19. Primeiramente, recuperar a função de ouvir e desejar, na imanência do conceito e do jogo, contra qualquer abuso ou violência. Segundo, enfatizar o papel do cuidado, sua expansão e reformulação nessas difíceis circunstâncias, especialmente interrompendo a lógica da servidão e o circuito atividade-dívida-recompensa por meio da auto-satisfação. Terceiro, praticar a escrita como uma tecnologia do eu que excede a dicotomia forma-ensaio ou forma acadêmica, tornar-se uma prática fundamental de cuidado e transmissão juntamente com outras práticas próprias: abstinências, testes, exercícios etc. Finalmente, a questão do Nome do Pai e como entender seu declínio em relação ao amor, ao autoconfiança, à transmissão e ao uso de um legado simbólico, uma vez que o declínio não é mero enfraquecimento, mas subtração da importância e desdobramento pessoal de um poder singular-genérico que nos une: aprender a recusar nomes, palavras, conceitos, tradições é o que impulsiona a verdadeira formação do sujeito.
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