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Educação e emancipação na produção do conhecimento para além do pensamento abissal

PID: S2178-46122020000100123 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2020
Autores: Waschinewski Silva Silva
Resumo O presente ensaio tem como objetivo fazer uma reflexão acerca da educação e os desafios da ciência eda produção de conhecimento na busca de emancipação. Como trama de fundo, trazemos uma breve discussão sobre a produção de conhecimento na atualidade para além daquilo que Santos (2007) chama de “pensamento abissal”. Assim, num primeiro momento, pretende-se pensar a condição da educação na atualidade, isto é, discutir seus rumos em tempos de regressões políticas e econômicas. Em seguida, objetiva-se indicar a necessidade de superação do pensamento abissal, refletindo até que ponto a educação funciona como recurso fundamental para a emancipação e até onde vão seus limites. As aproximações com as temáticas problematizadas ocorrem por meio da perspectiva teórico-metodológico-dialética do fenômeno analisado. Espera-se, com essas aproximações, contribuir com uma proposta inclusiva e emancipatória de valorização dos saberes das experiências, dando visibilidade aos valores e às representaçõesestéticasdosdiversosgrupos,cujasvozes,muitasvezes,são excluídas e/ou silenciadas nos sistemas educativos, colocando em diálogo com a ciência e reconhecendo as culturas que foram excluídas ao longo dos séculos. Além disso, é preciso contrapor-se ao poder cego de todos os coletivos, fortalecendo a resistência diante dos mesmos por meio do esclarecimento do problema. A busca por uma racionalidade crítica, na produção de conhecimento, passa por tensões e fraturas da própria condição humana no capitalismo contemporâneo, mas isso não quer dizer, necessariamente, que se tenha que abandonar a própria razão, para dispor de uma condição adequada da vida humana para além do pensamento abissal.

Educação para a universalidade e para a não violência segundo Eric Weil

PID: S2178-46122020000100506 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2020
Autores: Nodari Carneiro
Resumo O presente artigo tem o objetivo de analisar como Eric Weil entende a Educação com vistas à compreensão do ser humano no mundo. Pretende-se demonstrar que a Educação Moral, defendida por Eric Weil, é um caminho privilegiado, sine qua non, que auxilia o ser humano no enfrentamento da violência. Evidencia que o educador toma lugar de destaque nessa discussão, pois lhe cabe a responsabilidade de indicar os meios e os caminhos para a universalização, para que a não violência possa subsidiar uma cultura de paz entre os seres humanos. Para tanto, percorre o caminho metodológico fazendo uma abordagem na ampla teoria filosófica de Eric Weil, em especial, nas obras: Lógica da filosofia e Filosofia política, a fim de analisar os pontos mais relevantes para ancorar a concepção de imprescindibilidade da Educação e, também, por sua vez, do educador. Esta pesquisa será eminentemente lastreada por levantamentos bibliográficos nas obras do próprio Eric Weil, bem como nos comentários de alguns de seus comentadores.

Educação, estética e metamorfoses pedagógicas

PID: S2178-46122020000100509 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2020
Autores: Plaszewski Meira
Resumo Versamos sobre um projeto de extensão que busca qualificar processos pedagógicos no fazer docente, oportunizando espaços de crescimento, criação, prazer, auto e heteropercepção de contextos físicos, sociais, sensíveis e artísticos, além de redefinir concepções pedagógicas, cognitivas e existenciais. Ao fruir e interagir com processos de arte, essa, na dimensão constitutiva do humano, passa de área de conhecimento a evento configurador de sentidos e, nessa perspectiva, proporciona transformações, reavaliação de escolhas, abertura a novas possibilidades e olhares. O real não se deixa apreender, é inseparável da existência e, ao se aproximar da (des)ordem, dionisíaca, na forma da criação, desnaturaliza o olhar, bagunça referências, predispondo à abertura ao mundo. A (des)ordem, criadora, integra e confere um lugar às coisas, e sua ética garante um princípio vital dinâmico que anima o social, assegurando o retorno de uma ordem nova, atravessada pela metamorfose. O processo, dialógico, tenta garantir a diversidade, a pluralidade, um ressignificar do ensinar/aprender. É desenvolvido por docentes e alunos de uma universidade federal com 75 educandas de 6 a 12 anos em situação de vulnerabilidade social e se estrutura em três momentos interligados: um processo formativo, uma oficina e uma avaliação com expressões variadas dos participantes e memórias dos acontecidos. Como resultado, temos observado uma compreensão alargada da teoria, da prática, da criação, da Arte e uma formação mais qualificada, atravessada pela sensibilidade. A imersão na Arte em seus processos, materiais, ações, eventos, etc. tem permitido transfigurar atos, fatos, realidades, posturas, a partir de dados do sensível e do inteligível, constituindo uma Metamorfose Pedagógica. Essa, autorreferente, proporciona a emergência de um espírito criador, crítico, irreverente, incerto, inconstante, ruidoso e mutante, mantendo aberta a possibilidade de transmutação, de metamorfose, decorrente do contato com a criação. Esse processo, em sua complexidade, tem, na experiência estética, a tarefa de instaurar uma cognição específica, que resgata o prazer da estesia e de um olhar mais humanizador.

Entre dois niilismos: uma arte acrobática para repotencializar a invenção na pesquisa sobre infância

PID: S2178-46122020000100101 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2020
Autores: Augsburger Kraemer Sampaio
Resumo As muitas verdades sobre a infância de nosso tempo, das mais catedráticas às mais inovadoras, encontram-se compiladas em livros e artigos dentro e fora de nossas bibliotecas. Grosso modo, elas constroem dois tipos de niilismo: um niilismo de tipo universalista, que suga a criança para fora da imanência da vida e da histórica e a torna refém de estereótipos universais. Outro niilismo de tipo relativista, que esquece a criança e apenas acusa os estudos da infância como mera invenção. Evitar esses extremos requer uma espécie de arte acrobática de se equilibrar na possibilidade de um entre. Essa via busca retomar a imanência histórica da criança (“ida aos porões”, “suspensão das certezas”, “pesquisar com...”, “verdade-acontecimento”, “objetivação e subjetivação”, “atitude crítica”). Trata-se de uma pesquisa em busca da (re)potencialização da ideia de invenção (da infância) cuja atitude crítica implique não a pergunta pelo governo certo ou pela ausência de governo da infância, mas como não a governar assim, por essas pessoas, em nome desses princípios, em vista de tais objetivos e por meio de tais procedimentos.

Espaços outros que convivem nas escolas: heterotopias

PID: S2178-46122020000100112 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2020
Autores: Fischer Munhoz
Resumo Este ensaio tem por objetivo pensar a escola como espaço vivo, produtor de heterotopias, conceito abordado por Foucault (2000, 2001, 2013). As heterotopias, na perspectiva de Foucault (2013), são espaços outros que convivem no espaço instituído, nos espaços de invenção que não podem ser controlados, justamente por não estarem previstos. Foram primeiramente pensadas como um efeito de linguagem, conforme encontramos no prefácio de As palavras e as coisas, obra publicada em 1966. O conceito é retomado em suas conferências radiofônicas (1966 e 1967), publicadas em 1984 com o título Des espaces autres, e ainda postumamente, em 2009, no livro O corpo utópico, heterotopias. A partir dessa noção, a escrita que aqui se apresenta é um convite a pensar a escola como um lugar heterotópico. Um espaço do fora no espaço do dentro. Um entrelugares, povoado de encontros e potências ativados, capazes de inventar espaços outros no próprio espaço do instituído pela força do que nos leva a pensar e a perceber o mundo de outros modos, com outras lentes. Trata-se, assim, de viver de outros modos nos espaços que já existem. Criar no espaço da escola, da universidade, espaços outros, heterotopias que possibilitem movimentos, espaços livres de pensamento. Isso envolve um deslocamento de olhar para o espaço, para as coisas, para a vida: criar um espaço de resistência dentro de um espaço instituído. Portanto, não se trata de criar utopicamente outra escola, nem qualquer outro espaço educativo, nem mesmo um espaço de existência, mas talvez de fazer outra escola na própria escola.

Estamos vivendo o fim da democracia? uma defesa do tempo “livre” da universidade e da escola em uma era de capitalismo autoritário

PID: S2178-46122020000100501 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2020
Autores: Säfström
Abstract In this article I address education beyond individualism, elitism and instrumentalism and instead understand education as central for a democratic way of life. I discuss the role of education in the making of democratic forms of life in the university, in the school as well as in other contexts outside institutions. I argue for the importance of defending the “free time” of the university and school against a “time of production” as a defining characteristic of university and school. I will show how a time of production undermine the very possibility of education, and which therefore also tends to negate pluralist democracy.

Estágio supervisionado na Educação Infantil: desafios e contribuições para a formação inicial de professores

PID: S2178-46122020000100111 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2020
Autores: Lira Dominico Silva Saito
Resumo O artigo objetiva refletir acerca dos embates vivenciados pelos acadêmicos do curso de Pedagogia, durante o momento de Estágio Supervisionado na Educação Infantil, buscando identificar a contribuição desta disciplina no curso de Pedagogia para a formação dos futuros profissionais. Para isso, partimos da importância do estágio supervisionado na formação inicial de professores e sustentamos a reflexão a partir da análise documental do plano de ensino da disciplina e de dezenove relatórios de estágio, no contexto de uma instituição pública de Ensino Superior. As análises estão respaldadas em autores como Kishimoto (2001, 2011), Pimenta (2002; 2006), dentre outros que contribuem para pensarmos a relevância do estágio, como elemento formador. Dadas as necessidades e o franco desenvolvimento vivido pelas crianças na faixa etária da Educação Infantil, torna-se necessária uma formação inicial consistente em que os futuros docentes sejam capacitados a trabalhar fomentando nas crianças habilidades sociais, intelectuais, físicas e afetivas. Os dados evidenciaram um distanciamento entre o contexto estudado na universidade e o cotidiano nas instituições de Educação Infantil, condição que torna menos qualificada a experiência do estágio supervisionado, mas não reduz sua importância como momento de reflexão e aproximação com o campo de trabalho. Embora exista uma relação entre o plano de ensino da disciplina e os relatórios analisados, ainda persiste uma grande distância entre a formação oferecida no âmbito acadêmico e a prática das instituições. Isso, ao contrário de oferecer um descrédito à formação, demonstra uma necessidade de melhor preparo e espaço para as discussões acerca da Educação Infantil, nos cursos de formação de docentes.

Experiência como acontecimento: a necessidade de uma nova língua para a educação em Jorge Larrosa

PID: S2178-46122020000100109 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2020
Autores: Mendonça Venturoso
Resumo O estudo consiste na discussão da perspectiva larrosiana do conceito de experiência, a partir do livro Tremores. Partiu da pergunta: O conceito de experiência como acontecimento fundamenta a necessidade de uma nova língua educacional? O método tratou de pesquisa bibliográfica que teve o início na revisão de literatura sobre o tema, análise sistemática do livro Tremores, da mesma forma que problematização em torno do conceito de acontecimento em Martin Heidegger e de experiência em Walter Benjamin. Como resultado, o conceito de experiência se expressa como raridade e deve ser pensado como acontecimento capaz de trazer novos sentidos. Para Larrosa, pensar novos sentidos é pensar novas realidades, tendo como base os sentidos gerados pelos mecanismos de subjetivação que existem em cada indivíduo. Sendo o sentido individual e subjetivo, é responsável por mostrar a cada indivíduo uma forma de experiência. Assim, a aposta diz respeito à necessidade de se repensar as linguagens, das quais emergem o mundo de cada indivíduo, e, além disso, de pensar a pedagogia como transformadora do que já existe por meio da linguagem. A linguagem possibilita a compreensão de si e do outro, em uma realidade abstrata que se perdeu das palavras e se distanciou da verdadeira experiência e do mundo real, enquanto acontecimento. Por derradeiro, o estudo demonstrou a necessidade de uma nova língua para a educação em Jorge Larrosa, como necessidade de fortalecimento da potência que habita entre aqueles que escutam e aqueles que falam, dos que não desejam colocar fim à identidade do sujeito, destruí-la, mas dar possibilidades para que a identidade se abra a novas significações, a fim de construir o acontecimento, a abertura e o conhecimento.

Gênese do complexo da arte: um estudo fundamentado na estética lukacsiana

PID: S2178-46122020000100105 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2020
Autores: Araujo Rabelo
Resumo Este artigo tem como objetivo apresentar como se estabelecem os estudos do filósofo húngaro Georg Lukács sobre a origem do complexo da arte a partir das formas abstratas do reflexo estético da realidade, a saber: ritmo, simetria e proporção e ornamentística. Tais categorias configuram-se, conforme os estudos de Lukács, em princípios; em elementos estruturais da produção artística, os quais são diversos, orientados por funções as mais variadas e já bastante evoluídas e que, de forma excepcional, no caso da ornamentística, mantiveram sua independência, ainda que não tenham garantido o mesmo grau de importância de tempos remotos. Trata-se de um estudo teóricobibliográfico, apoiado em uma base onto-histórica. O filósofo húngaro considera a dificuldade de revelar a procedência do complexo da arte. Atentamos ao método, considerando que devemos partir do já esteticamente formado, procedendo a tempos remotos, numa relação dialética. Podemos, então, nos aproximar da origem quando entendemos o mais desenvolvido. Nossas considerações vão ao encontro da compreensão de que qualquer nível de atividade humana deve implicar o trabalho como categoria fundante, na relação de transformação da natureza e do próprio homem. A arte, portanto, tem sua gênese no trabalho e, como complexo tardio no mundo dos homens, tem seu desprendimento do solo cotidiano, alcançando um processo de autoconsciência humana. Nesse sentido, a relevância do estudo consiste em contribuir com o projeto coletivo para o entendimento do papel da atividade criadora-receptora no aprimoramento dos sentidos, abrindo possibilidades de elevadas expressões no processo de humanização, com vistas à superação da sociabilidade regida pelo capital.

Interpretação do modelo social de deficiência a partir do conceito de normalidade de Canguilhem

PID: S2178-46122020000100519 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2020
Autores: Araújo Cunha
Resumo Este estudo apresenta uma abordagem aproximativa entre as discussões propostas pelo modelo social de deficiência e as concepções filosóficas do médico e filósofo Georges Canguilhem. A partir dos conceitos de doença, patologia, anomalia, normalidade e anormalidade, busca-se aqui, atualizar a discussão dialogando com as preposições do modelo social de deficiência. Elegemos como referencial teórico a obra O normal e o patológico, de Georges Canguilhem e as contribuições de Débora Diniz na obra O que é deficiência; além disso, uma busca na plataforma Google acadêmico foi feita com os seguintes descritores: normal – anormal – norma – normalidade – deficiência. Foram feitas as seguintes associações de descritores: normal/ deficiência, anormal/deficiência, norma/deficiência e normalidade/ deficiência. Após a leitura dos resumos, constatamos que quatro textos encontrados tratam da temática abordada neste artigo, portanto, fizemos a opção de integrá-los ao referencial teórico deste estudo. Espera-se que essa abordagem aproximativa possibilite uma reflexão a respeito do conceito de normalidade, distanciando-o da deficiência, e assim, aumentando as possibilidades de alcançarmos uma sociedade cada vez mais inclusiva.

Literatura e docêcia: uma justificativa estética da existência

PID: S2178-46122020000100117 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2020
Autores: Corbellini Schuler
Resumo Em tempos de aceleração, de competição consigo mesmo e de uma linguagem instrumental e pragmática para se falar da educação, qual seria o valor de uma justificativa estética da existência em se tratando da formação de professores? Tendo tal problemática como motivadora, objetivamos, com este estudo, levantar a discussão acerca da relação entre literatura e docência, procurando aproximá-las de modo não utilitário, mas com vistas à estética da existência. Como um modo de resistência, optamos por perguntar pela formação de professores pautada pelo exer cício do pensamento, pela problematização dos valores e pelo cuidado consigo e com os demais. A partir disso, utilizamo-nos da pesquisa com inspiração arquegenealógica em Foucault, nos debruçando sobre autores que abordam ou a literatura ou a docência como possibilidades de entendimentos outros que não os conteudistas. Assim, tomamos a literatura, com inspiração nos estudos foucaultianos para problematizar a constituição docente. Mais especificamente, buscamos, nos estudos sobre a genealogia da subjetivação, a leitura, e a escrita tomadas como práticas possíveis do cuidado de si, quando da investigação de Foucault na Antiguidade greco-romana, especialmente nos primeiros séculos da nossa era. Todavia, não se trata de uma aplicação conceitual anacrônica, mas de tomarmos esse ferramental para pensar o que estamos nos tornando no presente, quais são os modos contemporâneos de dominação e quais são as possibilidades, em brechas, de criação de uma estilística da existência. Sendo um ensaio teórico, operamos com a literatura como possibilidade de dobra na linguagem tida como verdade, que poderia funcionar não fora da linguagem, mas fora da ordem do discurso. Seguindo essa perspectiva, entendemos que ela pode não ter apenas a função de revelar outra verdade, ser um passatempo, informar ou transmitir um saber, mas pode funcionar como uma prática de si num exercício de pensamento que problematiza o que estamos fazendo com nossa vida e com a vida dos demais no presente.

Monumental prédio do Jardim da Infância anexo à Escola Normal de São Paulo: demolição de um emblema da República (São Paulo, 1896-1939)

PID: S2178-46122020000100405 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2020
Autores: Warde Salim
Resumo Este artigo analisa a trajetória do Jardim da Infância da Escola Normal de São Paulo, idealizada por republicanos paulistas que tinha como projeto a organização e modernização da instrução pública no estado, em fins do século XIX. Mesmo fazendo parte do complexo construído para atender à educação do povo, o prédio idealizado para o Jardim da Infância não resistiu às pressões políticas e econômicas, e foi demolido em 1939. As razões da demolição deste prédio, que pôs por terra a estrutura física e administrativa da instituição, que teria perdido relevância na história de sua constituição, serão apontadas bem como os valores defendidos e praticados que indicavam a suntuosa arquitetura pensada para esta instituição. Razões que levaram ao desmonte dessa escola na década de 30 (século XX), com as possíveis consonâncias e dissonâncias entre as autoridades políticas, estão indicadas e analisadas. As transformações urbanas e sociais, a partir da Proclamação da República, aceleraram o crescimento econômico, que se traduziu em mais capacidade de investimento para a cidade e ajudou a consolidar o desejo da nova elite de produzir um novo espaço urbano para viver. A modernização da cidade acompanhou essa visão. O palco da nova vida devia ser moderno, confortável e bonito. Seduzido pela propaganda oficial estadonovista e fascinado pelas mensagens de progresso, o povo – sem perceber – aplaudiu a “agonia” da República e saiu às ruas para venerar Getúlio, pai dos pobres. As constantes reformulações do ensino, as transformações urbanísticas e a verticalização da cidade possibilitaram a Prestes Maia dar prosseguimento ao seu Plano de Avenidas e ruir com o prédio original e monumental dessa instituição escolar pública de atendimento à primeira infância.

Moralidade, biopolítica e Educação em tempos de pós-verdade

PID: S2178-46122020000100502 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2020
Autores: Trevisan
Resumo O artigo pretende abordar o tema da moralidade no campo da Educação a partir da transição da discussão de Freud a Adorno (e Horkheimer), potencializada pela compreensão da biopolítica de Foucault e Agamben. O objetivo é fazer a crítica ao ato de discriminar e direcionar o destino das verbas públicas não para a Educação, e sim em prol de valores do mercado. O tema da moralidade está sendo utilizado largamente como expediente de formação de massas com características fascistas no Brasil atual, o que demanda um esforço hermenêutico para repensar suas premissas filosóficas e psicanalíticas. Não se trata somente de investigar o papel positivo que desempenham os agrupamentos que trabalham em prol de causas elevadas. Mais do que isso, interessa compreender como eles se unem em torno de pautas conservadoras e que se utilizam do escudo da moral, em tempos de pós-verdade, como forma de distração dos reais problemas enfrentados pela vida pública brasileira. Com isso, é possível mergulhar na psique das massas, percebendo que a falta de distanciamento ou identificação entre o eu e o ideal do eu é um dos principais motivos À emergência de uma biopolítica da moralidade que leva ao comportamento massificado do indivíduo. Quando renuncia ao seu ideal do eu para adotar atitudes e comportamentos padronizados, acaba por abolir a sua instância moral e passa a operar sem apoio no narcisismo. Deixa, assim, de aspirar à sua própria autoafirmação, focando todos os seus esforços no ideal do coletivo, sem perceber que paga o preço da renúncia a si mesmo que leva à heteronomia, cujas normas são prescritas pela sociedade.

Morrer para sobreviver: o vírus que somos

PID: S2178-46122020000100110 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2020
Autores: Beccari
Resumo Este artigo, de caráter ensaístico, não se furta a pensar o fenômeno de maior proeminência no momento em que fora escrito, a pandemia desencadeada pelo Covid-19. Partindo literalmente da premissa foucaultiana, segundo a qual a filosofia deve ter como alvo o tempo presente, e abalizado por reflexões recentes de filósofos contemporâneos influenciados por Foucault, como Paul B. Preciado e Roberto Esposito, defendo a hipótese de que o vírus carrega em si, como um espelho, tudo o que ainda não conseguimos deixar de ser. Com efeito, a abordagem aqui adotada lança mão da estratégia, já recorrente na filosofia contemporânea, de ampliar a noção de “vírus” como metáfora pertinente para os mais diversos fenômenos societários. Após introduzir o que está em jogo neste contingente virótico e global, decomponho a reflexão em quatro partes: (1) enquadramento – de uma atmosfera previamente carregada de certos hábitos de exceção e anticorpos fronteiriços; (2) estranhamento – como princípio da imunização e da redistribuição da vulnerabilidade; (3) confinamento – como disciplina assimétrica de sobrevivência e autossacrifício; (4) desaparecimento – como horizonte ontológico de uma existência inerte que nos espelha. O que me interessa aqui é, mais do que delinear uma interpretação filosófica da pandemia, indiciar a lógica insuspeita e virulenta que há décadas nos cerceia enquanto corpos e anticorpos descartáveis. Concluo, à guisa do diagnóstico de Paul B. Preciado, segundo o qual o vírus atua “à nossa imagem e semelhança”, que o fenômeno pandêmico implica o recrudescimento do paradoxo neoliberal segundo o qual, para “sobrevivermos”, devemos sacrificar a nós mesmos.

O conceito de substância na Metafísica e nas Categorias de Aristóteles

PID: S2178-46122020000100104 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2020
Autores: Castro
Resumo Procurar analisar um conceito como o de substância é, por si mesmo, entrar no coração da metafísica. Quando esse conceito se situa no Corpus aristotelicum, a tarefa ganha outra dimensão, pois implica uma leitura conjunta de suas obras principais, a saber: Categorias e Metafísica. Tal leitura conjunta levanta, desde logo, vários problemas: a autenticidade, a articulação entre seus próprios livros e, sobretudo, a questão fundamental: se é possível fazer uma tal leitura. O propósito do nosso ensaio é executar tal tarefa, levando-nos a efetuar uma desmontagem necessária e decisiva do conceito. A terminar, perceberemos como partir dessa análise e o significado de substância abriria para um modelo que persistiria durante séculos.

O cotidiano de crianças italianas do lado de lá e de cá do oceano Atlântico: algumas considerações sobre a infância entre fins do século XIX e início do século XX

PID: S2178-46122020000100406 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2020
Autores: Panizzolo
Resumo Condições objetivas favoreceram a emigração, determinadas e, muitas vezes, acompanhadas de um conjunto bastante complexo de transformações que ocorriam na Europa. As crianças compuseram um grupo social que, sozinhas, acompanhadas por adultos ou juntamente com seus pais, saíram da Península Itálica, na maioria das vezes, em meio à fome e à miséria. O presente texto tem por objetivo investigar o cotidiano marcado pelo trabalho vivido por crianças italianas, sobretudo, das camadas menos favorecidas, desde antes do embarque até a chegada em São Paulo, entre as décadas finais do século XIX e o início do século XX. Ancorado nos referenciais da História Cultural e na História da Infância e tendo a análise documental como procedimento adotado, o presente texto tem como fontes: jornais, relatórios consulares, anuários da instrução pública e publicações. Tomando a História da Infância como sendo a história da sociedade, da cultura, dos adultos com relação à criança, buscou-se investigar a infância a partir dos contextos histórico e social, ainda que existam permanências ao longo do tempo e em diferentes lugares quanto à garantia de direitos e proteção. As fontes estudadas apontam que, com o passar dos anos, ao menos uma parte das crianças italianas ou ítalo-descendentes começou a frequentar a escola, o que pode indicar um ingresso mais tardio ou menos precoce no mundo do trabalho, ou ainda, que para muitas crianças o tempo tenha passado a ser ocupado, simultaneamente, pelas atividades da escola e do trabalho. A história das crianças imigrantes italianas se assemelha à história das crianças nascidas no Brasil, uma história marcada pela privação, pelo abandono, pela fome e exploração

O homem de Piltdown e o ceticismo organizado na ciência

PID: S2178-46122020000100130 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2020
Autores: Guzzo Lima
Resumo Em 1912, um conjunto de fragmentos de crânio, mandíbula e dentes foi apresentado na Inglaterra como pertencente a um ancestral do Homo sapiens. A nova espécie, batizada de Eoanthropus dawsoni – o “Homem de Piltdown” –, foi tratada como uma das descobertas mais extraordinárias da antropologia até então: finalmente, um hominídeo havia sido encontrado em solo inglês, e seu status era ainda maior por ser uma espécie da qual a nossa teria supostamente se originado. Quatro décadas depois, no entanto, a fraude foi exposta: os vestígios do Homem de Piltdown haviam sido montados a partir de um crânio humano com mandíbula e dentes de orangotangos. As razões para a aceitação imediata da espécie entre os ingleses foram, provavelmente, as expectativas e os desejos de cientistas em ter o seu país como o berço da humanidade, e também o fato de que o espécime de Piltdown corroborava ideias aceitas na época a respeito da evolução humana. Apesar disso, como, então, sabemos hoje que o Homem de Piltdown é uma fraude? Argumentamos que a resposta a essa questão está no conceito de ceticismo organizado. O ceticismo organizado é um dos componentes do ethos científico propostos pelo sociólogo Robert Merton, um elemento institucional que envolve procedimentos de avaliação e revisão da prática e das ideias científicas feitas a partir de uma comunidade de investigação. No presente artigo, examinamos como o trabalho de uma comunidade de investigação foi fundamental para o desnudamento da farsa do Homem de Piltdown e, em um segundo momento, discutimos o que o ceticismo organizado pode nos ensinar a respeito da natureza da ciência e de nossos próprios processos de raciocínio cotidianos.

O pensamento arqueológico de Michel Foucault sobre materialidade e referencial

PID: S2178-46122020000100100 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2020
Autores: Faheina
Resumo Este texto reflete sobre o modo como Foucault aborda as noções de materialidade e referencial em seu livro A arqueologia do Saber (FOUCAULT, 2012). De modo mais específico, procuram-se identificar séries de signos, isto é, frases ou palavras escritas e registradas na referida obra sobre materialidade e referencial, a fim de conhecer o entendimento de Foucault sobre elas. Do ponto de vista teórico-metodológico, opera-se em uma perspectiva analíticoargumentativa que objetiva percorrer, no terreno da linguagem, o conjunto de coisas ditas por Michel Foucault sobre as noções de materialidade e referencial à luz da abordagem arqueológica do discurso, proposta pelo próprio autor em A arqueologia do saber. Vale salientar que a busca pela identificação das séries de signos não visa a explorar o sistema de significação dos significantes, mas em compreender como elas podem assumir, no discurso, a condição de enunciado. Assim, um procedimento preliminar, amparado na abordagem arqueológica, consiste em percorrer a diversidade documental (fonte de investigação), haja vista identificar as séries de signos que funcionam, no discurso investigado, em um modo particular de existência, isto é, na condição de enunciados. Orientando-se por esses pressupostos, fez-se o mapeamento dos conceitos de materialidade e referencial no livro A arqueologia do saber; em seguida, a explicitação e análise do modo como Foucault os compreende. Do estudo realizado, conclui-se que a análise discursiva, na perspectiva arqueológica, não está sujeita ao mesmo regime sígnico, materializado na relação entre os pares significante-significado, frase-sentido, proposição-referente; antes, liga-se a um referencial constituído pelo conjunto de relações enunciativas, tecidas a partir das condições de possibilidade e de regras próprias de utilização: relações entre enunciados, temas, posições de sujeito e materialidades distintas. Tais relações estão sujeitas a um regime de materialidade repetível, que permite reiterar-se em sua identidade, apesar das diferenças de enunciação, ou se distinguir, mesmo que sob a existência de expressões semânticas, gramaticais ou formais idênticas.

O trabalho da formação (bildung) da consciência em Hegel

PID: S2178-46122020000100131 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2020
Autores: Ferreira Gomes
Resumo A partir da leitura da Fenomenologia do espírito [Phänomenologie des Geistes] (1807), de Hegel (1992), em particular, da Introdução, busca-se elaborar os pressupostos da formação da consciência, mostrando os momentos em que essa passa pelo seu formar, diferentemente do que ocorria no período moderno. Percebe-se o surgimento de novo critério de formação, cujo fundamento é assinalado pela crítica que Hegel faz à formação representativa, que sustenta a educação mediante a interiorização do pensamento e a representa a partir de conceitos que não passaram pela experiência com o objeto e nem realizaram a negação de seu saber com o intuito de formar outro. Já na formação dialética, a partir dos pressupostos hegelianos, a consciência sai do seu estado natural e percorre o movimento do círculo espiral e, em cada momento desse percurso circular, realiza a experiência entre o saber da consciência com a verdade do objeto. Nesse sentido, cada etapa dessa experiência é o aprofundar no saber da consciência e na verdade do objeto, causando dúvida e desespero em seu formar, pois vê desaparecerem o conhecer e a verdade que tinha do objeto. Com isso, têm-se os momentos de negação, de conservação e de superação tanto na consciência quanto no objeto, constituindo a suprassunção [Aufhebung] até alcançar o saber conceitual em que há a identificação entre o saber e a verdade. Com esse princípio de formação, Hegel faz a crítica da crítica e efetiva a experiência entre o saber do sujeito e a verdade do objeto. Nesse itinerário, a consciência, paulatinamente, entra no processo do trabalho de formação, cujo fundamento é o concrecere – crescer juntos; ou seja, o saber da consciência com a verdade do objeto. Isso se realiza no momento em que a consciência é tocada pelo fenômeno do objeto. Há, então, novo procedimento pedagógico que leva em consideração a negação, o ceticismo amadurecido e a experiência para alcançar o saber real de sua formação [Bildung].

Os usos da biopolítica em Esposito e Agamben: tensionando a (agro)ecopedagogia

PID: S2178-46122020000100102 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2020
Autores: Mosquera
Resumo O presente trabalho trata dos usos que destacados filósofos italianos têm dado à noção de biopolítica. O estudo é a continuação do diálogo transdisciplinar entre a Filosofia da Educação e a Agroecologia. Parte da pesquisa de doutorado na área de Educação, em que se analisaram as práticas pedagógicas da agroecologia, que denominamos como agroecopedagogia. Utilizando a ferramenta arqueogenealógica, a pesquisa indagou as relações de poder veiculadas em ditas práticas. Aqui apresentamos parte dessa discussão, incorporando, também, a chamada ecopedagogia. Como se sabe, a biopolítica é uma noção antiga atualizada pelos trabalhos do pensador francês Michel Foucault, a qual abriu uma série de importantes debates no pensamento crítico, especialmente, em questões relacionadas a um suposto progresso da humanidade atrelado à relação saber-poder. Neste artigo, descrevemos como dois de seus comentadores mais importantes interpelaram a releitura da biopolítica por parte do filósofo do poder; assim, criamos tensões às pedagogias que têm como fundamento o saber ecológico. Inicialmente, abordamos a duplicidade da biopolítica, presente no livro Bíos, Biopolítica y filosofia, de Roberto Esposito, articulada como a política da vida e a política sobre a vida; dessa abordagem por parte do professor italiano surgem duas noções-chave para tensionar a (agro)ecopedagogia: comunitas/immunitas. Seguidamente, introduzimos a discussão apresentada pelo também italiano, Giorgio Agamben, a partir de duas de suas obras mais comentadas no campo da Filosofia da Educação: Estado de exceção e Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua. A nosso ver, os comentários de Agamben oferecem uma radical discussão em torno da diferença e da democracia, que nos parece levar a um nível de tensão insuspeitado o discurso agroecológico e a Educação Ambiental em seu princípio crítico vinculado a um desejo de emancipação, libertação e transformação, de tal forma que essa radical discussão se torna de importância vital não só à própria coerência das práticas supracitadas, mas de forma geral, para um mundo por vir delimitado cada vez mais pelo biopoder.
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