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O declínio da experiência e os desafios educacionais: uma abordagem a partir de Walter Benjamin

PID: S2178-46122018000400003 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2018
Autores: Fávero Doro
Resumo Walter Benjamin fala da experiência (Erfahrung) como sendo o tipo de sabedoria que resulta do encontro de práticas individuais com o horizonte de sentido fornecido pela vida comunitária. Mas esse encontro tem se tornado mais difícil a partir do desenvolvimento da sociedade capitalista moderna. As novas dinâmicas de trabalho, somadas ao itmo acelerado da vida urbana, favorecem o isolamento dos indivíduos e deturpam sua capacidade de filtrar, significativamente, os eventos que se acumulam no cotidiano. Muitas coisas acontecem, mas muito pouco permanece desses acontecimentos. A experiência dá lugar, assim, à mera vivência (Erlebnis). Diferentemente da experiência, que se articula a partir do fundo significativo de uma comunidade e se torna significativa em relação a ela, a vivência se constitui como um momento privado. A vivência não conecta os indivíduos à vida da comunidade, à tradição, e nisso reside sua pobreza. Pobreza de experiência é, portanto, pobreza cultural, carência de perspectivas mais amplas que possam apoiar uma avaliação significativa das vivências; em suma, incapacidade de aprender. Diante desse contexto, o presente ensaio busca enfatizar o impacto negativo da pobreza de experiência à constituição da subjetividade do indivíduo contemporâneo e assinalar a possibilidade de fazer frente a esse quadro de empobrecimento a partir de uma ideia de educação voltada à formação integral, que, mesmo diante do apelo crescente do conhecimento técnico-científico especializado, não abra mão do ensino das humanidades. Nessa linha, defende-se a tese de que as disciplinas de formação humanística, como Artes, Literatura, Filosofia, cumprem um papel de destaque no desenvolvimento das condições necessárias à realização de experiências, no sentido específico descrito por Benjamin. O ensaio, de cunho bibliográfico-hermenêutico, se apresenta como uma contribuição para pensar nos atuais desafios educacionais.

O homem como ser-no-mundo: repercussões pedagógicas da analítica existencial de Ser e tempo

PID: S2178-46122018000400002 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2018
Autores: Ferreira Júnior
Resumo O texto trata da exposição de alguns aspectos básicos da analítica existencial realizada por Martin Heidegger na obra Ser e tempo. O ponto de partida é o curso dado no semestre de verão de 1923: Hermenêutica da facticidade, no qual o filósofo antecipa muitas das descrições fenomenológicas presentes na analítica existencial de Ser e tempo. Em seguida, explicitam-se as estruturas ontológicas do homem como ser-aí (Dasein) cuja constituição fundamental é ser-no- mundo, analisando as possíveis repercussões no campo da educação.

O populismo, a massa e a afetividade

PID: S2178-46122018000500171 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2018
Autores: Perez
Resumo O objetivo deste artigo é apresentar um dispositivo conceitual desde Laclau e Lacan que permita abordar o fenômeno político nomeado como populismo. Para isso, primeiro, estabeleceremos a definição dos conceitos utilizados. Em segundo lugar, estabeleceremos o contraponto entre populismo, neoliberalismo e fascismo. Finalmente, apresentaremos o populismo como uma possibilidade de saída de crise política, social e econômica. Devemos salientar que o texto esteve intencionalmente elaborado para um debate com uma defesa do liberalismo como saída de crise política, social e econômica.

Origens feudais do liberalismo

PID: S2178-46122018000500051 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2018
Autores: Moraes
Resumo A conjunção, na Inglaterra medieval, de uma monarquia precocemente (em relação ao continente europeu) centralizada e de um Parlamento feudal deu origem ao protótipo institucional de um contrapeso à centralização do poder monárquico, portanto ao princípio da limitação recíproca dos poderes que constitui uma precondição histórica do liberalismo inglês. O senso comum liberal considera que as instituições de tipo parlamentar tendem a garantir as liberdades e o poder central a ameaçá-las. A Polônia mostrou que pode também ocorrer o contrário. A força combinada dos grandes senhores feudais e da hierarquia católica (às vezes confundidos nos mesmos potentados) reduziu o rei à função de delegado eleito pela nobreza, impotente para tomar decisões de interesse nacional que contrariassem a sólida aliança da espada e do turíbulo.

Os críticos e sua democracia: o significado do naturalismo político de Aristóteles

PID: S2178-46122018000500012 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2018
Autores: Tierno
Resumo Este artigo procura oferecer uma reinterpretação do naturalismo político de Aristóteles à luz das críticas antigas ao regime democrático de Atenas e da orientação oligárquica da história intelectual e filosófica contemporânea. Para tanto, são apresentadas as teses elaboradas pelo autor no segundo capítulo do Livro I da Política. Nesse contexto reconstrutivo, sustenta-se que uma apreensão estrutural tanto dos argumentos como da realidade histórica representada pela pólis faz possível elucidar a concepção sistêmico-funcional que subjaz à proposição segundo a qual a cidade é naturalmente primeira com respeito às comunidades menores e aos elementos constitutivos dos quais se origina. Dessa maneira, ao longo de uma reconstrução que vincula diversas referências textuais e se concentra no caráter natural, substancial e desenvolvido da pólis grega, irão se revelando os traços igualitários e democráticos da cidadania que estão na base da ordenação plural da comunidade política por sua semelhança com a constituição de um todo orgânico e suas partes interconectadas.

Os riscos de degeneração da democracia contemporânea - a atomização social e o discurso totalitário

PID: S2178-46122018000500366 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2018
Autores: Castro
Resumo O presente artigo propõe uma análise dos riscos de degeneração da democracia contemporânea em três pontos. No primeiro ponto, retomamos o tema da possibilidade de degeneração da democracia segundo a perspectiva de Platão e Aristóteles com o objetivo de apresentar os seus traços elementares. No segundo ponto, fazemos uma análise do pensamento de Alexis de Tocqueville, particularmente do modo como ele tratou as ameaças à democracia no quadro do liberalismo político do século XIX. Procuramos mostrar, em um terceiro ponto, que o cenário contemporâneo exige que se coloquem em relevo os efeitos produzidos pelas novas mídias e pelo retorno de um discurso totalitário. Utilizamos, para tanto, alguns textos escolhidos de Baudrillard e Rancière, na tentativa de melhor explicitar o modo como as ameaças atuais à democracia se entrelaçam à sociedade de consumo, às novas mídias e ao retorno de um discurso totalitário.

Pensando a formação ética discente: contribuições das perspectivas aristotélica e kantiana

PID: S2178-46122018000400005 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2018
Autores: Fernandes
Resumo Este artigo busca oferecer alguns subsídios conceituais para pensar o sujeito ético, uma vez que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação estabelece, entre as finalidades da educação no Ensino Médio, “o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico”. Assim, pergunta-se: O que significa ser ético? Um ser aprimorado em sua humanidade é também um ser ético? Um ser ético é também autônomo e crítico? Visando a lançar luz a essas questões, este artigo adota como referência a ética finalista aristotélica e a ética racional kantiana, buscando apresentar as ideias centrais dessas teorias, assim como os aspectos convergentes para se pensar a figura do agente ético a ser preparado pela escola. O texto está dividido em cinco itens, precedidos por uma introdução. O primeiro discute os conceitos de moral e ética buscando defini-los a partir da origem etimológica. O segundo item aborda algumas das principais ideias da ética finalista aristotélica, visando a subsídios para pensar o sujeito ético. O terceiro item, com o mesmo propósito do anterior, expõe as teses centrais da ética racional kantiana. O quarto busca pontos convergentes entre a ética aristotélica e a kantiana, propugnando que ser ético pressupõe, também, ser autônomo e crítico. Por fim, o último item retoma as principais ideias do texto e apresenta as considerações finais.

Pesquisas sobre leitura e escrita nos Programas de Pós-Graduação em Educação no Sul do Brasil

PID: S2178-46122018000100019 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2018
Autores: Heinig
Resumo: As pesquisas sobre leitura e escrita são o foco deste artigo que visa a mapear e apresentar as teses e dissertações dos Programas de Pós­ Graduação em Educação de Universidades de Santa Catarina e do Paraná que investigaram leitura e escrita; analisar o contexto geral das pesquisas, destacando o foco investigativo; refletir sobre os fazeres realizados e as ausências sentidas. A ancoragem teórica aproxima os estudos dos letramentos, compreendendo-os como um conjunto de práticas que se faz com a linguagem sob a ótica enunciativa e com destaque ao campo discursivo. É uma pesquisa caracterizada como "estado do conhecimento" a qual mapeou 65 produções escritas entre 2009 e 2013. A análise quantificou as produções em cada programa, delimitou os temas investigados e os focos abordados em leitura e escrita em cada estado. Os resultados revelam que, devido à pluralidade da área da linguagem, essa abarca pesquisas que articulam conhecimentos da educação e da linguística como método fônico, avaliação em leitura, variação linguística, mas o tema que mais dialogou com a leitura e a escrita foi o da formação docente. A leitura e análise dos resumos indicam que as pesquisas se concentram nos Programas da UEL, Furb, UFPR, UEM, Unoesc, Univali, sendo que, em média, 14 pesquisas foram produzidas por ano com pequena queda em 2013, em que ocorreram nove. Isso revela o interesse e a necessidade de discussão da leitura e da escrita na educação. Outros pontos detectados, por se tratar de um "estado do conhecimento", foram a informatividade e a qualidade dos resumos, que, na sua maioria, apresentam as seguintes lacunas: ausência de palavras-chave ou falta de coerência entre elas e o resumo; falta de informação sobre a base te6rica o que impossibilita depreender a concepção de leitura e escrita.

Por que política? Moralidade, excedente de sentido e democracia

PID: S2178-46122018000500250 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2018
Autores: Araujo
Resumo Partindo de uma visada crítica das chamadas “teorias político- normativas”, este artigo rediscute a questão das relações entre política e moralidade sob regimes democráticos e explora a hipótese de que o esforço mesmo de realização de seus valores fundamentais, ao produzir efeitos não intencionados - um “excedente de sentido” - induz esses regimes a um movimento de fuga da moralidade. Movimento contraditório, apto a produzir um mal-estar difuso com a própria democracia. Contudo, o artigo explora a hipótese complementar de que é exatamente por meio dessa contradição que emergem as possibilidades de um campo próprio da ação política.

Por uma crítica contemporânea da educação ambiental: Justiça Ambiental e o caso das comunidades quilombolas de Oriximiná - PA

PID: S2178-46122018000100097 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2018
Autores: Pereira Eichenberger
Resumo: O presente artigo pretende elucidar questões relacionadas ao pensamento ecológico contemporâneo, antropológico e social relacionado à Ecologia Política e à Justiça Ambiental, assim como, o caso das comunidades de Oriximiná - PA que trazem para o bojo das discussões uma profunda crítica aos paradigmas dominantes do conhecimento ambiental-contemporâneo e da própria educação ambiental. O estudo confere importância à investigação sobre o tema, já que a Ecologia Política se estabelece no espaço que é de conflito, de disputa pela reapropriação da natureza e de cultura, sendo que a natureza e a cultura resistem ante a imposição de valores e processos - simbólicos, ecológicos, epistemológicos, políticos - ao se transformarem em termos de valor de mercado. Entender a importância desses grupos étnicos que habitam as margens do rio Trombetas - PA, distribuídos no interior de lagos e igarapés, ligados a “furos” e “Paranans” - característica local desse sistema hidrográfico, remete, sem dúvida, a uma abordagem sobre os antecedentes e a tradição de ocupação por eles desenvolvida sobre suas formas de integração e manejo, além de intervenções em campo - em se encontram estruturados em um complexo sistema de organização social em torno de práticas econômicas e culturais que lhes são particulares. Desde os mocambos, termo utilizado no século XIX até os dias atuais, com a caracterização dos termos comunidades tradicionais, o caminho percorrido pelos povos negros dessa região esteve relacionado à conquista de justiça e igualdade de direitos: O direito sobre a terra historicamente conquistada. O direito sobre sua especificidade negra, raiz profunda de sua cultura. O direito de reproduzir seu modo de vida agrícola e extrativo sobre as bases de territorialidade concedida com manejo ecológico, traduzido pela preservação, atestado nos 200 anos de existência no lugar.

Pressupostos epistemológicos nos processos de ensino e prendizagem a partir de uma perspectiva ética

PID: S2178-46122018000400007 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2018
Autores: Paviani Carbonara
Resumo No decorrer do artigo, são analisados diferentes pressupostos epistemológicos e suas possíveis implicações nos processos de ensino e aprendizagem no contexto educacional. Para tanto o texto parte de alguns esclarecimentos preliminares sobre a ideia de pressupostos e contextualiza aspectos do debate epistemológico em relação a algumas das matrizes educacionais mais expressivas. Ao propor uma análise da possibilidade de um conhecimento seguro e verdadeiro diante dos processos de ensino e aprendizagem, o artigo alcança seu ponto mais significativo de argumentação e coloca em debate concepções objetivistas e não objetivistas sobre o conhecimento. A fim de responder a tal debate, a argumentação seguirá de modo a justificar uma concepção epistemológica não objetivista e com estruturação de racionalidade nos moldes da filosofia prática e, por isso, numa perspectiva ética. Nesse percurso, a interdisciplinaridade é discutida e apresentada como decorrência da concepção epistemológica defendida pelos autores. Ao longo de todo o texto, são apontadas pistas de reflexão e de tomada de decisão que possibilitam compreender aspectos de diferentes matrizes do currículo na Educação Básica e Superior.

Profissão docente no século XXI: concepções do professor sobre seu papel na sociedade contemporânea

PID: S2178-46122018000100077 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2018
Autores: Clock Pereira Lucas Mendes
Resumo: O presente artigo apresenta uma investigação sobre as concepções que professores têm acerca do papel de sua profissão na sociedade contemporânea. Foram coletados dados através de questionários respondidos por professores em serviço em escolas públicas estaduais da cidade de Ponta Grossa - PR. As respostas aos questionários foram submetidas a uma análise qualitativa através de técnicas de Análise de Conteúdo, onde, a partir dos significantes presentes, emergiram três categorias tipificadas como: A) “professor como um sujeito transformador: educação de forma ampla” (31,4% das respostas); B) “professor como profissional do conhecimento” (49% das respostas); e C: “professor enquanto sujeito que desempenha vários papéis sociais” (19,6% das respostas). Desses resultados pode-se concluir que as concepções que o grupo de professores estudados possui acerca do papel de sua profissão vão além da perspectiva tradicionalista que encara o ensino como mera ferramenta de transmissão de conhecimentos; as duas principais categorias mais evidenciadas (A e B) reconhecem um papel mais abrangente à profissão docente, o que inclui formação técnica e para a cidadania. Por outro lado, a categoria C também ocorre de maneira significativa e evidencia que muitas vezes o professor é requerido a desempenhar um papel que não é próprio de sua profissão, para preencher lacunas que a sociedade e as famílias ainda deixam abertas em relação aos jovens, o que remete à reflexão acerca da necessidade de ressignificar o papel do professor e investir em políticas públicas de valorização da profissão docente perante a sociedade.

Progresso e não determinismo científicos, a partir de conceitos-chave da epistemologia de Thomas Kuhn

PID: S2178-46122018000200244 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2018
Autores: Ferreira Silva Verdeaux
Resumo O presente texto busca, na epistemologia de Thomas Kuhn, aportes teóricos sobre a forma como a ciência progride, os quais sugerem uma aproximação com aspectos históricos de uma ciência, por definição, não determinista. Foram discutidos os conceitos de paradigma, incomensurabilidade, ciência normal, anomalias e crises, revolução científica e ciência extraordinária, com base na obra A estrutura das revoluções científicas, em literatura correlata e fontes secundárias. As consequências desse encadeamento teórico levam, à luz da epistemologia de Kuhn, a fundamentos que permitem uma discussão sobre o caráter temporal, condicional, suscetível, incerto – e, portanto, não determinista – do conhecimento científico.

Rawls, modelos econômicos e o argumento pluralista

PID: S2178-46122018000500197 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2018
Autores: Schüler
Resumo O presente artigo argumenta em duas direções. De um lado, sustenta que a teoria da justiça como equidade, de John Rawls, e em particular o princípio da diferença, antes de representar uma concepção igualitária da justiça, cumpre um objetivo inverso: o de dissociar a justiça social das exigências da igualdade econômica. A desigualdade econômica, na justiça como equidade, surge como um tipo de bem, desde que possa melhorar a posição de todos e em particular a dos menos favorecidos. Para sustentar esta tese, Rawls apela às ideias de pluralismo social e de convergência dos padrões de vida, no âmbito do que chama de uma sociedade bem-ordenada. De outro lado, o artigo sustenta que a teoria pode ser melhor entendida quando desvinculada da adesão a modelos institucionais e de regulação econômica historicamente situados. Uma distinção apropriada entre este sentido ético, dado pelo modo de fundamentação filosófico da teoria, e seus possíveis desdobramentos institucionais, é o melhor caminho para uma teoria que se propõe a servir como ponto de encontro entre as múltiplas visões do bem que competem em nossa tradição democrática.

Refutação do conceito de confiança de Richard Foley: a impossibilidade de um uso não analógico em Epistemologia do Testemunho

PID: S2178-46122018000200325 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2018
Autores: Ketzer
Resumo Ainda que Richard Foley não apresente uma definição clara de confiança, não podemos negligenciar a relevância de seu trabalho às discussões posteriores sobre o tema. A característica peculiar da abordagem foleyana ante a outras é sua tentativa de oferecer uma contribuição exclusivamente epistêmica de confiança. Trata-se de uma proposta de uso não analógico do conceito, que desconsidera os aspectos morais envolvidos em confiar. Apresentamos os argumentos de Foley sobre autoconfiança (self-trust), bem como o argumento que deriva confiança (trust), nos outros de autoconfiança, e suas implicações. Para concluir, levantamos alguns problemas decorrentes dessa proposta, apontando as lacunas da teoria para os estudos em Epistemologia do Testemunho, explicitando sua inviabilidade.

Reimaginação das cidades de Calvino por meio de fragmentos tradutórios

PID: S2178-46122018000100063 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2018
Autores: Olegário Corazza
Resumo: Este ensaio tem como objetivo afirmar a leitura e a escrita como processo ativo tradutório, por meio da reimaginação do Texto de Partida As cidades invisíveis, redigido em 1972 pelo autor italiano Italo Calvino. O ensaio é tecido mediante a noção de fragmentos, tal como entendido por Tavares (2013), em que a escrita se constitui como uma experimentação do pensamento. Toma como ponto de partida as pistas deixadas pelo viajante Marco Polo, na obra de Calvino, que foi lida e reinventada pelos acadêmicos do curso de Pedagogia de uma Instituição de Ensino Superior localizada no interior do Rio Grande do Sul. Um Roteiro de Procedimentos Escrileitores - escritura e leitura - das cidades de Calvino foi disponibilizado aos estudantes, tendo como proposição mostrar nove regras, cujo objetivo consistiu em servir à operação tradutório-inventiva. A partir delas, os estudantes arriscaram uma leitura ativa e uma escritura viva, ou seja, uma escritura tradutória, que não visa à recuperação literal do texto, mas privilegia uma escrileitura inventiva e traduções-reinvenções. Como aporte teórico, o texto aproxima-se do pensamento da diferença, de Barthes e de Deleuze, além das teorizações da tradução literária propostas por Haroldo de Campos. Trata-se de experimentar a prática de leitura e o ensaio de escrita gerando novas interpretações ao Texto de Partida. Nesse sentido, ler-e-escrever configuram-se como uma prática aberta, jamais definitiva e tampouco estática. Em síntese, o texto propõe defender que os Textos de Partida são sempre fisgados pelos processos tradutórios e, por isso, novamente reinventados via leitura e escrita em Textos de Chegada.

Religião, ética e educação: experiências e vivências do Quilombo do Mel da Pedreira no Amapá

PID: S2178-46122018000300005 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2018
Autores: Custódio Costa
Resumo O presente artigo objetiva discutir sobre religião, ética e educação: experiências e vivências do Quilombo do Mel da Pedreira, localizado no Município de Macapá, Estado do Amapá. Uma comunidade que possui sua história, práticas culturais e identidade marcadas pela religiosidade de matriz afro-ameríndia e posteriormente protestante. Nas últimas décadas, a religiosidade protestante, nessa localidade, tem se intensificado com o surgimento de outras denominações cuja base é o pentecostalismo. Neste estudo, são abordadas questões voltadas aos discursos religiosos, a ressignificação de práticas culturais, a aplicabilidade da Lei 10.639/2003 no currículo escolar, entre outros aspectos que envolvem a cultura local, a religiosidade e a identidade negra. Trata-se de um estudo etnográfico de abordagem qualitativa que utilizou a pesquisa bibliográfica, a análise documental, a observação in loco e a entrevista semiestruturada como formas de investigação. Os resultados da pesquisa revelam que as mudanças nesse quilombo não aconteceram somente por influência de fatores religiosos, mas, sobretudo, por reflexões sociais e interculturais da comunidade como espaço coletivo. Sobre a implementação das políticas de educação escolar quilombola no Amapá, essas estão caminhando a passos muito lentos, pois são normalmente ações pontuais e fragmentadas, sem articulação com a realidade regional. No que diz respeito ao currículo escolar, observa- se, na escola local, ausência de um currículo construído a partir de valores e interesses da comunidade, da mesma forma, ausência de projetos pedagógicos articulados com os conteúdos previstos pela Lei 10.639/2003, bem como uma educação escolar quilombola de qualidade. É urgente o desenvolvimento de uma educação diferenciada, de qualidade, bem como a valorização e permanência de professores quilombolas e implementação de práticas pedagógicas e de cursos de formação continuada para atender à necessidade local.

Religião, ética e psicanálise: um diálogo possível?

PID: S2178-46122018000300009 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2018
Autores: Krindges Nodari
Resumo Constatando, na atualidade, uma espécie de vazio ético e tendo presente que a religião deixou de ser fonte articuladora e aglutinadora de sentido, a partir das críticas descerradas por Freud à religião e, também, da evidência do declínio da representatividade da lei paterna e de autoridade, este artigo tem o objetivo de apresentar, por um lado, uma possível conexão entre o vazio ético e existencial e o campo religioso nos dias atuais. Pode, por exemplo, o trânsito religioso ser visto como um comportamento sintomático e revelador do fenômeno religioso como mais uma ideia ou produto de consumo no vasto campo das culturas consumistas. Por outro lado, sustenta-se a tese de que, não obstante terem sido apresentadas e defendidas tantas teses acerca da superação e negação da religião, constata-se, hoje, uma espécie de retorno ao sagrado. Esse, por sua vez, não se dá mais nos moldes da religião tradicionalmente herdada, mas, antes, a partir de um caráter ambivalente e paradoxal, que contrasta tanto com as antigas como com as novas formas de ser religioso. Acaba por se converter (tal modo de ser) em um risco iminente de tornar a religião um recurso de busca do enfrentamento das neuroses e angústias da contemporaneidade mais do que o exercício de uma religiosidade esclarecida e como uma das formas capazes de articular e aglutinar a busca transcendental de sentido à existência.

Sobre tolerar e acolher

PID: S2178-46122018000500386 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2018
Autores: Farias
Resumo O trabalho articula alguns conceitos da ética e da filosofia política para pensar a crise dos refugiados. O que significa tolerar e acolher são questões que buscamos investigar para lançar luz sobre o campo de problematização da ética e da política. Se a pluralidade é a condição fundamental da política (Hannah Arendt), o conceito de alteridade ética (Emmanuel Levinas) deverá funcionar como um dispositivo para uma interpretação consequente do atual estado de nosso engajamento ético-político. O conceito de natalidade, que em Arendt fundamenta a ação política, é apropriado para afirmar uma ética e uma política do acolhimento e para indicar os limites de uma suposta ética da tolerância.

Theodor W. Adorno e a dialética negativa

PID: S2178-46122018000100002 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2018
Autores: Savi Neto
RESUMO O presente artigo, baseado em uma pesquisa teórica, se propõe a abordar a concepção da dialética negativa de Theodor Adorno, partindo de sua crítica aos sistemas filosóficos tradicionais de caráter idealista. A filosofia de Adorno se afigura como crítica às filosofias de caráter idealista, na medida em que entende que tais sistemas filosóficos partem de uma relação de conhecimento entre sujeito e objeto que se trata, em verdade, de uma relação de dominação, na medida em que é ditada por interesses instrumentais de desencantamento da natureza e sua submissão matemática às necessidades inerentes da sociedade burguesa que se formava animada pelo esclarecimento. Essa instrumentalidade contamina a razão, retirando-lhe o fundamental exercício racional e convertendo-se novamente em uma explicação que conserva aspectos da explicação inerentes ao mito, que pretendia superar. Esse é o elemento de dialética do esclarecimento: a razão que pretende superar o mito, mas, que pela sua forma de estruturação, o conserva em seu interior. Como forma de resposta à racionalidade instrumental, Adorno concebe a sua dialética negativa, buscando resguardar a racionalidade da razão pelo exercício da negatividade. A negatividade parte da consciência da necessidade de conservar a materialidade da realidade no interior da razão, desiderato para o qual a formação estética de Adorno foi determinante. Assim, para atingir o objetivo deste artigo, serão abordados aspectos biográficos do filósofo relacionados à formação do seu pensamento a partir de sua experiência pessoal e vinculada com a Teoria Crítica da Sociedade. Com isso, pretende-se evidenciar a origem da sua concepção de crítica da razão pela razão, a partir da concepção de uma dialética negativa.
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