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“Arma de dois gumes”: Panofsky, MerleauPonty e a perspectiva como dispositivo projetivo de visão

PID: S2178-46122023000100201 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2023
Autores: Verissimo
Resumo O presente estudo foi elaborado com o intuito de colaborar para uma história crítica da percepção, especialmente dos dispositivos projetivos de visão, em meio aos quais se destaca um regime escópico de mira. Tomamos a técnica perspectiva por objeto específico de análise, tendo como ponto de partida a discussão que sobre ela fazem o historiador da arte Erwin Panofsky e o filósofo Maurice Merleau-Ponty. Assinala-se, desde um prisma histórico, que, no devir dos dispositivos modernos de projeção, sobressai o equipamento técnico da perspectiva renascentista. Ao tratarmos da historicidade da perspectiva planimétrica, esperamos, pois, identificar nesta última propriedades que possam ser referidas como sedimentos presentes na constituição da atitude de projeção. Iniciamos o texto por situar nossa discussão em meio às ideias de projeção, de regimes atencionais e de mira. Em seguida, passamos a analisar a perspectiva planimétrica segundo as linhas de leitura desenvolvidas por Merleau-Ponty a propósito das teorias de Panofsky. As contribuições de Merleau-Ponty em torno da noção de instituição auxiliam-nos a tratar da sedimentação cultural e social da racionalização da percepção, em seus vínculos com o conhecimento e a subjugação da espacialidade. A argumentação prossegue amparada em trabalhos do filósofo nos quais fica estabelecido o papel paradigmático da perspectiva como forma racionalizadora do espaço ligada a uma atitude de dominação, atributo maior do sujeito moderno. Pode-se afirmar que o espaço sistemático, ou geométrico, dos modernos vai além do âmbito das artes visuais: ele demonstra uma sensibilidade nova, guiada pela objetivação e pelo ideal de dominação daquilo que pode ser racionalizado.

Coração: uma leitura secular e sua presença no Brasil

PID: S2178-46122022000100207 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Rela Panozzo Cescon
Resumo Este artigo é um recorte do projeto de pesquisa “Leitura de imagens no ensino de História: um estudo sobre mudanças e permanências nas prescrições, livro didático e representações culturais” (LIDHIS). Ele apresenta uma análise, dentre as muitas possíveis, da condição leitora na obra Cuore, escrita por Edmondo De Amicis, traduzida para o português brasileiro com o título Coração. Centenário, o livro teve sua primeira edição publicada no ano de 1886, na Itália, e tornou-se um grande sucesso editorial, principalmente por ter sido adotado nas escolas. Nesta investigação, foram analisados quatro exemplares publicados na metade do século XX no Brasil, com enfoque na materialidade da obra. Buscou-se identificar as relações entre as características de apresentação do livro, identificadas nas capas, nas ilustrações e na escolha da linguagem, com a prática de leitura. Esta investigação baseia-se nas considerações de Chartier (2002a, 2002b) sobre o livro escolar como objeto de circulação. Outros estudos fundamentais, que tratam da análise do projeto gráfico, da função da ilustração e da leitura enquanto prática social, são aqui apresentados e discutidos, respectivamente, a partir de Collaro (2000), Camargo (1995) e Kleiman (2013a, 2013b). Como método de análise, optou-se pelo estudo bibliográfico, pela busca e análise de diálogos informais sobre a experiência leitora da obra, e por pesquisa de campo em bibliotecas e hemerotecas. Em relação aos resultados, a presente investigação permitiu concluir que: o livro Coração circulou no Brasil, sobretudo na região nordeste do Estado do Rio Grande do Sul; a padronização dos exemplares no formato livro de bolso possibilitou acessar mais facilmente os seus destinatários, inclusive pelo valor de venda, possível graças ao investimento em altas tiragens para distribuição e circulação interna na Itália e também no exterior; o projeto editorial, no decorrer do tempo, reuniu aspectos visuais que dinamizam e promovem o estímulo à leitura; a prática de leitura do livro em voz alta, usada pelos professores na escola, foi força persuasiva à leitura e contribuiu para sensibilização dos alunos aos conteúdos dos contos presentes na obra.

A ciência que “não pensa” e a provocação da natureza em Heidegger

PID: S2178-46122022000100102 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Nascimento
Resumo O presente artigo examina o caráter de teoria do real da ciência que, por não dizer respeito propriamente a um pensar em Heidegger, apreende a natureza como coisa externa ao homem, como mera reserva material processável a partir da urdidura do enquadramento matemático que a objetifica a serviço da técnica. Negada em seu valor intrínseco, a natureza que a ciência moderna submete à representação objetivadora é então preparada para o essenciar-se da metafísica no incondicionado da exploração tecnológica. Diversamente, contudo, do entendimento corrente, o domínio da natureza com vistas à eficácia do asseguramento da disponibilidade não é algo que emana da vontade soberana do sujeito no trato com os artefatos e processos de trabalho, mas de uma maquinação - ver-se-á aqui - cuja essência repousa no modo onto-técnico de manifestar o ser, ou a entidade dos entes, no interior do produtivismo niilista da metafísica que fez da ciência uma força operadora do calculismo da técnica. Em larga medida, foi sob os auspícios do projeto da modernidade que se sedimentou a ideia de que a técnica se tratava de algo cujo controle o homem detinha, na condição de instrumentum derivado da aplicação científica. Para esse efeito, contribui decisivamente o paradigma da racionalidade tecnocientífica fundado na metafísica da subjetividade cartesiana, em vista de que o mundo, como imagem, é diligenciado como processo de construção forjado pela representação científico-matemática que é já, como tal, um influxo da vontade de poder da técnica como força cega e trágica que se quer para o pleno cumprimento de uma forma de desvelar as coisas como domínio calculado.

A espetacularização de si nas mídias sociais: o/a leitor/a-espetáculo e as pedagogias da visibilidade

PID: S2178-46122022000100109 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Neves Damasceno
Resumo O presente artigo propõe-se a apresentar os principais temas que emergiram das postagens dos interagentes do grupo de Facebook “Skoob: o que anda lendo?” bem como discutir o conceito de pedagogias da visibilidade. Entende-se como relevante abordar o sentido do conceito de pedagogias da visibilidade, as quais, no contexto atual, constituem materialidades simbólicas de uma nova maneira de se fazer existir frente à emergência das mídias sociais. Foi utilizada a análise de conteúdo como técnica de pesquisa. Os resultados apontam que o valorizado em uma rede social, enquanto comunidade de leitores, são os temas que mais enaltecem a visibilidade dos leitores. A discrição comedida e a introspecção, como marcas da personalidade leitora, não são características significativas nos/as leitores/as-espetáculo das mídias sociais. O estudo apontou que esse/a leitor/a clama por visibilidade e dela depende a sua sobrevivência nos espaços virtuais e estes, por sua vez, incitam-no/a a assumir um comportamento de autocelebrização. Este texto também apresenta uma matriz das pedagogias da visibilidade do/a leitora/-espetáculo com base na tipificação das postagens no grupo observado. Destaca-se que a matriz permite agregar informações acerca das pedagogias da visibilidade das quais os/as leitores/as fizeram uso para serem vistos. As considerações finais apontam que nas redes sociais, ao se comportar como uma celebridade, o/a leitor/a deixa de lado os silenciosos espaços introspectivos e solitários nos quais realizava suas leituras e tinha garantida a inviolabilidade dos seus gestos de leitor em troca da visibilidade a partir da espetacularização de si.

A leitura literária como prática social na contemporaneidade: além do espaço escolar

PID: S2178-46122022000100205 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Souza Iguma Lima
Resumo Este artigo apresenta reflexões sobre o letramento literário a partir da recepção da obra O olho de vidro do meu avô, de Bartolomeu Campos de Queirós (2004), por meio da análise de depoimentos de leitores comuns (a literatura no cotidiano dos indivíduos) – e de trechos de artigos científicos sobre a obra (a literatura no campo acadêmico). Apresentamos também uma sequência didática desenvolvida com alunos do 6º ano do Ensino Fundamental de uma escola pública de Itabirito, interior de Minas Gerais, a partir da recepção do livro. Para a realização da prática pedagógica, usamos a proposta sugerida e experienciada por Rildo Cosson (2012) para o letramento literário, denominada pelo pesquisador como sequência básica, composta por quatro etapas: motivação, introdução, leitura e interpretação. Dessa forma, procuramos compreender a literatura, a leitura literária e o letramento literário na vida social e na escola, pois cabe a essa instituição proporcionar aos alunos experiências que desenvolvam essa competência para o letramento literário, a se perpetuar pela vida adulta. O principal objetivo desse processo no contexto escolar é formar um leitor que aprecie significações estéticas, capaz de se inserir em uma comunidade que faça suas próprias escolhas literárias, que saiba manipular seus instrumentos culturais e possa construir com eles um sentido para si e para o mundo em que vive. Dessa forma, é necessário reconhecer a importância de atividades que abarquem diferentes tipos de materiais escritos, mas que não sejam negligenciados os textos literários, multiplicando, dessa forma, os espaços de leitura e constituindo comunidades de leitores na escola e fora dela.

A microfísica reativa procustiana, corpos transexuais e o trans-dialogismo educacional

PID: S2178-46122022000100101 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Silva Duarte
Resumo A proposta de uma Cartografia dos Descostumes envolve o mapear de deslocamentos de pensamento atinentes ao itinerário ético da educação em processo de violência e conflito direto com o cis-tema, uma vez que aborda as potências queer atravessadas por forças e devires, processos e movimentos encontrados nas fendas da realidade. A palavra “diálogo” importa na união do prefixo grego “dia”, que significa “através”, num sentido de ponte, travessia. O sufixo grego “logos” é etimologicamente significado como palavra ou relação. O transdialogismo reclama para si uma potência que fricciona o repertório de representações de verdades impostas e as experiências sensíveis que produzem efeitos em nosso corpo, ultrapassando os domínios e as configurações do cis-tema, e propõe uma nova geopolítica de gênero e sexualidade, sem identidades e padrões. A partir de tal pista, dois movimentos se mostram essenciais: 1) mapear as dessocializações e o controle dos corpos nas construções discursivas e normativas da maquinaria escolar; 2) desedificar discursos educacionais que transitam no universo da representação (significado, significante e significação) na qual se baseia atualmente a pedagogia. Desdobra-se o acontecimento educação em processos, com agenciamentos e dispositivos educacionais sem partirmos de objetivos pré-estabelecidos, e sim considerando pistas e movimentos das fendas sociais e encontrando potências em realidades e cotidianos invisibilizados, mas, ainda assim, violentados e silenciados, partindo de um desejo do pesquisador de compreender esse trans-corpus por meio de um olhar diverso, diferente, que redimensione o habitual. Por fim, o artigo cartográfico produziu um mapa cortado por linhas de intensidade que partiram do conceito de biopoder em direção ao de necropolítica como condicionantes da maquinaria escolar em seu entrelace junto ao cis-tema capitalístico, sendo esta afrontada pelo inabitual e pelo estranho que delineia as potências queer.

A participação das mulheres na pedagogia crítica de Paulo Freire: entre a alusão e o reconhecimento

PID: S2178-46122022000100406 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Dantas Antloga Silva
Resumo A produção de Paulo Freire ainda é atual e necessária. Sua obra é permeada pela defesa de uma ação libertadora da opressão social e dialógica (GASPARELLO, 2013). Freire reconheceu na sociedade brasileira o autoritarismo, o racismo e o machismo e passou a considerar a universalidade das opressões (ANDREOLA, 2016). Paulo Freire foi sensível ao reconhecimento das mulheres da sua convivência em sua obra, por meio de prefácios, dedicatórias e agradecimentos, de maneira oral ou escrita. Entretanto há uma invisibilização histórico-social do trabalho das mulheres, tanto do trabalho reprodutivo quanto do trabalho produtivo, e, com isso, o não reconhecimento simbólico e material. Nesse contexto, o objetivo deste artigo é realizar uma pesquisa documental para levantar a presença e a colaboração das companheiras de Freire e avaliar o tipo de reconhecimento delas realizado na vida e na obra do autor. Foi feita a análise das partes introdutórias de 17 produções do autor, e em mais da metade delas (11) menções à primeira esposa, à segunda esposa e às filhas foram identificadas. Apesar das referências, estas não reverberaram mudanças na vida dessas mulheres de modo simbólico ou material. Também não foram localizadas biografias em arquivos públicos ou institutos sobre as esposas ou as filhas, situação que caracteriza a ausência de reconhecimento público do trabalho direto e indireto das mulheres parceiras, cocriadoras, coautoras, colaboradoras. O esforço do reconhecimento se faz no resgate de algumas poucas outras mulheres pesquisadoras, condição comum a outros campos, apontando para uma estrutura e uma organização social invisibilizante da presença e da contribuição das mulheres no mundo.

A práxis pedagógica de José Carlos Mariátegui nas Universidades Populares González Prada: fonte para a Educação Popular latino-americana

PID: S2178-46122022000100302 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Santos
Resumo Este artigo objetiva apresentar e discutir a práxis pedagógica de José Carlos Mariátegui (1894-1930) como uma das fontes da Educação Popular latino-americana. Metodologicamente o estudo caracterizouse como um trabalho qualitativo desenvolvido por meio de técnicas das pesquisas bibliográfica e documental, valendo-se de fontes diretas e indiretas em torno das obras completas do intelectual peruano. O estudo evidenciou a práxis pedagógica de Mariátegui como uma das fontes da Educação Popular latino-americana por meio de suas ações educativas nas Universidades Populares González Prada. Constatou-se que a Pedagogia mariateguiana pode ser uma fonte para a classe popular, na perspectiva de uma Educação para a conscientização política, social e revolucionária. A Educação Popular de Mariátegui apontou um potente processo formativo baseado na relação horizontal entre sujeitos que aprendem por meio das trocas de saberes, considerando as circunstâncias reais em que as pessoas vivem. A práxis pedagógica mariateguiana revelou a importância do projeto de Educação Popular integral considerando a autonomia e a formação da identidade cultural, dinamizando os espaços de encontros e autoformação coletiva voltados para a classe trabalhadora. Uma práxis pedagógica ancorada no diálogo e na reflexão, para gerar contradições de saberes e desenvolver novos conhecimentos, potencializando a construção de espaços formativos, coletivos e de práticas libertadoras, impulsionando uma Educação Popular alternativa aos modelos hegemônicos, crítica do colonialismo, das lógicas eurocentradas e dos processos burocratizadores. Concluiu-se que a Pedagogia Popular mariateguiana contribui para o fortalecimento e a ampliação dos processos de sistematização das fontes históricas da Educação Popular na América Latina.

A questão política da Educação Popular: o que pode um livro 40 anos depois?

PID: S2178-46122022000100303 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Tavares
Resumo Nos percursos dos 40 anos da Educação Popular no Brasil aprendemos que o que fundamenta e dá sentido à universalidade da vida social é o sentimento de pertencimento e o direito à memória. Todos e todas devem ter o direito à memória. E esse é o singelo objetivo do presente artigo, tecido e urdido na dor do luto de pessoas próximas e dos inumeráveis que, no Brasil, já contabilizam mais de 667 mil óbitos, enlutando famílias do Oiapoque ao Chuí. O direito à memória é pensado aqui como um direito que se constitui na contramão de uma sociedade que se nutre de apagamentos e silenciamentos cotidianos, nos quais a memória dos vencidos não serve de dispositivos de contramemória e lembranças das lutas travadas em torno da democracia, da liberdade, dos enfrentamentos das desigualdades sociais e das lutas por justiça no campo e na cidade. E para reconstruir essa relação com a vida, em especial nesse contexto pandêmico, de tantas perdas e lutos, trago à memória um livro seminal, clássico, que há mais de 40 anos vem atravessando com sua potência epistêmica e política o campo da Educação Popular brasileira e latino-americana. Trata-se da obra A questão Política da Educação Popular (BRANDÃO, 1980), cujos impacto e reverberação ainda merecem ser discutidos e ampliados entre nós, principalmente por conta dos desafios que se (re)atualizam no campo da Educação Popular brasileira.

A representação na esfera do teatro segundo Jean-Jacques Rousseau

PID: S2178-46122022000100116 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Façanha Silva
Resumo Objetiva-se, com este artigo, uma explanação sobre a problemática da representação teatral e seus efeitos sobre os espectadores a partir do caráter etnológico e político por meio da crítica realizada pelo filósofo Jean-Jacques Rousseau. Fundamenta-se na obra Carta a D'Alembert sobre os espetáculos, na qual Rousseau apresenta uma crítica à representação social por meio das artes, com ênfase no teatro de classe francês do século XVIII. A Carta nasceu em resposta a um verbete geográfico, Genebra, escrito no tomo VII da Enciclopédia por D’Alembert, em que este exaltava as qualidades do teatro e sugeria inaugurar uma companhia de comediantes na cidade homônima, o que até então era proibido. Como resposta a esse verbete, o genebrino discorre na Carta toda sua crítica e desprezo ao teatro francês do século XVIII e expressa meticulosamente as razões para não fundar uma companhia de teatro na sua República de Genebra, atribuindo aos jogos e aos espetáculos cívicos uma importância pedagógica em oposição aos espetáculos teatrais produzidos na época. Rompe, assim, definitivamente com o Iluminismo e com os homens de letras de sua época. Partindo desse contexto, abordaremos no presente artigo a dualidade entre ser e parecer que se evidencia como um jogo de oposição entre uma sociedade corrompida pelos espetáculos teatrais (e outras formas de representação) e outra livre dos efeitos corruptores da cena teatral. Nessa última, o único espetáculo possível é aquele em que o próprio espectador é o espetáculo: as festas cívicas. Para Rousseau, a festa proporciona um espetáculo sem representação, pois tudo gira em torno da naturalidade, o contato com o outro surge na espontaneidade, nada pode ser mostrado, decorado e imposto. O luxo confunde-se com o brilho do olhar coletivo da festa.

Abordagem filosófica da política/gestão da formação de professores na perspectiva substantiva/ético-política

PID: S2178-46122022000100115 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Carvalho Lagares Carvalho
Resumo O texto aborda a política/gestão da formação de professores no Brasil na perspectiva da filosofia da práxis. Resulta de pesquisa sobre a formação de professores na tensão entre as dimensões econômico-corporativa e ético-política. A pesquisa em pauta investigou a política/gestão da formação de professores na perspectiva da filosofia da práxis, tendo a educação como arena de luta política. Tendo em vista a predominância da lógica capitalista que investe intensamente sobre a perspectiva social que vislumbra as possibilidades de humanização e desalienação, buscamos explicitar a viabilidade de efetivação da dimensão ético-política no processo de produção e reprodução da sociedade incluindo a escola, a formação de professores e o trabalho docente. No desenvolvimento do estudo indagamos, como ponto de partida, as possibilidades de uma educação ético-política/democrático-popular que extrapole a reprodução da ideologia econômico-corporativa/mercantil e possa ser vislumbrada no processo de formação de professores no Brasil. Partindo de tal indagação, o estudo tem por objetivo explicitar alguns dos fundamentos da política/gestão da formação dos professores na dimensão substantiva/ético-política. O estudo utiliza-se das pesquisas bibliográfica e empírico-documental e ancora-se na abordagem materialista e crítico-dialética para interpelar a existência teórico-prática da ótica formativa emancipadora fundamentada nos princípios ético-políticos e da filosofia da práxis e seus impactos para o trabalho docente. A pesquisa revelou que a formação de professores no Brasil, tendencialmente, relegou a segundo plano a dimensão político-cultural, no entanto, a instrumentalização da formação, predominante no país, não ocorreu de forma linear e sem a disputa por uma formação de professores em um prisma substantivo, libertário e emancipador, expresso no trabalho docente em espaço formativo.

As opiniões reputadas (endoxa) no contexto atual

PID: S2178-46122022000100118 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Sangalli
Resumo A proposta deste ensaio é somente indicar a presença e a possível contribuição da noção de endoxa de Aristóteles no debate ético-político contemporâneo. A definição de endoxa dada no início dos Tópicos permite compreender a natureza, a função e o seu valor na argumentação dialética, que é diferente da demonstração científica do silogismo teórico, e identificar as diferenças entre as meras opiniões (doxa) e as opiniões reputadas (endoxa). As endoxa funcionam como um primeiro princípio da demonstração e têm valor elevado de verdade, ainda que não sejam sempre verdadeiras, e se distinguem dos paradoxos. A concepção de endoxa em Tópicos I parece ser suficiente para perceber que Aristóteles fornece subsídios conceituais para melhor compreendermos os tipos de discurso e argumentos que podem contribuir para melhor orientar o debate e a tomada de decisão ético-política também em nosso contexto atual.

As sombras que a invisibilidade da pandemia projeta: quais alternativas para o porvir?

PID: S2178-46122022000100106 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Zuin Gomes
Resumo Há meses a população mundial enfrenta a pandemia causada pelo COVID-19, uma situação ímpar e talvez a mais desafiadora que rememoramos. Para a maioria dos sujeitos, essa crise junta-se às demais emergências e reforça injustiças, violências, discriminações e sofrimento, uma vez que são considerados invisíveis e sobrevivem em espaços desprovidos de higiene, saúde, educação e segurança e repletos de outras manifestações de renúncia e impossibilidade. Considerando que a própria estrutura social é a responsável por chegarmos onde estamos, precisamos nos contrapor à inconsciência de uma realidade que se mostra normativa e imutável, apreendendo-a em perspectivas críticas e transformadoras. Dessa forma, este texto parte da seguinte problematização: quais alternativas poderemos vislumbrar no pós-pandemia, visto que as desigualdades e as injustiças aumentam? Delineamos prognósticos do tempo presente a partir do diálogo entre Adorno e Horkheimer (2006) e Santos (2007), utilizando como categorias de análise a racionalidade instrumental, o pensamento abissal, o pensamento pós-abissal e a educação emancipatória. A racionalidade tornou-se o cânon da sociedade esclarecida, fundamentando as estruturas e as relações sociais em uma percepção universal, totalitária e homogênea que despreza e invisibiliza as diferenças. Defendemos uma educação para a contestação, a inquietude e a resistência que desvele e problematize as linhas abissais a fim de pensarmos e agirmos para além delas, vislumbrando alternativas, novas práticas e perspectivas solidárias e sustentáveis, pois quaisquer ideais de progresso e desenvolvimento serão ilusórios enquanto persistirem a invisibilidade “do outro lado da linha”. A reflexão da realidade, em suas estruturas históricas e sociais, efetiva-se como possibilidade de novos caminhos para a compreensão dos obstáculos e potencialidades emancipatórias.

Atualidade do pensamento freiriano em tempos de autoritarismo: retomando suas Primeiras Palavras

PID: S2178-46122022000100404 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Ferreira Cavaleiro
Resumo O presente ensaio retoma o texto introdutório da Pedagogia do Oprimido intitulado Primeiras Palavras. Um texto breve, apresentando seu clássico livro escrito a partir do exílio, em sete páginas, logo após o rico prefácio do professor Ernani Maria Fiori, ao qual Freire não poupou elogios. O contexto inspirador deste ensaio é o atual momento político do Brasil, em que Freire é atacado fortemente por sujeitos da sociedade civil juntamente com sujeitos de categorias políticas, na campanha por uma “escola sem partido” que luta “contra o abuso da liberdade de ensinar”. Paulo Freire continua incomodando mais pelo que se pretende desqualificar do seu pensamento do que necessariamente pelo que se compreende de sua obra. Por isso, ao retomar suas Primeiras Palavras, pretende-se explorar alguns dos principais conceitos trabalhados por ele para dialogar com todo e qualquer leitor, independentemente do espaço-tempo em que se encontre, apesar da inevitável datação de sua obra naquele momento. Radicalidade e revolução, contrapostos a sectarismo e reacionarismo, são conceitos trabalhados de forma esclarecedora para entendermos elementos contemporâneos da barbárie que continua pairando no horizonte, mesmo após décadas do término da ditadura no Brasil e do nazismo na Alemanha. Autoritarismo, dogmatismo e recrudescimento do conservadorismo na política atual demonstram que, mais do que nunca, é salutar retomar o pensamento crítico e divergente para nos emanciparmos e nos libertarmos do que tenta predominar sempre à luz dessas correntes: a usurpação do protagonismo dos existentes na construção da história humana.

Ação dialógica para formação crítica: pedagogias cidadãs e resistências democráticas ao eurocentrismo

PID: S2178-46122022000100300 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Mazuroski Jr Calgaro
Resumo Este artigo propõe uma discussão a respeito do pensamento ocidental eurocêntrico como o principal irradiador do conhecimento universal disseminado em escolas e espaços educacionais. Observa-se que o eurocentrismo constitui um projeto hegemônico que mantém os países tradicionalmente designados como “em desenvolvimento” presos a certas formas de pensar e fazer que convergem para um sistema capitalista predatório, direcionador de práticas pedagógicas que se distanciam do que constituiria o maior interesse da Educação nesses países: a formação crítica de cidadãos. Nesse sentido, propõe-se a ação dialógica de Paulo Freire como uma forma de combate à colonialização cultural, política e econômica. O artigo é constituído por uma revisão inicial sobre o imperativo eurocêntrico e o estabelecimento de um conhecimento hegemônico, engendrado não apenas nos conteúdos que são disseminados no modelo educacional vigente e nos currículos, mas também nas formas de aprender a pensar e nas maneiras de construção de novos conhecimentos. Propõe-se que a universalidade do conhecimento deveria ser, na verdade, uma pluriversalidade, dando conta de diferenças e riquezas regionais distribuídas pelas diversas nações não europeias. Em seguida, apresenta-se a decolonialização do conhecimento como forma de resistência à hegemonia e componente essencial para a construção de sociedades democráticas, diminuindo desigualdades e atenuando o poder colonizador. Por fim, apresentase o conceito da ação dialógica na perspectiva de Paulo Freire, expondo os pressupostos e as ações que compõem o diálogo como forma de interação e colaboração para a libertação. Conclui-se, com a discussão realizada, que a decolonialização possui, no mínimo, uma vertente cultural e uma epistêmica, alvos evidentes das práticas pedagógicas e educacionais que buscam contribuir para a formação crítica e democrática de cidadãos bem como para a formação da identidade latino-americana independente.

Cognizioni corporee: l’olfatto e l’esperienza del sapore

PID: S2178-46122022000100121 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Cavalieri
Resumo Há um longo tempo considerado um dos menores e mais fracos sentidos nos animais humanos, o olfato na realidade assume na nossa modalidade de existência uma função bem menos marginal, antes central, nos comportamentos socioemocionais, na evocação das memórias e na comunicação não verbal, não sendo o último na nossa vida quotidiana, especialmente pelo seu papel na percepção do sabor dos alimentos. Graças aos progressos que a pesquisa alcançou nas últimas décadas, a ponto de justificar, entre outras coisas, o nascimento de uma nova área científica chamada neurogastronomia, o olfato, especialmente o retronasal, configura-se como uma das nossas habilidades mais espécie-específicas, à qual devemos, inclusive, uma das maiores alegrias da vida: o prazer consciente de saborear e apreciar alimentos e bebidas. Partindo desse tema, o objetivo deste ensaio é, portanto, mostrar em que medida uma experiência radicada no corpo, como a percepção do sabor, remonta às características espécie-específicas desenvolvidas pelo olfato humano no curso da evolução, configurando-se como uma forma complexa de cognição encarnada, cujas possibilidades dependem tanto da estrutura biológica quanto do uso efetivo que fazemos desse extraordinário dispositivo corpóreo.

Comunitarismo: uma abordagem teórica e um estudo de caso

PID: S2178-46122022000100119 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Bresolin Sanches
Resumo Neste breve artigo voltamos nosso olhar ao debate filosófico entre comunitaristas e liberalistas. Escolhemos o filósofo norte-americano Michael J. Sandel (1953-) como principal voz dentro do comunitarismo por conta de poucos pensadores se ligarem abertamente a essa escola filosófica. Muitos sequer reconhecem sua validade como escola. Sandel é exceção. Obviamente, não reduzimos o debate comunitarista a Sandel, contudo sua voz reverberará mais alta ao longo deste artigo. Dada a pouca divulgação das teses comunitaristas, especialmente dentro do debate brasileiro, optamos por iniciar nossa obra traçando as raízes históricas e conceituais do pensamento comunitarista, suas principais críticas ao liberalismo, assim como suas fragilidades. Nisso se caracteriza a primeira parte de nosso texto. Na segunda parte voltamos nosso olhar para a realidade próxima, assim, analisando casos e dilemas específicos das comunidades pomeranas na zona sul do Rio Grande do Sul, buscamos abordá-los sob a ótica comunitarista. Fazemos isso com o intuito de perceber de que modo essa vertente filosófica pode auxiliar-nos. Na terceira parte damos voz ao pensamento liberalista, permitindo que este não só rebata os argumentos comunitaristas como também traga soluções aos problemas das comunidades estudadas. Por fim, na quarta parte, trazemos nossas considerações finais sobre os argumentos expostos, assim como nossa percepção acerca do embate “comunitarismo vs liberalismo”. Nesse ponto expomos nossa visão de que, apesar de ser bem-sucedido em levantar críticas pertinentes ao pensamento liberal, o comunitarismo falha em apresentar soluções aos problemas por ele levantados (ao menos soluções atraentes e definitivas a esses problemas), assim como em levantar críticas que não possam (ao menos em tese) ser sanadas dentro do próprio pensamento liberalista.

Diversidade, democracia e justiça: as minorias político-culturais e a Educação Básica pública

PID: S2178-46122022000100120 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Danner Dorrico Danner
Resumo O texto aborda a correlação de democracia, diversidade e educação a partir da condição própria às minorias político-culturais, que são efetivamente construídas desde a tríade racismo biológico, fundamentalismo religioso e eurocentrismo-colonialismo, revivida política e culturalmente pela ascensão do fascismo como eixo estruturante das instituições e da vida sociopolítica brasileira hodierna enquanto consequência e estágio último de nossa modernização conservadora. Nosso problema de investigação pode ser definido com a seguinte pergunta: como é possível desconstruir a tríade racismo, fundamentalismo e colonialismo, base de nossa modernização conservadora, a partir da condição, da história e dos valores próprios às minorias político-culturais? Nossa resposta, construída a partir de reflexões fundadas na teoria social e no pensamento negro, indígena e queer, é dupla: minorias político-culturais permitem a pluralização dos sujeitos, das histórias, das experiências, das práticas e dos valores constitutivos de nossa sociedade, desnaturalizando e politizando sua evolução e suas condições presentes; e é necessário que essa consolidação pública, política e cultural das e pelas minorias possa ser institucionalizada em termos de formulação de currículos, conteúdos, práticas e valores próprios à Educação Básica pública, uma vez que a militância social por elas assumida depende, para sua efetividade, tanto dessa institucionalização a ser assumida pela escola básica pública quanto, a partir daqui, da dinamização de processos educativos que, baseados exatamente na condição e no sentido dessas minorias político-culturais dentro do amplo processo de modernização conservadora brasileira, atinjam nossa coletividade como um todo, moldando uma nova cultura democrática, pluralista, equalizada e reflexiva.

Do cristão moralista ao budista niilista: reflexões sobre a moral contemporânea a partir da Genealogia da Moral de Nietzsche

PID: S2178-46122022000100122 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Portugal Beccari
Resumo Este artigo visa refletir sobre a moral contemporânea a partir da ética de Nietzsche, tendo como foco principal a sua Genealogia da Moral e, como contraponto a ser problematizado, o livro The weariness of the self, do sociólogo francês Alain Ehrenberg. De início, para analisar alguns tipos morais relevantes na primeira obra, revisamos o itinerário genealógico entre a “vontade de verdade” cristã e o niilismo budista (ou “ceticismo em matéria de moral”), destacando ainda alguns comentários de Nietzsche em torno de Kant e o utilitarismo inglês. A autocrítica kantiana do conhecimento, afinal, manteve intacta a valoração negativa (cristã) da vida ao não questionar o valor em si da verdade. Por sua vez, ao arrogar o Bem definitivo à felicidade, o utilitarismo inglês tornou a compaixão cristã compatível com o “ceticismo em matéria de moral”. A partir disso, argumentamos que a nova figura moralmente exemplar – não sendo mais a do cristão, alvo principal da genealogia nietzschiana – é a do budista, uma vez que este adere integralmente ao niilismo. Em um segundo momento deste estudo, problematizamos a tese de Ehrenberg, segundo a qual a figura do “indivíduo soberano” teria, hoje, se tornado hegemônica sob a égide da categoria da depressão. Não sendo concebível, sob o prisma nietzschiano, tal “indivíduo soberano” deprimido descrito por Ehrenberg, observamos, por fim, que é o niilismo que efetivamente se prolifera hoje: a partir da ilusão de superação total da moralidade, a moral contemporânea cultiva a fraqueza e o cansaço fisiológico por meio de um programa de combate irrestrito ao sofrimento.

Educação do campo como movimento educacional e modalidade educativa: notas a partir de Paulo Freire

PID: S2178-46122022000100407 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Medeiros Fortunato Araújo
Resumo Este ensaio ergue reflexões sobre a Educação do Campo tendo como arcabouço teórico principal o pensamento de Paulo Freire. Textualiza considerações que demarcam a Educação do Campo, nas dimensões histórica e conceitual, no Brasil a partir de dois enfoques, quais sejam: (i) como movimento educacional (o Movimento de Educação do Campo), protagonizado por diferentes organizações e movimentos sociais do campo; e (ii) como modalidade educativa, com características específicas, a exemplo de uma Educação, a nível de Estado, construída com a participação ativa dos sujeitos do campo. Entende-se que, de maneira geral, o pensamento de Paulo Freire se fez como parte constituinte de sua materialização. No texto, discorre-se sobre o diálogo, a conscientização, a contextualização e a formação humana como princípios da obra freiriana que inspiram o plano teórico-prático a Educação do Campo, seja na escola ou fora dela.
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