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Educação e atualidade brasileira: o concurso de Paulo Freire na Universidade do Recife

PID: S2178-46122022000100304 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Beltrao
Resumo “Educação e Atualidade Brasileira”, que conhecemos como um dos livros de Paulo Freire, é, em sua origem, a tese de concurso que ele escreveu quando participou da disputa pela Cátedra de História e Filosofia da Educação, em 1960, na Universidade do Recife (UR), atual Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Freire dizia sobre o concurso que, apesar de ter perdido a cátedra, ganhou a vida! Que ele ganhou a vida todos sabemos: um dos autores mais citados do mundo, que recebeu mais de quarenta títulos Honoris Causa, Patrono da Educação Brasileira etc. Mas a forma como ele perdeu a cátedra é um assunto pouco estudado na História da Educação Popular, e é justamente sobre esse acontecimento que nos propomos a tratar neste artigo. Para realizar este estudo, utilizamos periódicos publicados na Universidade do Recife e em jornais da época bem como, sobretudo, as teses de concursos dos próprios candidatos: “Educação e Atualidade Brasileira”, defendida por Paulo Freire, e “Pedagogia do Tempo e da História”, defendida por Maria do Carmo Tavares de Miranda. Tentamos entender esses documentos para além do que está escrito, estando atentos às configurações de poder, pois, como orienta Foucault (2007), poder é aquilo que se quer, que se deseja, que se constrói por meio de relações, que exclui e inclui, que está relacionado ao saber e que não se explica só aspectos econômicos e de classe. Concluímos que existia uma tensão entre aqueles que defendiam a escola privada, em sua maioria confessional, e aqueles que defendiam a escola pública e laica (e o destino das verbas públicas). Esse fato provavelmente reverberou no resultado do concurso.

Educação para a humanização na perspectiva da ética da alteridade

PID: S2178-46122022000100111 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Tolovi Alves Figueiredo
Resumo Uma das questões que desafia educadores e educadoras envolvidos(as) nos processos de ensino e aprendizagem consiste no papel da Educação do ponto de vista da vida em sociedade. E uma resposta aceita de forma genérica aponta para a dimensão da humanização. Questiona-se: Até que ponto a relação educativa possui a capacidade e a potencialidade de humanizar? Como relacionar a construção do conhecimento à perspectiva de valoração que promova a sociabilidade humana? A partir desses questionamentos, este texto objetiva refletir sobre a Educação na perspectiva da ética da alteridade como uma das alternativas viáveis para o processo de humanização. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, com base nas obras de Martin Buber (1974; 1987) e Paulo Freire (1979; 1983) como principais referências teóricas, pensando o papel da Educação no enfrentamento desse problema. A partir das leituras, compreendemos o conceito de alteridade, que aponta para o caminho da desmitologização da realidade por meio dessa mesma dimensão, que pode ser compreendida no campo da Educação. Concluímos que somente na perspectiva da ética da alteridade, essa relação pode ser dialógica, e apenas assim, esse processo pode ser transformador e libertador, postura educativa que potencializa relações de solidariedade e, consequentemente, humaniza em seu significado mais pleno de ser com o(a) outro(a).

Educação popular como proposta políticopedagógica para a edução de jovens e adultos em Macapá/AP

PID: S2178-46122022000100308 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Custódio Guedes
Resumo O presente artigo tem por objetivo analisar a proposta política e pedagógica da Escola Estadual de Educação Popular Professor Paulo Freire (EEEPPPF), localizada na cidade de Macapá, estado do Amapá, à luz de indicadores de uma Educação Popular na escola pública, intencionando com isso um confronto entre teoria e prática para se verificar em que medida a proposta implementada afina-se ou distancia-se do modelo educacional de Educação Popular, numa tentativa de apontar avanços, limites e possibilidades. Trata-se de uma pesquisa qualitativa (pesquisa-ação) que se utilizou da pesquisa bibliográfica e documental, da observação direta, do questionário e da entrevista semiestruturada como forma de investigação. A metodologia adotada priorizou o contato direto com os diversos segmentos que constituem a comunidade escolar, como diretor, coordenação pedagógica, professores, funcionários e alunos. Os resultados apontam a implantação da EEEPPPF em Macapá/ AP foi um processo-piloto inovador. Sua criação, contudo, careceu em grande parte de uma ação política mais rigorosa pela Secretaria de Estado da Educação do Amapá (SEED) para efetivá-la com o êxito, pois na época muitos profissionais da SEED desconheciam a modalidade da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Na atualidade um agravante para limitação da referida proposta pedagógica é o desconhecimento de grande parte de seu quadro de pessoal, especialmente no que se refere ao setor técnicopedagógico, da filosofia/teoria/prática da Educação Popular no âmbito da escola pública e, ainda, dos preceitos da Educação Libertadora. Contudo, há méritos para alguns poucos e incansáveis educadores da escola que, por meio de sua prática pedagógica, lutam pela efetivação e materialização de uma Educação de qualidade baseada nos ensinamentos de Paulo Freire.

Educação popular e educação de pessoas jovens e adultas entre tempos de enlaces e travessias

PID: S2178-46122022000100309 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Alvarenga Vieira
Resumo Este artigo tem como objetivo abordar os entrelaçamentos entre o Grupo de Trabalho de Educação Popular (GT 06) e o Grupo de Trabalho de Educação de Pessoas Jovens e Adultas (GT 18), acentuando as condições que fizeram com que pesquisadores dedicados aos estudos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) postulassem um lugar de debates para discussões de pesquisas de interesses específicos na estrutura organizativa da Anped. O artigo ancora-se na teoria crítica formulada por Walter Benjamin, em especial o conceito materialista-dialético de história escovada a “contrapelo”, de modo a ressaltar as travessias e as passagens que repercutiram em aparentes dissonâncias em relação ao campo da Educação Popular. O artigo lança mão de análise bibliográfica e documental, tendo em vista abordar os 40 anos da criação do GT de Educação Popular, incluindo os acontecimentos que principiam o reposicionamento de pesquisadores para a definição de um campo de pesquisas sobre Educação de Jovens e Adultos, por meio do GT 18. Argumenta-se que, no contexto nacional, as condições produzidas pela transição democrática contribuíram para uma conjuntura favorável às travessias para se pensarem epistemologias e ressignificações de experiências tanto na Educação Popular quanto na Educação de Jovens e Adultos, na perspectiva escolar. Além de capturar dissonâncias que levaram a constituir esse grupo em suas especificidades, o texto mostra as interfaces entre esses grupos no campo acadêmico, por meio dos enfrentamentos contra ações impostas pelo desmonte da democracia e pelo cerco criminoso aos povos originários, aos povos quilombolas e aos trabalhadores do campo e da cidade. O texto indica que a criação do GT 18 não significou rupturas com princípios que orientam a EJA na perspectiva da Educação Popular, considerando que a modalidade traz consigo a marca social dos oprimidos, cujas histórias estão abertas a escritas rebeldes.

Educação popular e o campo das drogas: enfoques da literatura

PID: S2178-46122022000100311 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Silva Cruz
Resumo Este estudo resulta de uma pesquisa de Mestrado em Educação (SILVA, 2020) e tem por objetivo apresentar como a temática das drogas lícitas e ilícitas vem sendo abordada na literatura do campo da Educação Popular. O texto organiza-se em quatro seções que compreendem, respectivamente, aspectos introdutórios; procedimentos metodológicos; resultados e discussão; considerações finais. Metodologicamente foi necessário realizar uma revisão narrativa da literatura, atualizada para a elaboração deste trabalho. O recorte de pesquisa compreendeu os últimos nove anos (2014-2022). Para a coleta dos dados foi utilizado o Portal de Periódicos da CAPES. Alguns dos resultados são, por exemplo: 1) o fenômeno das drogas é compreendido a partir de uma perspectiva crítica, pois se busca problematizar as contradições que fazem parte do modo como essa temática vem sendo abordada na sociedade, e a própria política sobre drogas vai sendo questionada e criticada, além das abordagens de prevenção que são orientadas por ela; 2) a escolha pela Educação Popular como orientadora das ações de educação sobre drogas tem a ver com o entendimento de que essa concepção educativa representa uma alternativa contrária às abordagens hegemônicas, essencialmente repressoras; 3) as ações que objetivam discutir a questão das drogas de maneira educativa utilizam diferentes ferramentas didáticas e metodológicas, com todas tendo em comum a opção pela Educação Popular como concepção teórica orientadora de suas abordagens. Dentre as conclusões, afirma se que ao buscar o referencial da Educação Popular objetiva-se educar sobre as drogas, mas também sobre a realidade por meio da reflexão e da problematização dos fatores sócio-históricos, econômicos e políticos.

Educação popular na Pan-Amazônia: silêncios e lutas, história e atualidade

PID: S2178-46122022000100305 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Mota Neto
Resumo Busca-se realizar reflexões e análises sobre a Educação Popular na Pan-Amazônia, seus silêncios, suas lutas, sua história e sua atualidade. O artigo apresenta alguns resultados de pesquisa sobre experiências educacionais populares nessa região, tendo como objeto de estudo as especificidades da Educação Popular amazônica no contexto latinoamericano, além das reflexões próprias do autor como pesquisador e militante da Educação Popular na região. Metodologicamente, trata-se de um texto com caráter ensaístico, que parte de estudos bibliográficos e documentais sobre o tema. Apresentam-se alguns registros significativos de experiências históricas e atuais de Educação Popular nas Amazônias e, em seguida, constrói-se uma reflexão sobre os ensinamentos que emergem desses múltiplos processos educacionais populares. Conclui-se que as experiências aqui apontadas têm sido fundamentais para manter vivo o legado da Educação Popular, reiventando-o a partir da Pan-Amazônia, seus povos, suas culturas, seus territórios e suas lutas, apesar de carecer de espaço de articulação mais efetivo entre educadoras e educadores populares que atuam na região.

Ensaio sobre o tempo em Paulo Freire e Edgar Morin: caminhantes em diálogo com a educação

PID: S2178-46122022000100408 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Gusmão Jesus Pinto
Resumo O que da importância de uma obra filosófica para o pensamento planetário? Cremos que pelo valor que ela agrega a cada novo presente, possibilitando outras formas de sentir, pensar e habitar as diversas experiências da vida, entre elas a da Educação. Neste artigo, nosso objetivo é trazer à tona as potencialidades das obras de Paulo Freire e Edgar Morin no tocante à relação entre temporalidades e Educação. Nossa abordagem metodológica é a pesquisa bibliográfica, utilizada para mapearmos a concepção de tempo nas obras de Freire e Morin. O pensamento do patrono da Educação brasileira dá ênfase ao devir das temporalidades vividas pelos sujeitos e ao tempo da História, ambos entendidos enquanto inacabamentos que possibilitam o engendramento de inéditos viáveis. Por sua vez, o pensamento do filósofo francês busca, a partir da crítica do pensamento cartesiano, propor a complexidade enquanto aquilo que é tecido junto, entrelaçando, assim, vida e conhecimento. O excesso da vivência do tempo cronológico nas relações sociais vem se materializando na busca insaciável do ter e na exploração de si, as quais levam a Educação a se inclinar apenas para a repetição de um currículo atento às demandas mercadológicas. Chegamos à conclusão de que existe um elo filosófico entre as concepções de tempo construídas nas obras de Paulo Freire e Edgar Morin que nos dão a pensar que outras formas de experienciar a temporalidade são urgentes na e para a Educação atual. Inspirando-nos nas ideias de Freire (1982, 2007, 2014, 2015, 2016, 2019) e Morin (2003, 2008, 2010, 2014), sinalizamos possibilidades de ressignificação do tempo na contemporaneidade, pensando-o não como futuro esvaziado de presente que se coloca a serviço da produção, mas como atenção ao presente enquanto potência que permite esperançar na Educação.

Filosofia afro-brasileira como contribuição formativa para o ensino de filosofia

PID: S2178-46122022000100103 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Paula Junior
Resumo Neste artigo apresentamos uma perspectiva de compreensão da história da filosofia, na qual é possível acessar outros modos de como essa história pode ser interpretada. Nessa perspectiva ocorre a desconstrução epistêmica eurocentrada de legitimação da ideia de um “milagre” grego que permite o surgimento da filosofia nessa região em detrimento a outros lugares. O pressuposto indicado é o da pluriversalidade de Mogobe Ramose (2011), que apresenta a ideia de pensamento reflexivo e crítico como condição humana, independente de local. Em relação ao continente africano, trazemos a crítica de que a escravidão moderna promovida pela Europa desumaniza africanos e indígenas e, com isso, lhes nega a capacidade de pensamento. Após essa análise, apresentamos a filosofia afro-brasileira como um desdobramento da filosofia africana em seu deslocamento do continente africano para as Américas no período da escravidão e colonização. Apresentamos as bases epistêmicas dessa filosofia mantidas nas culturas afro-brasileiras. Destacamos, também, os seus subsídios corporais, salientando a sua dimensão ética e estética ao propor outros modos de se relacionar, em que o coletivo é a alternativa ao individualismo, no qual se destaca uma ética comunitária e solidária. As narrativas constituídas no processo colonizador da modernidade são revistas em seus pressupostos de supremacia para dar lugar a uma filosofia que alcance o outro, que se estabeleça na alteridade. Tal proposta nos parece relevante para o ensino formal de filosofia, pois dialoga diretamente com a realidade de mundo existencial formativa do país e aponta outras possibilidades de organização da vida em distintos aspectos, mas todos perpassados pela educação; nesse caso, uma educação para ser e estar com o outro, o que solicita a revisão curricular na grade da filosofia, tanto da formação de professores quanto da disciplina destinada ao Ensino Médio.

Interfaces da bioética global de Potter com a teoria da complexidade de Edgar Morin com vistas a novos saberes para a educação do futuro

PID: S2178-46122022000100107 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Renk Sganzerla Pessuro
Resumo As constantes mudanças da sociedade contemporânea, principalmente relacionadas ao desenvolvimento do progresso tecnocientífico, têm exigido uma contínua reinvenção da sociedade para acompanhar essas mudanças. Essas transformações têm impactado a totalidade da vida humana e da biosfera. Se o futuro da natureza humana e da vida da biosfera eram considerados certos, não exigindo a prática de princípios específicos para que isso pudesse continuar a existir, Van Rensselaer Potter (1911-2001), com sua proposta de uma bioética global, e Edgar Morin (1921-atual), com sua teoria da complexidade, alertam-nos de que é preciso buscar novos saberes à educação para garantir a existência futura. Diante dessa realidade marcada pelo acelerado progresso da ciência e da tecnologia, que por estar dissociada do mundo do mundo dos valores tem ameaçado a existência da vida em geral no futuro, esta pesquisa quer investigar como a bioética global de Potter faz interface com a teoria da complexidade de Edgar Morin, com vistas a novos saberes para a educação do futuro, de maneira a possibilitar a sobrevivência futura da vida humana e da biosfera. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, de caráter teórico-conceitual, a partir das principais obras dos autores em foco e de seus comentadores. Embora o cientista e o sociólogo tenham problematizado em realidades distintas, ambos apresentam um núcleo de preocupações em comum que ameaçam a vida humana e da biosfera no futuro. Por isso, propõem novos saberes à educação, saberes de um novo tipo que vão além de uma simples disciplina dentro de um modelo de pensar, novos saberes que privilegiem a construção de pontes entre as ciências e as humanidades, o diálogo interdisciplinar bem como a aproximação das questões ético-políticas com vistas a uma antropoética (Morin) e uma educação bioético-política comprometida com a sobrevivência futura da humanidade (Potter).

La persona. I presupposti imprescindibili dell’etica personalistica: imperativita’, obbligazione, liberazione.

PID: S2178-46122022000100100 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Bosio
Resumo O presente estudo pretende refutar e superar definitivamente o relativismo, o utilitarismo e o ceticismo fundamental das éticas contemporâneas, fudamentadas na absolutização dos fatos, do costume, das tendências culturais historicamente e socialmente dominantes na época presente. Tal atitude é tolerante e pluralista somente na aparência, porque na realidade é hipocritamente intolerante a qualquer outra ética que não seja a do hedonismo ordinário, do consumismo e da aquiescência às demandas da técnica e aos imperativos da pesquisa científica dirigida unicamente aos fins da utilidade e da conquista do bem-estar e de facilitações para o gênero humano. A ética que pretendemos propor está centrada na ideia de pessoa. Na nossa opinião, a pessoa é abertura absoluta para o todo do ser e é eminentemente atualidade espiritual. Não é, portanto, unicamente uma atividade racional universal, mas envolve fundamentalmente também a emotividade, a vontade e o desejo. A exigência fundamental da pessoa espiritual é a busca da felicidade. E tal busca se impõe com a força de um verdadeiro e próprio “imperativo ético”. E a sua função é a de nos libertar das constrições do hábito, da falsa e artificial moral ordinária que se submete somente aos fatos e à busca do útil e do conveniente. Libertação e imperatividade são os elementos essenciais para a busca da felicidade e esta, por sua vez, consiste na promoção de um crescente acordo e de uma harmonia sólida de cada pessoa consigo mesma. A imperatividade da obrigação com a qual nos ligamos fielmente ao compromisso espiritual de afirmar a nossa libertade da escravidão dos fatos e do apego àquilo que é somente provisório e pobre de autêntica satisfação interior confirma e promove a libertação espiritual de cada pessoa.

Leitura e singularidade biográfica: o caso do editor português Vitor Silva Tavares

PID: S2178-46122022000100203 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Cameira
Resumo O presente artigo parte de uma relevante premissa de Paulo Freire, a de que “a compreensão crítica do ato de ler […] não se esgota na decodificação pura da palavra escrita ou da linguagem escrita, mas que se antecipa e se alonga na inteligência do mundo. A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele” (FREIRE, 1981, p. 9). Procura-se, então, analisar os primeiros anos (até a adolescência) do processo de construção social de um indivíduo-leitor, a saber, Vitor Silva Tavares (1937-2015), timoneiro, a partir de 1974, da histórica casa editora &etc. Com uma infância vivida num meio nada culto ou diletante (em sua casa o objeto livro não era algo que abundasse), e tendo abandonado precocemente os estudos liceais, Vitor Silva Tavares acabou por tornar-se, contra toda a probabilidade, numa figura marcante do campo da edição literária em Portugal na segunda metade do século XX. Ganhando ele espessura de caso, trata-se aqui de refletir, a partir de elementos obtidos através do recurso à história de vida do referido editor, como, sob a colagem de diversos efeitos, socializações e acasos, se foi produzindo um perfil singular de indivíduo, perfil esse onde a atividade da leitura ocupou um papel determinante, gerando predisposições mentais, desafios, condicionando a própria vida que Vitor Silva Tavares quis levar, dedicada à prescrição editorial, à mediação da leitura, transferindo para outros impressões (sobre vários mundos) que foram primeiramente suas.

Leituras e travessias pelas memórias afetivas e musicais: experiências subjetivas

PID: S2178-46122022000100206 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Carvalho
Resumo O presente artigo trata sobre experiências leitoras motivadas por canções, memórias autobiográficas e comentários publicados em plataformas digitais. Partindo-se do princípio de que a leitura é mais que uma simples atividade de decodificação, defende-se que, ao se deixar ler pelas canções e pela arte, o sujeito, involuntariamente, arma-se para produzir sentidos às marcas inscritas e reinscritas na sua própria história, reinventando-se e gerando novos processos de subjetivação. Os objetivos deste trabalho são: (1) construir uma compreensão sobre o lugar da canção no cenário artístico brasileiro, bem como sobre a sua capacidade de produzir efeitos nos sujeitos leitores; (2) narrar uma experiência de leitura, em que a canção atua como desveladora de demandas afetivas pessoais, que inspirou a série de vídeos Histórias de Maria; e (3) analisar leituras sobre as Histórias de Maria, imersas em comentários sobre essa série publicados nas plataformas digitais. Autores como Wisnik (2004; 1989), Rossi (2003), Neder (2008), Lima (2013), Agamben (2009), Martins (1986) e Jouve (2002) contribuem para a compreensão do lugar da canção no cenário artístico brasileiro, sua qualidade de objeto biográfico e dispositivo, sua potência em levar o corpo a produzir sentidos para marcas inscritas e reinscritas, através de diversos níveis de leitura, bem como para a análise das possíveis leituras imersas nos comentários recolhidos para este trabalho. Por fim, conclui-se que toda forma de ler vale a pena.

Letramento literário dentro e fora da escola: a recepção de O olho de vidro do meu avô, de Bartolomeu Campos de Queirós

PID: S2178-46122022000100204 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Corrêa Magalhães
Resumo Este artigo apresenta reflexões sobre o letramento literário a partir da recepção da obra O olho de vidro do meu avô, de Bartolomeu Campos de Queirós (2004), por meio da análise de depoimentos de leitores comuns (a literatura no cotidiano dos indivíduos) – e de trechos de artigos científicos sobre a obra (a literatura no campo acadêmico). Apresentamos também uma sequência didática desenvolvida com alunos do 6º ano do Ensino Fundamental de uma escola pública de Itabirito, interior de Minas Gerais, a partir da recepção do livro. Para a realização da prática pedagógica, usamos a proposta sugerida e experienciada por Rildo Cosson (2012) para o letramento literário, denominada pelo pesquisador como sequência básica, composta por quatro etapas: motivação, introdução, leitura e interpretação. Dessa forma, procuramos compreender a literatura, a leitura literária e o letramento literário na vida social e na escola, pois cabe a essa instituição proporcionar aos alunos experiências que desenvolvam essa competência para o letramento literário, a se perpetuar pela vida adulta. O principal objetivo desse processo no contexto escolar é formar um leitor que aprecie significações estéticas, capaz de se inserir em uma comunidade que faça suas próprias escolhas literárias, que saiba manipular seus instrumentos culturais e possa construir com eles um sentido para si e para o mundo em que vive. Dessa forma, é necessário reconhecer a importância de atividades que abarquem diferentes tipos de materiais escritos, mas que não sejam negligenciados os textos literários, multiplicando, dessa forma, os espaços de leitura e constituindo comunidades de leitores na escola e fora dela.

Literatura e seus modos de leitura: a mediação literária para estudantes do ensino médio

PID: S2178-46122022000100200 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Pinheiro Oliveira
Resumo Este artigo analisa oficinas de leitura efetuadas com alunos do primeiro ano do Ensino Médio de uma escola pública e de uma escola particular da cidade de Dourados/MS (Brasil). Tais oficinas foram constituídas por textos que reconfiguravam a personagem Chapeuzinho Vermelho ao longo do tempo, e a mediação de leitura visava a buscar, nas interpretações dos estudantes, novas leituras acerca dos textos Chapeuzinho Vermelho, nas versões de Charles Perrault e dos irmãos Grimm; além do conto Fita Verde no Cabelo: nova velha estória, de Guimarães Rosa. A expectativa era perceber como o público das distintas realidades tem interpretado textos, tomando como base os Modos de Leitura defendidos pelo teórico Rildo Cosson (2014) como mecanismos para interpretar textos literários em suas indagações durante as atividades. Portanto, apresentamos aqui a análise das transcrições de áudios gravados durante as Oficinas de Leitura. A metodologia adotada está baseada nos estudos de Alves e Silva (1992) para análises qualitativas. Ao final, concluímos que os estudantes da escola pública e da escola particular se valem dos Modos de Leitura para interpretações de textos literários, entretanto, os primeiros se mostram mais apegados às temáticas dos textos por identificação de suas realidades, tornando assim a leitura mais pessoal, sem recorrer a teorias literárias para suas interpretações, enquanto os outros, mais conhecedores de teorias e conceitos de literatura, tornam suas interpretações menos pessoais e mais práticas. Como referencial teórico, dialogamos com Cosson (2014) e com o Referencial Curricular da Educação Básica da Rede de Estadual de Ensino/MS – Ensino Médio (2012), dentre outros.

Modos e práticas leitoras, desafios do digital

PID: S2178-46122022000100208 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Magalhães
Resumo Cultura escrita, alfabetização e escolarização assinalam a longa Modernidade de mais de quatro séculos na História do Mundo Ocidental. A cultura escrita congrega informação, conhecimento, pensamento, acção. A aculturação escrita constituiu condição e factor de conhecimento, cidadania e humanitude. Desde finais da Idade Média, com a difusão do papel e a mecanização da tipografia, o mundo da leitura alterou-se, em reflexo da maior divulgação do livro impresso. Na transição do Antigo Regime, a leitura e a escrita eram práticas usuais na esfera do Estado e da administração pública, e tornavam-se condição de cidadania. A escola tornou a leitura obrigatória. No decurso de Oitocentos, a progressiva universalização da alfabetização escolar e a constituição da esfera pública beneficiaram de avanços técnicos no mundo editorial, na vulgarização do livro, na disseminação de periódicos, na criação de bibliotecas. No século XX, a cultura de massas através do livro, do áudio e do cinema trouxe a omnipresença da leitura, cujos índices cresceram até final do século. Mas desde a década de oitenta que o digital e os novos modos de ler só em parte vêm suprindo a desvalorização das formas tradicionais de cultura e leitura. Combinando a evolução da cultura escrita, do livro e dos modos de ler, estrutura-se uma sequência de quadros históricos: i) ciclo centrado no impresso e no livro, que se acentuou com a Ilustração – ordem do livro, falar como um livro, aprender pelo livro; ii) ciclo caracterizado por novos modos de ler e novos leitores – o leitor escolar e “nações a ler”; iii) ciclo que se acentuou na segunda metade de Oitocentos, de aculturação de massas centrada no impresso, no livro, no periódico e nas bibliotecas; iv) ciclo que se prolongou até à viragem do século XX, de universalização de leitura do impresso e do audiovisual, com relevo para a rádio, o cinema e a televisão – esta em espaços domésticos, caracterizado pela cultura de massas e pela globalização; v) o ciclo actual, de universalização do digital com novos modos de aculturação e comunicação. Traçarei uma panorâmica histórica da aculturação e sociabilidade pela leitura e pela escrita, tendo como referência estes ciclos.

Narrativas de uma educadora popular: a luta e a resistência propositiva de mulheres em diálogo com a história da Educação Popular

PID: S2178-46122022000100307 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Souza Novais
Resumo Este artigo tem por tema a história da Educação Popular em diálogo com as narrativas de uma educadora popular. Objetiva, por isso, resgatar, nessas narrativas, a historicidade da Educação Popular evidenciada na luta de mulheres e nos movimentos de resistência propositiva popular por elas empreendidos para, consecutivamente, refletirmos sobre a continuidade dessa luta e dessa resistência que vêm fortalecendo os pressupostos da Educação Popular em sua história, face ao quadro desencadeado pela pandemia de Covid-19, especialmente com relação às práticas de cuidado e solidariedade. Por meio de um processo investigativo de natureza qualitativa, as narrativas que se vinculam às Histórias de Vida de uma educadora popular foram gravadas, transcritas, lidas e analisadas como tentativa de compreender e interpretar suas experiências. Assim, foi possível compreender que a trajetória histórica da Educação Popular é também protagonizada por mulheres que lutaram e resistiram de forma propositiva ao longo do tempo, inserindo-se junto aos movimentos eclesiais de base, às pastorais, aos movimentos sociais e aos partidos políticos de esquerda, contribuindo para a transformação da realidade que se fazia opressora e excludente. Com a pandemia de Covid-19, revela-se ainda mais tal protagonismo, especialmente por meio das práticas de cuidado por elas experimentadas, o que fortalece as premissas que sustentam a Educação Popular enquanto projeto libertador e de fortalecimento da dignidade humana.

Notas sobre a masculinidade no pensamento pedagógico de Johann Friedrich Herbart

PID: S2178-46122022000100104 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Silva Conti
Resumo O presente artigo tem como objetivo analisar as ideias pedagógicas de Johann Friedrich Herbart (1776-1841) e as suas possíveis contribuições para a construção da masculinidade moderna a partir de pesquisa bibliográfica desenvolvida no âmbito do Doutorado em Educação. Herbart é um dos precursores da pedagogia enquanto ciência, associando diretamente os conhecimentos da filosofia, da educação e da psicologia para formular um aparato teórico que respondesse às transformações dos séculos XVII e XVIII, notadamente o Iluminismo Francês, por isso consideramos que o autor marca profundamente a Modernidade. Para melhor compreender a temática que propomos neste trabalho, dividimos o artigo em três seções, além da Introdução: (a) na primeira expomos o percurso metodológico bibliográfico baseado no desenho circular de aproximações sucessivas às fontes; (b) em seguida, analisamos o contexto histórico das formulações de Herbart, a organização sintética de suas ideias e sua proposta pedagógica; (c) por fim, na terceira seção, estabelecemos relações entre o projeto educacional do autor e as suas possíveis contribuições para a masculinidade moderna.

O discurso fotográfico entre a doxa e o paradoxo

PID: S2178-46122022000100201 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Serén
Resumo Surgindo em 1839 como um processo técnico de representação da imagem, em meio amador e iluminista, a fotografia irá produzir um discurso popular que será exclusivo durante quase três décadas: a imagem fotográfica é bela como perfeita quando exata na imitação da realidade, clara e com informação formal do seu espaço e tempo. Este discurso popular pode incluir uma breve informação histórica sobre a autoria das invenções técnicas decisivas na fixação e reprodução da imagem. No último quartel desse século, vai-se definindo nas imagens dos amadores fotográficos uma aspiração artística, em vista da crescente industrialização dos seus meios, e surge uma teoria, o Pictorialismo, que sobrevaloriza o sujeito criativo do fotógrafo, coincidindo com novas formas do pensamento e da arte. Esgotada no geral a teoria após o fim da Primeira Guerra e, a partir de um novo olhar que incluiu a capacidade de a câmara imitar efeitos plásticos do cinema, o olhar subjetivo não mais abandonará a prática fotográfica, enquanto se multiplica a literatura fotográfica, suscitando o interesse de filósofos, pensadores, cineastas, psicólogos e psiquiatras desde o desenvolvimento da sociedade de massas. No último quartel do século XX, com inspiração pós-moderna, surge o padrão de uma história da fotografia como uma história de arte, com estilos e artistas-autores, que se tornará internacional com a difusão do ensino oficial da fotografia e com o seu discurso erudito. O objetivo deste trabalho é distinguir a leitura popular da erudita da imagem até o período da atual crise conjuntural e de passagem das técnicas da fotografia analógica para a digital (numérica), sem que fosse criada uma aprendizagem coincidente com essa alteração que exige a produção de algoritmos criativos.

O diálogo que aproxima e a complexidade que abraça: Paulo Freire e Edgar Morin na educação

PID: S2178-46122022000100409 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Silva Rodrigues
Resumo Este artigo tem por objetivo analisar os pressupostos freirianos e morinianos, identificando interfaces, aproximações, diferenças e complementaridades, com olhar especial para a Teoria Dialógica e a Teoria da Complexidade, a fim de compreender as principais contribuições dos autores, não só para a Educação, mas para a organização e a constituição da vida. A metodologia norteadora do trabalho é de abordagem qualitativa, embasada em uma pesquisa de caráter bibliográfico. A fundamentação teórica está alicerçada principalmente nas literaturas dos autores referidos (Paulo Freire e Edgar Morin). Assim, o movimento de análise em relação à hipótese que construímos indica que as ideias em estudo apresentam conexões e similaridades, alargando as instâncias do saber para os que se empenham na busca por possibilidades tangíveis diante dos percalços sociais e consequentemente educacionais. Concluímos que em Freire é possível pensar o mundo e o humano por meio de ação dialógica imbricada em dois elementos determinantes: a reflexão e a ação que resultarão em práxis transformadora. Ele sugere a superação da Educação bancária e propõe uma Educação problematizadora. A proposta de Morin sugere “tecer junto”, um com o outro, ponto a ponto; sejam eles antagônicos, concorrentes ou complementares, a trama não pode ser simplificada; defende o pensamento integral, capaz de interligar as multidimensionalidades do saber. Um propõe a luta, outro se preocupa em ensinar a viver nessa luta. Pensam a pluralidade, as ideias interdisciplinares, pensam a Educação, o mundo e, assim, transcendem as paredes da escola com propostas pedagógicas humanizadoras, que garantem não só saberes epistemológicos, mas também a dignidade da vida humana. Transitam pelos campos da esperança, passeiam entre o diálogo que aproxima para transformar e a complexidade que abraça para ensinar.

O ensino de filosofia na educação básica: possibilidades de resistência

PID: S2178-46122022000100117 | Revista: Conjectura: Filosofia e Educação (2178-4612) | Año: 2022
Autores: Castaman Magarinus
Resumo O presente artigo aborda a situação do ensino da Filosofia na conjuntura histórica da Educação brasileira. Por meio de uma pesquisa bibliográfica e documental propõe-se a investigar reflexivamente as condições que o ensino da Filosofia tem de se (a)firmar como condição à promoção do pensamento autônomo no Ensino Básico, dentro do espaço que lhe é reservado no atual contexto educacional brasileiro, marcado por reformas de cunho neoliberal voltadas aos interesses do mercado. Partindo da concepção de Filosofia como criação de conceitos, compreende-se como sua principal função em sala de aula, entre outras, apresentar-se como um ambiente livre das demandas externas estabelecidas pelos programas oficiais de ensino no qual os estudantes tenham possibilidades de desenvolver o pensamento autônomo e construir sua subjetividade de forma desprendida. Essa atribuição requer determinados requisitos, como a presença da Filosofia enquanto disciplina, professores especializados na área e tempo livre e de qualidade o suficiente para o exercício do pensar autônomo, os quais se encontram ausentes, em sua maioria, no modelo de ensino que está sendo implementado. No atual cenário, marcado por reformas guiadas por tendências neoliberais que submetem a Educação aos interesses da Economia, o espaço da Filosofia no Ensino Básico encontra-se reduzido e ameaçado. Tais mudanças reforçam o dualismo presente na Educação brasileira, o qual atribui uma formação geral à classe privilegiada e outra de cunho laboral à trabalhadora, impedindo a implantação de uma formação humana integral para todos(as), na qual a Filosofia ocupa papel fundamental. Compreende-se, por fim, que, apesar do cenário desfavorável, resta à Filosofia criar formas de resistência, dentro e fora da escola, para poder se (a)firmar.
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