A ciência brasileira desconhece o papel desempenhado pelas cientistas no país. Breves biografias de quatro mulheres que atuaram no Instituto Biológico de São Paulo e o relato da história de vida da imigrante judia Khäte Schwarz rompem o silêncio em torno da atuação das mulheres no mundo científico e mostram o papel delas no avanço da ciência, especialmente a aplicada à produção agrícola. Barreiras foram superadas por elas, mesmo em situações impostas por sistemas políticos. A criatividade e o espírito de investigação não foram limitados pela idade ou condição de gênero.
Este trabalho analisa como as mulheres quilombolas do Vale do Guaporé, através de suas práticas cotidianas, de seus modos de vida, constroem seus saberes ambientais, promovendo o desenvolvimento sustentável. A discussão relacionada à construção de domínios dos saberes das mulheres relativos à floresta e aos rios se dará através de diálogos contidos em entrevistas realizadas com elas que retratam suas experiências no seio da floresta como seringueiras, castanheiras, pescadoras e curandeiras, revelando como utilizam os recursos naturais, preservando o meio ambiente.
O presente estudo buscou analisar o papel dos grupos sociais e das interações entre eles no processo de construção do artefato tecnológico 'casa popular', com destaque para o papel desempenhado pelas mulheres. O acompanhamento de um projeto habitacional em desenvolvimento e as informações coletadas de várias fontes revelaram que não apenas o artefato foi moldado pelas relações sociais, mas também que o processo construtivo por meio do mutirão provocou mudanças significativas nas relações anteriormente estabelecidas entre os moradores. Nesse contexto, alguns papéis sociais desempenhados pelas mulheres mutirantes foram alterados substancialmente: elas ocuparam a liderança nas negociações; assumiram o trabalho 'pesado' e 'perigoso' na obra e; construíram - juntamente com as casas - sua nova 'identidade feminina'.
O incremento do encarceramento feminino tem levado as autoridades a confinarem mulheres dentro dos presídios masculinos. O estudo - oriundo de pesquisa realizada na 5ª Região Penitenciária do Rio Grande do Sul - discute as dinâmicas carcerárias, mostrando que o acesso aos espaços, a distribuição do trabalho, a aplicação dos castigos e a definição das regras disciplinares são referenciados por uma orientação masculina. Nesta, o poder se volta para as mulheres, visando condicionar suas práticas a uma sexualização dirigida para o viril, ao mesmo tempo que positiva, nesse padrão, os comportamentos masculinos. As especificidades da condição feminina em tais espaços conduzem a que se definam esses presídios como "masculinamente mistos".
A dinâmica ocidental de civilização implica uma relação tensa entre corpo e mente, cultura e natureza, civilização e barbarismo. No ensaio que se segue, exploramos a construção deste último dualismo ao investigarmos os espaços nos quais certos corpos são definidos como monstruosos. Em particular, estamos interessados na constituição de uma visão científica de diferenças raciais, sua especificidade em relação à percepção medieval do lugar da alteridade, seu papel em legitimar a circulação de corpos 'monstruosos' como mercadorias e sua reivindicação de desvendar uma hierarquia objetiva de raças e gênero. De Lavater a Curvier, a classificação das espécies oferece um modelo hierárquico que será apropriado pelos discursos de raça e gênero na biologia. Nesse contexto, um caso pode ser considerado paradigmático: a 'Vênus Hotentote'. Argumentamos que a negociação política do status ontológico de Sara Baartman, durante os séculos XIX e XX, representa precisamente tal esforço para estabelecer as fronteiras de civilidade mediante a circulação e a exclusão de corpos incivilizados.
A articulação de uma epistemologia queer permite pensar a textualidade como o lugar de encenação de uma ficção política que questiona os regimes heteronomativos do sexo e do gênero, e propõe uma estratégia de resistência baseada tanto nos corpos e nos prazeres quanto nas políticas de representação e reinvenção das masculinidades e das feminilidades. A partir de uma retomada dos princípios da narratologia, investiga-se de que forma (ou formas) o texto narrativo configura-se como espaço de negociação de uma perspectiva queer sobre a nacionalidade, a sexualidade e o gênero na enunciação. Nesse sentido, a literatura reescreve tanto o corpo sexual, tido como o lugar da subjetividade individual, quanto o corpo social/ nacional, entendido como uma ficção reguladora das sociabilidades corporais e sexuais. Com vistas a uma poética queer, busca-se evidenciar as contradições e impasses que emergem na literatura, particularmente em relação a questões de raça, classe e gênero, bem como as potencialidades e os pontos problemáticos da poética queer como lugar de intervenção cultural, no qual são performativamente projetados novos arranjos de legibilidade social.
Este trabalho se propõe a fazer algumas reflexões sobre a relação entre o público e o privado no contexto da operacionalização da política de assistência social, tendo por foco a família e o papel atribuído às mulheres. Há muito se vem criticando o papel instrumental das famílias e das mulheres dentro destas, no desenho das políticas de proteção social, com destaque para os programas de transferência de renda no âmbito da assistência. Com base em pesquisas1 por nós desenvolvidas nesse âmbito, nossas reflexões são desenvolvidas tendo por eixos a família como locus da política social, com destaque para as políticas de combate à pobreza no âmbito da assistência social; as mulheres; e a mediação entre família e a política de assistência social no contexto do Sistema Único de Assistência Social.
Uma das condições para que na sociedade sejam alicerçados valores de género misóginos consiste na existência de uma estrutura de produção cultural heterossexual compulsiva, dominante e universalista que estabeleça princípios de representação dos sexos claramente diferenciados, que tendam a favorecer mais o homem em detrimento da mulher. Partimos de um princípio de que a produção da cultura origina processos de reprodução, o que significa, em termos práticos, que a representação de signos, códigos, valores e comportamentos associados aos sexos é potencialmente materializada nas sociedades, por homens e por mulheres. Essa tem sido uma batalha levada a cabo por muitas mulheres a partir da segunda vaga do movimento feminista, nomeadamente pela ala mais radical, que tem procurado reivindicar novos paradigmas no que diz respeito às convenções culturais de género. O que propomos neste estudo é analisar algumas das campanhas levadas a cabo por Nikki Craft, uma feminista radical norte-americana que viria a organizar e/ou a protagonizar nos anos 1970 e 1980 vários protestos em espaços públicos de algumas cidades dos Estados Unidos. Neste estudo procuramos clarificar as motivações e as estratégias levadas a cabo por essa feminista, cujos activismos incidiram contra algumas das estruturas culturais (campo da arte, instituições da beleza e indústria pornográfica) legitimadoras de representações desencadeadoras de prejuízos para a mulher.
Este artigo, fundamentado no campo dos estudos culturais - sobretudo em noções foucaultianas - e dos estudos feministas, analisa a contribuição do cinema na formação das identidades de gênero de mulheres idosas. Após breve discussão de aspectos relacionados à cultura, ao poder e à conformação das identidades de gênero, buscamos identificar, através das produções discursivas, significados construídos por um grupo de mulheres idosas sobre filmes a que assistiram em sua juventude, evidenciando os efeitos que os discursos dessa mídia exerceram na construção e na produção identitária dessas mulheres.
O artigo reflete sobre a relação entre a imagem de Ofélia em Hamlet, de Shakespeare, e as representações pictóricas da personagem comuns no século XIX com o objetivo de situar a ideologia da morte das mulheres entre textos trágicos e pinturas.
Buscou-se identificar e analisar a inserção dos psicólogos na rede intersetorial de serviços para mulheres em situação de violência. Foram analisadas entrevistas com profissionais de serviços específicos da Grande São Paulo (policial, saúde, psicossocial, abrigo, orientações básicas). Os psicólogos estão presentes e são solicitados em todos os tipos de serviços. Têm lugar na capacitação e supervisão dos profissionais, além do atendimento às mulheres. Na assistência, nota-se grande diversidade de práticas, com frequente ajustamento das intervenções aos objetivos, à cultura institucional e à vocação assistencial dos serviços. Há uma relativa indefinição na especificidade do trabalho do psicólogo, o que pode representar impasses para uma melhor articulação em equipe e em rede, mas, por outro lado, também pode criar oportunidades para inovações na prática.
Este trabalho é o resultado de uma análise sobre os relatórios Masters & Johnson, editados originalmente nos anos de 1966 (A Resposta Sexual Humana) e 1970 (A Inadequação Sexual Humana). Os relatórios analisados, produzidos nos Estados Unidos e com repercussão mundial, foram elaborados a partir de uma minuciosa investigação científica das respostas fisiológicas e anatômicas da sexualidade masculina e feminina. Os autores, em decorrência, utilizaram esses conhecimentos para a formulação de técnicas e tratamento em terapia sexual utilizadas até hoje por profissionais da área clínica. Os relatórios Masters & Johnson emergiram com a proposta de preencher as lacunas médicas, fisiológicas e psicológicas diante das pesquisas estatísticas comportamentais de Alfred Kinsey (1948 e 1953). A obra de M&J se apresenta abertamente como uma defesa do casamento monogâmico heterossexual, e com elaborações atravessadas por questões de gênero. Partindo do instrumental teórico de Michel Foucault, verifica-se serem exemplares da prática de uma scientia sexualis, que procura instituir uma verdade no sexo e do sexo.
Este trabalho pretende problematizar a vinculação entre os segredos da adoção e o que aqui proponho como matriz bioparental que, segundo nossa experiência no Projeto Laços de Amor: Adoção, Gênero, Cidadania e Direitos desenvolvido junto ao Departamento de Psicologia Clínica da UNESP, Assis, SP, reforçam o sofrimento, o estigma e a segregação que recaem sobre as pessoas adotadas ou que supostamente o serão. Nesse sentido, destacamos a cultura da adoção, reificadora de estigmas e crenças, como uma referência importante na construção da relação intersubjetiva existente entre pais/mães biológicos, adotivos e crianças adotadas na medida em que, a partir de um referente apoiado na matriz heteronormativa - que pressupõe uma organização continua entre sexo/gênero/desejo -, passa, por isso, a estabelecer a binária distinção entre filhos/as legítimos/as e ilegítimos/as conforme sua origem advinda ou não de "laços de sangue".
A participação das mulheres no mercado de trabalho representa um dos pontos centrais da análise econômica sob a ótica feminista. Apesar do aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho e da diminuição da diferença salarial média entre os dois gêneros, as mulheres ainda enfrentam uma grande dificuldade de serem remuneradas e promovidas em relação aos homens. Os modelos econômicos competitivos não conseguem explicar essas diferenças sem fazer uso de hipóteses fortes sobre as preferências individuais e os objetivos da família. Uma das possibilidades estudadas é que a diferença na remuneração das mulheres tem um aspecto social através de seu trabalho não somente para o mercado, mas também para a manutenção da ordem dentro da família. Este estudo tem como objetivo principal analisar as diferentes participações dos gêneros no trabalho doméstico como potencial influenciador das diferentes condições no mercado de trabalho. Nossos resultados apontam que as mulheres têm uma dupla e pesada jornada de trabalho. Entre nossas principais conclusões, podemos citar que a participação da mulher no mercado de trabalho, principalmente com o aumento de sua remuneração frente ao total da renda familiar, impacta positivamente sua condição de barganha na família, implicando uma menor participação no trabalho doméstico.
Este artigo discute resultados parciais de estudo exploratório realizado com oficiais engenheiras navais da Marinha, o qual possibilitou uma aproximação ao entendimento da posição das engenheiras no Corpo de Oficiais Engenheiros Navais da Marinha. Pôde-se vislumbrar uma realidade complexa, em que relações de gênero e de trabalho na engenharia militar apresentam especificidades próprias, ao lado de padrões de inserção e integração similares aos encontrados na engenharia não militar. Inicialmente, apresentam-se algumas características do processo de integração das mulheres na Marinha. A seguir, discute-se a posição e a imagem das mulheres no Corpo de Oficiais Engenheiros Navais, o trabalho desenvolvido, as relações de gênero no ambiente militar, a partir das percepções das engenheiras entrevistadas. Finalizando, levantam-se questões e hipóteses para futuras investigações.
Hoy, la prostitución en nuestra sociedad resulta un indicador de la "cultura sexual" dominante en las sociedades patriarcales y capitalistas. Este artículo pretende aportar otro enfoque al análisis de la industria sexual en nuestro país, ajustándose, principalmente, a las experiencias de los hombres implicados en el fenómeno de la prostitución en Galicia. El dramatismo con que las mujeres en prostitución viven su realidad y la frivolidad y ociosidad en la que se recrean los clientes, muestra el controvertido e inquietante semblante de esta realidad. El análisis del discurso de los clientes a través del "Frame Analysis", y el estudio de los imaginarios femeninos dominantes entre ellos son retratados en este texto, junto con el discurso de las mujeres en prostitución y el de los hombres que ocupan espacios masculinizados. Este artículo pretende ser una contribución más al complejo estudio del fenómeno de la prostitución en nuestro país.
A sub-representação das mulheres nas esferas do poder político é hoje entendida como um problema político a ser enfrentado. De maneira esquemática, é possível distinguir três vertentes de explicação do fenômeno: (1) uma que enfatiza o caráter patriarcal subjacente às instituições políticas liberais, tal como na obra de Carole Pateman; (2) outra que foca os padrões culturais e de socialização que constroem o político como espaço masculino e inibem o surgimento da "ambição política" entre as mulheres, exemplificada pela literatura estadunidense sobre candidaturas femininas; e (3) aquela que destaca os constrangimentos estruturais à participação política das mulheres, que possuem, via de regra, menos acesso aos recursos econômicos e muito menos tempo livre que os homens. O artigo vai analisar as contribuições das três vertentes, advogando que o recurso ao conceito de "campo político", de Pierre Bourdieu, pode favorecer sua incorporação num modelo explicativo integrado e complexo.
El presente artículo muestra las reflexiones etnográficas de una investigadora que indaga sobre el rol de un grupo de mujeres dentro de la comunidad del Software Libre en Colombia. Particularmente se problematizan las maneras en que la práctica etnográfica, desde las perspectivas feministas, contribuye en la (re)construcción del género como una categoría analítica en las realidades sociales que estudia.
Este trabalho apresenta alguns resultados da pesquisa Dez anos de cotas no Brasil - avaliando a eficácia do caminho curto para o acesso das mulheres ao legislativo. Um dos itens da pesquisa consistiu na análise da relação entre as trajetórias individuais de deputadas e deputados, isto é, a forma e as razões de ingresso na política, o papel dos partidos políticos como mediadores dessas trajetórias, como esses aspectos se transformam em capitais políticos eleitorais, e como essas trajetórias se relacionam com as chances oferecidas pela inclusão das cotas. A Argentina é tomada como um contraponto positivo ao caso brasileiro, dado o fato de sua experiência ser considerada paradigmática. Entre os resultados apresentados, destacam-se as diferenças entre os tipos de trajetórias e de capital político que são estratégicos, em se tratando das mulheres de cada um dos países. E as novas formas de capital eleitoral que surgem conferem outros sentidos de ingresso na política. Isso parece decorrer, entre outros aspectos, de um segundo momento de institucionalização democrática nesses países.
O trabalho tem como objetivo discutir questões referentes às relações afetivo-sexuais entre homens e mulheres na sociedade atual a partir da experiência de casais adeptos da prática do swing. Procura-se compreender as concepções nativas sobre casamento, sexualidade, infidelidade e, também, as regras de uma relação swinger. O swing cria um novo modelo de casamento? Ou reforça os modelos já existentes? Por meio da análise do discurso dos casais adeptos da troca sobre suas interações eróticas, busca-se compreender a forma como se articulam amor, sexo e prazer nesses relacionamentos.