O Exame Nacional do Ensino Médio propõe mensurar modalidades estruturais da inteligência mediante uma concepção construtivista com amplo foco na resolução de problemas. Apesar de suas inovações, o Exame ainda não passou por um estudo de validade de construto, para verificar se ele, de fato, ativa processos cognitivos enfatizados por seu modelo. Este artigo, portanto, apresenta um estudo exploratório de validade de construto desse instrumento. Foram aplicados 45 testes de inteligência, assim como a prova objetiva de 2001 do Enem, a 146 estudantes do terceiro ano de uma escola de ensino médio da rede federal. Realizou-se uma regressão stepwise entre as habilidades cognitivas e o escore dos estudantes no Enem. O desempenho no Exame foi fortemente explicado pelas habilidades cognitivas (60%), por meio da resolução de problemas, da rapidez cognitiva e da compreensão verbal. O Enem mostrou-se um bom instrumento construtivista para fins educacionais.
O livro didático é uma poderosa ferramenta pedagógica. Além de ser uma fonte de pesquisa e orientação para professores e alunos, exerce papel de grande importância na política educacional e na aprendizagem, transmitindo conhecimentos, ideias e valores sobre determinados conteúdos. Implicitamente, o livro didático abrange interesses sociais, políticos, econômicos e culturais. Nesse sentido, o presente trabalho objetiva discutir algumas considerações sobre o processo de seleção dos livros aprovados pelo Plano Nacional do Livro Didático (PNLD), principalmente os utilizados na rede pública de ensino, analisando os aspectos políticos, econômicos e pedagógicos que determinam essa escolha, enfatizando a posição do Estado, das editoras e dos professores envolvidos nesse processo.
Este artigo apresenta os resultados de pesquisa sobre a efetividade das políticas educacionais na Região Metropolitana de Curitiba e Litoral do Paraná (RMCL), considerando o cotejamento entre os resultados dos municípios desta região no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica - Ideb e outros indicadores sociais e econômicos (Índice de Desenvolvimento Humano, Taxa de Pobreza) e educacionais (Gasto-aluno, Taxa de Crescimento de Matrículas). As principais conclusões apontam para a existência de correlações entre as variáveis sociais e econômicas (Taxa de Pobreza, IDHM) e o desempenho escolar medido pelo Ideb, mas são os recursos investidos em educação, principalmente, que determinam sua qualidade na Região Metropolitana de Curitiba e Litoral do Paraná.
Este trabalho discute alguns aspectos que constituem o letramento escolar em uma turma de final do primeiro ciclo, em que o livro didático é o elemento central. Os dados foram coletados em vídeo e o foco da análise são os processos interacionais, constituídos por alunos e professora em torno de um livro didático de português. Os resultados indicam que a professora dialoga com o livro didático, apropriando-se dessa ferramenta cultural de acordo com os dispositivos que constituem o seu fazer cotidiano. Nesse sentido, ela não reproduz e não segue linearmente a proposta pedagógica do livro, mas a modifica, ampliando e redimensionando as atividades propostas.
Este artigo tem o objetivo de apresentar os resultados de uma pesquisa que analisou a criação da função de professor coordenador pedagógico (PCP) nas escolas estaduais de São Paulo no bojo das reformas educacionais ocorridas em meados dos anos 90. Norteados por uma pesquisa de caráter bibliográfico-documental que analisou documentos da Secretaria de Educação (inclusive legislação), materiais produzidos por entidades representativas dos professores e uma bibliografia relacionada à história da educação, procuramos elucidar a trajetória percorrida pela coordenação pedagógica em diferentes contextos históricos, analisando a concepção de trabalho docente em relação a esses momentos. Por outro lado, investigamos as dificuldades de trabalho do PCP nas escolas da rede estadual de ensino, recorrendo a pesquisas que foram produzidas sobre o tema, cuja análise nos permitiu a aproximação com o contexto de trabalho da função e o reconhecimento das implicações das reformas educacionais para a constituição da profissionalidade docente.
O texto analisa as tendências de abordagem mais frequentes nos estudos acadêmicos sobre políticas educacionais no campo da educação no Brasil e examina a tensão entre políticas universais versus compensatórias; igualdade versus equidade. Discute a abordagem das políticas públicas baseada na análise de sua trajetória, como a do ciclo de políticas, utilizada por cientistas brasileiros. Refere-se também à proposta de estudo do ciclo de políticas educacionais, feita por Stephen Ball, que conclui pela necessidade de contemplar a um tempo as políticas da igualdade, reivindicadas pelos neomarxistas, e as políticas da diversidade, reclamadas pelos pós-estruturalistas.
Este artigo versa sobre o "Programa Alfabetização na Idade Certa" (PAIC), delineando as possibilidades de intervenção para eliminar o analfabetismo no Estado do Ceará. Revelam-se os fundamentos conceituais que nortearam a criação do modelo de avaliação utilizado nesse programa, sua metodologia, bem como os resultados da avaliação realizada no primeiro semestre de 2006, em 55 municípios do Ceará, com crianças matriculadas no 2º ano do ensino fundamental, e que apresentaram desempenhos insatisfatórios no que se refere à leitura e escrita de pequenos textos. Os resultados conscientizaram os diretores, supervisores, professores e ainda os responsáveis pelas políticas educacionais do Estado da necessidade de intervenções urgentes no processo de alfabetização das crianças cearenses.
O artigo pretende descrever as novas tendências da Psicometria Moderna, sintetizadas na constatação do uso massivo dos modelos unidimensionais da Teoria da Resposta ao Item (TRI). Para tanto, faz-se um breve relato histórico da TRI, apresentam-se os quatro modelos unidimensionais da TRI, discutem-se os dois principais supostos da TRI - unidimensionalidade e independência local dos itens - e a técnica estatística mais adequada à sua verificação - a análise fatorial. Descrevem-se as fases de estimação dos parâmetros métricos dos itens e da aptidão dos indivíduos, as respectivas provas para verificar o ajuste do modelo aos dados e, finalmente, algumas ideias básicas acerca da função de informação dos itens.
O texto constrói um estado de conhecimento sobre qualidade na educação superior, com base nas perspectivas internacionais que influenciam as nacionais pelo processo de globalização, e identifica as concepções de qualidade isomórfica, da especificidade e da equidade e faz uma análise da trajetória do conceito de qualidade universitária e seus organismos propositivos, neste século. Merece destaque a posição da Unesco e de suas ramificações, como a IESALC e a GUNI, na construção do conceito de qualidade da educação superior para o desenvolvimento sustentável. São considerados outros contributos advindos de associações de educação superior, como a EAIR, AAIR, OCDE e a AIPU. Constata-se a minimização das diferenças entre os três tipos de qualidade, apesar do predomínio do tipo isomórfico. Registra-se a tendência do uso de índices avaliativos e de medidas de impacto da qualidade universitária, a tendência das pesquisas sobre o estudante e, mais recentemente, sobre o egresso - <i>learning outcomes</i>. A concepção de qualidade não é clara e está relacionada a quem ela é dirigida e por quem ela é definida.
As últimas décadas têm sido pródigas no que diz respeito às mudanças de base, incluindo aquelas concernentes à educação. Em razão da globalização, os Estados nacionais se reestruturaram, fazendo a transição do modo de gestão, passando de uma administração burocrática para uma gestão empresarial. Essa mudança foi justificada como forma de agilizar os serviços prestados pelo Estado, que estava, segundo a ótica dos reformadores, pesado, burocratizado, o que o tornava pouco ágil e eficiente. As políticas da educação que se realizaram a partir de então estabeleceram reformas e criaram novas regulações, a fim de permitir que os sistemas educacionais, em âmbito nacional e local, se submetessem às novas orientações segundo essa outra lógica. A análise de algumas regulações definidas pelas políticas educacionais é o objeto deste trabalho, resultante de uma pesquisa bibliográfica/documental que buscou identificar as relações existentes entre a reforma do Estado, as tendências da educação traduzidas pelas políticas e o estabelecimento de novas regulações no tocante à formação e ao trabalho docente.
O objetivo deste texto é contrapor modelos de democracia para investigar a gestão da educação, discutindo o potencial heurístico desses modelos na compreensão dos desafios da administração democrática do ensino e da forma como as políticas educacionais são concebidas e implementadas na escola pública. São abordadas a concepção contratualista ou liberal da democracia e a sua concepção comunitarista ou participativa. Mostra-se que essas concepções, por mais que se contraponham, se entrecruzam e precisam uma da outra para se autodefinirem, fazendo parte de uma mesma família ético-política. A despeito de sua crítica ao individualismo e à lógica do contrato social como base para a democracia, a concepção comunitarista não é incompatível com as exigências capitalistas, permitindo a esse sistema se rearticular politicamente a partir de novas bases éticas.
Conhecer a história da disciplina Língua Portuguesa no Brasil pode contribuir para a compreensão de algumas das dificuldades de se desenvolver, nas crianças e nos jovens, a competência de uso da leitura e da escrita. O presente artigo faz, então, um breve histórico do tratamento dessa disciplina na escola brasileira, a partir da concepção de linguagem prevalente em cada contexto histórico examinado, procurando compreender, dessa forma, o descompasso entre as novas perspectivas trazidas pelas teorias lingüísticas contemporâneas e os velhos problemas que ainda determinam o fracasso escolar. Conclui-se que há, antes de tudo, a necessidade de uma organização curricular diferenciada para atender a realidade lingüística de nossos alunos, objetivando o ensino de uma língua viva, dinâmica e real.
Este artigo analisa as interferências dos aspectos culturais na dinâmica interna da escola, destacando-se suas implicações no processo de organização, gestão e efetivação do trabalho docente. A hierarquia, as relações pessoais, o clientelismo político, o patrimonialismo e o moralismo religioso são as principais referências conceituais utilizadas para demonstrar as intersecções estabelecidas entre os poderes burocrático, político e religioso no interior da instituição escolar, bem como evidenciar a articulação simbólica realizada pelo campo político capaz de transformar esse conjunto de elementos culturais em significativos processos de dominação no campo escolar. O estudo de caso coletivo de natureza etnográfica realizado em duas escolas públicas do município de Morrinhos, do Estado de Goiás, apresentou-se como a melhor estratégia para identificar que as ações desenvolvidas na instituição escolar são permeadas pela tradição cultural e articuladas pelo campo político, principais responsáveis pela definição dos tipos de relações de poder e comportamentos dos agentes escolares.
O alcance do desenvolvimento sustentável ou de sociedades sustentáveis exige adotar diferentes concepções de educação visando conquistar legitimidade junto à sociedade sobre o que produzir, para quem e como. Este trabalho objetiva analisar as concepções de educação defendidas em eventos internacionais, enfatizando as categorias ‘consciência’ e ‘participação’ como dimensões da práxis e indicadoras de uma Educação Ambiental emancipadora. Entendemos que três conferências (Estocolmo, Rio-92, Johannesburgo) objetivam obter consenso sobre a viabilidade do “capitalismo sustentável”, preconizando soluções de mercado e uma educação conservacionista e conservadora da sociedade de classes. De modo distinto, Tbilisi e o Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis identificam nas relações sociais capitalistas o cerne das questões social e ambiental e defendem uma educação emancipadora que contribua para o Homem perceber-se e agir como produto e produtor do meio ambiente e da sociedade, o que pressupõe um “capitalismo democrático” como etapa para a construção de sociedades sustentáveis.
O presente texto traz à tona a discussão de um tema que, há algumas décadas, vem interferindo de forma negativa na prática pedagógica dos profissionais da educação, causando conflitos não só na relação professor-aluno, mas nas relações dentro das instituições. Discutimos, primeiramente, de forma breve, o conceito de disciplina e indisciplina, defendendo uma postura democrática por parte do professor e participativa por parte do aluno. Em um segundo momento, abordamos alguns fatores psico-sociais e pedagógicos que interferem no comportamento da criança e que acabam culminando em indisciplina na sala de aula e na escola; ao mesmo tempo, apresentamos algumas propostas de prevenção e controle da indisciplina.
O artigo busca explorar a problemática da educação profissional de nível superior de curta duração, denominada, no Brasil, de graduação tecnológica. De caráter introdutório e necessariamente sintético, traça um panorama sobre as políticas públicas nacionais no campo educacional, especificamente aquelas mais imediatamente direcionadas para os filhos de trabalhadores que demandam formação superior. Nesse sentido, busca contextualizar historicamente o surgimento e a evolução da graduação tecnológica de nível superior no país, indagando a respeito das mediações fundamentais que articulam o estabelecimento de tal modalidade de ensino ao processo de reprodução do capital no quadro de sua crise estrutural (Mészáros), sob o pressuposto crítico de que esse tipo menor de ensino ilustraria com folga o caráter aligeirado e reducionista atribuído ao conhecimento em todas as esferas da formação do trabalhador, além do que reeditaria, no nível superior, o histórico dualismo que atravessa a educação sob o poder do capital.
O presente artigo objetiva discutir os conceitos de intervenção e regulação, retomando, inicialmente, suas raízes históricas e teóricas, no sentido de contribuir para o debate no campo acadêmico das políticas públicas de educação. Ele explora o significado desses conceitos nas perspectivas liberal (e neoliberal) e do Estado de bem-estar social, relacionando-os com o contexto histórico nos quais foram produzidos. Argumenta que a regulação é funcional ao regime de acumulação capitalista e realiza também uma discussão crítica sobre as noções de regulação e reprodução. Por fim, aponta que a regulação no campo da educação decorre de lutas próprias e específicas, o que a torna um processo contraditório.
Resumo O objetivo deste artigo é analisar o papel da influência internacional no delineamento e aplicação de políticas educativas no Cone Sul. Pretende explorar especialmente o processo através do qual as idéias, recomendações e metas globais modelam as políticas educativas latino-americanas. Para isso o artigo centra-se no Programa de Educação para Todos e no Acordo Geral de Comércio de Serviço, analisando os mecanismos de influência externa que intervêm em cada caso -imposição, difusão e padronização-, as formas através das quais se “negociam” em níveis nacionais tais programas e acordos e os efeitos desses processos nas políticas educativas nacionais de três países da região -Argentina, Brasil e Chile.
Este artigo trata das mídias interativas e dos ambientes virtuais de aprendizagem. Apresenta um breve histórico da política de informática na educação e do programa de formação continuada em mídias na educação, criado em 2005, pelo Ministério da Educação e Secretaria de Educação a Distância - MEC/Seed. A metodologia utilizada foi a análise documental e a observação direta dos portais do MEC. Discute a problemática da formação docente online. Analisa a contribuição desse programa ofertado a distância, por várias universidades brasileiras, aos professores da rede pública do ensino básico para utilizar as diferentes mídias (impressa, eletrônica e digital) na prática de ensino escolar. Conclui que a formação de leitores críticos das mídias é condição necessária para combater a superficialidade e a fragmentação do discurso hegemônico da cultura dominante, a fim de favorecer uma educação de qualidade para todos.
Desde o final do século XX, o governo do Brasil tem adotado medidas de massificação do ensino superior por meio do setor privado. Essa característica, apesar de não ter sido amplamente debatida pelo governo e tampouco pela sociedade, traz implicações concretas ao marco regulatório do ensino superior brasileiro. Quais deverão ser os critérios que orientarão a oferta de cursos? Neste sentido, o artigo busca analisar, partindo do uso do conceito de ‘necessidade social’, os desafios encontrados para definir legalmente as funções e objetivos de uma instituição de ensino superior. Argumenta-se que a falta de clareza nos conceitos legais cria mecanismos de regulação que não são coerentes nem com a lógica educacional nem com a jurídica.