O artigo propõe uma pauta de análise das relações entre educação, qualificação e emprego no capitalismo globalizado. Tenta demonstrar a incompatibilidade existente entre a desvalorização do trabalho, decorrente da dominação autocrática do capital mundializado; questiona a suposta valorização da educação na sociedade dita de conhecimento; critica o processo de empresarialização da educação pública, inspirado em um determinismo tecnológico e o economicista, o qual se manifesta em uma série de fórmulas ideológicas auto-referenciadas, que se pretendem originais. Propõe-se uma reflexão sobre a nova centralidade do trabalho e os novos critérios de qualificação, atentando para a diferença entre qualificação do trabalhador e qualificação ou classificação autocrática dos empregos ou postos de trabalho por parte das empresas.
O texto aborda a dinâmica pedagógica na escola pública que recebe crianças das classes populares. Refletindo sobre as relações estabelecidas pelas crianças com o cotidiano escolar, discute o método de estudo e pesquisa no cotidiano, com referência nos paradigma da complexidade e indiciário e no conceito de rigor flexível. Explorando caminhos percorridos, sublinha possibilidades de conexão entre a escola pública e a educação popular. As noções de ambivalência, fronteira, conhecimento-regulação, conhecimento-emancipação, heterogeneidade, silenciamento, educação como prática libertadora orientam a análise que vai tecendo essas possibilidades. Considerando a experiência das classes populares fortemente marcada por golpes e privações, mas também por partilha e solidariedade, o conceito de resiliência é destacado como um dos fios que fortalecem a potencialidade da escola pública comprometida com os segmentos sociais excluídos.
Objetiva-se, neste estudo, analisar criticamente as relações de saber, conhecimentos e competências travadas no processo educacional a distância mediado pelas novas tecnologias, enfocando a objetivação dos saberes da educação a distância e a materialização e produtividade desse tipo de trabalho. Na análise, considerou-se a formação acadêmico-profissional dos trabalhadores das unidades estudadas; os investimentos nessa formação; a relação titulação/competência; as relações de poder/relações de conhecimento; a relação entre os saberes docentes/saberes técnicos; as competências e as multicompetências; a fragmentação e expropriação do saber do trabalhador da educação; a mais-valia virtual e o lucro na educação a distância virtual.
Este artigo é resultado de uma intervenção realizada no Projeto Enxame. Esse projeto iniciou um trabalho através da construção de mapas simbólicos de valores utilizando imagens (gravuras, fotografias e grafites) e as narrativas evocadas por eles. As imagens, aqui, são tomadas como inscrições afetivas. Dois tipos de oficinas foram realizados: lugares e pessoas que contam a história dos participantes, fotografada por eles mesmos. Então, cada participante selecionou uma série de fotos e, ao apresentar para o grupo, construiu uma linha narrativa. As imagens, como um denso mapa afetivo, trouxeram à tona diversos tipos de emoção e construíram uma rede de sentimentos grupais.
O artigo tem como referência a questão do trabalho e das percepções sobre este entre jovens trabalhadores da fábrica, realizando alguns apontamentos sobre a escolaridade. Para isto entrevista jovens operários e operárias a partir de um formulário com questões abertas e fechadas e o corpo administrativo de três fábricas do setor de autopeças de São Bernardo do Campo. Inicialmente contextualiza a problemática do estudo e sua inserção na pesquisa educacional sobre a tríade: jovens, trabalho e escola. Em seguida apresenta elementos do perfil dos jovens investigados, focalizando alguns aspectos da experiência de trabalho desses na fábrica. Por fim, retrata os diferentes sentidos do trabalho na vida dos jovens operários e operárias.
Este ensaio se propõe comparar dois estudos de sociologia histórica sobre a escolarização moderna. Os livros escolhidos são Produção da escola/produção da sociedade: análise sócio-histórica de alguns momentos decisivos da evolução escolar no Ocidente, de André Petitat (1994), e Arqueología de la escuela (1991), de Julia Varela e Fernando Alvarez-Uría. Os dois trabalhos constatam descontinuidade entre as práticas educativas medievais e os colégios modernos, sublinham a função produtora das instituições escolares e o seu caráter classista, mas apresentam diferenças na leitura dos modos de educação e da desigualdade de gênero.
O presente ensaio objetiva argüir a possibilidade de pensar a questão da identidade e legitimidade da Educação Física brasileira a partir da teoria bourdieusiana, dando visibilidade àquilo que Michel de Certeau denominou de rede de intercâmbios profissionais e textuais, isto é, seus traços de pertencimento, dívidas, empréstimos, leituras e confrontos, que colocam este ensaio num debate atual afeito à epistemologia, à teoria e à historiografia da Educação Física.
O trabalho articula contribuições originais da Teoria Crítica da Sociedade e o ofício do historiador. Parte da premissa que aquela tradição pode contribuir para a escrita da história ao provocar o historiador da escolarização a refletir sobre os condicionantes sócio-culturais da escolarização e diferentes culturas escolares. Recorre a um conjunto de observações contemporâneas sobre a educação do corpo na escola, articulado ao conteúdo manifesto de fontes escritas do século XIX no âmbito do atual Estado do Paraná, operando um duplo distanciamento - temporal e espacial -, discutindo permanências ou singularidades de um projeto de reforma moral pela via da educação corporal. Conclui afirmando a fecundidade da Teoria Crítica para o fazer do historiador da escolarização desde que o arcabouço daquela tradição seja fecundado com os procedimentos de pesquisa próprios ao campo da histórica.
O trabalho traça considerações sobre o desenvolvimento da Educação Física na escola portuguesa, privilegiando o seu desenvolvimento durante a ditadura do Estado Novo de Oliveira Salazar (1932-1968). Localizando no movimento ginástico europeu os primórdios da implantação daquela disciplina nas escolas portuguesas, ainda nos finais do séc. XIX, avança na tentativa de compreender as diversas fases que marcaram a sua institucionalização. Aponta as preocupações do Estado com o engendramento da Educação Física, indicando a sua apropriação pelas forças conservadoras a partir dos anos 30 do século XX. Ao perspectivar o desenvolvimento histórico daquela disciplina, conclui que os anos iniciais da década de 1970 representaram um momento de transição, no qual as velhas formas de pensar e praticar a Educação Física nas escolas sofria a influência modernizadora de outras tendências, mais notadamente, a psicomotricidade, o esporte para todos e o ensino do esporte como conteúdo escolar.
O texto discute o significado que o trabalho apresenta para os jovens portadores de diploma de graduação num momento em que se vivencia uma intensa precarização nas relações de trabalho e altos índices de desemprego. Neste contexto, o trabalho desempenhado durante o curso de graduação adquire outros sentidos além daquele vinculado à carência econômica; trata-se da possibilidade de poder usufruir com mais liberdade sua “condição de jovem”, mas também significa uma estratégia de antecipação às etapas com vistas a garantir um espaço num mercado de trabalho extremamente competitivo. Insegurança é o sentimento compartilhado pelos jovens quando fazem referência ao seu futuro profissional.
Este trabalho analisa o processo de escolarização da Educação Física no Imperial Collegio de Pedro Segundo (CPII), instituição secundária fundada no Rio de Janeiro em 1837. Refletimos sobre o cotidiano da “gymnastica” no CPII entre 1841 e 1870, analisando os motivos e a ação dos indivíduos que levaram a instituição a adotar a prática destas atividades, o perfil dos agentes escolares que por ela foram responsáveis, as representações que sobre elas circularam, os conteúdos ministrados em suas lições e os espaços onde estas aconteceram.
O trabalho visa debater, a partir de autores do pensamento socialista e de pesquisas atuais sobre o cooperativismo, tanto os limites para que esta forma de organização do trabalho possa romper a sua relação com o capital, que se realiza através do mercado, quanto a potencialidade do trabalho cooperativo para revolucionar as relações sociais. Desenvolve, principalmente, a análise de associações cooperativas de agricultores familiares, assentados do MST e não-assentados. O novo apontado pela pesquisa encontra-se na relação entre trabalho cooperativo e educação escolar básica e profissional, mais propriamente, na necessidade de se pensar que valores, conhecimentos, estudos e práticas deverão constituir o currículo dos cursos que pretendam formar sujeitos autônomos, cooperativos e solidários.
O artigo traz elementos para pensarmos a constituição da cultura política contemporânea a partir de um dos sujeitos políticos que têm dado visibilidade às ações coletivas nesse campo - os jovens contestadores anticapitalistas. O foco sobre a juventude nos remete a uma perspectiva sociológica visando à identificação de elementos explicativos que dêem conta do agir político contemporâneo voltado para o processo de transformação social, especialmente a partir de 1960, auxiliando-nos a identificar os novos significados contidos nas manifestações de protesto e confronto contra a ordem social em tempos de globalização.
O pensamento histórico de jovens portugueses tem sido objecto de análises intensivas em diversos estudos que se inserem numa linha de pesquisa em cognição contextualizada, que se desenvolveu com Dickinson & Lee (1978, 1984), Booth (1978) e Shemilt (1980, 1984). Neste artigo, as ideias de crianças e jovens são examinadas sob um enquadramento teórico que procede à destrinça de conceitos essenciais à natureza da História, rebatendo-se a ideia comum de que ‘os jovens não sabem nada’. As implicações dos resultados desta investigação para o Ensino da História são aqui discutidas no contexto das exigências da sociedade de conhecimento actual.
Este artigo apresenta uma visão global da investigação qualitativa em educação na atualidade. A primeira parte analisa as mudanças sociais e políticas que devem conduzir a uma adaptação dos métodos qualitativos de investigação. A segunda estuda as mudanças necessárias nas categorias de análises. A terceira apresenta os critérios de validez dos trabalhos qualitativos neste novo contexto social e político. A quarta indica os limites e as possibilidades de generalização. Na última parte evoca-se alguns problemas que apresentam a restituição e a publicação dos resultados.
Neste artigo propõe-se uma análise crítica dos Teip (Territórios Educativos de Intervenção Prioritária). Trata-se da mais recente e ambiciosa medida de política educativa, no quadro do “combate à exclusão social”. A análise proposta organiza-se em função de três eixos essenciais: o primeiro situa-se ao nível da política educativa (nível macro) e defende-se a tese de que a exclusão social é, no essencial, um fenômeno estrutural da esfera do mundo do trabalho. Num segundo eixo, situado ao nível (meso) da regulação local das políticas educativas, sustenta-se a necessidade de passar de uma concepção de “território escolar” para uma concepção de “território educativo” que questione a forma escolar. Finalmente, a um nível micro, o do trabalho pedagógico realizado com os alunos, considera-se que a visão desvalorizada dos alunos, por parte, nomeadamente, dos professores, representa o principal ponto crítico da política Teip.
O artigo problematiza o atendimento em Instituições de Educação Infantil na cidade de Cambridge, Inglaterra. Os significados implícitos na expressão Welcome to Cambridge são retratados com base na pesquisa que analisou as políticas de Educação Infantil. Optou-se por uma Escola Infantil pública de Cambridge, dedicada ao atendimento às crianças de três e quatro anos, como campo de investigação, confrontando esta realidade com a instituição responsável pelas classes de recepção das crianças de cinco anos: a Escola Primária. Perguntas como: será que a criança é realmente bem vinda em Cambridge? O que as políticas garantem às crianças? Como é o atendimento realizado nas instituições de Educação Infantil? motivaram esse trabalho e o prosseguimento da pesquisa.
PID: S1413-24782004000200006 |
Revista: Revista Brasileira de Educação (1413-2478) |
Año: 2004
Autores: Gondra Garcia
Pensar a infância implica trabalhar com a idéia de uma vida segmentada, construir marcos de começo e término das diferentes fases, num gradiente de idades evolutivo e linear. Assim, a tentativa de especificar essas etapas termina por repartir a vida de forma detalhada, além de unificar o que se encontra recoberto em cada uma das supostas idades da vida. Unificação que não é propriedade de um passado mais recuado, pois persiste na atualidade a crença em uma infância homogênea e cronologicamente repartida. Dessa forma, a cronologia da vida, problematizada nesse trabalho, considera tanto a base, a carga e o tempo de amadurecimento biológico dos sujeitos, como as variantes culturais e a história, que também definem, de forma decisiva, as possibilidades surpreendentes do ser humano.
PID: S1413-24782004000100003 |
Revista: Revista Brasileira de Educação (1413-2478) |
Año: 2004
Autores: Nunes-Macedo Mortimer Green
RESUMO Discute aspectos do letramento escolar numa turma de primeiro ciclo, em que o livro didático é elemento central. Foram gravadas 37 horas de pesquisa em vídeo. A análise enfoca os processos interacionais constituídos por alunos e professora, em torno de um livro didático de Língua Portuguesa. Observou-se que a professora subverte a proposta do livro, apropriando-se desse material conforme sua própria prática. Na análise foram utilizados conceitos da teoria de Bakhtin e da etnografia interacional, evidenciando como se constituem os processos de letramento. Particularmente, a análise dos aspectos discursivos das interações mostra que o discurso na sala de aula tem funções diferentes para os diversos participantes; alunos e professora assumem papéis sociais que marcam uma assimetria na relação de ensino.